Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 20 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Considerações finais

 

Reconhecendo-se no Armorial

Ao longo de suas fases, o Movimento Armorial conseguiu desempenhar algo único e original na cultura brasileira: a reunião de vários artistas com um mesmo propósito. Nas suas diferentes gerações, pintores, poetas e gravadores, músicos e escritores, ceramistas, bailarinos e homens de teatro apresentavam suas propostas ligadas aos postulados centrais do Movimento criado por Ariano Suassuna.

O processo de resistência do Movimento continua não somente através desses trabalhos e artistas, mas também através das críticas que continuam a existir, sejam contra o Movimento e seu mentor intelectual ou, ainda, contra os seus representantes na atualidade que de uma forma ou de outra continuam a levar adiante o projeto maior de Ariano Suassuna.

Uma dessas críticas, que diz respeito ao fazer artístico Armorial, enquanto uma atividade destinada a intelectuais, a uma elite, motivou e serviu de base para a elaboração do presente estudo. Não nos detivemos, no entanto, especificamente nessa discussão no que se refere ao Movimento, mas a um dos seus principais representantes na atualidade: o músico Antonio Carlos Nóbrega. Dessa forma, partimos da perspectiva de que o artista, em seus espetáculos, consegue acabar com a distinção de público, de forma que, tanto o público mais erudito, quanto o mais popular, se reconhecem no Armorial.

Como foi visto, ao longo do trabalho, alguns elementos presentes na obra do artista ampliam e intensificam essa abordagem proposta pelo Armorial. É o caso da reunião dos diversos elementos relativos à cultura popular, como o uso das formas poéticas do romanceiro popular nordestino, como o repente, o martelo agalopado, o galope à beira-mar, o martelo gabinete ou as décimas de sete sílabas, para citar apenas alguns dos estilos mais usuais; e a recriação de núcleos temáticos elaborados, a partir desse mesmo universo, como observamos o caso do poema A Morte do Touro Mão de Pau, de autoria do poeta Fabião das Queimadas, recriado por Ariano Suassuna e, posteriormente, retrabalhado musicalmente por Antonio Carlos Nóbrega.

Um outro elemento de forte ligação entre sua obra e a arte popular é o aspecto emblemático, presente de forma decisiva na valorização e elaboração imagética em torno do seu trabalho poético, ressaltado ainda mais na sua caracterização em palco. Esse aspecto é ainda mais valorizado, a partir de sua atuação, com interpretação dos vários personagens, trazendo a técnica de séculos atrás dos artistas populares em representar diversos papéis em um mesmo espetáculo, como é o caso dos bonecos de mamulengo e do cavalo-marinho.

Papéis esses que são formados a partir da construção de outros vários personagens da vida real, presentes no “aqui” e “ali” da “Ilha Brasil”. Na verdade, máscaras elaboradas a partir de um mundo e de uma realidade próximos, possibilitando o reconhecimento através de um elemento presente de forma significativa no fazer artístico popular, que diz respeito à memória, como foi mostrado ao longo da pesquisa. Constitui-se, a partir daí, a formação de uma identidade social que atua, de forma precisa, na representação e apropriação por parte dos indivíduos pertencentes a um determinado grupo.

É o que pode ser visto no trabalho de Nóbrega no que se refere ao uso de alguns romances e loas, não apenas quanto a sua capacidade de interpretação de vários personagens que fazem parte de uma mesma história, mas também, quanto ao seu cantar. Em relação a isso, faz-se importante destacar um estudo realizado pelo músico Jarbas Maciel, ainda nas pesquisas das raízes populares desenvolvidas no DEC. Na oportunidade, o músico afirmava ter descoberto uma técnica que não iria passar despercebida aos olhos de pesquisadores e músicos sérios, como Guerra Peixe, Capiba, Clóvis Pereira e Cussy de Almeida.

A descoberta é a seguinte: o elemento primordial em

composição armorial será, sempre, o contraponto modal, a

harmonia modal nordestina resultando sempre no

entrelaçamento das vozes. O problema técnico é difícil, porque

– a exceção de Schillinger – não parece existir um sistema

modal de escrituração contrapontística suficientemente geral

para a criação de um ‘novo estilo’ como o armorial nordestino

preconizado por Suassuna. Mas tem uma solução: basta

aprendermos a cantar com os nossos cantores e rabequistas.

(JARBAS MACIEL apud DIDIER, 2000, p. 111).

A afirmação reverbera em traços que podem ser associados a Antonio Carlos Nóbrega, que apresenta um cantar próprio dos cantadores. Para uma melhor compreensão desse aspecto, podemos observar uma afirmação do músico Antônio Madureira (MADUREIRA, 2002, p. 21), que, ao avaliar a maneira própria do cantar de Nóbrega, considera que ele desenvolveu um timbre de empostação vocal baseado em cantadores e aboiadores, ou seja, o timbre e a dicção são desenvolvidos na tradição nordestina. É o que pode ser verificado, de forma mais evidente, em algumas das gravações feitas por Nóbrega, como no caso específico da Excelência, presente no disco Lunário Perpétuo.

Reconhecendo-se no trabalho de Antonio Carlos Nóbrega, os diversos públicos se aproximam da proposta de criação Armorial. Esse estreitamento entre os elementos da Arte Armorial e público não é verificado apenas no seu trabalho poético. A instrumentação também aponta para uma perspectiva de reconhecimento semelhante, com a utilização de instrumentos que se enquadram naquilo que Suassuna apontava para a música Armorial.

Se na proposta do Quinteto Armorial, Suassuna apontava para a necessidade de utilização de instrumentos mais próximos do popular como forma de “reeducar” os músicos, como uma espécie de prática didática inicial, Nóbrega já não tem essa necessidade, com sua atividade musical voltada para elementos próprios da cultura popular, o que foi conseguido ao longo de sua trajetória de artista e do conhecimento estabelecido com a diversidade de elementos da cultura popular.

Apontamos, ainda, para as capas dos discos de Antonio Carlos Nóbrega como elementos que caracterizam, também, a permanência da Arte Armorial no atual cenário cultural brasileiro, atuando como elementos identificadores perante os diversos públicos, que se reconhecem na diversidade expressada pelo fazer artístico dos armorialistas.

A partir desses elementos, elucidamos dois outros aspectos de elaboração dos trabalhos armoriais presentes de forma bastante significativa na obra de Antonio Carlos Nóbrega. O primeiro deles é o princípio Armorial de criação, a partir de obras anteriores, possibilitando assim um aprofundamento da obra, sem esgotá-la e ampliando, inclusive, suas perspectivas de criação. Através desse, temos um outro aspecto também bastante evidenciado ao longo do estudo que se refere ao conceito de integração das artes, com as diferentes abordagens, originadas a partir de uma mesma obra. Abordagens essas em plena harmonia, complementando-se mutuamente e, assim, ampliando e enriquecendo, num movimento constante de circularidade.

Apesar do tempo de vigência maior do Armorial ter passado, o Movimento continua seu processo de resistência e amplia sua atuação através da influência, seja junto ao trabalho de grupos e artistas, como é o caso de Antonio Carlos Nóbrega, ou, ainda, apontando tendências na direção de outros movimentos que se espelham naquilo que o Movimento fez crescer ao longo dos seus mais de 40 anos de representatividade. É o caso do Movimento Manguebeat, surgido na década de 90, quando, mesmo não seguindo os ideais do Movimento Armorial, teve nele um impulso para a estruturação do seu projeto de criação e fundamentação, a partir de elementos da cultura popular. O próprio Chico Science, principal figura na formação da chamada Geração Mangue, mesmo não se enquadrando naquilo que Suassuna preconizava, dizia-se um Armorial.

Na sua atual fase, o Movimento Armorial pode ser visto através da influência que repercute em atividades diversas, que vão desde o teatro, através do Grupo Gesta; da dança, através do Balé Popular do Recife e do trabalho da bailarina Maria Paula Costa Rego, que fundou, em 1997, o Grupo Grial; das artes plásticas, com Gilvan Samico, Dantas Suassuna e Romero de Andrade Lima; da poesia e pintura, representadas por Virgílio Maia e sua esposa, a pintora Socorro Torquato; da literatura, por Carlos Newton Júnior e pelo próprio Ariano Suassuna; e até mesmo das experiências no design. Nesta área, no entanto, é preciso perceber que os designers são artistas que estão sujeitos às necessidades do mercado e desejo dos clientes, fazendo com que a influência do Movimento Armorial só apareça de forma isolada, como é o caso dos trabalhos de Dinara Moura e Nalba Diniz. Na música, os trabalhos de grupos como o Trio Romançal, o Quinteto da Paraíba, a Camerata Armorial, o Quinteto Itacoatiara, Sagrama, Anima e do próprio Antonio Carlos Nóbrega são algumas das referências atuais do Movimento Armorial.

Os diversos elementos explorados no presente estudo apontam para novas perspectivas a serem abordadas acerca do Movimento Armorial e, principalmente, do músico Antonio Carlos Nóbrega. Trazemos para o conhecimento público e debate acadêmico mais um capítulo dessa história, enfocando, principalmente, a música Armorial, ainda em carência no âmbito acadêmico, a partir do trabalho do músico Antonio Carlos Nóbrega, personagem importante na história do Movimento e na sua continuidade. Na verdade, o assunto não se esgota. Ao contrário, ampliam-se as possibilidades de abordagens para com um capítulo importante da cultura brasileira, que ainda carrega marcas e reflete o Movimento criado por Ariano Suassuna.