Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 14 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Nóbrega e seus trabalhos recitais

Após o desenvolvimento de todas essas atividades, Antonio Carlos Nóbrega voltou a trabalhar com a música mais intimamente, criando espetáculos que procuravam refletir e traduzir as singularidades da cultura nacional. Seguia-se uma sequência de trabalhos recitais: Na Pancada do Ganzá, Madeira que cupim não rói (Na Pancada do Ganzá II), Pernambuco Falando Para o Mundo, O Marco do Meio-Dia, Lunário Perpétuo e, mais recentemente, Nove de Frevereiro.

O disco 7 Na Pancada do Ganzá foi um grande sucesso em todo Brasil e exterior, recebendo os prêmios “Shell”, “APCA” e “Mambembe”. O trabalho que representava uma reunião de cantos tradicionais do povo brasileiro foi dedicado à memória de Mário de Andrade e Chico Antonio.

Nome de uma consagrada marcha-de-bloco, do compositor pernambucano, Capiba, Madeira que cupim não rói apresenta uma segunda coletânea de frevos, cocos, maracatus e outras peças musicais. Com o espetáculo, Nóbrega realizou viagens pelas principais capitais brasileiras e procurava fortalecer a herança musical ibero-mediterrânea e afro-indígena, presente em todo o Brasil, principalmente, na região Nordeste, através das loas, toadas e cantigas tiradas pelos cantadores e brincantes dos espetáculos populares.

O título do espetáculo Pernambuco falando para o mundo faz referência ao slogan da Rádio Jornal do Commercio, que após sua inauguração, no ano de 1948, foi por muitos anos, a emissora brasileira de radiodifusão de maior alcance, com modernos transmissores que chegavam à grande parte da América do Sul, na América do Norte e na Europa. Daí o termo que dá nome a esse terceiro trabalho recital de Antonio Nóbrega, que congrega nesta produção uma enorme variedade de ritmos e manifestações culturais pernambucanas.

O disco seguinte, O Marco do Meio Dia, estreia em Lisboa, no ano de 2000, com a colaboração da primeira Comissão Nacional para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. O espetáculo também se apresentou em Paris e Hannover, até chegar a várias cidades brasileiras. Foram utilizadas, nesse trabalho, histórias cantadas, com variadas formas poéticas e gêneros musicais que, ao longo dos tempos, foram aqui se tradicionalizando. Os arranjos e instrumentos utilizados na composição das músicas desse disco também se alicerçaram na diversidade musical brasileira, com conjunto de choro, orquestra de frevo e grupo de tambores. Como é de costume nas apresentações de Nóbrega, além da música cantada e instrumental, a dança e o teatro, principalmente, de máscaras e gestos, fazem-se presentes, demonstrando a diversidade cultural brasileira.

A estreia do espetáculo Lunário Perpétuo marcou os trinta anos do convívio de Nóbrega com a cultura popular. Nesse trabalho, os temas cancioneiro, romanceiro tradicional e a música para rabeca e violino são aprofundados e dividem espaço com os frevos e com as figuras incorporadas por Nóbrega, como é de costume. O título do disco e de uma de suas canções é versão abreviada do livro que circulou no Nordeste brasileiro até meados do século passado: Lunário e Prognóstico Perpétuo para Todos os Reinos e Províncias, de autoria do valenciano Jerônimo Cortez, cuja primeira edição remonta aos anos 1750.

Lunário Perpétuo, assim como os outros trabalhos, procura criar um constante diálogo entre dois universos distintos, que marcam a trajetória artística de Nóbrega, seja nos espetáculos musicais ou teatrais. Os constantes diálogos entre o festivo e o rígido, o dramático e o lírico, o sóbrio e o disparate, o espalhafatoso e o sagrado se caracterizam num processo de comunicação constante entre personagens de temperamentos opostos.