Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 12 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Antonio Carlos Nóbrega e o Movimento Armorial

Procuravam-se, no passado e na tradição medieval, as raízes

populares. Da viola sertaneja, o grupo descobriu uma ligação

com o cravo, instrumento da música barroca, realizando

algumas experiências com composições. A pesquisa também

contemplou os trovadores da Idade Média e, com a participação

de alguns poetas, criou uma ‘embalada’, mistura de embolada e

balada, como os ‘desafios’ que existem no Nordeste. Recitavam

o texto com ilustração musical, utilizando contrabaixo e

percussão. (DIDIER, 2000, p. 111).

A partir das várias experiências em torno da música armorial, o Quinteto realizava estudos sistemáticos dos sons dos instrumentos populares, fazendo associações a instrumentos eruditos.

Já no ano de 1996, surge a Camerata Armorial, numa parceria entre Suassuna e o maestro Rafael Garcia. O grupo surgiu durante a administração de Suassuna como secretário de Cultura do Estado de Pernambuco e só agora no ano de 2007, depois do escritor ter sido reconduzido ao cargo, é que retomou suas atividades. Na sua reestreia, a Camerata Armorial executou peças clássicas dos primeiros anos do Movimento, assinadas por Capiba, Jarbas Maciel e Clóvis Pereira, a exemplo da música Mourão, de autoria de Guerra Peixe.

 

Antonio Carlos Nóbrega e o Movimento Armorial

Ao contrário de outros movimentos, que se caracterizavam pela primazia do intelecto, desvencilhando-se da presença mítica, como foi o caso de alguns movimentos literários de meados do século, o teatro do absurdo e, até certo ponto, o teatro de Brecht, o Armorial pretende recolocar o mito na vivência da arte. Isso se evidencia no princípio Armorial de trabalhar com a integração das artes, afastando-se “deliberadamente de uma arte de tendência racional para abraçar o orgânico, o multiforme, e o contraditório, o espírito luxuriante de festa e cor bastante presente em nossas manifestações populares: do bumba-meu-boi às cavalhadas, do mamulengo aos circos mambembes” (NEWTON JÚNIOR, 1999, p. 109).

Esse estreitamento das artes, sobretudo nos espetáculos populares, faz com que os armorialistas tenham uma linguagem privilegiada, fazendo do espetáculo popular um espetáculo total, uma festa que magnetiza o público, através de uma projeção da realidade onde ele se encontra e se identifica. Nessa perspectiva é que surge Antonio Carlos Nóbrega, como desdobramento da experiência armorial, reunindo música, poesia, dramatização, dança e cenografia, através de uma vasta carreira teatral (BITTER, 2000, p. 23), além de seus espetáculos recitais, que identificam as diversas faces de um artista de mais de 30 anos de carreira dedicada aos ideais do Movimento Armorial.

Considero Nóbrega um artista da maior importância. Na década

de 70, eu escrevi um artigo dizendo que os verdadeiros atores

brasileiros não deviam ser meros ‘dizedores’ de palavras. O

ator brasileiro tinha que saber dançar, cantar, andar em cima

das mãos, se necessário, enfim, ter um corpo preparado. Eu

nunca esperei, ainda em vida, ver isso. E vi com Nóbrega. Ele

toca, ele canta, ele representa, ele dança. Ele realizou aquele

ideal de ator que eu tinha. (SUASSUNA, 2002, p. 20).

Filho de classe média, Antonio Carlos Nóbrega, nascido em Recife, no ano de 1952, teve sua infância em várias cidades do interior pernambucano, mas, curiosamente, só veio ter contato com o imaginário que seu trabalho expressa aos 12 anos de idade, quando numa viagem com o seu pai à cidade de Patos, no Sertão paraibano, teve a oportunidade de escutar pela primeira vez um cantador. Naquele período, Nóbrega já começava a demonstrar sua vocação para a música. Logo, ele e suas três irmãs foram colocados para estudar música e, paralelamente aos rígidos estudos exigidos pela música acadêmica, mantinham um conjunto musical que tinha como repertório músicas da Jovem Guarda, Beatles, Roberto Carlos e, até mesmo, um pouco da Tropicália.

Foi na Escola de Belas-Artes, em Recife, com o professor catalão Luis Soler, que Nóbrega teve sua formação de violonista solidificada. Já no final dos anos 60, participava da Orquestra de Câmara da Paraíba e da Orquestra Sinfônica do Recife. Seu ingresso no mundo armorialista deu-se, em 1972, quando, tocando um concerto de violino de Bach, com a orquestra sinfônica, conheceu Suassuna. Convidado pelo precursor do Movimento Armorial a integrar o Quinteto por ele criado, o jovem de 18 anos, que já tinha uma formação musical cristalizada (SUASSUNA, 2002, p. 20), passou do violino para a rabeca e mergulhou no rico universo da cultura popular, que nem lhe havia sido ensinado nas escolas de música nem muito menos apresentado através do rádio, como afirma ele próprio numa entrevista coletiva concedida à imprensa paraibana, no dia 21 de agosto de 2003, quando em Campina

Grande se apresentou com a aula-espetáculo 5 Sol a Pino .

A partir daí comecei a conhecer a música do povo brasileiro e

para tocar rabeca no grupo, tive que conhecer o rabequeiro,

que até então não conhecia. Não só conheci o rabequeiro,

como conheci o brincante-popular, o brincante do cavalo-

marinho, o tocador de alfaia, o cantador. Enfim, toda essa

exuberância de músicos, brincantes, dançarinos que povoam as

praças e ruas do nosso país que tanto me seduziu e continua a

seduzir. Representou a base maior de tudo àquilo que eu vinha

fazendo. (informação verbal)6. (SUASSUNA, 2002, p. 20).

Seu primeiro contato com a rabeca foi com um tocador do Ceará, chamado Cego Oliveira. Com essa aproximação, passou a frequentar grupos de artistas que estavam mais próximos de Recife e foi aí que conheceu, por exemplo, o Boi Misterioso de Afogados, do Capitão Antônio Pereira, figura já estudada por vários pesquisadores brasileiros, como Ariano Suassuna, Ascenso Ferreira e Hermilo Borba Filho.

Aos poucos, Nóbrega ia tomando conhecimento do rico universo da cultura popular. Foi assim que teve contato com o grande passista de frevo, Nascimento do Passo, passando a acompanhar suas aulas de dança. Conheceu também os Caboclinhos, que são grupos de espetáculos populares de reminiscências indígenas; fez amizade com os mestres e brincantes, aprendendo suas danças e seus toques; entre outras várias manifestações que passaram a enriquecer o trabalho do artista.