Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 14 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo XV

É precisa muita abnegação para isto, n'esta terra e com esta gente, que acha mesmo illiteraria a palavra «sapateiro».

Artista, recommendam-me que diga artista, para não offender o apparelho articular das pessoas afidalgadas de nervos!

Já é! ha poucos mezes contei, romanceei, panegyriquei a vida de um gallego n'um volume de duzentas e tantas paginas! É rastear muito esta arte! Ha tanto principe na historia portugueza a pedir romance! e tanta princeza tambem!

Por que não hei de eu escrever historias de principes e de princezas, e deixar os sapateiros subir algum tanto na escala d'umas qualificações modernas que elles se vão inventando para seu uso, que a isso os obriga o menos-preço d'esta luminosissima e fraternal civilisação?

O nome de sapateiro está a sumir-se. Já muitos do menoscabado officio se denominam artistas d'artes correlativas... dos pés. Dos individuos cultos, que os mettem n'estas andanças e chibanças, deviam elles chamar-se não sapateiros, mas ferradores.

 

XV

O secretario da embaixada portugueza em Madrid havia sido camarada de Fernando Gomes no cerco do Porto; e seu contemporaneo na universidade. Approximara-os mais em Coimbra o paralelo dos nascimentos: eram ambos filhos de artistas. Separados depois da formatura, um para os cargos publicos, outro para as viagens, continuaram sempre correspondencia de bons amigos. O secretario da legação recebeu a nova da chegada de Fernando a Madrid, e maravilhou-se de encontral-o sumido n'um quarto de obscura estalagem.

Contou o bacharel diffusamente a historia dos seus vagabundos amores, e explicou a obscuridade e recato em que tencionava viver para não causar desgostos á filha de Bartholo de Briteiros. Queria elle existir secretamente em Madrid, de modo que o pae de Paulina o imaginasse na Irlanda, procurando a reclusa nos conventos; entretanto, era seu intento diligenciar casarem-se judicialmente, ou, no extremo d'algum imprevisto accidente, fugir com ella para Portugal. O amigo escusava prometter-lhe todo o auxilio. Era este um dos academicos que frequentavam a universidade em 1828, quando os dois lentes foram assassinados. Fôra elle um dos sorteados para a impolitica vingança; como quer, porém, que estivesse enfermo n'essa occasião, forrou-se assim ao incommodo de ser estrangulado. Ora Bartholo de Briteiros, como sabem, tinha sido o mais impassivel signatario do accordão: o amigo de Fernando vira caminharem á forca os seus condiscipulos; e tal rancor ganhou aos juizes, que só o nome de Briteiros lhe trouxe aos olhos faulas de raiva mal abafada pelo correr de dez annos. Para elle era não só prova de amigo, mas desforra de inimigo coadjuvar o camarada das linhas do Porto a zombar das astucias do ministro da Alçada.

Com tal protecção, Fernando soube a hora em que chegou Bartholo, a rua e hotel onde se aposentou; e Paulina, pouco depois da sua chegada, recebia d'uma creada do seu quarto, na hospedaria, uma carta de Fernando.

Francisco Lourenço, cuidando que assim ficavam bem encaminhados os honestos intentos de seu filho, seguiu para Lisboa. A mãe, anciada de saudades de ambos, quando viu o marido sem o filho, arrancou um ai, e perdeu o sentimento. Volvendo a si, ouviu com pasmo a miuda narrativa dos casos acontecidos ao esposo, e deu graças a Deus sem arguir a dura alma do filho. Á santa mulher, para sua consolação, bastou lhe saber que Fernando vivia. O procurar elle sua felicidade, na idade propria do amor, com tantas adversidades, foi á boa mãe maior motivo de compadecimento que de censura. Como, por momentos, o considerou morto, era natural que tudo lhe perdoasse, estando elle vivo. Assim ficaram os dois velhos, esperando que inesperadamente lhes apparecessem casados o filho e a gentil fidalga. Francisco Lourenço foi ao Cartaxo dar ordens a confortos da casa, mobilação, e mais aprestos, sendo que Fernando mostrara desejos d'ir alli descançar annos, ou talvez a vida toda, qualquer que fosse o incerto desenlace de suas canceiras.

Bartholo e o marquez de Tavira davam-se os embora do feliz exito da sua falcatrua. Viam Paulina alegre, dada a bailes e a theatros, com bom rosto para o proprio marquez, e nem por sombras magoada d'alguma fugitiva saudade! O fidalgo continuava sempre a dizer «que as mulheres eram assim». E o pae de Paulina admirava a esperteza e acume seu futuro genro.

Raro dia faltava á menina carta de Fernando, por intervenção do secretario da legação, que acintemente acceitara o conhecimento do marquez de Tavira, para mais de perto collaborar na derrota do Bartholo.

Paulina entretinha horas de conversação com o amigo de Fernando, intervaladas por troca rapida de palavras concernentes ao intento que os approximava. No animo do fidalgo já a suspeita se ia ingerindo: a assiduidade das visitas do secretario incommodava-o, e tinha-o de atalaia. O marquez inquietava-se não menos que o primo. Acordaram os dois em dar de mão ao visitante diario d'algumas horas. Mas, nos bailes ou nos theatros, o secretario era o flagello dos dois olheiros, que se viam baldeados, como lá dizem, entre Scylla e Charybdes.

Assentou Bartholo em ser pae severo. Apresentou-se á filha. Ia de catadura horrida. Dir-se-ia que empunhava a penna para assignar um accordão de pena ultima.

—Paulina!—disse.

—Meu papá.

—Vamos a contas.

—A contas?!

—Que quer dizer a pertinacia d'este homem, que te não deixa?

—Qual homem, meu papá?—disse ella, pensando que Fernando fôra descoberto no seu esconderijo.

—O homem da embaixada... este mal trapilho que tem o pae em Lisboa a fazer candieiros na rua Augusta.

—Eu sei cá o que elle quer?... O primo marquez foi quem o apresentou, e não me disse se o pae d'elle fazia candieiros.

—Fale-me com mais humildade!—bradou Bartholo.

—Pois eu que disse menos humilde?

—Não quero ironias.

—Ironias!... O papá é injusto comigo!... Eu posso lá saber a razão porque o homem nos procura? Pensei que o faria por delicadeza, por sermos patricios, e conhecermos pouco a sociedade de Madrid.

—Então...—tornou o pae—asseveras-me que elle não tem intenção nenhuma menos respeitosa?

—Pois elle ha de faltar-me ao respeito?... Jesus!

Ó céos! o rosto de innocencia estupida com que Paulina fez aquella pergunta! Ó amor, o que tu pódes e fazes! Que uma dama de bons annos, quarenta pelo menos, puxados á fieira do amor, consiga lograr uma criança incauta, isto está de seu na natureza das cousas; mas que uma menina de dezesete annos, ainda agora a florescer a sua primeira primavera de coração, zombe da vigilancia e perspicacia d'um pae quinquagenario, e o esteja assim logrando com uns dizeres de parvoinha candura!... Uma hora de amor é um curso de theatro completo. Quantas ficções lá se aprendem, com grandes estafas, nas aulas do conservatorio dramatico, vae ahi qualquer menina espigadinha exercita-las todas ante o auditorio da sua familia, se me concedeis que ella tenha uma faisca de lume no olho, e um Etna dentro do peito!

E diz o apophtegma antigo: Amor logra muitas cousas, e o dinheiro tudo! Não é assim: as luzes desmentiram tambem os Senecas e Theophrastos. O dinheiro não consegue desbestialisar o alarve que o tem a rôdos; e o amor vae dentro do espirito mais rombo e bôto, e eil-o que o desentranha em prodigios de subtilezas, argucias, e sublimes velhacarias! E até talento! Ha ahi sujeito que vingou um nome esperançoso n'uma época de sua vida: chegou mesmo a escrever locaes com certo orientalismo; e de repente tapam-se-lhe as valvulas, e o talento suppura por tolice. Que foi? Averigua-se e sabe-se que o homem deixou de escrever as locaes aziaticas assim que a mulher amada casou com outro.

Bartholo não teve que recalcitrar a esta pergunta:

—Pois ha de elle faltar-me ao respeito!?—E depois a exclamação «Jesus!» desarmou-lhe de todo as suspeitas. E, como se tanto fosse pouco, Paulina continuou:

—Não quer o papá que eu fale mais com o Almeida? Não falarei. Verá como lhe volto as costas assim que o vir.

—Não é preciso tanto, nem nada, filha—redarguiu de muito bom rosto o pae—se me tu dizes que o Almeida nada te diz que te preoccupe o coração...

—O coração!—interrompeu a menina com o mais pasmado e lindo semblante.—Ora essa!... O papá está a rir-se de mim, não está?

—Falo-te serio, Paulina... Tenho muito medo da inexperiencia dos teus annos. Tu tens-me feito o sangue de fel e vinagre por causa d'aquelle homem, que me ia roubando a tua estima, e a ti mesma te ia fazendo esquecer de quem és... Ora agora, filhinha, que essa tempestade passou, tu não me dirás que foi o que te moveu a gostar do tal Gomes?... Não te envergonhes, menina, que ninguem nos ouve... Elle não se inculcava sequer pessoa de bem; era um bacharelzito, um inimigo das nossas crenças politicas e religiosas; em quanto á figura, tudo n'elle é plebeu, trivial; mesmo em talento e instrucção, que o principe gabava muito, eu nunca lhe ouvi dizer cousa que admirasse a gente; emfim, queria eu que me tu dissesses por que amaste tal homem...

—Era um passa-tempo, papá!

—Não duvido, Paulina; mas as meninas da tua qualidade, quando galanteiam para se divertirem, escolhem outra casta de homens, para que se lhes não atire á cara com precedentes desairosos, quando ellas amam seriamente, e com proposito de se casarem. Ora diz-me tu cá: se teu primo marquez se lembra de casar comtigo, cuidas que elle ha de gostar que tu hajas acceitado a côrte d'um sarrafaçal sem nome, que andava por esse mundo a gastar uns safados cobres lá do pae, que ninguem conhece?

—Pois sim...—disse Paulina com mal refreada vehemencia—mas como o primo marquez se não lembra de ser meu marido, nem eu o queria, ainda mesmo que elle pensasse em tal...

—Não o querias? então que mais querias tu, filha.

—Eu não queria mais, nem tanto... Quero estar assim solteira, que estou bem... O papá não me dizia, ha poucos mezes ainda, que eu e a mana o matavamos se casassemos!...

—Disse isso, na supposição de que saíeis da minha companhia; mas o marquez, se casar comtigo, não sae da minha casa. É já um contracto estipulado, filha... A minha palavra está dada; contei com o teu são juizo, quando a dei... Que respondes tu, Paulinasinha?

—Deixe-me pensar, meu pae. O primo marquez não tem pressa da resposta, e o papá tambem não. Deixe-me gosar mais algum tempo a minha liberdade, e depois eu direi o que tiver pensado.

—Pois sim, filha: dou-te quinze dias. Sou um bom pae, não sou? Outro qualquer diria: isto ha de fazer-se, porque quero que se faça. Eu, não. Transijo com a minha criança, na certeza de que ella ha de saber-me agradecer a brandura e os carinhos. Não has de querer que eu morra sem te ver marqueza de Tavira! O primo tem os vinculos desfalcados; mas a fidalguia d'aquelle sangue vale milhões para quem se preza de ser maior pelo nascimento que pelos bens da fortuna. Morro consolado se encontrar para tua irmã um marido egual... Em quanto ao secretario da legação, não deixes de lhe falar: trata-o bem, porque, a falar a verdade, lhe devemos a elle a alguma consideração que temos em Madrid. Não me parece mau rapaz; mas zangava-me ve-lo sempre que podia em segredos comtigo!... Que te dizia elle?

—Nada que se não podesse ouvir... Só alguma vez, nos bailes ou no theatro, me fez rir com as suas satyras ás fidalgas hespanholas... é o que elle me diz baixinho, para os outros não ouvirem.

—Ah! é isso?—atalhou com boçal confiança o jubiloso Bartholo.— Então, filha, continúa a rir-te com elle; mas tem compaixão do primo marquez, que arde em zêlos quando falas com alguem.

—Pois que não arda, que eu tanto se me dá como não que elle fale com quem quizer. O pae cuida que posso amar o primo marquez, com vinte e tres annos mais do que eu?...

—Mas parece um rapaz, e ha de ser um excellente esposo, Paulina. Os maridos querem-se d'aquella edade.

—Não sei para que!...—acudiu com perdoavel desenvoltura a menina.

Bartholo ia explicar a vantagem que sobrelevam os maridos de quarenta aos de vinte annos, quando algum incidente privou a minha joven leitora de ver aqui tratada a preceito uma materia, que poderia cooperar grandemente para a sua futura felicidade. Decorreram os quinze dias aprazados para a decisão de Paulina.

N'este espaço estreitou-se mais a correspondencia d'ella e Fernando, já inclinado á suspirada catastrophe do casamento judicial. A actividade do secretario, como agente d'este inesperado desfecho, foi inexcedivel. Opinara elle pela fuga, e depois casarem-se em Portugal. O filho do artista, com o animo abalado pelas honradas admoestações de seu pae, optou pelo casamento judicial, sem prescripção da menor formalidade honesta. Paulina pendia mais ao parecer do secretario, e achava escusadas as demasias de probidade com que o noivo queria tratado o seu casamento. Assim mesmo Fernando reagia á vontade de Paulina, e dizia acceitar o plano da fuga em ultimo recurso. A recusa estribava n'estas razões, dadas por elle ao seu amigo:

—Se eu fujo com Paulina, porei um cunho infamante no meu procedimento. Se eu fosse um grande de Portugal, por brazões ou riquezas, a sociedade diria que eu tomára o violento alvitre da fuga para remover d'um lanço todas as difficuldades antepostas pelo capricho do pae. Assim plebeu, e quasi pobre, se fujo com ella, dir-se-ha que desprezei os meios judiciarios por medo de não achar justiça que ousasse contrariar a vontade do fidalgo poderoso.

—Mas—atalhou o sincero amigo, que sabia muito do coração das damas, estudado em Hespanha—quem te diz a ti que, durante o processo necessario ao supprimento do consentimento paterno, a senhora D. Paulina varia de ideias, e requer a remoção do deposito para casa de seu pae? Quem te diz que...

—Se o fizer—atalhou Fernando—mais tenho de me louvar pelo meu procedimento; claro é que Paulina devia arrepender-se, e dar-me o inferno, as mais tormentuosas agonias que tu podes imaginar. Antes isso, meu amigo: antes essa prova! Poderás tu fazer-me a justiça de suppôr que eu sigo os caprichos d'uma mulher rica?

—Não.

—Pois bem: venha depressa o momento em que eu possa conhecer-lhe a alma, cuja nobreza tu me deixas entrever a luz duvidosa.