Agulha em Palheiro
Capítulo II
Que selvagens tempos aquelles!
Francisco Lourenço, se vem cincoenta annos depois, sem embargo de ser um habil sapateiro, poderia entrar dignamente na republica das lettras: começaria versejando, em solteiro, estas faceis quadrinhas, cheias de fogo e alma, com que todos os marechaes das lettras velaram as armas, ao vestirem-se cavalleiros para a crusada da civilisação. Depois escreveria o seu folhetim, variado em côres, como um mosaico de differentes linguas, e com atrevimento de idéas, que forçariam a critica a qualifical-as de originalidades. Francisco Lourenço teria uma luneta, um charuto, e um bigode encerado, e uma esquina alli no largo de Camões onde encostar os hombros, vergados sob o peso da cabeça prenhe de idéas. Depois, naufragado o coração, Francisco Lourenço iria salvar a humanidade, com o seu septicismo, nas regiões da politica. Faria, portanto, a um tempo botas para os pés, e sciencia para a cabeça da humanidade. Se absurdos fados o bafejassem, Francisco Lourenço subiria a ministro, e ninguem lhe perguntaria d'onde veio, nem a tripeça ainda quente lhe seria desdouro. Esta é a unica vantagem que a civilisação tem trazido para a fusão dos homens n'um só principio derivativo do pae commum. Cá, tanto faz vêr do acume das grandezas cair um homem no raso da lama, como erguer-se da lama um homem ao mais culminante da escala social. Ninguem se espanta, nem sequer pára a discutir estes vulgares accidentes da reformação social.
Isto assim é que é bom.
II
Posto que a leitura lhe deliciasse muitas horas do dia e noite, Francisco Lourenço cuidava attentivamente no bom regimen de sua casa. Era elle quem talhava a obra superior, e a distribuia aos officiaes, quem recebia as damas freguezas, e com muito bom modo satisfazia seus caprichos. Os dias sanctificados passava-os com sua mulher e pae no Cartaxo, onde ia formando deposito de livros, amigos da velhice, como elle dizia. Tencionava Francisco ir lá passar o ultimo quartel da vida, empregando-a, sem outras distracções, no enlevo dos bons auctores que ia conhecendo.
A carinhosa esposa ajustava perfeitamente com os prazeres intellectuaes de seu marido. Nunca elle descobriu pagina de livro encantador que a não lesse a sua mulher. Como não tinham filhos, sobejavam os ocios do arrumamento das coisas domesticas. Maria sentava-se a costurar, nas noites de inverno ao lado da banca de seu marido. Elle recitava com emphase, e ella chorava ou admirava-se com delicado sentir do coração ou espirito. A Cantata de Dido, a pagina mais maviosa entre as mais inspiradas da poesia portugueza, já ella a sabia de cór, á custa de ouvi-la e honra-la com as suas lagrimas. Ouvira ella ler todos os poetas nacionaes antigos e do seu tempo, excepto José Agostinho de Macedo, que Francisco aborrecia por ter sido o detractor de Camões, e o émulo atrevido e torpe de Bocage. O artista, quando acertava de encontrar o frade graciano, sentia calafrios na espinha; e, segundo elle dizia, vontade de escorchar com um pontapé aquelle ôdre de vinho e peçonha.
Em 1816, dez annos depois de casado, Francisco Lourenço agradecia a Deus a felicidade do primeiro filho, quando o já não pedia nem esperava.
—Ainda estou em edade de poder educal-o, e vel-o homem— disse o festivo pae a sua mulher.—Tenho vinte e nove annos: quando meu filho tiver a minha edade, posso ainda viver, como vive meu pae, sadio e robusto. Já sei para quem estou enriquecendo esta livraria. A minha velhice ha de ser um descançar em leito de rosas. Irei d'este mundo, deixando na alma de meu filho uma boa porção da minha essencia.
Não deve o leitor duvidar d'esta linguagem levantada em bocca do artista. As mais vulgares e rasteiras coisas da vida, naturalmente, se haviam vestido, em seu espirito, com as galas da poesia, cujo perfume lhe rescendia em tudo. O seu permanente privar com poetas, ou com a natureza, mãe de todos, e mais mãe dos que a amam sem lhe devassarem os segredos, necessariamente influenciariam a singela alma do homem, que para sentir vibrar as cordas todas da poesia, estava nos primeiros arrobamentos de pae.
Por esse tempo falleceu o velho Lourenço e o pae de Maria. A herança de ambos daria sobeja independencia a Francisco; porém, a existencia da creança, dilatando o alcance das ambições paternas, desviou-o do antigo proposito de passar a loja, e ir viver folgado em sua quinta. Um filho é realmente um aguilhão que aperta os temperamentos mais desleixados em grangeio de bens de fortuna. Já lhe queria parecer a Francisco Lourenço que quarenta mil cruzados em propriedades era pouco patrimonio para o seu Fernando; e quando bastasse a um filho, quem saberia os filhos porvindouros? Se fossem mais de quatro, reflectia o pae, pouco menos de pobres ficariam todos. Entendeu, pois, em proseguir no trabalho, afanar-se cada vez mais, encurtar as horas de leitura, e augmentar o numero de officiaes, a fim de exportar calçado para o Ultramar.
No anno seguinte nasceu uma menina, e outra no anno immediato. Sem querer desagradecer a Deus, Francisco desgostou-se da duplicada mercê das meninas. Andava elle scismatico e melancholico a escogitar no futuro que havia de preparar a suas filhas. O bom homem cuidava que sem educação scientifica ninguem podia ter futuro; e lamentava não poder crear suas filhas, pondo o fito nas Bernardas Ferreiras de Lacerdas e Violantes do Céo, litteratas famosas que o leitor conhece. Acudia a senhora Maria Luciana ás tristezas de seu marido, dizendo-lhe que as meninas podiam ser freiras, e instruirem-se no seu convento. Isto consolava as tristes apprehensões do pae; mas era ainda pouco para allivial-o do desgosto de não ter filhos, que podessem ser tres grandes poetas, ou, ao menos, tres sabios que é um grau de sciencia muito mais facil de attingir, no voto d'elle, e no meu tambem.
Fernando, aos quatro annos, frequentava as primeiras lettras; aos nove annos estudava latim com admiravel intelligencia; assim, até aos dezeseis, cursou humanidades, no intento de ir graduar-se a Coimbra.
N'esta edade Fernando conhecia os poetas latinos e portuguezes: lia uns com seu pae, e traduzia-lhe os outros, explicando os pontos obscuros de Horacio e Ovidio.
Grande era o dissabor do moço, quando vinha das aulas, e via, atravez da vidraça que abria para o pateo, seu pae talhando o bezerro de umas botas ou o duraque de uns sapatos. Ia elle ter com sua mãe, e pedia-lhe que aconselhasse o pae a passar a loja, e remediar-se com o bastante, que já tinham para viverem em decente mediania. A boa mãe não se esquivava de pedir tal coisa; mas admoestava Fernando a evitar quanto podesse mostrar-se envergonhado do officio de seu pae.
O imprudente moço não deu o devido peso ás reflexões da mãe, e insistiu no seu desgosto e rogos. Bem póde ser que os condiscipulos lhe atirassem á cara, como despique de inveja dos progressos d'elle, o seu nascimento humilde. Aquelles tempos eram infamados com muitos exemplos d'este barbaro quilate. Á peonagem nem a muita riqueza a salvava dos remoques da fidalguia. Nos collegios, os mestres eram os primeiros a darem o exemplo das preferencias. A applicação no moço da baixa tracção era menos louvada que a preguiça no escolar de familia illustre. Este escarneo do Evangelho chegava até Coimbra, onde se degladiavam primazias de nobreza, e só com muita paciencia para ultrages e desprezos, conseguia formar-se o filho do artifice, que não se abalançava a entrar em communhão de sciencia com os privilegiados da boa fortuna.
É, pois, de crêr que Fernando Gomes, matraqueado pelos condiscipulos, desejasse que seu pae levantasse mão do officio de sapateiro, que mais que outro qualquer—sem podermos dar razão do porque—se presta á zombaria nas facecias dos chocarreiros.
Aventurou-se, um dia, Fernando a pedir ao pae que fechasse a loja.
—Porque?!—perguntou Francisco Lourenço.
—Porque...—tartamudeou o filho—se meu pae quer formar-me... não me parece...
—Diz, homem!—acudiu o pae á indecisão de Fernando, com semblante transtornado—não te parece o que?
—Que seja bom ter loja de...
—De sapateiro?... parece que te custa a dizer a palavra sapateiro! Sapateiro, sim!... Queres tu dizer que te envergonhas do officio de teu pae?
Fernando baixou os olhos e não respondeu; mas o silencio era, no caso, a mais eloquente das confirmações.
—Está bom—disse Francisco—descança que se ha de remediar tudo o melhor que puder ser. Hoje não vaes á aula. Amanhã falaremos.
Francisco Lourenço fechou-se no quarto com sua esposa, e, antes de referir o que passara com o filho, rompeu n'um choro soluçante, que a consternada mulher não sabia como explicar nem consolar.
Falaram largo tempo. O marido saíu de melhor sombra. Maria chamou Fernando e disse-lhe:
—Deus te perdôe o mal que fazes a teu pae! Eu não quiz dizer-lhe que fechasse a loja, e tu commetteste a imprudencia de lh'o dizer!... Fernando, d'esta vez vali-te; mas não caias n'outra. Olha que teu pae é tão bom como severo. Segue a carreira que elle te dá, e deixa-o lá com a sua vida. Cuidas que teu pae acha prazer em estar na loja a trabalhar? Enganas-te. Bem sabes quanto apaixonado elle é de livros. Se trabalha, para ti é, e para tuas irmãs. O que temos seria bastante para um, se tivesse juizo; mas seria quasi nada para tres filhos. Tu não has de querer ser doutor, e ver tuas irmãs sem nada. Vae á aula; e, se alguem te disser que és filho de sapateiro, responde-lhe tu que tens muita honra em ser filho de quem és... Póde ser que os fidalgos, que t'o disserem, te devam a ti o par de botas que trazem ...
Estas judiciosas razões não consolaram a Fernando.
A resposta foi um calado despeito, e uma visagem de desdem, que Maria viu com os olhos humidos.
Decorridos poucos dias, Fernando foi ter com sua mãe, e disse-lhe que não tornava á aula, porque os seus condiscipulos o vexavam. Descendo a explicar o vexame por miudos, disse que o filho do conde de tal, zangado com elle por ter-lhe corrigido um theorema de geometria, lhe replicara qual era a figura geometrica de uma tomba; e se as entrecospias em logica pertenciam ao dilemma. A mãe não conheceu o travôr do epigramma. Chamou o marido, e quiz que o filho repetisse o conflicto diante de seu pae. Francisco ouviu-o, doeu-se, dissimulou o pesar, e disse-lhe:
—Irás frequentar outra aula.
—Acontece-me o mesmo em toda a parte, contrariou Fernando com certo desabrimento deshumilde.—Emquanto o pae estiver n'este modo de vida, hei de ser enxovalhado por todos os condiscipulos, tanto monta em Lisboa, como em Coimbra.
—Está bom, disse serenamente o pae. Eu vou pensar e resolverei.
A resolução foi prompta. Francisco Lourenço entrou no quarto onde Fernando estudava, e disse-lhe:
—Arruma esses livros, que já te não servem de nada. És sapateiro como teu pae e teu avô.
Fernando perdeu a côr, e quasi o sentimento. Francisco Lourenço saíu, e foi verter torrentes de lagrimas no seio da mulher, exclamando a intervallos:
—Lá vão todas as minhas esperanças!... Assim havia de ser, porque ouvi a voz da minha vaidade, e nunca me lembrei que um filho podia ter vergonha do officio do pae... Vê tu, mulher, que soberba maldita eu andei gerando e engrossando no animo d'aquelle rapaz! Se eu lhe désse largas, onde iria dar comsigo tamanho orgulho! Ahi tens tu a sciencia a desnaturar-me um filho!... Santo Deus! Bem m'o pregava meu bom pae!... Quantas vezes lhe ouvi dizer que eu, se fosse um sabio, me correria de o vêr a elle na baixa condição de sapateiro!... Não posso nem devo consentir que meu filho se deshonre por amor da sabedoria... Se a sociedade o vexa, paciencia; que fuja da sociedade. Eu antes o quero sapateiro honrado, que filho infamado pela ingratidão. Façamos um homem de bem, e os nobres que façam os sabios ... Mas é dôr, é uma grande afflicção, ter de renunciar ao proposito de tantos annos! É por isso que eu choro ... e bem vejo que é fraqueza chorar! Tenho pena d'elle; tenho-a de véras... mas só assim é que eu posso resgata-lo das mãos do mundo, que m'o ha de perder!
Maria Luciana tentou demover a intenção do marido com razões, e mais que tudo com lagrimas. Lembrou ella que o mandassem logo para Coimbra, onde os condiscipulos o não conheciam. Este remedio azedou mais a ferida do artista.
—Pois eu, exclamou elle, hei de estar evitando que o meu nome seja conhecido?! Hei de esconder-me para que meu filho se não envergonhe? Hei de recommendar a Fernando que não diga em Coimbra quem é seu pae, ou consentir que elle me negue para ser mais bem recebido? Que respondes, Maria? ...
Não respondeu nada a pesarosa mulher. A dizer a verdade, com que argumentos responderia ella, sem molestar-lhe o espirito? O ponto mais sensivel da questão era a dignidade do homem mecanico, trabalhando para engrandecer o filho. Se este desejo e afan lhe era deslustrado por desprezo do seu mister, qual gloria lhe restava? Quem lhe asseverava a elle que o filho, mais tarde, fugiria d'elle como d'um estorvo ao seu maior engrandecimento?
Não obstante, Maria chamou o filho, e mandou-o pedir perdão a seu pae, se não queria ir para a loja trabalhar com os officiaes.
—E porque não hei de eu ir?!—respondeu placidamente Fernando, com grande assombro da mãe.—Eu não tenho vergonha de ser sapateiro. Quero sê-lo quando m'o chamarem.
—E não te importa o tempo que perdeste a estudar, Fernando?— tornou a mãe, commovida pela briosa resolução e desapego do filho.
—Não perdi de todo o tempo: serei um sapateiro illustrado como meu pae o é. Antes isso. Terei horas de estudo e horas de trabalho. Não receio que me humilhem na loja.
Fernando, obedecendo aos novos impulsos do momento, não sabia bem o que dizia, nem, a menos que a natureza se não houvesse singularisado n'elle, devia insistir muito tempo em pontos de tão isempta grandeza de animo.
N'aquelle mesmo dia desceu á officina, e disse ao pae que lhe talhasse o seu serviço. O pae encarou n'elle com muita amargura e disse-lhe:
—Vá para cima!
Os officiaes olharam-se com espanto, como adivinhando a significação d'aquelle incidente. Fernando, desde a idade de nove annos, nunca descêra á casa de trabalho, nem trocára palavra com algum dos officiaes. Estes, por ironia, e lá muito em secreta maledicencia, denominavam-n'o o fidalguinho, e riam á sucapa, quando, atravez das portas envidraçadas, o viam passar no pateo sem lhes virar um canto de olho.
A situação de Francisco Lourenço era afflictiva. A corajosa apresentação do filho desarmara-lhe a tal qual ira, que elle muito precisava azedar com a rebeldia, para tirar a limpo o seu plano. Pensava elle que o estudante recebera aterrado a nova: não se enganou; mas longe estava de cuidar que a reacção do brio o determinasse a acceitar sem custo um tirocinio de sapateiro. A verdade é que ambos estavam enganados: o pae com a franqueza do filho, e o filho com a sua propria coragem.
Não sabia Francisco que dizer nem fazer. Evitava encontrar Fernando; mas forçoso era verem-se á mesa da ceia. O artista não poude engulir bocado. Maria ensopava o lenço em lagrimas. Fernando, grave, mas não triste, ia comendo, segundo o seu costume, e fazia o prato de suas irmãs, extranhas ás amarguras dos paes.
Quando as meninas, depois de darem graças a Deus, se retiraram ao seu quarto, Fernando disse com muita brandura:
—Porque hão de estar tristes?! Eu já disse á mãe que acceito qualquer posição que meu pae me der. Estou muito em tempo de aprender o officio: se meu pae não quer que seja o seu, indique-me outro. Vou sem saudades dos livros, nem pesar de esperanças perdidas em grandezas do mundo.
—Mas envergonhas-te de ser filho d'um homem do povo!— atalhou o pae.
—Não me envergonho: vocemecê não entendeu bem a minha magua. O que eu não posso supportar são as zombarias dos meus condiscipulos, que por força me hão de encher de fel o coração, e fazerem-me mau. Qualquer que seja o officio mechanico que me derem, viverei com os meus eguaes, e poderei distinguir-me d'elles com a minha instrucção, sem que ella me faça alvo dos seus motejos. Isto é o que eu desejo e penso.
—Tens dezesete annos, Fernando!—disse o pae—É tarde para recomeçares nova carreira.