Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 8 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo VIII

Ora aqui tem o leitor como conversam os anjos.

Quem, com ouvidos corporaes, ouvisse aquellas meninas, havia de suppor que estavam alli duas creaturas vulgares, como todas as que procedem de Eva, que dialogava com serpentes, e comia fructas da sciencia do mal! Cumpre saber que os anjos, em quanto perigrinam cá por estes pantanos do globo, fallam segundo ouvem fallar. Parece que ao descerem do céo, trazem, como regra, o anexim: cada terra com seu uso. A gente não acaba de capacitar-se d'isto!

 

VIII

Demoremos em Portugal algum espaço. A imaginação, que tem andado acorrentada aos apontamentos lá por essas terras lindas, mas alheias, já tem saudades das suas.

Cá estamos em Lisboa na calçada do Sacramento, em casa do artista Francisco Lourenço.

Estão os dois velhos á meza, onde o almoço lhes arrefece. Nenhum põe mão na comida. Encaram-se, e choram. Gracinda e Genoveva sahiram hontem para casa de seus maridos. Alli estão as cadeiras d'ellas, e sobre a meza as chavenas do almoço, e os guardanapos que lhes serviram dois dias antes.

—E sahiram sem lagrimas!—disse o artista, com a voz golpeada de soluços.

—Como eu saí de casa de meus paes para a tua...—respondeu a mulher.

—Mas que tristeza... que solidão esta, Maria!... Nem as filhas! Nem agora, Fernando... de mais a mais enfermo, tão longe de nós! Que fins de vida os nossos, mulher! Como eu de longe via isto tão differente! Falava-te no prazer de acabarmos entre filhos e netos! vê tu! ninguem, ninguem comnosco!

—Tem paciencia, homem, tem paciencia! Fernando ha de vir logo que esteja bom. As pequenas prometteram passar o domingo comnosco. Para a primavera, vamos todos para o Cartaxo. Não te afflijas, Francisco. Isto, assim triste e sósinho, é hoje. A gente afaz-se a tudo.

—Afaz-se á ingratidão dos filhos? interrompeu o artista.

—Ingratidão! Não é ingratidão! As meninas casaram com o teu consentimento: não foram ingratas.

—Sairam sem verter uma lagrima.

—Pois que queres tu? O Evangelho não diz: «deixarás pae e mãe»? Deixaram pae e mãe por seus maridos. É lei da natureza. Que havemos nós fazer-lhe? Almoça, Francisquinho, almoça.

—E tu que fazes? porque não almoças?

—Que queres tu! Não posso. Tenho um nó na garganta... Tambem eu... E Fernando longe de nós, Maria!... Que te diz o coração?

—Que não tarda ahi. Talvez já venha a caminho. Se vier, não temos carta para a semana. Se estiver ainda doente, escreve-nos. Depois nos lastimaremos homem... Não tentemos a Deus.

A carta, não desejada, chegou. Fernando dizia estar ainda doente, e não poder assignalar o tempo da sua volta. A linguagem era triste: dir-se-ia que a mentira lhe custava lagrimas. Os paes inferiram da tristeza a gravidade da doença. Francisco pensou em ir á Italia; porém, doia-lhe deixar sua mulher sósinha, doente de saudades, e mais lastimosa que elle. Esperou nova carta, contando os minutos por ancias, que o avelhentavam rapidamente. Ia, com sua mulher, buscar allivios a casa das filhas: encontrava uma e outra contentes, cuidando das suas occupações domesticas, cariciosas para os maridos, e levemente commovidas com as afflicções dos paes. A linguagem d'uma era a da outra:

—Não se inquietem, que o Fernando ha de vir. Póde ser que nem esteja doente. Anda por lá a divertir-se, e vem quando estiver farto.

Os velhos sahiam mais acabrunhados das frivolas consolações das filhas e genros.

Passadas semanas, chegou nova carta. Fernando, aconselhado pelos medicos, ia convalescer para Napoles; e, logo que estivesse restaurado, voltava para Portugal, immediatamente. Era o resumo da carta; mas o dizer era mais escuro; a espaços lhe tinham fugido uns desmentidos á falsidade. Taes como: Tenho desejado a morte: o futuro é negro, mais negro que a sepultura. E n'outro relanço: Eu nunca devia ter saido da nossa casa de campo. A má estrella não me acharia n'aquella obscuridade. E, finalmente, rematando a carta, dizia: Quem sabe se eu tornarei a ve-los, meu querido pae, e minha santa mãe?... Tenho presagios terriveis.... Era para muita pena vêr os dois velhos, cada um a seu lado, com o rosto entre as mãos, arrancando soluços e exclamações, que ninguem consolava!

—Que mal fizemos nós a Deus!—clamava Francisco. Não fui eu sempre bom filho, bom marido, e bom pae? A quem fiz eu mal voluntario d'este mundo? Quem se queixa de mim do céo para me ver assim, e te ver ahi, pobre mulher, sem consolação de tuas filhas? Que desgraças são estas de Fernando!—proseguia o artista, relendo a carta.—Na doença pouco falla: nunca me disse que doença tinha... Tenho desejado a morte; o futuro é negro, mais negro que a sepultura!... Vê tu estas palavras, Maria! Eu não lhe tenho faltado com as ordens do dinheiro muito a tempo. Já lhe escrevi, admirando e louvando que elle gastasse muito menos do que esperava. Tem tudo o que quer de mim, e ha de ter, se Deus me não transtornar a vida, meios abundantes para viver com decencia... Então por que se chora elle? que má estrella o persegue? porque não ha de tornar a ver-nos?