Agulha em Palheiro
Capítulo IX
—A mim...—atalhou Maria—certo é que não... Pouco tenho de vida, Francisco...; mas olha, meu filho, sabes tu o que me lembrou agora de repente?...
—Dize, Maria...
—Estará Fernando por lá apaixonado? Queres tu vêr que elle olhou para alguma senhora, que o traz em torturas, e o pobre rapaz não tem coração que o tire de lá para fóra?
—A fallar a verdade—disse Francisco—a idade das paixões é a d'elle... Póde ser que adivinhasses mulher, e oxalá que sim... Se a paixão fôr bôa, o resultado bom ha de ser; se fôr má ou impropria d'elle, o tempo ha de cura-la... Mas isto não allivia a nossa dôr, Maria! Eu preciso de vêr Fernando; quero com a minha presença reduzi-lo aos seus deveres; não tenho meio de saber o que isto é, se não fôr em pessoa procura-lo. Deixas-me tu ir, mulher?
Maria deteve a resposta alguns segundos, expediu um gemido do fundo da alma, e murmurou:
—Vae, Francisco, vae, eu irei para casa de uma das filhas, se tu quizeres. Não te peço que me leves comtigo para te não dar que soffrer na viagem. Sinto-me muito doente. Vieram as afflicções juntas, e acabaram-me... Pois vae, e não te demores. Dize a Fernando que venha dar-me um abraço, que eu quero despedir-me d'elle; e, depois, que torne para onde estiver melhor.
Francisco Lourenço, sem mais preparativos que um passaporte e dinheiro, sahiu de Lisboa no primeiro navio que lhe deu passagem para porto de Italia.
IX
A gente não acaba de capacitar-se d'isto, diz o final do capitulo VII, a proposito dos anjos, que em pousando pé no mundo, perdem memoria do céo, e aclimam-se logo n'estes pantanos, cujas exhalações pestilenciaes teimam poetas em dizer que sobem a glorificar o Creador!
Vamos ao essencial.
Paulina escreveu um bilhete assim:
«O papá é muito desconfiado. Tenha muita cautella, se a separação lhe é tão dolorosa como a mim. Não passeie na praça do Dome áquellas horas. O papá dorme sempre desde as quatro ás sete. Eu tenho uma creada de confiança a quem póde entregar as suas cartas. Adeus. Guarde com amor estas florinhas».
Dobrou em tira estreita o bilhete, e cingiu-o em volta das astes do ramo.
Veja agora a leitora, mais superciliosa em pontos de dignidade e pudor senhoril, como os extremos se tocam! O que o despejo e desenvoltura teria feito, é a innocencia e candura que o faz n'este caso, n'estes amores começados com tal qual originalidade! Aposto que nenhuma dama, amestrada em galanterias, escriptora de resmas sobre resmas de cartas amorosas, se affoitaria a escrever aquellas linhas sem previamente ter recebido irrefragaveis provas escriptas e oraes de uma paixão homicida! Escrever a um homem sem ter sido a isso mil vezes solicitada! ennodoar assim o amiculo virginal! dar uma menina a saber que é capaz de compôr um periodo com sujeito, verbo e caso!
Eu não louvo meninas que escrevem bilhetes, e se sujeitam a uma analyse de regencia; porém, não sei sobre que argumentos hei de fundar a censura. Não censuro, nem louvo. A moral é uma questão de felicidade, segundo as regras do dever n'este mundo. Ora, a meu juizo, a moral tanto se lhe dá que Paulina escrevesse primeiro a Fernando, como Fernando a Paulina. Além de que, a desmoralisação é o escandalo. Escandalo n'este facto, se alguem o dá, sou eu, que conto a historia; todavia, provando eu a final que o acto em si era innocente e as consequencias não desfitaram do mais honesto scopo, é justo que me descoimem do escandalo, e agradeçam a historia.
Em quanto á felicidade, segundo as regras do dever, sou a dizer-lhes que não ha nada mais incerto que as regras do dever em materia de felicidade n'este mundo. Muita gente vae direito á rasão pela estrada do paradoxo. Outra muita gente, a fugir da absurdidade, quebra as pernas no barranco da rasão. Uma menina escreve um bilhete a um homem: o mundo sabe-o, e vitupera-a. Outra menina faz-se vermelha de lacre ao receber a primeira carta de um homem: o mundo tem noticia d'um pudor tamanho, e cita o exemplo d'esta santa a quantas meninas o demonio tentador negaceia. Vae, depois, á primeira abre-se o coração de anjo, uns braços de esposo, e um horisonte de summa felicidade; e á segunda, que em solteira não ousara escrever duas linhas a furto de olhos maternos, depara-se-lhe um marido, que só viu n'ella o merecimento boçal de não saber calligraphicamente dizer que o amava! O primeiro pergunta á sua «Porque me escreveste» e ella responde-lhe:—Amava-te.—O segundo faz a mesma pergunta á sua; e ella, a pudica, a santa do pejo, ha de, por mais que tergiverse, responder-lhe: «Não te escrevi, porque me não merecias confiança». Uma exalta; a outra rebaixa; uma faz-se amar pelo duplo prestigio de sua innocencia; a outra deve entediar mais cedo que o costume, porque embaiu a gente, encampando como innocencia uma boa dóse de velhacaria. Ha muito d'isto; mas não é assim tudo. Já disse que regras fixas nenhumas ha. As meninas n'este ponto, consultem as damas virtuosas e illustradas. A mim não me chamem para coisa de tamanha responsabilidade. N'estes combates das paixões, os romancistas são como os escrevedores que os antigos cabos de guerra levavam comsigo para historiarem as carnificinas: ficam-se cá de longe alapados a verem o fogo, e relatam ao universo os varios successos. Tornemos ao essencial.
Fernando Gomes viu entrar as meninas na sala em que Bartholo de Briteiros lhe andava mostrando alguns bustos de Bartholini, famigerado esculptor de Florença, que cinzelara tambem os bustos de Paulina e Eugenia. Estava o magistrado encarecendo com voluptuoso enthusiasmo a Bacchante de Bartholini, que elle vira na galeria do duque de Devonshire, e contava d'um francez que chegara a Florença, e pedira venia ao esculptor para dar um beijo na sua Bacchante, beijo ardente que parecera filtrar fogo nos beiços marmoreos da lasciva tentadora.
Bartholo mudou de tom, quando ouviu o ciciar de sedas. Entraram as meninas, e approximaram-se do piano. Eugenia tocou: Paulina cantou uma aria da Norma; e, durante o alegro, como o chapeu de Fernando estivesse sobre a cadeira contigua ao piano, e os olhos de Fernando n'ella, e os de Bartholo em uma estatua da Sabina de João de Bolonha, a menina lançou no chapeu o ramo.
Fernando viu, e sentou-se, sentou-se violentado por umas caimbras de pernas. Parece que devia ser unicamente abalado o coração; mas estou em crer que homem amante é todo e em tudo coração.
D'ahi a pouco, eram horas de jantar.
Fernando ouviu o chamamento d'um escudeiro agaloado. Tomou o chapeu: não lhe podiam as mãos convulsas com o thesouro. Aterrava-o a magnitude da sua felicidade. O quer que era de idiota lhe desmanchava as feições. Bartholo convidou-o a jantar ceremoniosamente. Fernando balbuciou expressões confusas de reconhecimento, ajustando bem cerradas com o peito as abas do chapeu e saíu.
Não lhe cabia o coração no quarto da hospedaria. Queria o sol, o azul do céo, os pinhaes, os vinhedos, e as flôres das margens do Arno como testemunhas da sua alegria.
Áquella mesma hora é que os dois velhos, na calçada do Sacramento, se abraçavam, debulhados em lagrimas, e diziam:
—Que mal fizemos a Deus!
Que faces a vida tem!
Fernando leu um poema em cada lettra d'aquelle insignificante escripto. Insignificante, digo! Injustiça de critico litterario, que só vê a magestade do entendimento humano nas ramagens floridas do estylo! Como insignificante! Cada palavra d'aquelle singelo bilhete salvaria Leopoldo Roberto, Chatterton, e quantos por amor se tem lançado nos braços da morte! Dae a cada desventurado, em transes de suicidio, um bilhete assim, de mulher como aquella, e eu vos restituirei um homem com vida exhuberante, com alma recaldeada para todas as adversidades, com amor a Deus e aos homens, retemperado de juizo para se predispor aos gosos da velhice, e d'uma numerosa posteridade—destino humanal mais efficazmente averiguado e demonstrado.
Ao escurecer, Fernando voltou a Florença, e velou a noite inteira, escrevendo. Quando os primeiros raios do sol lhe douraram a ultima pagina da carta a Paulina, a cabeça do moço, calcinada pela febre da felicidade, pendeu sobre a mesa, e immergiu em não melhores delicias de sonhos.
Despertaram-n'o para lhe entregarem uma das succesivas cartas que seu pae lhe estava sempre mandando, quer por navios que saíam de Lisboa para França, quer pelo correio de Hespanha.
Que melancholica transição a da leitura das suas paginas arrebatadas para este chão e monotono escrever do artista:
«Lemos a tua carta com muita magua. Bem me dizia o coração que tu não vinhas! A tua carta entristece mais esta separação de tuas irmãs. Se ao menos tivesses saude, Fernando! Mas doente, sem me dizeres que molestia soffres, isto augmenta a afflicção de teus velhos paes. Muito enfermo deves estar para, ainda com sacrificio, não accudires á nossa saudade! Deus te allivie, e encaminhe para nós.
«Vejo que essa cidade te prende mais que as outras; mas foi-te ingrata, filho. Tiveste saude em toda a parte, e só ahi adoeceste, dizendo-me tu que era um clima celestial o de Florença.