Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 9 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Armorial: o adjetivo que se transformou em substantivo

O Movimento não reúne artistas populares, mas artistas cultos

que recorrem à obra popular como a um ‘material’ a ser

recriado e transformado segundo modos de expressão e

comunicação pertencentes a outras práticas artísticas. Esta

dimensão culta e até erudita manifesta-se tanto na reflexão

teórica, desenvolvida em paralelo à criação, quanto na

multiplicidade das referências culturais. (SANTOS, 2000, p. 98).

Suassuna não fazia qualquer tipo de restrição à liberdade criadora de cada artista, pois, apesar de uma direção a ser seguida, vários são os caminhos, todos convergindo para um mesmo ponto. Coube ao criador do Armorial, então, a reunião desses vários artistas, ao identificar pontos em comum e tendências paralelas em torno de algo maior, o Movimento.

 

Armorial: o adjetivo que se transformou em

substantivo

A escolha do nome armorial foi apresentada ao público pela primeira vez, no lançamento oficial do Movimento, em 18 de outubro de 1970 (um domingo), na igreja barroca de São Pedro dos Clérigos, localizada no bairro de São José, em Recife, através do texto “Arte Armorial”.

Em nosso idioma, ‘armorial’ é somente substantivo. Passei a

empregá-lo também como adjetivo. Primeiro, porque é um belo

nome. Depois porque é ligado aos esmaltes da Heráldica,

limpos, nítidos, pintados sôbre metal ou, por outro lado,

esculpidos em pedra, com animais fabulosos cercados por

folhagens, sóis, luas e estrelas. […] Em nosso país, a Heráldica

é uma Arte essencialmente popular e não burguêsa. A unidade

nacional brasileira vem do Povo, e a Heráldica popular

brasileira está presente desde os ferros de marcar bois e os

autos de Guerreiros, do Sertão, até as bandeiras das

Cavalhadas e as côres azuis e vermelhas dos pastoris da Zona

da Mata. Desde os estandartes de Maracatus e Caboclinhos,

até as Escolas de Samba, as camisas e bandeiras dos clubes

de futebol do Recife ou do Rio. (SUASSUNA apud NEWTON

JÚNIOR, 1990, p. 129-130).

Segundo Suassuna, a escolha deu-se por dois motivos. O primeiro, pela plasticidade do nome, ou seja, a beleza da própria palavra. O outro, porque na sua visão, a heráldica, no Brasil, representa uma arte eminentemente popular, existente desde os ferros de marcar boi do Sertão nordestino, até os estandartes, as agremiações carnavalescas, as bandeiras e escudos dos clubes de futebol. Em determinadas ocasiões, Suassuna acrescentava uma terceira justificativa que o teria influenciado na escolha do nome. Seria a curiosidade despertada nas pessoas devido ao desconhecimento do significado do termo, como no caso de uma entrevista concedida, em 1971, ao jornal gaúcho Correio do Povo. Questionado sobre o que motivou a escolha do nome armorial, ele respondeu: “Primeiro, porque é bonito. Segundo, porque sendo um nome estranho, o pessoal pergunta como você – ‘o que é?’ – e ouvida a explicação, não esquece mais. Terceiro, porque significa esta palavra a coleção de brasões, emblemas e bandeiras de um povo” (SUASSUNA apud NEWTON JÚNIOR, 1999, p. 88).

“Três Séculos de Música Nordestina: do Barroco ao Armorial”. Com esse título, a Orquestra Armorial de Câmara, junto a uma exposição de gravuras, pinturas e esculturas armorialistas, dava início, pelo menos oficialmente, ao Movimento Armorial. Durante a realização do concerto na igreja São Pedro dos Clérigos, no Recife, foram tocadas, como o próprio título sugere, peças do Barroco e peças Armoriais. Inicialmente, foram executadas obras dos compositores pernambucanos do século XVIII José de Lima e Luís Álvares Pinto, descobertas durante estudos das pesquisas armoriais e que foram transcritas, respectivamente, por Luis Soler e Benjamim Wolkoff. Na segunda parte do concerto, dedicada às composições armoriais, foram apresentadas obras de Jarbas Maciel, Clóvis Pereira e Cussy de Almeida, além de outras duas composições de dois compositores já famosos que engrandeceram muito o Movimento Armorial, “Galope”, de Guerra Peixe, e a suíte em três movimentos, “Sem Lei Nem Rei”, de Capiba.

A respeito do lançamento oficial do Movimento, a imprensa pernambucana limitou-se a publicar algum material apenas uma semana após o evento, através do Jornal do Commercio. Já o Diário de Pernambuco, apenas no dia 28, ou seja, dez dias depois, publicou um artigo de Flávio Guerra intitulado “Um Concêrto da Orquestra Armorial de Câmara”. Assim, ele finalizava o artigo:

Valeu a pena ir assistir o concerto na Igreja de São Pedro dos

Clérigos. Ficou até bem a apresentação ali da música armorial

nordestina. Alguma coisa que se plantou mui significativamente

nessa demonstração: a certeza de que Pernambuco está outra

vez na liderança dos movimentos culturais de escóla no Brasil.

Um dia outras orquestras armoriais irão surgir, no milagre da

conscientização artística de um povo dando vivescência ao

modesto, extrapolando-o para os grandes salões, tirando-o da

modesta indumentária do chapéu de couro, para as sedas e os

trajes finos. Noite inesquecível mesmo aquela vivida na Igreja

de São Pedro, neste Novo Recife. (NEWTON JÚNIOR, 1990, p.

124).

Outra cobertura da imprensa local de forma mais significativa aconteceria em julho de 1971, com a repercussão no Sul e Sudeste da primeira excursão da Orquestra Armorial de Câmara. Apresentando-se no programa “Concertos para a Juventude”, realizado pelo MEC, em convênio com a Globo do Rio de Janeiro, na Sala Cecília Meireles e, por último, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS), a Orquestra Armorial (junto às explanações de Suassuna realizadas através de desenhos, pinturas, gravuras, livros e outras artes armoriais sobre o início e as primeiras realizações do Movimento) recebeu críticas positivas que atestavam o sucesso das apresentações.