Agulha em Palheiro
Capítulo IV
Transferiu-se Fernando Gomes á Grecia. Estanceou com o seu Homero e Byron de um a outro padrão das fabulosas façanhas, historiadas em Thucidides e Plutarcho. Viu Grecia degenerada escrava, e de todo perdida para a resurreição da sua dignidade. Não teve um suspiro que lhe désse em hemistichio de ode, ou decima de hymno, como toda a gente faz quando carpe um povo cancellado do mappa das nações livres. «Nações livres!—dizia entre si Fernando Gomes.—Eu sei cá o que são livres! nem homens livres! Liberdade de morrer de fome, em toda a parte a ha, graças a Deus e ao progresso! Poemas ao trabalho e ao artista, em toda a parte se escrevem, graças á metrificação e aos especuladores ociosos, que deificam o suor e as mãos calosas, sentando-se em espaldares flacidos, e vedando o accesso de seus gabinetes aos operarios suados, calejados e sujos! Em toda a parte se mantem em nome da liberdade, e se chora em nome da servidão! Oh! meus pobres gregos, deixai-vos viver e morrer em vossa lethargia, que, se sacudires o torpôr de sobre o peito, virão depois uns próceres e éphoros, como os antigos, que vos hão de uns pôr o pé no peito desentorpecido, para subirem ao ponto donde vos atirem para baixo com muita injuria e muito desprezo da vossa ignobil raça de servos redimidos por elles!»
Assim devia falar comsigo e com os gregos o nosso viajante.
Mezes depois, temos Fernando em Paris, onde o senhorêa profundo fastio. Muito especial devia ser a compleição de moço de vinte e seis annos, que se anojava em Paris!
Passou á Allemanha, marinhou os pincaros da Suissa, e desceu outra vez á Italia, fatigado d'alma e corpo, triste como um desterrado, saudoso do seu Cartaxo, saudoso de paes e irmãs; porém sem forças com que aproar no rumo da patria.
Estava em Florença: restavam-lhe dois mezes dos dois annos concedidos. Releu Virgilio e Dante, Petrarcha e Tasso, os seus amigos de Italia, os seus guias e commensaes, as pallidas sombras que o seguiam até ás regiões convisinhas do sepulcro, ás tenebrosidades mysteriosas do sonho.
E hei de eu acreditar (diz a leitora que sabe o que vale) hei de eu acreditar que Fernando não encontrasse nos mais formosos pontos do globo as mais formosas creações do universo? Não viu elle uma ou cem mulheres... (cem senhoras, emendarei eu, se vossa excellencia permitte) ou cem senhoras que o tirassem pelos cabellos d'essa escuridade de alma em que o exquisito moço se engolfava com as pataratas dos Virgilios e Dantes, e outros que taes pesadelos de um espirito que almeja diffundir-se e embeber-se nas delicias da poesia, tres vezes santa, do bello ideal!?
Respondo: tem vossa excellencia razão de estar assim pasmada do homem: eu tambem, com quanto já saiba a preceito o que é pão bolorento por dentro e cordas de viola por fóra, começava a espantar-me, justamente no ponto em que vossa excellencia fez favor de interromper-me.
Não ha duvida nenhuma: a cousa é muito para assombros. Bravia é a arvore que aos vinte e seis annos não floresce nem fructifica! Anasada alma deve ser essa que se dispende toda em extasis de livros velhos e paredes velhas, e historias revelhas, que nem recontadas por Michelet ou Castilho se podem aturar. Com um homem assim o romance era impossivel. Quem houvesse de descreve-lo, iria na piugada d'elle por esse mundo fóra, onde ha plinthos e peristylos derrocados, e confundi-lo-ia com algum troço de columna corynthia ou jonica. Fernando seria empolgado pela caterva empedernida dos antiquarios, que dariam com elle n'este museu de Lisboa, onde não ha nada que o valha, a não ser o titulo do edificio, que é museu de si mesmo.
Estava eu, pois, a despenhar-me com o meu estylo espalmado na voragem dos escrevedores malditos da paciencia humana, quando, n'estes apontamentos que me dirigem, encontro o capitulo intitulado:
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Primeira e ultima! exclamei. Não gosto d'isto! Com uma só paixão hei de eu encher duzentas paginas! Uma só paixão, n'estes nossos dias, em que vinte e quatro horas bastam para o prologo e o epilogo da tragedia, se é tragica a paixão!
Comecei a lêr desanimado; cobrei esperanças no segundo capitulo; ao terceiro obrigar-me-ia, sendo preciso, por escriptura, a escrever dois volumes; ao quarto fechei o manuscripto, e coordenei os apontamentos pelo theor seguinte:
Demorava em Florença uma familia portugueza, expatriada por affecta á realeza absoluta. Compunha-se esta familia de pae e duas filhas. O emigrado era um ex-desembargador do paço, ministro da Alçada, que assignara o accordão de pena ultima comminada aos academicos de Coimbra que, em 18 de março de 1828, mataram, no Cartaxinho, os lentes Matheus de Sousa Coutinho, Jeronymo Joaquim de Figueiredo, e feriram outros que, no dizer do accordão, iam beijar a mão ao serenissimo senhor infante regente pela sua feliz chegada a estes reinos.
Bartholo de Briteiros se chamava o realista. Uma das meninas era Eugenia, e a outra Paulina. Em quanto á linhagem, estude quem quizer a origem dos Briteiros, que ha de encontra-la desde logo que as aguas do diluvio universal se recolheram ao centro do globo, e consentiram que os casaes contidos na arca procreassem os Briteiros e outras familias do mesmo tamanho genealogico. No que toca a riqueza, dizia-se que Bartholo possuia, em cada provincia de Portugal, duas, e tres e mais quintas: o que eu não averiguei por me parecer desnecessario.
O emigrado vivia regaladamente na Praça do Dome, o mais vistoso local de Florença, servido de muitos creados, em palacio exornado de primosas alfaias e baixella. O vassallo de D. Miguel de Bragança pompeava faustos de rei, em quanto seu senhor, o tão chorado principe dos seus amigos, mendigava em Roma. Este contraste offerece um lado de muita philosophia, que eu me dispenso de explanar por ter muito amor a quem me lê, e me não lerá, se eu me entro a enredar em camisa de onze varas... (Cá em Portugal já se não diz varas: é metros: camisa de quinze metros e vinte e cinco centimetros, corresponde a isso; por causa da metromania não se ha de perder o anexim que é expressivo).
Escreve Méry a respeito de Florença: «Não me espanta que proscriptos e exilados, violentamente arrancados aos costumes de suas patrias, se lancem nos braços d'aquella Florença, que é mãe commum dos que padecem, e para todos se desentranha em palavras consoladoras...» E n'outro relanço das suas Noites de Italia: «Entende-se facilmente que homens e mulheres de alto porte, condemnados a exularem, pelo infortunio d'esta epocha tão atormentada, confluam a Florença de todos os pontos da Europa. O exilio aqui é menos penoso: não será paradoxo termos em conta de exilados todos os que vivem longe d'aquella cidade.»
Bartholo de Briteiros, guiado pelo instincto, e não pelos viajantes —que o magistrado não lia viajantes—deu comsigo na formosa Toscana.
Estanceavam por lá, em 1834, polacos proscriptos e muitos refugiados nobres da França, cujos exforços se mallograram na Vendéa. O palacio Orlandini, onde residia o principe de Monfort, irmão mais novo do imperador Napoleão, era o receptaculo de todos os proscriptos illustres, em nascimentos, artes e sciencias.
Bartholo de Briteiros, tinha a illustração triplicada da fortuna. Era notorio que elle mobilara faustosamente um palacio campestre em Poggi Bonzi, e d'alli saia de passeio, em graciosa berlinda, com suas filhas, a Val d'Arno, á Poggia Imperiale, e a quantos pontos convergia a nobreza toscana.
Isto lhe dera renome e accesso aos palacios Orlandini, Ricchardi, Strozzino.
A formosura das filhas contribuia não pouco para a consideração que o pae gosava. Eram duas gemmas inestimaveis que sobredouravam a hypothetica riqueza do fidalgo portuguez. A mais nova era Paulina; quem perguntava porém qual das duas fosse a mais velha? Cada uma estava n'aquelle desabotoar de florescencia, e irradiação de graças, que seriam delicias da vida humana, se cada mulher bella assim, ao tocar os dezesete annos, alli ficasse, inamovivel, indestructivel, perpetua imagem do anjo, dominadora do tempo, e assim de gala, para entrar com todo o viço de sua formosura, e esplendor de encantos, em corpo e alma, na gloria do seu Creador.
A mãe d'estas duas meninas morrera aos vinte annos, quando, em Lisboa, reinava como primeira em belleza. Os dois seraphins, que deixara no berço, conforme iam crescendo, recebiam do céo os dons soberanos que sua mãe levara. Aos quatorze d'uma, e quinze annos d'outra, dizia-se que a mãe não fôra mais linda que ellas.
O desembargador desvelara-se medianamente na educação litteraria das filhas. Era elle homem de poucas lettras, e muito dado aos ocios de uma certa ignorancia, que é o supremo bem d'este mundo pelas muitas e boas horas de lerda pachorra em que a alma se embala no regaço d'ella. Briteiros sabia de jurisprudencia o necessario para convencer-se do pouquissimo que necessitava saber um magistrado palaciano, bemquisto para as alçadas, e braço inflexivel para hastear patibulos. Chamado sempre para mordomar n'estes festins de cannibaes, o amigo do throno e do altar via em si um homem dos antigos tempos, e gloriava-se. A juizo d'elle, os homens dos tempos antigos, eram os romanos, que condemnavam á morte os filhos, se o bom regimen da patria o requeria. Não cuidem, porém, que o austero Bartholo de Briteiros frouxamente acariciava as filhas, ou as affastava de si como cousas incompativeis da gravidade do seu funccionalismo e meditações. O contrario, de todo em todo. Brincava com ellas; com uma em cada braço, em quanto meninas até aos nove annos, andava de sala em sala, e assim recebia as mais circumspectas visitas. A orçarem por senhoras, nem assim as desquitava da obrigação de brincarem com elle: escondia-se nas dobras dos reposteiros, e queria que o andassem procurando. Muitas vezes saía d'estes brinquedos para assignar ao lavrar o accordão de uma sentença de forca, muito firme de pulso, e convicto da sua fidelidade aos principios, á moralisação dos povos, á ordem publica, e á justiça, filha primogenita de Jesus Christo.