Agulha em Palheiro
Capítulo XX
DE HYPOLITO DE ALMEIDA A FERNANDO GOMES
Madrid, 3 de setembro de 1842.
«Meu Fernando, não espero a tua resposta para te escrever. Tenho só tempo de participar-te que Paulina entrou hoje n'um convento, contra a vontade do pae. O conde de Rohan suppõe que és tu a causa d'este successo. Bartholo suppõe que a filha se enclausurou para de lá requerer casamento comtigo. Elles e eu andamos litteralmente ás aranhas. Ella e tu sois os ferrolhos do mysterio. Sae a mala. Adeus.
Almeida.»
DO MESMO AO MESMO
Madrid, 12 de setembro de 1842.
«Viva Deus! que quebraste os sete cadeados do cofre! Vi o altissimo quilate do oiro da tua honra. Já o conhecia.
«Estas linhas deviam magoar-te; mas não justificam a fuga, e menos ainda o desprezo. Não é desprezo o que sentes por ella; mas, seja o que fôr os effeitos são analogos.
«Paulina, como já deves saber, vive no convento das Therezinhas. Consta-me, de informações exactas, que Paulina está n'um consternador abatimento de espirito. Raro se deixa vêr e apenas sáe da cella para receber, na grade, a visita do conde ou do pae. Eugenia entra no convento, e passa muitas horas com ella; mas nem assim lhe arranca o essencial motivo do rompimento e reclusão.
«Bartholo tem providenciado para o caso de haver deposito judicial. Realisa-se o que eu te havia dito. Sei que de antemão, e por hypothese, já estão alugados os juizes.
«Eugenia pediu-me hontem um encontro no Prado. Insistiu comigo para eu lhe descobrir a tua residencia. Inutil. Jura que Paulina te ama até se deixar morrer, para assim pelo remorso se vingar da tua ingratidão. Estive, sem receio de quebrantar minha palavra, quasi a mostrar-lhe a copia da pagina da ultima carta da irmã. Desisti, por me não parecer, ainda assim, justificavel o teu procedimento, e tambem para respeitar o sigillo de Paulina. Ella, que o reserva, lá tem suas razões, e nós as nossas.
«Aconselhar-te eu? não me atrevo a tanto. Já disse: contra certos destinos é impotente esta logica vulgar, vade-mecum de todos os homens vulgares. Escuta o teu coração, sem menos-preço da consciencia. Obriga a razão a obtemperar a certas e importantissimas pequenezas, que são o essencial da vida. Isto não é conselho: é supplica.
«Bartholo vive muito ha dias com um marquez gallego, que veio ao senado; riquissimo gallego, e descendente dos monarchas de Aragão. Presume o conde de Rohan, com o muito sal do seu espirito, que Paulina corre risco de ser encabeçada na côrte descabeçada de Aragão. Eugenia accrescenta a estas observações que Paulina só sairá do mosteiro, se a não deixarem lá sepultar na clausura. Isto parece-me extremamente grave, Fernando.
«Queres tu que eu ultrapasse as tuas ordens, ou prescrever-m'as novas? Custa-me a ser-te fiel entre as reiteradas insistencias do conde, de Eugenia, e da piedade a que indirectamente me compunge Paulina.
«Anceio a tua resposta.
«Dá outro abraço ao meu bom pae. Diz-lhe que eu vou muito cedo aperta-lo ao coração, e que, se o aborrecimento d'esta vida diplomatica fôr assim augmentando, de certo lá ficarei a ouvir o estrondear das caldeiras. Adeus. Muito do coração.
Almeida.
DE FERNANDO GOMES A HYPOLITO DE ALMEIDA
«Lisboa, 12 de setembro de 1842.
«Respondo, meu amigo, á tua cartinha. A esta hora já recebeste a carta explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto. O meu destino é vêr que as minhas acções, aconselhadas pelo dever, redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espaço em que todas as operações de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho necessario á vida. Só assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde caiba com a minha insignificancia.
«Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com o mundo. Puz o coração debaixo dos pés, e nem assim consigo a liberdade do espirito!
«A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio que sim. Está repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua juventude, formosura e aspirações. Póde ser que, ao receberes esta carta, ella tenha já deixado o mosteiro pelas salas; e ámanhã deixará as salas pelo mosteiro. Paulina lê romances. Os personagens femininos, da novella moderna, são quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona. Imitam-se, onde ha espaço, e é preciso te-lo, ainda assim, para as scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo, futil e chocarreiro, denomina «comedias».
«Na proxima carta me dirás o proseguimento d'esse estranho passo. Authoriso-te a dizer-lhe, tão directamente quanto puderes, que respeito em silencio todos os seus designios, e peço a Deus, que ao encontro d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe sentir que eu sou bastante desgraçado para não poder esquece-la.
«Vou ámanhã ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de calçado que lá devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa. Tudo é necessario para ir custeando estas grandes despezas. Já vês que estou feito caixeiro de cobrança de uma loja de sapatos. Para bem desempenhar estas funcções, levo comigo as minhas cartas de bacharel formado em leis!
«Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de esperanças, de alegrias.
Fernando.
H A F G
Madrid, 25 de setembro de 1842.2
«Meu amigo.
«Bartholo de Briteiros está na eternidade. O marquez gallego foi o indirecto homicida do lambaz Briteiros! Houve jantar opiparo no hotel. O amphitrião recolheu-se pesado á cama, e, se adormeceu, acordou na eternidade.
«Não fez testamento. Achou o conde umas declarações, ou norma de testamento, que dão noticia da grande fortuna de Bartholo. Orçam-n'a em seiscentos contos, em differentes especies.
«Paulina saiu do mosteiro para a companhia de Eugenia. Fiz a minha visita de pezames ao conde, que me disse ir brevemente a Portugal liquidar a herança do sogro, e vae depois para França. É de suppôr que Paulina acompanhe a irmã.
«Em vista do que, já não receio que a joven menina pereça no mosteiro.
«Ninguem me tem fallado de ti. A tristeza de Paulina sei eu que é inalteravel.
«Diz-me o que fazes: fala-me da tua familia. Teu sempre extremoso
H. de Almeida.»
Nenhuma outra carta nos veiu á mão.
Fernando Gomes, voltando do Porto com os creditos de seu pae liquidados, melhorou o pessoal dos operarios, e alargou o seu commercio, creando freguezias de lojas nas terras que percorreu. Em toda a parte encontrou condiscipulos, que se maravilharam de o verem agenciando os interesses d'uma loja de sapateiro. Deu isto em resultado que ninguem o visitou nas estalagens onde se aposentava.
Francisco Lourenço mostrava-se penalisado de vêr seu filho occupar-se em tal mister, tão incongruente com sua educação. Reconhecia a iniciativa melhoradora do estabelecimento; mas, ainda assim, pedia-lhe incessantemente que requeresse um emprego, allegando sua instrucção e serviços.
Fernando, submisso a seu pae, aos prantos da mãe, e meiguices das pobres irmãs, requereu, apresentou ao ministro seus papeis, foi tres vezes á audiencia geral do secretario de Estado, e esperou.
De vez em quando ia examinar o seu nome no livro da secretaria, e lia sempre: .
Este esperado é regularmente o prologo do indeferido. Indeferiram-lhe o requerimento. O logar pedido na thesouraria fôra dado a um filho de regedor, que puzera ás ordens da situação oito votos e quatro cacetes, que valiam vinte e quatro votos.
Fernando leu o despacho no Diario do Governo, leu os commentarios n'um jornal da opposição, e riu-se.
Pegou na medalha de Torre e Espada, embrulhou-a n'um papel de mata-borrão, e enviou-a ao ministro, com esta carta:
«Excellentissimo. As honras a quem competem. Faça vossa excellencia presente d'isso ao meu feliz competidor. Ganhei essa coisa por ter suado sangue a favor d'esta causa em que o merito do cacete devia ser instaurado. O cacete venceu. Agora competem aos sacerdotes do pagode, que eu ajudei a erguer, as condecorações que nada prestam aos operarios inactivos. Eu, e o meu competidor, que ceifou o carvalho civico com o cacete paterno, o que fizemos foi derramar sangue de irmãos. Devemos hombrear nas honras. Ora, os arrependidos devem rejeita-las em favor dos contumazes. Deus guarde a vossa excellencia, como todos havemos mister, e de veras lh'o deseja o criado inutil de vossa excellencia, Fernando Gomes, com loja de sapateiro na calçada do Sacramento, n.º 11—Lisboa.»
O ministro recebeu a carta e o embrulho. Pensou em autoar o signatario; mas o official maior pediu licença para observar a sua excellencia que a carta não encerrava injuria pessoal nem collectiva, salvo aos caceteiros, por cuja honra não ficava airoso ao ministro saír. Assim acabou o episodio.
Fernando Gomes passou de agente exterior a fiscal da officina. Descia á loja, e examinava de perto a labutação; ajudava a encaixotar o calçado, e assignava, em nome de seu pae, a correspondencia com os freguezes. Os officiaes antigos respeitavam-n'o, dando-lhe sempre o epitheto de doutor. Ora o doutor um dia, alto e bom som, disse a todos os seus officiaes que se chamava Fernando.
Esta metamorphose divulgou-se, contada pelos operarios. É admiravel que ninguem lhe désse grande peso! Muitos doutores disseram: «se elle viu que não tinha geito para mais nada, fez bem em se fazer sapateiro, assim como dizem que o pae se queria transformar de sapateiro em poeta».
O mundo tem d'estes escarneos, que fazem vontade de perguntar ao Creador se está contente com a obra que fez.
Á força de muito observar, Fernando já sabia talhar umas botas como se fosse creado no officio. Diante, porém, do pae não ousava fazel-o, nem os officiaes ousavam dizel-o ao velho. Parecia a Francisco Lourenço que o trabalho de talha andava muito supprido, e elogiava a actividade do contra-mestre encarregado d'aquelle serviço. Elle, por si, o pobre cego, nada fazia já.
Fernando passava todas as noites em casa, ora contando á mãe e irmãs o que vira em suas viagens; ora lendo a seu pae os poetas relidos na infancia, e os livros de historia e viagens, que elle trouxera do estrangeiro. Estas leituras coavam calor de contentamento, a través dos setenta invernos de Francisco Lourenço, e embalavam o rebelde somno da mãe, que acabava por adormecer entre o seu rozario e uma descripção dos gelos polares por Cook.
Esta vida durou assim seis mezes. É de crer que n'este espaço se trocassem interessantes cartas entre Fernando e o secretario da legação. Como as não alcançámos, o que podemos conjecturar é que Paulina se conservou em Madrid esperando que o seu saudoso amigo, alguma hora, alli voltasse, conduzido pelo amor, ou pelo pezar de tão dura ingratidão. Não sabemos se o conde veiu a Portugal liquidar o patrimonio de sua mulher, como Almeida annunciára. Se veiu, é muito de suppôr que ninguem em Lisboa lhe désse noticias do chevalier Ferdinand Gomes, como elle euphonicamente o conhecia.