Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 18 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo XVIII

—Eu morrerei feliz, se vir minha filha Paulina casada com um parente dos Rohan; e, se não puder ser tanto, que seja, e muito ainda será, um nobre da França ou das Hespanhas, a quem meu genro aperte a mão, sem receio de a retirar suja.

—De sangue...—disse Almeida com um sorriso que tinha fogo do inferno.

Esta palavra «sangue» turvou um pouco o vinho que Bartholo bebia. Ao ex-ministro da Alçada quiz parecer que havia n'aquelle dizer succinto uma allusão. Nem que o secretario da legação fallasse em corda!

 

XVIII

Fernando Gomes, informado, não por Paulina, mas por Almeida, dos successos que se iam encaminhando a um natural e triste desfecho de tantos trabalhos, póde dizer-se que morreu antes que o matassem. Senhoreou-o amargura serena, sem contorsões; mas profunda, luctuosa, e inalteravel por nenhuma diversão.

Alguma carta que escrevia a Paulina ia breve, desalentada, sem a palavra esperança, sem a palavra saudade, sem a palavra amor.

Divagava por uns nevoentos dizeres, como devem ser os do enfermo de mortal doença, que antevê o fim, e se está, meio vida, meio eternidade, conversando com amigos, que deixa sem saudade e sem esperança de tornar a ve-los n'outro mundo.

Paulina entendia mal esta nova phase do espirito de Fernando, e respondia-lhe queixando-se da seccura de suas cartas; porém, a tibieza dos queixumes podia apostar lethargia d'alma com o apparente regelo das cartas de Fernando.

—Como cahiste n'esse estado? perguntava Almeida ao seu amigo.

—Era o meu estado natural. Assim me conheceste no cerco e na universidade. Paulina emprestou-me uma segunda natureza que eu lhe devolvi em lagrimas, e fiquei como era, peor do que era, porque havia uma virtude em que eu tinha fé—o coração da mulher—e esta crença tambem se foi diluida em lagrimas.

—Injustiça!—interrompeu Almeida.—Não te diz ella que está prompta a requerer o seu deposito?

—Disse, não diz.

—Propõe-lh'o.

—Não. Quero forrar o meu pundonor ao ultraje da negativa.

—Farei eu a proposta, mediante o conde de Rohan.

—Recuso o favor. Quem te diz a ti que o conde de Rohan deseja o casamento de sua cunhada comigo?

—Elle.

—Não creias. O conde de Rohan tem irmãos. Paulina é rica e formosa como Eugenia.

—Imponho-me o dever de não julgar ninguem pelos teus olhos. Tu és uma raridade, um excentrico, uma cousa com geitos de pessoa. Erras quantos juizos fazes. Eu hei de sondar o conde. Póde ser que tudo se consiga sem processo judicial.

O secretario procurou o conde. Fallou amplamente de Fernando Gomes, e das suas injustiças ao caracter de Paulina. O conde mostrou sympathisar com o caracter do portuguez, e disse:

—Eu fallarei a meu sogro.

E falou de modo que as suas ultimas palavras summariam o elogio que se lhe deve:

—O homem, cuja mão eu aperto com sincera satisfação de quem sabe prezar a virtude, é Fernando Gomes. Peço encarecidamente a mão de minha cunhada para este tão modesto como honrado mancebo. Condescenda, meu sogro, para eu poder dar-lhe o nome de provado amigo.

Bartholo de Briteiros respondeu umas palavras oscillantes, que nenhuma resolução significavam. O conde saiu maguado d'esta conferencia, e disse á cunhada:

—Se Paulina quizer casar com Fernando, tem de adoptar meios extraordinarios. Requeira o deposito, que a familia do ministro francez presta-lhe sua casa.

Paulina respondeu:

—Era preciso que Fernando ao menos me enganasse, para eu acceitar o seu conselho. Fernando, quando me escreve, nem ao menos diz que me ama.

—Ama com a mais segura das paixões: a paixão que mata com infernal lentidão.

—Se elle m'o fizesse assim acreditar!...—replicou ella.

O conde inferiu que Paulina estava cançada das virtuosas, incomprehensiveis e fastidíosas singularidades de Fernando. E assim, muito á puridade, o communicou ao secretario.

Bartholo chamou Paulina, e mostrou-lhe cartas de Lisboa. A importancia d'estas cartas ha de ressumbrar na seguinte, que ella escreveu a Fernando:

 

«Meu querido amigo.

«Nem a cegueira do amor me engana. As tuas cartas dizem-me tudo que está em tua alma. Eu não sei por que desmereci aos teus olhos. Não sei, Fernando! Aquella impensada fuga que eu havia de fazer, com teu consentimento, creio que me tirou todo o prestigio. Esta pobre formosura, que tanto encarecias, já te não inspira mesmo as palavras animadoras que releio nas antigas cartas, com o coração traspassado de dôr! O ser rica sabia eu que era cousa nenhuma em teu conceito; mas o ser-te leal ha dois annos, á custa de tormentos tamanhos, cuidava eu que seria um titulo á tua eterna dedicação. Louca mulher, que tão vaidosa julguei merecer o que o mundo não póde dar! Com que me recompensas tu o fel que eu tenho tragado desde que voltei dos teus frios braços para debaixo dos olhos severos e queixosos de meu pae? O teu esfriamento é incrivel! Se me dissessem que amas outra mulher, comprehenderia o homem e a ingratidão. Mas sei que vives só, que vives triste, que tudo te é indifferente, e eu mesma quasi esquecida! Cada carta que me envias é como obrigada pela delicadeza. Palavras inintelligiveis, apprehensões vagas, e nenhuma em que me digas positivamente o que pensas, e esperas de mim! E eu amante como sempre! Capaz de tudo, mas incapaz de me abalançar a novos sacrificios, sem que me tu digas corajosamente: «Luctemos de novo!» Porque m'o não dizes, ó Fernando!?

«Ainda agora saí do quarto de meu pae, onde fui chamada, e entrei a tremer. Mostrou-me cartas de Portugal, cartas forjadas talvez aqui, e mandadas lançar lá no correio. Todas falam de ti miserias que eu me pejo de dizer. Mas adivinho que desejas ouvi-las. Creio que, em dizer-t'as, te allivio de conjunturas dolorosas. Noticiam que teu pae é um sapateiro de Lisboa, que tua mãe era colchoeira, e que andas por aqui a estragar as economias de teu pae, em quanto elle lá está quebrado de trabalho, cerceando ao pão de cada dia para te sustentar uma vida aventureira. São assim miserias d'este jaez. Irritou-me a alegria de meu pae, quando elle com ar de victoria me estava lendo estas calumnias. Não tive mão em mim, e disse-lhe: «Isso é tudo falso. Se o pae de Fernando fosse um sapateiro, não iria visita-lo a Londres, nem lhe daria a decencia com que tem vivido ha dois annos em Florença, aqui, e em toda a parte. Meu pae encontrou-o em casa d'um principe, e o principe de Monfort não aperta a mão a filhos de sapateiros, nem ministros de Portugal em Hespanha o tratariam com tanta consideração, se elle fosse o que essas cartas dizem. Meu pae enfureceu-se dizendo que o Almeida era filho d'um latoeiro, e por isso occultava o teu nascimento...»

Fernando, n'este ponto, machucou a carta na mão direita, e atirou-a aos pés.

 

RESPOSTA

 

«Minha senhora.

«Não mentiram ao pae de vossa excellencia. Sou filho d'um sapateiro, e d'uma colchoeira. Meu pae está ganhando o pão que me sustenta, e vendendo as suas economias para suprir ás despezas que o seu trabalho não alcança. O sapateiro foi a Londres, é certo; mas não foi visitar-me, como vossa excellencia presume: foi pedir-me que voltasse á pobre casa, onde minha boa mãe me chamava para me abraçar antes de morrer. Ensurdeci ao chamamento de minha mãe, e não vi as lagrimas de meu pae. Vossa excellencia tinha-me levado ouvidos e olhos, deixando-me no coração apenas a fibra do remorso de ser mau filho.

«Humilho-me diante de vossa excellencia, não como filho do sapateiro, mas avergado pelo arrependimento de lhe ter occultado a minha humilde origem. Foi o coração que me trahiu, dizendo-me que para vossa excellencia era cousa de nenhuma significação o meu nascimento. Penso que devo ser desculpado d'esta falta: seria grande extranheza andar eu divulgando o meu nascimento. Eu tinha estado em França, e vira ministros sahirem das officinas: e o mundo respeitava-os pela honra dos paes, e por sua elevação com esforços proprios. Tudo me induziu, não a esquecer-me de que meu pae era sapateiro, mas a presumir que me era licito com minhas acções continuar a ser honrado como meu pae, sendo certo, minha senhora, que eu nunca ousei suppôr que meu pae carecia de minhas virtudes para se dar nobreza de si.

«Faz-me pena o desgosto de vossa excellencia quando esta carta estiver lendo!

«O que a senhora D. Paulina de Briteiros tem soffrido por minha causa! Que mal empregados sacrificios!

«Não foi a mão de Deus que a susteve á borda do abysmo, minha senhora? Que immensa vergonha e agonia devia ser a sua, se vossa excellencia a esta hora fosse minha mulher?! Que torturas irremediaveis! Como havia dizer-lhe eu em Portugal o nome de meu pae?

«Nunca pensára n'isto!... Agora me parece incrivel que não pensasse!

«Escrevo-lhe com quanta quietação de espirito se póde, minha senhora. O coração está esmagado. Matou-o a vergonha de ter pulsado em tão baixo peito, vergonha que eu confesso sentir diante da sombra de vossa excellencia, agora, e sempre.

«Veja que horrivel organisação social esta, senhora D. Paulina! Diga vossa excellencia em sua intima e clara razão, se eu merecia ser vilipendiado por meu nascimento, emquanto não praticasse alguma acção infamante! que mal fiz eu á sociedade em ter nascido de operarios?... Desculpe-me vossa excellencia estas perguntas vans, desordenadas e indignas da sua attenção.

«N'este momento vou queimar as cartas de vossa excellencia, menos d'esta ultima a pagina em que, por suas mãos, a Providencia me ministra uma lição, que me póde ainda levantar diante de mim mesmo.

«De novo lhe rogo me perdôe, no silencio de sua consciencia, porque as suas palavras já não poderei vê-las escriptas. Subscrevo-me, com quanto respeito me inspiram suas virtudes, creado de vossa excellencia

«Fernando Gomes.»

 

Almeida tinha saído com o ministro para o Aranjuez, para voltar quatro dias depois. Fernando queimou as cartas de Paulina, lendo as primeiras de Florença, quanto as lagrimas lh'o consentiam. Enfardou o seu fato. Comprou passagem na primeira diligencia em direcção á fronteira de Portugal, e mandou entregar a sua ultima carta a Paulina, ao embarcar-se na locomotiva.

Almeida, recolhendo do Aranjuez, encontrou este conciso escripto:

 

«Vou vêr o pobre artista, e a pobre companheira do artista, que não tem culpa dos meus infortunios.

«Com as mãos erguidas te rogo que não digas a alguem o meu destino.

«Terás as minhas cartas regularmente, em quanto viver.

«Graças, meu amigo, pelo coração de irmão que me déste. A recompensa é este chorar que me tolhe poder escrever-te mais. São as ultimas lagrimas do teu Fernando.»