Agulha em Palheiro
Capítulo XVII
—Diz bem...—repetiu Bartholo de Briteiros, que, segundo minha opinião, percebeu levemente o interlocutor.
XVII
Almeida foi apresentado ao conde de Rohan, que se envolvera na bandeira franceza, logo que houve noticia do descobrimento da projectada fuga.
Para honra da França, diremos que o descendente do famoso cardeal, quando recebeu o pacote de Eugenia, se bem que o achou pesado, não cuidou que levava metade das joias e brilhantes. A mim, porém, me quer parecer que o illustre conde não faria caramunhas de mau gosto, quando a menina lhe mostrasse os aderesses de ricas pedras. A França, n'isto e em tudo, vae na dianteira dos espiritos. A virtude, lá, é cousa tão contingente, que chega a não ser regra. Menina que foge, não perde aos olhos do seu raptor, nem o tribunal do mundo se entoga com gravidade de juiz para cousa tão futil. O conde de Rohan pensava muito em descobrir Eugenia, e pouquissimo nos brilhantes, quando o cavalheiro d'Almeida lhe foi apresentado pelo benevolo embaixador francez, amigo de ambos.
Contou o secretario os successos decorridos, e a convenção, pouco segura, mas preparatoria para bom resultado, que fizera com Bartholo de Briteiros. O francez, approvando tudo com palavras de muito reconhecimento, pediu a Almeida a grande mercê de ser o apresentante dos brilhantes e dos seus respeitos ao fidalgo de Portugal. Estes respeitos, associados aos brilhantes, fizeram que o secretario notasse a superioridade do espirito da França sobre o de Portugal. Em quanto Fernando se estava n'aquellas lamurias e quebrantos, o conde de Rohan, fumando um perfumado charuto de Havana, com a chavena de chocolate ao lado, sorria mui placidamente, ao passo que o informador contava os acontecimentos occorridos; e, com quanta graça mesureira tinha de seus placidos modos, enviou ao fidalgo portuguez (hidalgo, disse elle) os seus brilhantes e os respeitos d'elle.
—Em quanto á minha boa Eugenia—accrescentou o conde—terá o cavalheiro a benevolencia de lhe asseverar que eu sou sempre o mesmo homem, submisso escravo das suas vontades.
Com tão boas novas, correu Almeida a sua casa.
As noticias foram gratas a todos, posto que Paulina por palavras não denotasse a satisfação intima, que sentira. Póde deduzir-se, sem desairar a menina, que as amarguras de Fernando, aquellas exuberancias de dignidade, o muito falar na honra de seu nome, agradaram mediocremente á filha de Bartholo. Perguntei a differentes senhoras, differentes em temperamento, se o despeito de Paulina seria justo. Com muita magua de meu coração ouvi resposta, unanime de todas—que Paulina tinha razão; que Fernando encerrava nas arterias agua chilra; que um homem, assim apontado em subtilezas de honra, poderá ser um bom guarda-livros, um bom mordomo d'uma casa, mas que ha de sempre ser um amante glacial.
Fiquei suspenso, e prometti refutar semelhantes despropositos, quando escrevesse este romance. Desisto da tenção formada.
Antes quero que o leitor discuta e abysme as senhoras que injuriaram o pobre moço, e acharam extrema graça e galhardia de animo no conde de Rohan.
Entretanto, Paulina, ao despedir-se de Fernando, abraçou-o com exterioridades de muito affecto, e pediu-lhe que não chorasse, accrescentando:
—Tu podes contar sempre comigo, Fernando. Esperanças de que meu pae consinta no casamento, não levo nenhuma; mas se tu entenderes que, por meios da justiça, podemos conseguir os nossos desejos, tão desgraçadamente contrariados quando eu me julgava e te julgava feliz, estou prompta a requerer.
Notem a frialdade d'esta linguagem! Fernando, Eugenia e Almeida todos a notaram. Elle, porém, beijou-lhe a mão, e disse:
—Vae, minha amiga, e esquece-me, se quizeres e poderes. O que nunca poderás esquecer é que o homem, que te não servia para o coração, tinha alguma boa qualidade que ha de eternamente viver em tua memoria. Antes esquecido por ti, que deshonrado por amor de ti, Paulina.
Sobreveiu o secretario com reflexões tendentes a conciliar os animos despeitados dos dois tão amantes, tão doidos de alegria, algumas horas antes; e agora, a separarem-se, com a desconfiança n'alma, a desconfiança que é quasi sempre a doença morta do coração!
Paulina desceu, chorando, encostada ao braço de Almeida.
O filho do artista lembrou-se, n'este acerbo momento, de sua mãe, porque teve precisão de orar, e quem lhe ensinara a oração fôra sua mãe.
Deixemo-lo orar e chorar. Preces e lagrimas assim, os anjos as levam ao Senhor. Áquellas almas disse Jesus: «pedi, e sereis attendidas.»
Os que dão cegamente sua alma a quem a não merece, e rogam a Deus o resgate d'ella, sentem-se livres.
Os que vão de rastros e quasi moribundos sob o pé da injustiça humana, oram, e recobram uma força, que é insulto á covardia dos fortes. Deixa-los chorar e orar.
Deus lhes mostrará os balsamos das urnas que ahi estão a desbordar desde que o Homem-divino perdoou aos que o matavam por ignorancia. Porque não hão de perdoar estes homens de barro á cafila de farizeus que os não entendem?
Da cafila de farizeus exceptuo Paulina de Briteiros. Se eu não podesse estrema-la, rasgava aqui estas paginas, e queimava os apontamentos, para que nenhum collega meu d'este maldito officio saísse alguma vez a lume com a historia d'uma linda mulher com alma tão feia!
Paulina e Eugenia entraram nos seus aposentos, sem verem o pae.
O secretario foi ao quarto de Bartholo entregar a outra porção de brilhantes, e continuar sua missão de conciliador e conselheiro.
O fidalgo denotava boas intenções, em quanto ao conde de Rohan. De Fernando Gomes disse, á terceira pergunta, que havia de pensar no melhor modo de se realisarem os desejos de sua filha.
As meninas passaram aquelle dia sem leve incommodo de sua saude, nem accessos de lagrimas que mereçam chronica. Doe-me ter de dizer que, ahi por fins da tarde, riram com as creadas da figura que ellas deviam fazer, quando saltaram á carroagem, desgrenhadas, com os capuzes das capas encarapuçados á laia de feiticeiras. Esta frivolidade de espirito feminil é cousa tão vulgar, que eu peço á leitora que não levante a pedra, e deixe ir as cousas em paz, como Christo mandou ir uma peccadora.
No dia seguinte Fernando Gomes, instado por seu amigo, saíu com elle em carroagem. Passearam até á ponte de Segovia, e apearam na praça do Sol, onde o secretario havia de cumprir ordens do ministro.
O acaso encaminhara para alli o marquez de Tavira, que trazia o espirito encavalgado por um dragão.
Viram-se e reconheceram-se.
O marquez, cego de sua raiva, parou em frente de Fernando, e disse a brados que muita gente ouviu:
—Ainda tem a pouca vergonha de se mostrar nas praças um biltre que seduz filhas-familias a roubarem seus paes!
Se o periodo fosse mais comprido, morria incompleto na garganta do marquez. O filho de Francisco Lourenço engriphou os dedos com sanha felina. O rancor, brutalisando o homem, parece que lhe dá parecenças com a fera, cuja sanha imita! As dez unhas de Fernando faziam espirrar o sangue gothico do marquez, que escabujava como o Lacoonte de Virgilio nas roscas das serpentes. Cairam ambos de modo que o de Tavira foi fender o occipital no eixo d'uma carroagem, cujo dono fizera alto para disfructar a lucta.
Almeida estava, poucos passos distante, observando o desenlace, que o enchia de jubilo. O marquez, ensanguentado, coberto de lama, e quasi desaccordado, nem de leve se boliu, quando Fernando desencravou as unhas. Approximou-se Almeida, e offereceu ao fidalgo a sua carroagem para conduzi-lo onde quizesse. O soberbo de sua miseria respondeu com uma insolencia, e retirou-se com respeitosa, mas curiosa cauda de gaiatos, testemunhas pertinazes e minudenciosas de todos os conflictos magnificos.
Constou ao secretario que o marquez saíra, no seguinte dia, de Madrid, com direcção a Portugal, onde a presença do convencionado não incommodava ninguem. Parece que Bartholo de Briteiros lhe emprestara dinheiro com que elle podesse na patria sustentar a antiga ociosidade e dissipação de seus avós. E, como não sei se virá de molde lembrar o nome d'este sujeito no decurso da novella, fique o leitor sabendo que o marquez de Tavira, depois de residir em Lisboa alguns mezes, fez-se um liberal rasgado, ou roto, como quizerem, e conseguiu ser nomeado ministro n'uma das côrtes da Europa, e mais tarde governador dos estados da India, d'onde veiu, já muito na flôr dos sessenta annos, casar em Portugal, onde está rico e honrado.
Paulina, sabedora da derrota que soffrera o primo marquez, sentiu uma satisfação que eu sinceramente lhe não louvo, e ao mesmo tempo um accrescimo de estima por Fernando, estima que eu não posso attribuir ao coração. Estas anomalias que a moral reprova e a animalogia desentende, são uns geitos de mulher que avisadamente não discuto. São assim. Deus as faça melhores ou peores, de modo, porém, que fiquem mais decifraveis e intelligiveis.
Bartholo, como é bem de ver, ficou raivoso contra Fernando Gomes, e esteve uma noite toda a scismar no modo menos estrondoso de se desfazer d'aquelle inimigo. Ponderou o malvado intento de lhe comprar a vida; mas occorria-lhe que em Madrid era difficil e arriscado andar em cata de um sicario destro e fiel. Desanimou: mas jurou que sua filha Paulina havia de morrer n'um convento, se teimasse em querer casar com o facinoroso.
Este successo apressou o casamento de Eugenia com o conde de Rohan. O fidalgo colheu informações, que condisseram exactamente com as do secretario, mas muito por miudo. O conde era oriundo dos primeiros soberanos da Bretanha, condes de Porrhoit, viscondes de Rennes, por Alain I, quarto filho de Eudon, que vivia no seculo X. D'esta nobilissima stirpe procediam os duques de Rohan, com esta legenda no escudo: ,
, R .
Á vista d'isto, e do mais que deixo á averiguação dos genealogicos, Bartholo de Briteiros deu Eugenia ao conde, liberalmente dotada, e resolveu ir viver em Paris no inverno, e n'um dos castellos da Bretanha, no verão, em companhia de seu genro.
O velho principiava assim a vingar-se de Fernando Gomes.
No jantar nupcial, ao qual assistiram titulares hespanhoes, e a diplomacia dos differentes estados, Bartholo de Briteiros, n'um brinde que propôz a seu genro, disse em remate do discurso: