Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 19 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo XIX

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

 

Lisboa, 4 de agosto de 1842.

 

«Meu presado amigo.

«Aqui estou na casa onde nasci, no pequeno quarto em que os livros me iniciaram para tormentos superiores aos que conheceste em minha vida.

«Entrei em casa inesperadamente, e encontrei minha mãe chorando, e nos braços d'ella, uma de minhas irmãs viuva, e alli, ao lado, deitada n'um berço, uma criancinha de dois mezes.

«Minha irmã casára com um capitão de mar e guerra, que morreu em viagem para Moçambique. Fôra ella dotada com dez mil cruzados, cuja maior parte o marido empregou em mercadorias, que levava comsigo, na esperança de grandes lucros.

«O navio deu á costa, e presume-se que meu cunhado se suicidou. A minha pobre irmã ainda ignora que está em pobreza extrema.

«Sabe-o meu pae, que é um santo, e acceita das mãos da Providencia tudo que vier.

«Outra minha irmã, casada com um official de secretaria, vive muito infeliz, e tem querido refugiar-se no abrigo dos paes; o marido, em poucos mezes, leva quasi dissipado o dote, sem mesmo assim poder resgatar-se de descreditos que mais tarde ou mais cedo o reduzirão a vir pedir esmola á porta do seu sogro. Acaba meu pae de me contar estas alegrias, que eu te refiro para que vejas os ditosos auspicios com que entrei nos lares domesticos.

«Meu pae está quasi cego, e minha mãe n'um estado de decrepidez extraordinaria. As minhas despezas dos ultimos oito mezes custaram ao santo velho o sacrificio da venda dos bens do Cartaxo. O que elle não vendeu foi a livraria, nem os manuscriptos de Bocage, seu amigo da mocidade. Disse-me que me salvara os livros para me legar amigos. Perdôa ao bom velho o seu descrer em amigos: elle não sabia que tu eras mais verdadeiro e valedor que os livros.

«O meu futuro é facil de conjecturar. Tenho uma numerosa familia dependente de mim. A outra minha irmã, e uma filha, não tardarão aqui. Meu pae ainda vae á loja examinar, ou finge que examina, o trabalho dos officiaes. Estes são já pouquissimos, em relação com o diminuto consumo que tem a obra.

«Penso em arranjar emprego; mas sinceramente te digo que não sei o para que sirvo, nem como estas cousas se alcançam. Lembra-me abrir loja de conselhos e requerimentos; estou esquecido do pouco que aprendi; careço de muita pratica, e de muita paciencia. Falta-me gosto, alma e vontade. Nenhuns estimulos d'actividade me impellem. Este espectaculo inesperado escureceu-me o espirito de modo que nenhum raio d'esperança já póde reanimar-me. Espero em Deus que esta crise não se demore; e, depois, veremos.

«N'outra carta me abrirei mais comtigo. A oppressão produz no animo dolorosa preguiça. Em contentamento sereno ou nas afflicções agitadas, n'estes dois extremos, é que o espirito se compraz ou desafoga em diffusas cartas. Esta minha dôr é termo medio que prostra e embrutece. Adeus. Teu amigo muito grato

Fernando.»

 

DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES

 

Madrid, 14 de agosto de 1842.

 

«Meu Fernando. Quando recebi no Aranjuez, onde tive de demorar-me, a tua carta de despedida, corri logo a Madrid, não esperançado em encontrar-te, mas em ancias de saber o que se havia passado em minha ausencia. Esporeava-me o odio que recresceu n'estes ultimos mezes contra o algoz togado, o villão que me enganou quando eu tinha na mão o fio com que esperava cortar-lhe a vida na garganta.

«Deram-me a tua carta, e contou-me o creado que te vira queimar as de Paulina. Percebi logo que um completo rompimento vos separara para sempre. Odiei-a! Dei-te logo razão, porque eu sabia que tu eras um anjo merecedor de melhor alma.

«Na incerteza de me estarem trancadas as portas de Bartholo, procurei na rua o conde de Rohan, e soube que Paulina estava doente. Perguntei, sem rebuço, que razões se haviam dado para a tua saida repentina de Madrid, e elle sem me dar explicações, instou por saber o teu destino. Não lh'o podia dizer, não lh'o diria, ainda mesmo que antevisse n'esta infracção a tua felicidade. A tua felicidade, digo eu!

«Ha homens que ninguem deve conduzir a uma supposta felicidade: a má sina póde tudo com elles, e reverte-lhes em mal os mais logicos planos do bem. Os proprios amigos se tornam fautores da sua desgraça.

«N'este mesmo dia recebi um bilhete de Paulina, a perguntar-me onde estarias. Respondi que o não podia declarar. Redobraram instancias: permaneci inabalavel. O ultimo bilhete d'ella é este que

te envio1. Não calculo o que succedeu para resolução tão improvisa! Dar-se-ha caso, Fernando, que a tua doentia imaginação te enganasse? Poderias tu ser injusto, sem consciencia de o ser? Irias arrebatadamente, onde com alguma hora de reflexão, deixarias de ir?

«Não ouso decidir por mim a hypothese: tamanha confiança me merece o teu bom juizo e reflexiva dignidade. Antes me quiz persuadir que procedeste como devias. Esperei.

«Agora, porém, recebo a tua carta de 4 de agosto. Nem uma palavra a tal respeito! Dir-se-hia que eu sonhei que tinhas amado Paulina, ou tu d'uma para outra semana perdeste a memoria do teu coração! Isto mais me capacita de que a razão do teu proceder foi tão grande que presumes deva eu já sabe-la, e por amor de ti proprio a omittes. Juro-te que apenas sei o que devo inferir dos bilhetes d'ella.

«O conde ignora tudo. Bartholo está com ares de satisfação; nada, porém, diz ao genro nem a Eugenia. Este mysterio mortifica-me. Esclarece-m'o, que o deves ao teu Almeida.

«Falemos agora da tua situação. Compunge-me a sorte de tuas irmãs, e de teus bons paes. Triste espectaculo, na verdade; mas providencial e necessario para a glorificação da tua honra. Precisas de força, e de paciencia para poder emprega-la.

«Queres um cargo publico? Os teus estudos, talento e serviços hão-de obte-lo; mas não cuides que será já, meu amigo. Tu perdeste a occasião de entrar nas secretarias com o arcabuz do cêrco do Porto debaixo do braço. As gravatas dos heroes de gabinete na emigração já se não temem das dragonas. Estamos em tempos pacificos. O que ha seis annos se conseguia e recebia com a mão a cheirar a polvora, é preciso have-lo agora das mãos enluvadas das mulheres, que fazem os despachos nas othomanas, com os ministros reclinados sobre o seio. Advirto-te, para que a decepção te não surprehenda.

«Entretanto, meu caro Fernando, o que tu precisas é de encaminhar desde já a tua pretenção, dando ares de que não pretendes. Resgata os teus bens do Cartaxo, se o comprador t'os ceder: ostenta uma independencia que fira o orgulho villão dos grandes que não supportam animos generosos e isemptos; entra na politica, e escreve, que necessariamente has de escrever coisas excellentes, visto que é esse o ramo de conhecimentos humanos que dá fructo a quem lh'o pede, e para o qual todo o homem está habilitado. A honra ha de ser-te um empeço á boa saída; mas póde ser que a mesma excepção te aproveite. Ora como para estas coisas, e principalmente para a independencia, é necessario o dinheiro, vae ter á rua Augusta, procura meu velho pae, que has de encontrar a bater alguma caldeira, e diz-lhe quem és. Deves saber que eu sou já senhor da legitima materna, e este capital, que excede a vinte contos de réis, lá o tem meu pae á espera que eu lhe dê destino. A tal qual decencia, com que vivo aqui, é meu pae que m'a dá, prohibindo-me que eu gaste da herança de minha mãe. Vê tu que animo este de artista, que ainda não despegou uma semana de trabalhar! Vae lá, meu amigo; elle está prevenido, e sabe que és meu irmão. Pede o que quizeres, para m'o pagares quando puderes.

«Fecho, que está a partir o correio. Escreve muito ao teu

Almeida.»

 

DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA

Lisboa, 31 de agosto de 1842.

 

 

«Meu irmão.

«Guardo em minha alma a tua carta.

«Falarei primeiro dos teus fraternaes offerecimentos.

«Fui vêr teu pae, porque desejava conhece-lo e abraça-lo. Que cabellos brancos, e que mãos calejadas aquellas! Que bem e orgulhoso me senti nos braços d'elle! Falla de ti com lagrimas; mas todo aquelle rosto se abre em contentamentos d'um justo!

«Quiz que lhe contasse pormenores da tua vida em Madrid.

«Satisfiz aquella ancia do teu velho. Foi dia de férias na officina a minha visita. Mandou os operarios passear, recommendando-lhes que não fossem á taverna. Depois jantei com elle, e lá fiquei até á noite. Teu pae deita se ao escurecer e ergue-se com a aurora. Disse-me elle quando eu estava para sahir: «Veja lá o dinheiro que quer, doutor.» Respondi-lhe que não queria nenhum. Montou os seus grandes oculos de cobre, arregaçou os punhos da camisa, releu a tua carta, e exclamou: «Então como se entende o que reza esta carta do meu Hypolito?!» Satisfiz ás suas duvidas, dizendo-lhe que o teu offerecimento não fôra solicitado, nem por em quanto me era preciso aceita-lo.

«Assim passaram quatro boas horas da minha vida. Face a face com o principe de Monfort não me senti tão feliz e entranhado de respeito como ao lado do artista, do teu digno pae, meu querido Almeida.

«Beijo-te as mãos pelo amigo que me déste. Em quanto ao dinheiro, deixemo-lo estar, como nosso, na mão do honrado depositario. Quando precisarmos, lá iremos.

«Agora direi pouco de Paulina para te satisfazer, e menos terei que dizer-te, enviando-te uma copia da pagina da sua ultima carta. Ahi tens decifrado o enygma. O filho do sapateiro teve pejo e arrependimento de se haver abalançado ao coração da filha de um Briteiros: pejo de se haver abatido, e arrependido de a ter humilhado. Cahi em mim. Podia ser mais tarde, e mais funestamente para ambos. Deus poupou-me ao aperto de entrar em Portugal, e por esta porta dentro, onde todos choram, com a faustuosa e brilhante Paulina, que está fadada para alegrias e esplendores. Que sentiria aquella alma vendo-se aqui n'este ambiente de pobreza, pobreza que se adivinha em tudo! Alli dois velhos; além duas irmãs uma viuva, outra divorciada; acolá duas criancinhas, cada uma em seu berço, vagindo; lá em baixo o martellar do trabalho; em tudo o cunho de uma maneira de ser incompativel com a indole e educação de Paulina!...

«Que queres tu, á vista d'isto, que eu faça ao coração?

«Suffoco-o; obrigo-o a repartir-se por estas quatro creaturas, que não teem mais ninguem.

«O bilhete de Paulina como não me auctorisas a queima-lo, devolvo-t'o; póde ser que ella venha a envergonhar-se de te-lo escripto, e t'o reclame.

«Persiste em não dizer nada de mim; e, se tenho algum outro favor a pedir-te, é que me não fales d'ella; antes me ajuda a esquece-la.

«Meu generoso pae ainda a tal respeito me não disse palavra. Adivinhou tudo. Tudo me tinha prophetisado em Londres, com estas palavras: Que direitos tens tu a uma felicidade que te custa humilhações? Para que a procuras afincadamente, se vaes de rastros apoz ella? Porque has de tu querer hombrear com os grandes, se eu apenas te fiz entrar n'uma carreira por onde levarias teus filhos á grandeza?

«Na ultima pergunta é que o propheta ouviu demasiadamente os seus arremessados desejos. Esta minha carreira é a da inhabilidade e da pobreza; mas cá estou a refazer-me de alentos para a trilhar. Adeus, meu extremoso amigo. Não acceito o teu alvitre de me fazer politico. Já vi o que isto é. Não estou ainda bastante pôdre para adubar o torrão em que braceja a arvore da immoralidade. Estou envergonhado de ter dado o meu sangue para isto! Ás vezes chego a scismar se Bartholo de Briteiros teria razão!

«Perdôa esta impia ironia. Antes isto que os patibulos. Cada qual enforca a sua honra á sua vontade, e não causa lastima nem espanto. Não ha tempo para mais. Adeus. Teu

Fernando.»