Adolpho Lutz: hanseníase

Jaime Larry Benchimol · Capítulo 28 de 41

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Adolpho Lutz: hanseníase

A transmissão da lepra pelos mosquitos

A transmissão da lepra pelos

mosquitos*

 

Na sessão de ontem da conferência para uniformização da Campanha contra a Lepra, o Professor Adolpho Lutz, Chefe do Serviço do Instituto Oswaldo Cruz e mestre da zoologia médica brasileira, apresentou o seguinte trabalho:

“Já decorreram 17 anos desde que tive ocasião de expor detalhadamente as razões que falam em favor da transmissão da lepra por sugadores de sangue, especialmente pelos culicídeos que freqüentam as habitações humanas. Essa orientação não perdeu o seu valor; pelo contrário, aumentou de muito o número de doenças humanas e animais para as quais se provou serem transmitidas “exclusivamente” por sugadores de sangue, salvo, está claro, a transmissão direta por inoculação de sangue, que não entra em consideração como causa mórbida, a não ser nas experiências científicas. Várias moléstias, ultimamente estudadas, são atribuídas às riquétsias, que são muito relacionadas com as bactérias, mas não se cultivam nos meios nutritivos comuns. Além da peste, temos a tularemia, devida a bactérias legítimas. Existem mais de uma dúzia de doenças infecciosas do homem transmitidas por acarinos e por insetos, entre os quais predominam os dípteros.

Já chamei a atenção sobre o fato de que a maneira de transmissão de uma moléstia infecciosa, mas não contagiosa, em determinados lugares indica claramente que ali faltam os transmissores ou, pelo menos, que são muito raros, ao passo que nos focos epidêmicos são muito abundantes. Eis por que a lepra não se transmite nas grandes capitais da Europa. Eis também por que um ou poucos doentes podem provocar, em alguns anos, uma endemia considerável em certas localidades, enquanto em outras muitos doentes convivem com grande número de pessoas sadias, sem infeccioná-las.

É o que está hoje claramente demonstrado quanto à febre amarela. Entretanto, parece que poucas pessoas aprenderam o alcance da lição que essa doença nos proporcionou.

A lepra está no mesmo caso que a febre amarela, com a única diferença que se trata de uma moléstia muito crônica e de incubação longa, o que não constitui uma razão para ignorar indícios tão claros.

Já mencionei anteriormente que no Havaí, que representa um foco endêmico dos mais intensos, os único insetos sugadores que se pode acusar de transmitirem a lepra são os dois mosquitos, comuns nas casas; os outros sugadores faltam ou são de espécies tão banais que se acham também nas regiões indenes da morféia. A freqüência enorme desses mosquitos corresponde ao grande número de leprosos, e estes são muito mais comuns entre os indígenas, que não usam os mosquiteiros, do que entre os estrangeiros, que se protegem o mais possível.

Quem conhece ou observa bem a lepra não pode deixar de compreender que essa moléstia não se transmite nem pelo muco nasal nem pela secreção das úlceras, mas de um modo menos brutal e traiçoeiro. Citei os casos de várias moças, descendentes de boas famílias imigradas, procedentes de países indenes. Essas moças, que não conheciam morféticos, adoeceram em São Paulo, onde havia leprosos soltos; o mesmo ocorreu com um estrangeiro distinto,já idoso, que também não conhecia leprosos, mas contraiu a lepra depois de ocupar uma casa em frente a um leprosário, tendo a primeira mancha aparecido no rosto.

Expliquei, em outras ocasiões, que a transmissão se faz com dificuldade, provavelmente porque os mosquitos se infectam apenas em doentes que têm o micróbio vivo na circulação, o que parece coincidir com os períodos febris. Nesses casos não é necessário que haja bacilos acidorresistentes no sangue, bastando as formas granulares. Já em 1886 chamei a atenção sobre estes grânulos, que se podem considerar conídios, dado o nome Coccothrix aos organismos causadores da tuberculose e da lepra. Esse nome parece bastante anterior à Mycobacterium leprae.

Nunca pretendi ser o primeiro que se lembrou da transmissão da lepra pelos mosquitos; como na febre amarela, é uma teoria bastante antiga, datada de um tempo em que o papel dos insetos como transmissores de moléstias infecciosas era quase desconhecido. Creio, todavia, ter apresentado argumentos novos em favor dessa tese, argumentos esses que foram aprovados por alguns colegas distintos, embora a maioria se conservasse indiferente a eles. Entre os chamados leprólogos, quase ninguém compreendeu a importância do assunto, preferindo, em geral, seguir os velhos caminhos que nunca deram resultados. É verdade que hoje, em alguns leprosários, asjanelas são revestidas por telas de arame, mas esse costume não é a regra. Ao contrário, cerram-se as portas sobre os doentes, mas deixam-se asjanelas abertas para que os mosquitos possam entrar.

A profilaxia contra os mosquitos é hoje a tarefa mais importante na guerra contra a lepra,já que nem os maiores otimistas podem nutrir a esperança de erradicá-la pelos tratamentos de que dispomos atualmente.

Aliás, é desnecessário esperar a demonstração atual de transmissão dos bacilos, que ainda hoje é dificultada por quatro fatores importantes, a saber:

1. Não sabemos distinguir o micróbio vivo, e apto à propagação,

do germe morto;

2. Ainda não dispomos de processos seguros e fáceis para

cultivar os germes;

3. Não dispomos de um animal que se deixe inocular

facilmente;

4. Faltam, ainda, provas biológicas que permitam reconhecer se

a moléstia existe em forma ativa nos doentes suspeitos e se as

curas aparentes são reais.

Até que se realizem esses desideratos, temos que aproveitar os ensinamentos das moléstias que se prestam melhor ao estudo.

Não obstante, a profilaxia contra os mosquitos, indicada como medida geral pelo perigo que oferecem a filariose, o impaludismo, a febre amarela e a dengue, se impõe muito nos países contaminados pela lepra. As autoridades que dela se descuidam assumem uma grave responsabilidade, não só para o presente, mas também para o futuro.”

 

* Comunicação apresentada à conferência realizada no Rio de Janeiro, em setembro-outubro de 1933, com a participação de autoridades do governo e de delegados de ligas e sociedades contra lepra existentes em diversos estados brasileiros, tendo em mira a unificação e uniformização da campanha contra a doença em todo o território nacional. A comunicação de Lutz foi publicada em 1.10.1933, na edição de domingo de dois importantes jornais cariocas: Jornal do Commercio ("Conferência para Uniformização da Campanha contra a Lepra. A sessão de ontem. A transmissão pelos mosquitos. O programa de hoje”) e Jornal do Brasil ("Conferência de Unificação da Campanha contra a Lepra. A transmissão da lepra pelos mosquitos”) (BR. MN. Fundo Adolpho Lutz, pasta 256, maço 5). [N.E.]