Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 4 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Introdução

 

O início dos anos 70, passados seis anos do golpe militar, foi marcado por um período de tensão que se instaurava sob a inflexível atuação da censura e da repressão. Nesse período, falar em cultura entre os poderes repressores era considerado, no mínimo, suspeito, tendo em vista a politização que orientava os grupos de cultura popular.

Em Pernambuco, a cidade do Recife, um dos polos culturais mais atuantes do país, representava um dos principais lugares onde se falava em cultura, especificamente a popular, graças a grupos de artistas e intelectuais que se reuniam com o intuito de dar expressão a “formas autênticas” da cultura brasileira.

Um desses grupos, denominado Armorial, fundado e organizado pelo escritor paraibano Ariano Suassuna, tinha como objetivo a realização de uma arte erudita, partindo das raízes populares da cultura brasileira. Toda preocupação de Suassuna em valorizar a arte brasileira erudita, baseada na raiz popular da nossa cultura, veio dar “vida”, entre outros importantes projetos, ao Quinteto Armorial. Com isso, pretendia-se uma reeducação dos nossos músicos através de instrumentos de conhecimento popular, como o berimbau de lata, a viola, a rabeca, o pífano e o violão.

O presente trabalho estuda o Movimento Armorial tomando como base a obra de Antonio Carlos Nóbrega, membro do antigo Quinteto Armorial e propagador do Movimento desde a sua criação por Ariano Suassuna. Dessa forma, enfocamos traços armoriais que se tornam evidentes no trabalho do músico, desde o seu teatro, passando pela dança, até suas músicas e letras - ponto crucial neste estudo, e que projetam, inclusive, seu trabalho junto à mídia.

Ao longo do tempo, foi estabelecida uma discussão em torno do Armorial, enquanto uma arte direcionada para intelectuais. Diante disso, partimos da seguinte indagação: De que forma o artista Antonio Carlos Nóbrega, um dos principais representantes da arte armorial na atualidade, tendo, inclusive, uma visibilidade relativa junto à mídia, tem conseguido tornar esta arte mais assimilável a um maior público? Observamos, portanto, até que ponto o artista tem conseguido torná-la mais acessível aos diversos públicos que, a exemplo do que dizem algumas críticas feitas ao Movimento, não se reconhecem no Armorial. Buscando entender essas questões, partimos do princípio de que Antonio Carlos Nóbrega, em seus espetáculos, consegue acabar com a distinção de público, de forma que, tanto o público mais erudito, quanto o mais popular se reconhecem no Armorial. Isso seria possível, talvez, pela questão da memória coletiva presente na arte armorial.

Nessa perspectiva, o presente trabalho teve como ponto de partida estudar a representatividade de elementos dessa arte nos trabalhos recitais de Antonio Carlos Nóbrega, refletindo sobre o seu papel em torná-la mais acessível a um maior público, sendo reconhecida, não somente por uma parcela mais erudita, como também pelos segmentos mais populares. Analisamos, também, o papel exercido pelo artista na valorização e representação da cultura popular nordestina. O estudo se caracteriza também como uma contribuição para a ampliação do acervo e das pesquisas sobre o Movimento Armorial, através da música, atividade essa de maior repercussão nacional do Movimento, ainda em carência no universo das pesquisas científicas. Perpassando esses pontos, buscamos, enfim, possibilitar uma leitura diferenciada acerca da obra de Antonio Carlos Nóbrega, que desponta como um dos trabalhos mais expressivos no cenário artístico brasileiro contemporâneo.

Explicar a função do Movimento Armorial, através da obra de Antonio Carlos Nóbrega, representa não apenas reconhecer a herança artística deixada pelo Movimento, como também, a sua importância face à valorização, à busca por uma arte singular, uma arte que reflete a cultura de um povo, a sua identidade.

Outro aspecto que se faz importante ressaltar é a desinformação e desconhecimento da população, inclusive, da comunidade acadêmica, acerca de um movimento tão importante para a cultura nacional como foi o Movimento Armorial. Na verdade, constata-se a existência de uma pesquisa bastante vasta no que diz respeito ao Movimento. Nos últimos anos, são inúmeros os trabalhos que tratam do tema. Não parecem ainda satisfatórios, porém, os estudos que abordam a música armorial e um dos maiores seguidores do Movimento, Antonio Carlos Nóbrega, que ainda não ocupa um espaço devido nas bibliografias sobre o assunto.

Além disso, um outro fator não menos importante e que merece atenção se refere ao fato dos estudos em torno do Movimento Armorial terem sido, basicamente, quase que exclusivos da literatura, com enfoques centrados nas questões literárias. Nesse sentido, buscamos aprofundar um outro tipo de abordagem, um estudo interdisciplinar da literatura com a música, uma das atividades mais fecundas que evoluiu e fez crescer o movimento, a partir de um olhar cultural.

Para fazer o estudo da obra de Antonio Carlos Nóbrega, foram utilizados os cinco primeiros discos de sua carreira: Na Pancada do Ganzá (1996), Madeira que cupim não rói (Na Pancada do Ganzá II) (1997), Pernambuco Falando Para o Mundo (1998), O Marco do Meio-Dia (2000) e o Lunário Perpétuo (2002). Mais recentemente, o artista lançou outros dois trabalhos em homenagem ao centenário do frevo, os dois volumes do trabalho Nove de Frevereiro, projeto iniciado em 2004 por Nóbrega com o objetivo de gravar uma pequena coletânea de frevos instrumentais e cantados, apresentando o ritmo pernambucano em configurações mais tradicionais e em reelaborações instrumentais mais ousadas e diversificadas. Mesmo assim, para a realização do presente estudo, detivemo-nos nos cinco primeiros discos do artista, citados anteriormente, uma vez que esses trabalhos encerram uma produção discursiva que remete às propostas preconizadas pelo Movimento Armorial.

Inicialmente, foi feita uma análise para identificar a essência da Arte Armorial nos trabalhos recitais de Antonio Carlos Nóbrega, sob a forma de elementos que representam alguns traços da cultura popular e erudita, inseridos na temática poética de suas músicas e na utilização de instrumentos. Tais elementos foram associados à problemática sociocultural, expondo a contribuição enquanto arte de resistência que valoriza a identidade de um povo e, por extensão, da cultura nordestina, enfatizando, particularmente, sua capacidade em sincretizar o erudito e o popular na música regional. Para tanto, foi feito um levantamento de dois dos elementos identificadores dos estilos. Nesse caso, a temática poética e a instrumentação, apresentados através da utilização de quadros específicos, elaborados para tornar mais eficiente as análises em questão.

O presente trabalho está estruturado em três capítulos. No primeiro, intitulado “Movimento Armorial: do erudito ao popular”, procuramos estabelecer as diferentes concepções entre as culturas popular e erudita, com ênfase para as elaborações armoriais acerca desses dois conceitos e seus desdobramentos, além das diversas conceituações estabelecidas por diferentes autores.

O segundo capítulo da pesquisa, intitulado “Os caminhos que se encontram em torno do Armorial”, apresenta as trajetórias percorridas pelo criador do Movimento Armorial e seu discípulo, com destaque para as fases mais importantes do Movimento e os principais momentos da vida artística desses dois personagens em questão. Nesse capítulo, dedicamos, ainda, um significativo momento à música armorial, além de levantar pontos divergentes sobre o Movimento, elaborados através de críticas e discussões.

No terceiro e último capítulo, temos as análises e seus respectivos

resultados. Para a realização da análise instrumental 1, inicialmente, foi observada a configuração instrumental presente nos discos de

Antonio Carlos Nóbrega, a partir da organologia2. A partir daí, dividimos esses instrumentos em quatro categorias: metais (aerofones), cordas (cordofones), percussão (idiofones de altura indefinida); e madeiras (aerofones). Os Aerofones são instrumentos que têm seus sons extraídos através do ar; Cordofones, instrumentos cujos sons são retirados através de cordas; e Idiofones de altura indefinida, que são os instrumentos percussivos. O passo seguinte foi verificar a utilização desses instrumentos dentro da execução das músicas.

Aqui trazemos, ainda, para efeito de apresentação dos procedimentos acima citados, uma análise específica entre duas versões do 1º Movimento do Concerto para Dois Violinos em Ré menor de Johann Sebastian Bach. A primeira delas, trazendo características eruditas, executada por uma orquestra sinfônica; e a segunda, caracterizando o popular da nossa cultura, executada pelo músico Antonio Carlos Nóbrega, adaptada para flauta e rabeca, também em ré menor, presente em um dos trabalhos recitais do artista, o disco Na Pancada do Ganzá. Para essa parte específica de análise, foi utilizado, também, um procedimento de análise através de um metrônomo para verificar a diferença de elaboração no conjunto da obra.

No que se refere à análise temática, utilizamos as letras das músicas dos seus cinco primeiros trabalhos recitais, quando foi possível identificar traços da cultura popular e erudita, que apontam para a presença marcante do Armorial na obra de Nóbrega. Nesse ponto do trabalho, realizamos, ainda, uma leitura cursiva das associações de imagens e palavras que estão nas capas dos discos do artista, tendo em vista o princípio Armorial de aproximar palavras e imagens. Todos os elementos complementam-se e, reunidos, trazem à tona uma perspectiva atual acerca do Movimento Armorial, à luz do trabalho de Antonio Carlos Nóbrega.

1 Para a realização dessa parte do estudo, contamos com a colaboração do músico campinense Jorge Ribbas, com vasta experiência e atuação profissional.

2 Responsável também pelo estudo da configuração dos instrumentos, a organologia é uma área da música e desempenha um papel fundamental na categorização de instrumentos utilizados e outros aspectos que envolvem a música, como, por exemplo, a aplicação da Física.