Agulha em Palheiro

Camilo Castelo Branco · Capítulo 3 de 23

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Agulha em Palheiro

Capítulo III

—Eu me applicarei para ganhar tempo. Não lhe dê isso cuidado, meu pae.

—E queres ser sapateiro?

—Serei...

Como este foi dito! Que livro eu tenho debaixo d'aquella

palavra! Que volume de psycologia, de physiologia de coração, de philosophia transcendental, de tudo quanto ha ahi attinente ao homem, eu era capaz de extrahir d'aquelle ! Da accentuação

que Francisco Lorenço deu á palavra sapateiro, tambem podia formar-se outro volume psycologico, physiologico, um tractado completo do espirito homem em todas as suas variantes desde a sinceridade do santo, até á ironia do demonio de Goëthe, que era o mais argucioso e ironico argumentador, que o inferno cá mandou, depois dos enviados que prégaram a distincção entre homem e homem!

 

III

Aquelle dia e o seguinte passaram em indecisões do pae e do filho. Fernando esperava as ordens, sem ousar abrir um livro. A pobre mãe andava, de um para outro, a negociar a reconciliação: ao marido dizia que Fernando não podia nem devia retroceder: ao filho prégava-lhe sermões de paciencia para tolerar os ditos dos companheiros de aula, e ter bastante vaidade de ser filho de um operario honrado. O certo é que Maria com os seus sermões conseguiu revirar o animo do filho a tal ponto, que o moço, olhou em si, e viu-se ridiculo por dar tamanho pêso ás chufas dos condiscipulos.

O que a mulher quer, Deus quer: é o titulo de um livro francez, que póde ser um proverbio em todas as linguas. Francisco Lourenço, com os seus assomos de louvavel dignidade, ia transtornando a carreira do filho, tão de longe pensada e afagada; ora Maria Luciana, em termos brandos, com o imperio de lagrimas, com aquelle feminil despotismo que tudo amolga e dobra, mais cedo do que devia esperar-se, reduziu o filho á rasão e consciencia de verdadeiros brios.

Não contente ainda, levou Fernando a pedir perdão ao pae de o ter magoado com as suas vaidosas queixas, promettendo honrar-se em confessar por si mesmo, e com orgulho, o officio de seu pae.

Francisco Lourenço resurgiu do seu quebranto, chorou mais doces lagrimas, e perguntou a Fernando se elle queria ir logo para Coimbra, e concluir lá os estudos preparatorios.

Fernando mostrou desejos de ir, e logo os satisfez.

Não comprehendia a mãe como pudesse ir sósinho, por esse mundo além, um menino de dezesete annos! Queria acompanhal-o, estar lá algum mez a ordenar-lhe a casa, ou esquadrinhar familia que lh'o recebesse e tratasse. Fernando, já sciente do que era vida de estudante, dissuadiu a mãe do seu proposito, e prometteu regular-se de modo que nem o desaconchego o molestasse, nem seus paes se arrependessem de o deixarem ir entregue a si mesmo.

Fernando tomou casa em Coimbra, e viveu sósinho, e arredado de todo o concurso de academicos. Esta soledade não era de genio nem gosto. Embora tivesse elle dito que se honraria de confessar cujo filho era, manda a minha fidelidade de historiador asseverar, que o moço se esquivava dos condiscipulos folgasãos para forrar-se á contrafeita honra de se apregoar filho d'um sapateiro.

Poucos dias depois de sua estada em Coimbra, organisou-se o batalhão academico para ter parte na guerra da restauração. Fernando Gomes alistou-se sem licença de seu pae. A bandeira hasteada era a da liberdade. As doutrinas proclamadas eram as da egualdade. O filho do artista sympathisava com a causa ventilada desde 1820. Ouvira desde creança citar os egregios nomes de Ferreira Borges e Fernandes Thomaz, arvores frondosas de civilisação, regadas com o sangue de Gomes Freire, e de outros martyres iniciados da revolução. Execrava as forcas hasteadas no Porto, tres annos antes, e em Lisboa, para o supplicio dos academicos. Além de tudo, acorçoava-se do intimo rancor que votava a fidalgos, por ter sido victima dos escarneos d'elles nas aulas de Lisboa. Sobejava-lhe causa a justificar o enthusiasmo com que pediu uma espingarda, e, primeiro que nenhum, se fardou, e impacientou com a demora da primeira batalha.

Maria Luciana, quando tal soube, quiz ir em cata do filho: o marido antecipou-a no intento, e foi a Coimbra. O batalhão academico ia já marchando caminho do Porto. Francisco Lourenço retrocedeu para Lisboa, cogitando em mandar soccorros a Fernando.

Devemos conjecturar, sem receio de erro, que o desembarque do libertador no Mindello fôra saudado de todo o coração do amigo de Bocage. Francisco Lourenço, com quanto arredado da phalange dos poetas mortos no começo d'este seculo, embriagou-se no ambiente d'elles, e bebeu a sorvos a liberdade nos hymnos propheticos dos timidos evangelisadores, que a não viram, senão ao longe na inundação sanguinea da França, e nas victorias de Bonaparte, que abrazavam allumiando ao mesmo tempo. Bocage devia de muitas vezes romper em apostrophes contra os frades que o viam amansado nos carceres da inquisição, e nos cubiculos conventuaes. Póde ser que o humilde amigo do poeta, em expansivas horas, merecesse a confidencia das amarguras que ennoitaram o melhor da vida do alquebrado espirito de Elmano. Se isto não bastasse a acrisolar o coração do homem do povo, quer-me parecer que o velho odio a José Agostinho de Macedo—energumeno panegyrista das forcas—bastaria a fazer d'elle um acerrimo malhado.

Em quanto a mim, Francisco Lourenço abençoara secretamente a deliberação de Fernando; e, se foi a Coimbra, o intento de tal ida por certo não era estorvar-lhe o ir onde o melhor da mocidade academica levava suas forças de alma, e o prestigio da intelligencia, com que muito se move e reanima a força material das massas. Póde ser que o artista levasse recheadas as algibeiras de peças para fornecer o moço, e preparal-o para as contingencias de emigração. Esta hypothese dá em certeza, quando vemos Francisco Lourenço empenhado com uma casa mercantil ingleza para fazer chegar ás mãos do filho avultada quantia, que o moço recebeu com alegres hymnos á liberdade ... e ao dinheiro tambem.

Fernando Gomes, em todos os recontros com o inimigo, deu provas de grande e imprudente coragem. Foi duas vezes ferido, e muitas vezes obrigado por disciplina a retirar do fogo. N'aquellas vertigens de bravura, que tanto pódem ser desprezo da vida, como culposa ambição de gloria, nenhuma consideração de obediencia o retinha em seu posto. Lá, os camaradas, denominavam-n'o o pequeno diabo, termos que se conformavam com a pequenez e magreza do seu corpo. O imperador já o conhecia de vista e de nome: muito fôra preciso para realçar entre tantos bravos, saídos dos bancos escolares, e quasi todos a competirem em intrepidez com José Estevão de Magalhães, aquella vivida lampada que ainda hontem se apagou no altar da patria, se é que das cinzas d'elle a arvore da liberdade não tem sempre de haurir seiva para reflorescimentos novos.

Terminada a guerra nas provincias do norte, Fernando Gomes, condecorado com o habito da Torre e Espada, foi a Lisboa abraçar sua familia, e seguir as manobras do exercito que rebatia o assedio de Lisboa.

Depois da convenção de Evora-Monte, e de todo apaziguada a guerra civil, Fernando tornou para Coimbra a começar sua formatura em direito.

Proclamada a egualdade, extinctos os privilegios, rotos os diques que estancavam as prerogativas das raças nobres, e derramado o thesouro das coisas boas á vida por todos os homens indiscriminadamente, era de esperar que Fernando Gomes se désse por contente de ter nascido filho de um sapateiro, visto que o sapateiro ficava social e legalmente egualado ao titular. Tambem assim o esperava o, ha pouco, valente soldado das linhas do Porto, e, agora, desvelado e distinctissimo soldado nas lides da intelligencia!

Sublime engano!

Os seus mesmos camaradas, quer invejosos da condecoração, quer da intelligencia, uns com outros celebravam sarcasticamente os triumphos do filho do mestre Francisco Lourenço. Os conterraneos diziam que as suas melhores botas as deviam ao engenho do sapateiro-poeta da calçada do Sacramento; os provincianos, pela maior parte oriundos de uns fidalgos de meia-tigela, como lá dizem uns dos outros, não apertavam, sem repugnancia, a mão de Fernando, nem se detinham a falar com elle, quando podiam ser vistos e censurados pelos academicos de Lisboa.

Isto acontecia um anno depois da restauração dos direitos do homem! Trinta annos já rodaram sobre esse facto de ridiculas convenções, e o filho do sapateiro é ainda hoje, e o mesmo será d'aqui a cem annos, um conviva chamado pela lei a sentar-se á mesa universal; mas a lei é uma tola: lá está o fiscal d'estas universaes communhões, que tranca os cancêllos do banquete, e diz ao filho do sapateiro o que já Horacio lhe dizia: ne sutor ultra crepidam; ou tractent fabrilia fabri, que tudo quer dizer: «não se admittem sapateiros cá.»

Fernando recalcava em flagellador silencio o seu pesar. Nem mesmo a sua mãe se abria. Quando esta lhe perguntava que tratamento recebia de seus condiscipulos, o academico respondia:

—Tratam-me bem.

—Os tempos mudaram—accrescentava o pae.

—Mudaram; os homens é que não—dizia Fernando; e de salto, aventava assumpto que désse córte na conversação penosa.

Proseguiu o moço em sua formatura, e concluiu-a com ser premiado no ultimo anno, como em todos tinha sido.

Suppunha Francisco Lourenço que seu filho, notavel pelos serviços prestados á restauração, e por seus premios, fosse chamado ás funcções da republica, sem que as elle solicitasse. Decorreram mezes, sem que o correio de algum ministro batesse á porta de Francisco Lourenço a procurar da parte de seu amo o valente e intelligente bacharel.

O artista, de véras offendido de tamanha incuria, queixou-se d'isso ao filho. Fernando sorriu da boa fé e crença de seu pae, e disse-lhe que estava sinceramente arrependido de não ter renunciado ao estudo, quando chegou a descer á loja para sentar-se entre os officiaes.

Este arrependimento, sincero ou não, desgostou o pae, e toldou-lhe o rosto de tristeza inconsolavel.

Fernando foi ao Cartaxo, onde Francisco Lourenço tinha o melhor da sua livraria, comprada em nove annos com dispendiosa liberalidade de bibliómano. Como o local era triste, e a bibliotheca mui convidativa, o bacharel alli passou um anno, quasi só, raras vezes visitado por seus paes. Leu muito, leu tudo, e ardeu em desejos de ir vêr os locaes descriptos nos livros de viagens, e os monumentos perpetuados na historia. Virgilio e Dante deram-lhe o amor ás ruinas da Italia, Byron ás da Grecia, Lamartine, Chateaubriande e Volney ás do Oriente.

Pediu a seu pae moderados recursos para viajar dois ou tres annos. Francisco Lourenço, antes do filho lh'os pedir, quizera offerecer-lh'os, pesaroso de o ver assim solitario, e receioso d'algum funesto resultado em tão contumaz estudo. Deixa-lo ir, porém, custava-lhe a vida; e a estremosa mãe, quando era consultada a tal respeito, dava o seu parecer com lagrimas.

Aos rogos de Fernando nenhumas razões empeceram: Maria Luciana transigiu com o assentimento do marido.

Os recursos pedidos eram muito inferiores á liberalidade com que o pae lhe estipulou o dispendio de dois annos, confiando-lhe, afóra isso, ordens de quantias indeterminadas. Tal confiança era bem cabida no moço, que durante a guerra e a formatura, cerceara, ainda de suas mesadas, economias com que comprava livros de recreio.

Sahiu Fernando por França em direitura á Italia. Deteve-se em Roma alguns mezes, que lhe pareceram rapidos e deleitosos. Ninguem o conhecia; a ninguem procurava. Sósinho, de ruina em ruina, vivia com o passado, e dava pouquissima de sua admiração ás grandezas do presente. Conversava com Ovidio em Sulmona, com Virgilio em Mantua, e com Horacio em Tibur. Deliciavam-no mais as ruinas do theatro de Marcellus, que as pompas do Vaticano. Qualquer estatua mutilada, extrahida das escavações dos esboroados templos dos idolos, lhe tomava mais espirito e contemplação que as obras primas de Miguel Angelo.

Encontrava portuguezes emigrados n'aquellas paragens, onde D. Miguel de Bragança procurava hospitalidade á sombra da theara pontifical. O principe de Portugal, com quanto convisinhasse do Vigario de Christo, que tem as chaves do céo, não sabemos se teve fome: as chronicas contemporaneas dizem que sim. O successor de S. Pedro de certo lhe emprestaria as chaves do céo, se sua alteza quizesse para lá ir, as chaves porém, dos reaes celleiros e cofres, essas é que decerto lhe não emprestou. Os papas dão muito mais facilmente as ambrosias celestiaes, que umas sopas diarias aos principes proscriptos.

Não sei se Fernando Gomes pensava n'isto quando via o senhor D. Miguel de Bragança, e um emigrado portuguez lhe dizia que o rei não tivera com que comprar leite para o almoço d'aquelle dia. O emigrado que estas miudezas referia era um major Pacheco, que seguira o seu soberano, espontaneamente, desde o embarque até Roma. Casualmente o encontrara Fernando por lá escondido nos pardieiros da Roma dos Cezares, ou meditando nas virtudes de Tito, ou nas cruezas de Nero. Qualquer das meditações frisariam como o infante desterrado, que uns chamavam-lhe Tito, e Nero outros, posto que elle não fosse uma nem outra cousa: era apenas uma creança, quando rei; e um instrumento cego em mãos de togados infames, de prelados devassos, e de fidalgos estupidos. Desde que o raio, forjado ao fogo da civilisação e na bigorna mysteriosa do tempo, o fulminou a elle e aos seus, o filho de Bragança ficou sendo um desgraçado digno de respeito, de commiseração, e de real parentella mais compassiva e generosa.

Ora vejam em que ladeira eu ia escorregando agora: Ahi está o meu pobre romance guindado a umas alturas de transcendental politica, d'onde se lhe não acudo, o coitado vinha abaixo estoirar n'alguma estrondosa parvoiçada! E tudo isto veio assim de seu natural. Por amor d'aquelle major Pacheco de Lobrigos que Fernando Gomes topou lá n'umas ruinas do Colyseu, ou cousa assim. E insisti n'este ponto, porque eu conheci em Villa Real, ahi por 1847, este major que voltara de Roma poucos mezes antes, e andava esmolando pelo Douro, com as suas barbas apostolicas, e grandes oculos de metal branco. Depois tornei a vel-o, estendido na estrada que conduz de Villa Real a Chaves, traspassado por duas espadas, e com a cabeça fendida até aos dentes. Fôra assim espedaçado pelas hostes do conde de Vinhaes, que mais acima mandou espingardear o general miguelista Mac-Donell, a cujas ordens andava o major Pacheco.

E como quer que este ancião assim espostejado, e sepultado no adro d'um presbyterio contiguo á estrada, deixasse uma filha linda e pura como um anjo, e esta filha enlouquecesse de dôr, escrevi eu n'estes tempos uma elegia em prosa muito dorida, a qual publiquei no Nacional do Porto. Em tão má hora dei a lume este testemunho de minha compaixão por os dois infelizes, que ambos jaziam mortos, e não sei qual d'elles mais cruelmente morto, em tão má hora digo, que se pude sair vivo das garras dos sicarios, mui pouco catholico sou em me não ter pesado a cera, e converter esta cera em cirios, e adornar com estes cirios o altar das liberdades patrias!

Agora é de mais!