Agulha em Palheiro
Capítulo X
«Talvez te prendessem as memorias d'aquelle poeta que tu me lias, ha annos. Era Dante, se bem me lembro; mas eu queria que o teu coração de filho vencesse os prazeres do espirito; queria que os não esquecesses por amor da sciencia.
«Isto não são queixumes, Fernando, não são. É rabugice estar eu a ralhar comtigo porque a doença te impede de vir. O que eu te rogo, e mando, filho é que, assim que as forças t'o permittirem, venhas dar contentamento á tua boa mãe, que está muito acabadinha, e mais depressa irá ao seu fim, se desconfiar que nos esqueceste...»
A carta continuava assim por longo espaço de papel, manchado de lagrimas.
Fernando não tinha a força de alma que caracterisa os homens grandes. Estamos vezados a dar carta de grandeza a uns vermes que não teem lagrimas, nem se deixam alquebrar de vulgares contingencias da vida. O filho do artista depôz a carta, e murmurou:
—Meus queridos paes! como eu vos sacrifico sem saber a que!... Pude enganar-vos para me gosar das primicias de alguma desgraça!
E, respondendo a esta carta, escreveu aquella em que transluzia a muita acerba previdencia do seu futuro, com phrases incongruentes, e por virtude da qual Francisco Lourenço se fizera no caminho de Napoles.
X
O marquez de Tavira...
—Temos gente nova na historia?
—É verdade, leitor. Chegou agora mesmo de Roma e Florença o marquez de Tavira, aulico da côrte do proscripto, emigrado desde a convenção, do primeiro sangue de Portugal, sujeito de quarenta annos bem conservados, que parecem trinta, arruinado desde o seu setimo avô, mas ainda rico de umas riquezas inexauriveis de fidalgos portuguezes velhos—a gente de mais industria e artimanhas que eu conheço—não desfazendo nos fidalgos portuguezes novos, que estes, para se esquivarem á arguição de terem avós, avós arruinados, começam por não terem avós, e renegam os paes como logicos que são. Este periodo é de abafar!
O marquez de Tavira hospedou-se em casa de Bartholo de Briteiros. Não se viam desde 1832. Conheciam-se do paço, tratavam-se de tu, e tinham rapaziadas communs, posto que Bartholo se lhe avantajasse em onze annos.
Mania fôra sempre de Briteiros aparentar-se com Cogominhos de Tavira. O marquez dizia que seu avô falava no parentesco dos Briteiros da casa de Robordochão; e, dito isto, regularmente pedia a Bartholo dinheiro, e Bartholo dava dinheiro ao primo marquez, que era expansivo, quando embriagado; e embriagado nas orgias de Queluz, Salvaterra e Alfeite, costumava rir de Bartholo de Robordochão, que dava metal amarello a troco de sangue azul.
O marquez, desde a convenção em que largara a espada de coronel de artilheria, vagueara por França e Belgica, destroçando o restante do patrimonio vendido pelo terço do valor. Depois fôra a Allemanha em cata do senhor D. Miguel de Bragança; e, como encontrasse pobre o real exilado, invocou o seu inquebrantavel espirito e aproou para Florença, onde o chamava a pascacice do primo Bartholo de Briteiros.
O acolhimento frizou com as melhores esperanças.
O marquez teve logo, e muito rogado a possui-los, bellos aposentos, dinheiro a granel, optima convivencia de duas meninas, que o festejavam com franqueza de primas, e as melhores relações de Florença.
Este incídente coincidiu com aquellas tristezas e alegrias de Fernando Gomes, na manhã em que fechava uma carta para Paulina, e abria outra de seu pae.
Bartholo, sedento de noticias, enguliu quantas mirificas pêtas o marquez inventou, concernentes a restaurar D. Miguel no throno. No dizer do industrioso hospede, a Russia estava a disciplinar-se para talar a Europa, e passar o rôdo sobre as corôas usurpadas. O ex-ministro da Alçada, como bebesse mais alguns calices de champagne, no auge de sua alegria gosou-se de visões deliciosas, entre as quaes, se a conjectura me é fiel, avultavam uns triangulos do caes do Sodré, e umas lavaredas do Campo de Sant'Anna. Bartholo quiz pôr luminarias; mas o marquez dissuadiu-o d'uma virtude, que pareceria ridicula a olhos extranhos: a virtude das luminarias!
Passeava, ás seis horas da tarde d'aquelle dia, Fernando na praça do Dome. Paulina estava na janella. Passados momentos recolheu-se, e reappareceu com uma creada. Fernando comprehendeu, e avisinhou-se. Paulina apontou para o muro do jardim, e sahiu da janella.
Caminhou o moço, rente com a parede, e viu a creada debruçada no peitoril d'um caramanchão angular do jardim. Atirou-lhe a carta, e apanhou um bilhete que ella ao mesmo tempo deixara cahir, com uma saudade, flôr que, em parte alguma, tem o nome suave que portuguezes lhe dão.
Dizia o bilhete:
«Ámanhã vamos para Piza, onde temos de passar alguns dias. Vae comnosco o primo marquez de Tavira, que chegou hoje de Roma. Se não fosse o medo e os conselhos da mana Eugenia, pedia-lhe que se fizesse encontrado comnosco. Seria temeridade? Eu lerei muitas vezes a sua carta, sempre que puder fugir á vigilancia de meu pae. São tres dias: paciencia! Mando-lhe uma flôr, que me faz lembrar as da nossa patria... Ainda nos veremos lá, Fernando?...»
Seria temeridade? Este modo de perguntar, esta duvida em que Paulina ficava, teve Fernando na perplexidade de minutos em que o coração usa demorar as suas decisões. A ida do marquez com ella para Piza, o primo marquez, tres dias de ausencia com o primo marquez... Este primo marquez foi quem deu um empurrão em Fernando, pela porta fóra de Florença, caminho de Piza. Seria temeridade? seria; mas o contrario, o ficar, o estar tres dias sem ve-la ainda mesmo que o primo marquez não fosse, isso é que seria pusillanimidade, juizo de mais, excesso que mulheres amantes consideram coração de menos.
Fernando viu Bartholo e o marquez, com as duas meninas, entrarem na caleche. O de Tavira sentou-se em frente de Paulina. O filho do artista esperou que a locomotiva passasse rente por elle, e fitou o fidalgo, emquanto Paulina ia de rosto voltado para ve-lo. Seria já o ciume que lhe afuzilava nos olhos? O primo convencional dos Briteiros era, como já disse, um rapaz de quarenta annos, um gentil rapaz, quanto se póde se-lo, com um fardo de quasi meio seculo no espinhaço. As barbas intensas, nitidas, e negras, os longos cabellos á Saint-Simon, o porte soberbo, as fórmas fidalgas e significativas de destreza e força, as faces ainda rosadas, eram predicados de assustarem um amante de compleição doentia, poucas carnes, estatura mediana, ar e olhar timorato, e outros attributos de que os authores de novellas nunca revestem os personagens fataes, ditos leões.
Assim que a serpe do ciume o mordeu, não havia já consideração que lhe estorvasse o passo. Fernando partiu para Piza, curta jornada de algumas horas. Passou na piazza del Calvalieri, para esperar, n'aquelle centro da celebrada cidade, a passagem da familia. Em que monumentos iria elle procurar Paulina? Áquella hora, a illustre familia de Portugal estava em casa da opulenta ingleza Smith, cujo palacio nas margens do Arno abria seus salões na noite d'aquelle dia. A que parte iria o triste moço, mais triste na soledade da terra estranha, onde elle, como de si dizia Méry, se julgava, ao meio dia, o locatario unico de uma grande cidade? Foi ao Campo santo, vasto jazigo dos que morreram lidando na conquista do sepulcro de Jesus Christo. Seria aquelle o local mais ajustado á sua dôr? Os tristes sem consolação, como que refugiados da vida, se travam em mysticas confidencias com as cinzas dos que passaram seu dia chorando e, alli enxugaram as ultimas lagrimas no lençol humido da leiva.
Ao entrar no cemiterio, Fernando recordou as palavras d'um illustre viajante, que tambem lá fôra a recobrar-se de alentos para arcar com a desventura do seu curto dia:
«O Campo santo exhala poesia de morte, a poesia do nada, a poesia da immortalidade. Este é o verdadeiro cemiterio do christão: não se sente aqui a constricção d'alma que nos causa o tumulo do homem, suave e religiosa melancholia vae comvosco por entre as quatro galerias funebres, e vos inspira pensares de morte sem pavor. Este torrão não se desentranha em ossadas, nem o verme corroe as carnes: é terra milagrosa que preserva os corpos do insulto das herpes. Envolve-se em magnifico lençol de relvados floridos; inquadra-se em puras e graciosas ogivas do marmore alvissimo: é terra de Jerusalem sobre as galerias travadas; os cadaveres dos velhos christãos de Piza estão aqui santificados; é o leito de descanço dos homens fortes, que morreram em Deus, com a espada á ilharga e os rins ciliciados. Quão suave é este ciciar da relva que ressoa ao longo das galerias! Cuidaes ouvir psalmodia entoada por sombras, hymno de sepulcros escripto em linguagem, que, só depois da morte conheceremos.»
Mas não era cemiterio remanso ao soffrimento do moço. Ancias de coração não as suavisa a philosophia da morte. Aquillo serve para os que, n'outro ponto, deixaram fechada a sepultura de suas esperanças.
Passou arrastado o dia, sem que Fernando encontrasse vestigios de Paulina. Na manhã do seguinte dirigiu-se á praça onde se ergue a famosa torre torta, que o leitor tem visto pintada, e que o marquez de Tavira queria ver, mais que tudo. De feito, estavam o curioso emigrado e Bartholo e as meninas ao pé da maravilha, quando Fernando assombrou n'um angulo da praça.
Foi Paulina quem primeiro o viu, e trocou olhares de susto com Eugenia. Bartholo de Briteiros, que já muitas vezes admirara a inclinação mysteriosa da torre, estava mais attento nos palacios da praça, e, de relance, viu parado o portuguez.
—Aquelle não é o Fernando Gomes?!—disse elle ás filhas.
—Parece...—balbuciou Paulina.
—Quem?—disse o marquez.
—Aquelle patricio em que eu te falei, primo Tavira.
—Ah! o mindeleiro?—tornou o primo.
—Tal qual.
—Sempre lhe quero ver o bellicoso aspeito! Ainda não vi um dos sete mil e quinhentos roldões do Mindello—tornou o marquez, dando a saber que tinha sua tal qual instrucção do Carlos Magno.
Fernando, posto que tarde, simulou que não vira Bartholo, e foi indo lentamente seu caminho.
O fidalgo deixou as meninas com o marquez, e atravessou a praça, estugando o passo, para se avisinhar a distancia que elle o ouvisse chamar.
—Sr. Fernando! clamou Bartholo—patricio! vae tão meditabundo! Parece que receia que a torre venha abaixo?!
Fernando olhou com bem fingida surpreza, e retrocedeu a comprimentar o fidalgo.
—Então por aqui!—disse o pae de Paulina.—Acolá estão as meninas, e meu primo o marquez de Tavira, chegado hontem de Roma. Venha cá, se quer conhecer um dos primeiros fidalgos de Portugal.
—Com muito prazer irei comprimentar um primo de vossa excellencia—disse Fernando.
—Aqui está o senhor Gomes—disse Bartholo ao fidalgo—filho de Lisboa, bacharel em direito, e bom rapaz, posto que mordeu muito cartucho nas linhas do Porto, na qualidade de soldado do batalhão academico, e é, aqui onde o vê, cavalleiro da torre e espada, valor, lealdade e merito!...
O sorriso, que envenenava estas palavras, queimou o sangue do filho do artista. Paulina tinha os olhos fitos n'elle, olhos de dôr e compuncção. Se Fernando os visse, daria graças a Deus pela angustia que lhe era premiada com a maviosa paixão d'elles.
O marquez gesticulou ligeiramente um cortejo de cabeça, e disse:
—Consta-me que em Portugal é toda a gente condecorada por façanhas das linhas do Porto!
—Toda a gente, não, senhor marquez—disse Fernando.—Ás linhas do Porto não foi toda a gente, mas todos quantos lá estiveram mereciam bem a condecoração de valor, lealdade e merito.
O legitimista desfranziu um riso de compassivo escarneo, e disse:
—Em quanto a valor, o general Povoas que o diga, se os valorosos o não querem dizer. Em quanto a lealdade, bem se sabe qual foi a lealdade dos bravos que apedrejaram com patacos D. Pedro no theatro, e mataram Agostinho José Freire nas ruas de Lisboa. Em quanto a merito, isso agora é uma questão de barriga: a barriga de cada um é que diz o merito de cada qual...
Fernando olhou de revez o marquez, e disse a Bartholo:
—Vossa excellencia continúa a admirar a torre, e eu vou dar as voltas que preciso, antes de recolher-me a Florença.
O marquez ficou mais que muito corrido d'este ar de desprezo com que Fernando replicou aos seus dizeres, que elle imaginou não só irrespondiveis, mas capazes de atirar a terra com os creditos de uma politica. Bartholo tambem se desgostou do menos preço com que o quidam tratava seu primo, e não teve mão da sua zanga, exclamando:
—Então não tem resposta o que alli disse meu primo?!
—Não, senhor—disse Fernando Gomes.—Dá-me sua excellencia as suas ordens?
—Passe muito bem, senhor Gomes—disse Bartholo, chofrado.
Paulina e Eugenia corresponderam ao comprimento reverencioso de Fernando. Paulina sentia-se contente, soberba da dignidade d'aquelle moço; Eugenia, porém, doía-se da quebra de brios que soffrera o primo, temia que a ira do pae resultasse desgosto á irmã, e anteviu a impossibilidade de nunca mais os dois se approximarem, sem aberta declaração de guerra com o pae.
—Este sujeito—disse, azedado, o de Tavira—quem é lá na sua terra?
—Eu sei cá? É o senhor Fernando Gomes; tal m'o apresentou Jeronymo Bonaparte! Estes Bonapartes, que se fizeram reis mais depressa que os reis do theatro do Salitre e da rua dos Condes, impingem á gente com titulo de notabilidades quantos patavinas os visitam no desterro! Qualquer pintor, esculptor, ou poeta, em casa do principe de Monfort é egual aos duques, e tem uma cadeira ao lado dos principes. Quem lá vae tem de apertar a mão ao pianista Sampieri, ao cantor Tachinardi, á cantora Degli-Antoni, ao poeta Méry, ao pintor Vernet, ao esculptor Bartolini, e ao senhor Fernando Gomes, que, no dizer do ex-rei de Westphalia, é um enorme sabio. Aqui tens tu, primo marquez, como eu conheci o senhor Gomes. Dei-lhe uma vez entrada em minha casa, porque me pareceu humilde o sujeito: agora descobri que elle tem seus fumos de orgulho!...
—Não se me dava de lhe abater a prôa!—atalhou o marquez.— Queria ver se estes valentões do Mindello sustentam a fama cá fóra das linhas...
Bartholo riu-se, e Paulina olhou em rosto o primo com visivel gesto de despeito.
—Porque?!—disse ella, com mal represada ira.
—Paulina!—murmurou-lhe Eugenia ao ouvido.
Bartholo não dera conta d'este incidente, e o marquez, quando ia esclarecer a significação do gesto extranho de sua prima, viu que ella voltava o rosto, e se encobria com as franjas da sombrinha.
—Querem ver que ella ama o tal sujeito?!—disse o marquez entre si, e differiu para mais ao diante a elucidação d'esta importante suspeita.
No dia seguinte a familia voltou para Florença.
Fernando já tinha ido.
Ás affrontosas palavras do marquez de sobra respondera o silencioso desprezo do filho do artista: não obstante, o tom injurioso alanceara-lhe muito dentro o coração, por ter sido Paulina testemunha da zombaria.