Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais
Projetos e os princípios armoriais
A partir de sua entrada para o Quinteto Armorial, Nóbrega passou a desenvolver seus próprios projetos, fundando inicialmente o Boi Castanho Reino do Meio-Dia. Foi precisamente em 1976, que ele começou a desenvolver um estilo próprio de concepção em artes cênicas, dança e música. Junto à Orquestra Romançal encenou dois espetáculos: Bandeira do Divino (marco da sua estreia como teatrólogo) e Mateus rabequeiro mágico e professor (1976). Ambos os espetáculos traziam toda a bagagem proposta pelo Movimento Armorial, introduzindo elementos do nosso espetáculo popular. Nesse sentido, a boneca Minervina se funde, ao mesmo tempo, com o espírito de figuras de bumba-meu-boi como a Caterine, com mamulengos nordestinos, que aí já tem uma relação com os bonecos ventríloquos populares, como é o caso do Benedito, bastante conhecido nas feiras e pátios de mercados do Nordeste. Ou seja, elementos pertencentes ao popular que dialogam com elementos eruditos, a exemplo do mamulengo, que remonta a um tempo imemorável e consta em quase todos os países civilizados, com sua temática e sua representação vinda dos Autos Medievais. O mamulengo chegou ao Brasil via Portugal, no tempo do vice-reinado (séc. XVIII). É assim também com o bumba-meu-boi, que é uma rememoração das Tourinhas portuguesas, brincadas com bois simulados, sem dança e sem música. No caso da Minervina, trata-se de um romance de origem ibérica, que chegou ao Brasil no século XVII e, ainda hoje, é encontrado na região nordestina.
Depois, veio a criação de A arte da cantoria (1981), espetáculo que atendia as pretensões de Suassuna em relação ao processo de encenação e interpretação brasileiras, baseadas na literatura de cordel e nos espetáculos populares (CADENGUE, 1999, p. 50). A partir de então, seguia-se uma série de espetáculos que confirmavam toda estética armorial: O Maracatu misterioso (1982), Mateus Presepeiro (1985), O Reino do Meio-Dia – A dança das onças (1989), Figural (1990), Brincante (1992) e Segundas Histórias (1994); além de seus espetáculos recitais: Na pancada do ganzá (1995), Madeira que cupim não rói (1997), Pernambuco falando para o mundo (1998), O Marco do Meio-Dia (2000), Lunário Perpétuo (2002) e, mais recentemente, dois trabalhos em homenagem ao centenário do frevo, os dois volumes do Nove de Frevereiro (2006). Nesse período, o artista ainda apresentou outros dois trabalhos: em 1998, a aula espetáculo Sol a Pino e, no ano de 1999, o espetáculo Pernambouc, exibido no Festival D’Avignon, na França, especialmente para o público francês. Entre os anos de 2008 e 2010, o artista criou os espetáculos Passo e Naturalmente – Teoria e jogo de uma dança brasileira. Por esse último, recebeu o prêmio de melhor de 2009 na área de Dança – categoria Pesquisa, pela Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA). Também em 2010, Nóbrega estreou o espetáculo Minha Festa, oportunidade em que voltou a trabalhar na união da música, canto e dança.
A partir de passos, posturas, coreografias e acrobacias aprendidas em seus anos de convívio com artistas populares brasileiros, Nóbrega foi criando uma extensa linguagem gestual e corporal brasileira. Todo esse trabalho ganhou forma em “Figural”, uma coletânea de arquétipos, na qual ele constrói uma dramaturgia e uma coreografia essencialmente nacional, ao colocar no palco nove personagens sem relação entre eles, mas que remetem a uma mitologia própria. Entre eles, o cançonetista, o multinstrumentista, o dançarino, o poeta e o prestidigitador. O espetáculo é, sobretudo, um meio de Nóbrega expor suas habilidades exímias de cantor, ator, dançarino, mímico (pantomima), instrumentista, bonequeiro e malabarista. Dessa forma, Nóbrega reflete a busca de estabelecer um elo entre a arte popular e a erudita, entre o desordenado e o disciplinado, o sutil e o espalhafatoso. As figuras que ele expõe, apresentadas como “pequenas iluminuras do baú da nossa memória coletiva”, simbolizam a reunião de aspectos distintos que, pela arte, propagam-se sobre a realidade brasileira.
É aí, também, que surge Tonheta, personagem criado por Nóbrega a partir do velho “Faceta”, palhaço animador do pastoril profano, presente nos espetáculos populares do Nordeste e figura trabalhada por Nóbrega, durante um longo período, nos seus vários espetáculos, sendo seu personagem brincante fixo. Tonheta pode ser visto como um misto de pícaro, bufão, palhaço, arlequim, vagabundo, entre outras coisas. “É uma espécie de colcha de retalhos desses tipos populares que povoam as ruas e praças do meu país, que me tocam profundamente deixando-me num estado de desordem interior cujos contrários dor e alegria se confraternizam misteriosamente” (NÓBREGA, 2004, s/p).
O espetáculo Brincante representa o que seria a primeira parte da narrativa dos feitos e peripécias do personagem Tonheta. Para narrar as aventuras desse personagem andante, que percorre as estradas do mundo conduzindo uma velha carroça, Nóbrega criou uma dupla de atores ambulantes, João Sidurino (vulgo Mestre Siduca) e Rosalina de Jesus. A esses dois personagens coube narrar as proezas de Tonheta através da dança, teatro, música, mímica, circo e ventriloquismo. A saga “bufônica epopéia” de Tonheta teve sequência em Segundas Histórias.
O personagem Tonheta, num dos quadros de Figural, toca um complexo aglomerado de instrumentos de percussão, acionados através de pedais, que possibilitam ao ator ter as mãos e a boca livres para executar outros instrumentos, simultaneamente. Nóbrega-Tonheta faz tudo isso com um sorriso de quem brinca, fazendo da representação uma celebração da vida. O complexo e original instrumento tem um nome engraçadíssimo: ‘Hipermultipolisintetizador DX 14 Ypisilone’. Nóbrega toca e improvisa, faz jogo com a plateia, que se delicia. (GEORGE MOURA apud CADENGUE, 1999, p. 53).
Tonheta continua presente, de alguma maneira, nos trabalhos recitais de Nóbrega. Quando não citado diretamente na letra da música, seu espírito zombeteiro se propaga junto às melodias e some ao confundir-se com instrumentos, num misto de gritos, zumbidos e vozes peculiares ao personagem.