Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 15 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo XV

—Não é assim: eu previno, e mais nada.

—Prevines a possibilidade do arrependimento, emquanto dura o processo.

—É bem de ver.

—E d'esperar?

—Isso não sei; mas deves temer muito da força do adversario. Os juizes em Madrid são corruptissimos, e pesam na balança o oiro do fidalgo realista, e se o oiro do fidalgo realista pesar o quilate legal, acceitam esta legalidade, em vez d'outra que as leis estatuiram. Esta é uma das faces: a outra é a dos meios empregados no convento onde vae ser depositada Paulina, para a demoverem. Raro acontece que elles não vinguem, ao cabo de seis mezes d'espera. Insisto. Eu, em teu logar, fugia. A meia legua de Madrid estás em segurança. Na semana que vem, entras em Portugal. Chegas a Lisboa, e encontras na primeira egreja um prior que vos absolve. Uma batalha assim vencida é plena e gloriosa: a outra, que vaes dar, costuma ser tão golpeada de contrariedades, que, afinal, o triumpho é semsabor. Mas faz o que quizeres. Decide-te por um dos conselhos, que nunca poderás identificar os dois. Honra e coração costumam andar bem-avindos, mas é só nos romances.

—E fóra dos romances, amigo Almeida—disse Fernando.—Agora mesmo te estou dando a prova. Diante das razoaveis difficuldades que me levantas, ouso ainda insistir pelo deposito, e envergonho-me de ter vacillado entre o processo judicial e a fuga.

 

XV

Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.

Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina, depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum vago presagio lhe ennublava o espirito.

A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid. Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto no entre-sol do edificio. O corredor commum d'estes quartos baixos tinha escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior. Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça.

Fernando subiu as escadinhas em espiral.

Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou:

—Sóbe sem receio, Fernando.

—Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...—disse o moço.

—Não te enganaste.

—Quem era?

—Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto. É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder tempo—continua Paulina com adoravel alvoroço.—Preferes os mil estorvos com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto?

—E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida Paulina?—perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz, d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais santa das intenções.

—Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?— tornou Paulina—Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração para o meu!

—Por Deus!—atalhou Fernando.—Eu não te amo, Paulina!?...

—Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada, meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde. Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo, e preparou tudo para a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra, meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter ouvido n'esta hora?

Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude, que a sua celebrada continencia usurpava.

Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe:

—Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz. Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te.

Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou pactuado. Disse a menina que se conservasse elle á escuta algum tempo, emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e, depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo, sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com admiração.

Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação.

Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do pesadello da impertinente honra.

Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da morosidade do tempo.

—Aqui tens a riqueza da minha Paulina!—disse elle sorrindo e mostrando a mala.—Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve encerrar algum vestido, e as minhas cartas...

Almeida tomou ao alto a mala, e disse:

—Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como ouro.

—Ouro?! estás brincando!—disse Fernando.

—Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui.

—Sim, vejamos—condescendeu Fernando, desfivellando as correias.

Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas côres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja hollandilha, e cambraia tomava pouco espaço. Depois, um vestido de seda azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala, descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um palmo. Esta caixa é que realmente pesava como ouro, e estava fechada.

Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo silencio, e disse:

—Não levo isto: é preciso que faças chegar, antes de á noite, este objecto a Paulina. Aqui vão grandes valores... não levarei comigo, aqui fechada, a minha condemnação. O mundo chama ladrões aos homens que praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar isto a Paulina, quando não, está tudo transtornado.

—És um homem impossivel!—replicou o secretario da legação, menos escrupuloso que philosopho, se é que se chama acertadamente philosophos, uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do seculo.—Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso?

—Recuso. Paulina não tem nada.

—Nem a legitima de sua mãe?

—Paulina é menor: seu pae é que lh'a administra.

—Eu não discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que és um asno exemplar, e dá-me vontade de te mandar cavar pés de... Com effeito! Venham aqui aprender moralisação os futuros amadores de meninas que levam caixõesinhos pesados, quando fogem com os amantes!...

—Tens graça; mas eu tenho razão, que é melhor—retorquiu Fernando Gomes.

Emquanto elles altercam já em phrases desabridas, saibamos que rumor é este que vae em casa de Bartholo de Briteiros.

O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão.

O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.

Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes esclarecimentos deram rastros ao alcaide para suas averiguações.

Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez Bartholo de Briteiros.

Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem objectos de valor.

—Não!—disse Briteiros—Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha casa?!

—Examine, senhor—disse o subalterno da policia—que a minha obrigação é averiguar, e sem detença.

Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.

—Que fazem as meninas?!—perguntou o pae com assombro.

Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de responder um monossyllabo.

—Que estão a fazer, não ouvem?!—replicou Bartholo examinando a roupa dobrada.

Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se côr de terra. Dilataram-se-lhe em arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas sanguineas. Correu ás gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou:

—As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde estão cem mil cruzados de brilhantes de vossa mãe?

Paulina cravou os olhos no chão, perdida a côr, e quasi os sentidos. Eugenia, mais fraca de compleição, e muito timorata, cahiu em joelhos, e exclamou:

—Perdão, meu pae!...

—Roubado! roubado!—bradou o velho—roubado por minhas filhas!

E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, até entrar na sala onde estava o alcaide.

Paulina, logo que o pae sahiu, disse á irmã:

—Tu és uma miseravel se descobrires alguma cousa. Não pronuncies o nome dos desgraçados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles!

D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas á sala, e interrogadas. Nenhuma resposta deram ás perguntas do alcaide. Ás do pae respondiam, principalmente Paulina:

—Os brilhantes e as joias não estão em poder de ladrões.

Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra.

N'este momento angustioso, entrou o secretario da legação. N'um relance comprehendeu tudo. Briteiros abraçara-se n'elle, exclamando:

—Roubado em muitos contos de réis por consentimento de minhas filhas... E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladrões! Não haverá justiça em Hespanha, senhor alcaide?

—Ha—respondeu Almeida—e o ministro portuguez, em Madrid, é o funccionario a quem primariamente compete solicitar a justiça em favor do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide hão de ser dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto.

Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou á pousada de Fernando Gomes.

Sem lhe dar completa explicação das causas, obrigou-o a sair, e transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse:

—Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo.

E saíu, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros.

Ao apear, disse ao boleeiro:

—Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas torce o caminho.

Subiu. As meninas tinham saído da sala.

Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.

Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas. Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.

A conferencia foi sem testemunhas.

—Fernando está em minha casa—disse Almeida.—Aqui ha um desesperado recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é conduzida a Fernando.

—Oh! meu Deus! já!—exclamou ella, erguendo-se para saír.

—E eu fico, Paulina?—bradou Eugenia.

—Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?— disse Almeida.

—Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan—respondeu Eugenia.

—Fujam ambas!—tornou o secretario, mas onde está esse conde?

—Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos, Paulina...

—Eu indagarei onde está o conde—disse Almeida—Não se demorem.

Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas, veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer mais nada.

O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um convento.

Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em lagrimas.