Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 16 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo XVI

Paulina e Eugenia, menos apavoradas do que suppõe o leitor, apearam no pateo do secretario da legação, e foram guiadas a uma sala, em que Fernando Gomes, prostrado mais que o commum em lances taes, parecia meditar no suicidio. Paulina galvanisou-o moderadamente, apertando-lhe as mãos com mais tremor de ternura que d'afflicção.

—Que abatimento, Fernando!—disse ella, em quanto Eugenia, desalentada pelo quebrantamento do moço, soluçava a chorar, na incerteza do seu destino.

—Isto não é abatimento, Paulina...—disse elle—é porque em verdade eu recebo com dôr a alcunha de ladrão!... Falei-te eu em joias? Que infernal lembrança a de me dares os brilhantes de teu pae!... Quando te disse eu que precisava de ser infame para ser feliz?

—Foi uma indiscrição, meu amigo; mas perdoa-m'a...—disse Paulina—Como os brilhantes tinham sido da mamã, e o papá muitas vezes nos disse que eram nossos, cuidámos que podiamos reparti-los entre ambas, sem medo de que chamassem roubo a isto. Agora não tem remedio a nossa loucura... Não te estejas tu assim a matar, meu Fernando. O crime é meu e não teu...

—Cala-te, pobre criança!—redarguiu Fernando—tu não sabes que mal me fizeste...

Algumas phrases mais, talvez inopportunas, do filho do artista, obrigaram Paulina a chorar e arrepender-se.

Chegou, n'este escuro trance, o secretario, e todos o viram como prenuncio de bonança. Eugenia saíu logo a perguntar-lhe se sabia onde estava o conde.

—Ainda não, minha senhora. Será talvez, difficil encontra-lo, se elle já souber que o perseguem.

—Sou tambem perseguido?—atalhou Fernando.

—Ninguem sabe o teu nome, mas precisamente te procuram na estalagem onde estavas. Porém, como falaste sempre francez, e, por bom alvitre meu, te despediste como quem vae para França, muito diabolica será a alcaidaria madrilense se te farejar aqui. Observo que os meus amigos estão todos tres sem juizo para decidirem o que lhes convém.

—Eu decidi—disse Fernando.

—O teu plano deve ser o unico racional na tua situação: é a fuga. A sr.ª D. Eugenia dir-me-ha o que tenciona fazer se o seu conde não apparece.

—Não apparece!—exclamou ella atribulada.

—Póde não apparecer, minha senhora, e não ha motivo para que vossa excellencia o considere descuidado, covarde, ou traidor.

—Então que eu hei de fazer?!—tornou Eugenia, pondo as mãos com dilacerante angustia.

—Quer vossa excellencia seguir sua irmã, e esperar em Portugal que eu a avise do destino do conde?

—Não lembres á sr.ª D. Eugenia um destino impossivel—disse Fernando Gomes.—Eu não vou para Portugal.

—Como?! não vaes para Portugal?

—Não fujo—replicou Fernando—e, quando fugisse, não iria levar a meu pae a noticia do nome que deixo em Madrid.

—Pois se ninguem te sabe aqui o nome?

—Sabe-o a minha consciencia.

—Pois foge para França—recalcitrou Almeida—ou para a Italia, ou para onde quizeres.

—Não fujo; e perdoa-me, Paulina... Nós não podemos fugir. Teu pae vae receber de minha mão os brilhantes de sua mulher e de sua filha; tu entras espontaneamente n'um convento; de lá requeres dispensa do consentimento de teu pae: sairás de Madrid com honestidade, e eu com honra. É impossivel ser feliz, e dar-te felicidade, se faltarem estas condições á nossa união. Isto é irrevogavel, meu amigo. Por delicadeza e compaixão não discutas comigo. Temo que este anjo suspeite da minha dedicação, se tu me condemnares pela fraqueza das minhas apprehensões.

Paulina teve momentos de suspeita, e outros peores de arrependimento. Quizera ella esconder-se com a vergonha de seu acto a um coração bastante forte, ou bastante desempoeirado, que lhe fizesse sentir com vaidade a grandeza do seu heroismo. Nem elle mesmo a absolvia! elle, por quem a imprudente se perdera no conceito do mundo, e na estima do pae! São pungentissimos os espinhos das corôas que santificam os martyres da honra! Este é um dos casos em que a mulher amada, amigo, sociedade tudo conjura a azedar com mais fel o calix do homem probo! Acontece que o leitor de um romance, que taes casos narra, sympathisa com semelhantes excepções d'este mundo sublunar, mas assim mesmo, o panegyrico do romance é galardão tardio, que não vale a menor das dôres que excruciavam a alma do pobre filho de Francisco Lourenço.

Estavam como atrophiadas as duas meninas. Almeida, sem dizer o seu destino, tinha saído. Fernando encarou na lagrimosa Paulina, correu a ella, e ajoelhou-se-lhe aos pés, murmurando:

—Duvidarás tu que te adoro, ó anjo da minha alma!... Poderás crer que o receio de ser apregoado ladrão me faz baixar ao egoismo de maldizer a hora em que te vi!... Não, não, minha querida filha; não me julgues capaz de afastar uma infamia com outra...

—Degradei-me por amor de ti—soluçou ella—e agora hei de ir morrer n'um convento, sem a amizade de ninguem, perdida no conceito de toda a gente, e tratada com vilipendio por todos... Cuidei que não me tornava indigna aos teus olhos...

—Indigna aos meus olhos!—exclamou Fernando coberto de lagrimas—quando te disse eu palavra que te dê razão de tamanha calumnia! Ó Paulina, eu quero-te pobre, quero fugir comtigo já, mas salva tu da deshonra o meu nome, que ha de ser tambem o teu. Não leves o valor de um ceitil da casa de teu pae. Espera que o boato do grande roubo de cem mil cruzados, de que teu pae te argue, se desvaneça, para que a tua dignidade não fique tão feiamente manchada. Não vês tu que se trata de salvar o teu nome?

—Salva-lo, como?...—redarguiu Paulina.

—Restituindo os brilhantes—disse Fernando.

—De que serve restitui-los? Crês tu que o pae me dará licença de ser tua esposa por isso? Meu pae tem cem vezes o valor dos brilhantes... Ha de perseguir-me atrozmente para eu não casar comtigo, Fernando...

 

No entanto, o secretario da legação entrou no hotel de Bartholo de Briteiros.

Encontrou o velho prostrado no leito, espertando d'uma demorada syncope. Ninguem ao lado do pobre pae! N'aquelle instante solemne calou-se o velho rancor de Almeida, e falou a compaixão.

—Mataram-me, as ingratas!—exclamou Bartholo—fugiram, fugiram as perdidas! Deixaram-me assim, sósinho, a amaldiçoa-las, agora, e sempre, e na hora da morte...

Almeida deixou-se abraçar pelo anciado velho, e disse-lhe:

—Cobre a possivel serenidade para me ouvir, senhor Bartholo.

—Diga o que quizer, meu amigo. Pouca vida terei para ouvi-lo.

—Suas filhas deviam fugir ao vexame dos interrogatorios judiciaes, e fugiram. Conduziu-as a minha carruagem; estão em minha casa.

—Estão?!...—exclamou Bartholo.

—Estão, como se estivessem na austeridade d'um mosteiro. Vossa excellencia deu-lhes o impulso desgraçado que dão os paes que o não sabem ser. Quiz vossa excellencia pautar o coração de suas filhas: tentou um absurdo, que deu origem á culpa. A natureza reage contra as violencias; e a reacção é quasi sempre indiscreta ou criminosa. Sua filha Eugenia amava o conde de Rohan, sua filha Paulina amava Fernando Gomes. O francez sei quem é de tradição; Fernando, que eu conheço desde as escolas, é um homem de tantas e tão insolitas virtudes, que o mundo actual ha de vêr-lh'as com extranheza. Vossa excellencia impugnou o enlace de suas filhas com estes dois mancebos escolhidos por ellas. Uma, ia ser immolada ao marquez de Tavira, que sae embriagado dos alcouces ás tres horas da manhã; a outra estava esperando a sua hora de sacrificio. O funesto resultado d'estas coacções foi uma e outra conspirarem surdamente contra a insensata tyrannia de vossa excellencia. Fernando Gomes chegava a Madrid um dia antes de vossa excellencia, em vez de estar na Irlanda procurando a senhora D. Paulina nos mosteiros; o conde de Rohan, chamado de França por a senhora D. Eugenia, veiu hospedar-se n'este mesmo hotel.

—E eu sempre vendido e enganado por ellas!...—exclamou Bartholo.

—Era a justa paga do despotismo com que vossa excellencia dispunha de suas filhas, que tinham em si o despotismo mais imperioso do coração! Pergunto eu ao sr. Bartholo de Briteiros: se suas filhas, para se libertarem d'um jugo violento, deram o extranho passo de prepararem a fuga, que crimes e vergonhas as reterão no mau caminho que tomaram, se vossa excellencia não tiver a prudencia de as chamar a si, e rehabilita-las no conceito do mundo?!... Por em quanto não ha nada que as avilte. O levarem ellas suas joias e as de sua mãe, isso, a meu vêr e de toda a gente, é cousa de si tão desculpavel, que não tem mesmo penas na lei que a puna. O valor moral do acto tambem nada significa. Imagine vossa excellencia que as suas filhas gostavam dos seus enfeites, e, quando fugiam, levaram comsigo esses adornos da vaidade, aos quaes ellas não ligaram valor algum real. Já disse a vossa excellencia que não conheço pessoalmente o conde, amado pela senhora D. Eugenia. Informei-me agora mesmo na embaixada franceza, e soube que o conde era um dos mais nobres legitimistas da França, e tem castellos, senão reconstruidos á moderna, cravejados de muitos brazões, que, se me não engano, podem competir antiguidade com os de vossa excellencia. Este cavalheiro era incapaz de ser o receptador de um furto. Em quanto a Fernando, o portuguez, posto que não tenha castellos nem mais appellido que o Gomes, que vossa excellencia provavelmente não encontra nos seus nobiliarios, os brilhantes que se presumem ter ido n'uma caixa, em tão pouco os reputa elle, que me encarrega a mim de os depositar nas mãos de vossa excellencia. Queira o senhor Bartholo estalar a fechadura da caixa para verificar a identidade dos objectos. Fernando Gomes não sabe o que está ahi.

Almeida entregou a caixa a Bartholo, que apenas o interrompia com variados gestos de raiva, surpreza e condescendencia.

Depois proseguiu:

—Fernando Gomes está fazendo companhia ás filhas de vossa excellencia em minha casa. O conde de Rohan está hospedado na embaixada franceza. O que o conde quer não sei; o que Fernando deseja é que a senhora D. Paulina entre pacificamente n'um convento, e de lá instaure um processo para vossa excellencia ser ouvido na questão de consentimento para matrimonio. Resolvi eu, sem permissão d'uns e d'outros, vir propôr a vossa excellencia o seguinte: suas filhas voltarão para casa, e vossa excellencia consentirá que ellas se desposem com homens de sua escolha, recahindo ella em sujeitos tão benemeritos como o conde e Fernando Gomes. Ouvirei a sua resposta.

Bartholo desceu do leito, amparando-se ao hombro de Almeida. Passou á ante-camara, sentou-se a chorar e enxugar lagrimas, reflectiu alguns segundos, e disse:

—Pois que venham as minhas filhas para casa, e eu cederei o que fôr de razão ceder. Mas, senhor Almeida!... Esta ignominia já deve ser notoria em todo o Madrid!

—Apenas a justiça, auctorisada por vossa excellencia, anda em averiguações inuteis. Mande o senhor Bartholo suspender a vulgarisação que os esbirros estão dando aos desgostos particularissimos de sua vida.

—Vou mandar...—disse Bartholo.

—Veem, por tanto, suas filhas. Eu não levo a certeza dos bons intentos de vossa excellencia. Por isso mesmo ouso lembrar-lhe que, se forem o inverso dos meus bons desejos, as consequencias redundarão todas em desgostos maiores para vossa excellencia, e póde ser que mui grande vilipendio para suas filhas. O senhor Briteiros, se as chama para as castigar com violencias, abre n'esta casa trinta portas por onde ellas podem fugir. Ha uma hora em que um pae reconhece que toda a sua força se quebra diante do aceno d'uma debil criança. A lucta é desigual com o coração, senhor Bartholo...

—Diz bem...—atalhou o velho.—Fui eu que as perdi com a educação, com o mundo, com a vida de Paris e Florença...

—Assim seria; mas o mal é insanavel com cauterios: requer muita prudencia o corrigi-lo. Vossa excellencia póde faltar a suas filhas ámanhã; e o mundo ha de chama-las a si com a educação que lhes deu, e engolfa-las no seu abysmo. Salve-as com tempo, senhor Briteiros. A sociedade dá ás mulheres este nefasto prestigio, que as enthrona, com a condição de se despenharem depois na voragem onde foram buscar a realeza.