Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 3 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Apresentação

 

O nome armorial foi apresentado ao público, pela primeira vez, no lançamento oficial do Movimento, em 18 de outubro de 1970, na igreja barroca de São Pedro dos Clérigos, bairro de São José, em Recife. Através do texto Arte Armorial, Ariano Suassuna explicava a escolha do termo para nomear aquele que foi e continua sendo um marco na cultura brasileira e, principalmente, na cultura nordestina.

A palavra armorial, em nosso dicionário, como esclarecia Suassuna, está ligada a heráldica. Na sua visão, a heráldica, no Brasil, representa uma arte eminentemente popular, existente desde os ferros de marcar boi do Sertão nordestino, até os estandartes, as agremiações carnavalescas, as bandeiras e escudos dos clubes de futebol.

Aliás, esse foi apenas um dos motivos que justificou a escolha da palavra. Uma outra razão dizia respeito a plasticidade do nome, ou seja, a beleza da própria palavra. Questionado sobre o que motivou a escolha do nome armorial, em entrevista concedida, em 1971, ao jornal gaúcho Correio do Povo, Suassuna juntava aos dois motivos, descritos anteriormente, uma terceira justificativa, que seria justamente a própria curiosidade despertada nas pessoas ao ouvirem a palavra.

Tendo como objetivo lutar contra o processo de descaracterização e vulgarização da nossa cultura, o Armorial foi um ponto de encontro para uma série de artistas que encontraram nele as bases críticas, estabelecendo a cultura popular como possuidora da expressão mais autêntica da cultura brasileira e colocando a Região Nordeste como espaço que manteve, ao longo dos tempos, características singulares, definidoras da cultura brasileira.

A descaracterização e vulgarização que minava a cultura nacional, a que Suassuna referia-se como “crise exterminadora”, não era algo recente, e atingia diversos países da América Latina, cada vez mais submetidos às influências externas. Basta verificarmos o que dizia um manual lançado por uma agência de publicidade dos Estados Unidos nos anos 40, durante a permanência da atriz Carmem Miranda em Hollywood:

Exótica-excitante. Vem aí uma bomba de calor. Carmem

Miranda: pimenta e tempero. Bombardeio favorito da América.

O tempero da vida, a irresistível estrela tórrida. Ou ainda: A

técnica de Carmem Miranda para vender uma canção é tão

modulada que faz a pele arrepiar pela excitação gerada pela

sua presença, o brilho de seus olhos e a sinuosa qualidade que

ela injeta na sua dança casual. (ORTIZ, 1994, p. 204).

Eis um exemplo de como a imagem brasileira era evidenciada pela mídia. Um Brasil, ou melhor, um Brazyl sintetizado na imagem de Carmem Miranda, na verdade, um produto a ser vendido junto ao público norte-americano.

Toda preocupação de Suassuna em valorizar a arte brasileira erudita, baseada na raiz popular da nossa cultura, veio dar “vida”, entre outros importantes projetos, ao Quinteto Armorial. Com isso, pretendia-se uma reeducação também dos nossos músicos através de instrumentos de conhecimento popular. Para utilizar as palavras do pesquisador e crítico de música José Ramos Tinhorão, o Movimento, através do Quinteto Armorial, conseguiu realizar a integração e a singularidade sugeridas por Suassuna, ao fundir o universal e o regional, o popular e o erudito.

Membro do antigo Quinteto Armorial e propagador do Movimento desde a sua criação por Ariano Suassuna, Antonio Carlos Nóbrega constitui-se como um dos principais representantes da Arte Armorial na atualidade. Na obra Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais, o artista passa a ser o protagonista dos enfoques armoriais que se tornam evidentes no seu trabalho, desde o seu teatro, passando pela dança, até suas músicas e letras - ponto crucial neste estudo.

Um fator importante e de destaque na presente publicação diz respeito ao fato dos estudos em torno do Movimento Armorial terem sido, basicamente, quase que exclusivos da literatura, com enfoques centrados nas questões literárias. Nesse sentido, buscamos aprofundar um outro tipo de abordagem, um estudo interdisciplinar da literatura com a música, uma das atividades mais fecundas que evoluiu e fez crescer o Movimento; além de tratar de um dos seus maiores seguidores, Antonio Carlos Nóbrega, que ainda não ocupa um espaço devido nas bibliografias sobre o assunto.

Fica evidente a atualidade da obra. Faz-se importante ressaltar que, ao longo da sua história, os momentos mais fecundos do Movimento Armorial coincidiram com a participação de Ariano Suassuna na esfera política. Foi assim, em 1969, quando assumiu a direção do Departamento de Extensão Cultural da Universidade Federal de Pernambuco (DEC), dando início ao que iria ser mais tarde o Movimento Armorial. Já entre os anos de 1975 e 1978, ao assumir o cargo de secretário de Educação e Cultura do Recife (na gestão do prefeito Antônio Farias), criou o Balé Armorial do Nordeste (origem do atual Balé Popular do Recife). Mais tarde, entre os anos de 1995 e 1998, foi nomeado secretário de Cultura do Estado de Pernambuco, pelo então governador Miguel Arraes. Nomeado secretário do executivo de Cultura do Estado de Pernambuco pela segunda vez em 2007, o escritor deixou claro que iria adotar uma política voltada para os ideais armoriais. Basta lembrar que justamente nesse ano de 2007, o escritor escreveu mais um capítulo na música armorial, ao reativar a “Camerata Armorial”, grupo criado no ano de 1996. Já em 2011, Ariano Suassuna dá continuidade ao seu trabalho em prol da cultura de Pernambuco ao integrar a equipe do Governo do Estado, assumindo o papel de secretário-chefe da Assessoria Especial do governador Eduardo Campos, mantendo, mais uma vez, uma relação estreita com a esfera política.

Assim, o reino armorial mantém-se firme, cruzando o “tabuleiro pedregozo” e decifrando uma sentença já proferida, que lhe pertence. Um reino intransponível, que tem no seu povo as bases mais sólidas desse reinado, como afirma o próprio Suassuna no poema de sua autoria Martelo D’O Marco do Meio-Dia, em parceria com o artista Antonio Carlos Nóbrega:

A Bandeira do Sol estrala ao vento

e soa a minha voz de Cantador,

num protesto do Sonho contra a Dor,

a pobreza do povo e o sofrimento.

Nas estrelas do Canto, o pensamento

ergue um Marco que é só anunciado.

Nossa sorte de Povo injustiçado

é vencida por nós ao som da luta,

e, no meio do palco, o que se escuta

é o sol da justiça do Sonhado.

Ao final desta Dança bela e forte

sou eu o Cantador, dono da Casa,

e, com versos de sangue, fogo e brasa,

forjo o Marco e celebro a minha sorte.

Na viola, eu vou batendo a Morte

e assumindo a coroa de Guerreiro.

Ao cantar meu país, sou o Lanceiro,

olho o sangue ferido do meu povo

e sonho, ao meio-dia, um Canto novo,

levantando este Marco brasileiro.

Na descrição detalhada do poema, vemos um mundo que envolve sangue, fogo, brasa, brilho, sonhos, justiças, crenças, lutas e glórias de um reino pertencente a seu povo, que apesar de “injustiçado”, não se entrega e encontra na justiça sua força maior. Por fim, Ariano Suassuna é o cantador “dono da casa”, criador do reino, seja na sua produção intelectual, seja na sua vida enquanto produtor cultural ou, ainda, o reino da “armorialidade” presente na reunião das diversas áreas artísticas com um mesmo propósito. Dessa forma, ele assume a “coroa do Guerreiro” e ao cantar seu país, torna-se um “Lanceiro”, olha o “sangue ferido” do seu povo, sonhando ao meio-dia, no horário que o sol está a pino, às claras, um novo cantar ao levantar o Reino Armorial, o “Marco brasileiro”.

Reunidas essas ideias, pretendemos aqui, portanto, contribuir para com um importante capítulo da história da cultura brasileira, como deve ser visto o Armorial, além de evidenciar o trabalho do músico Antonio Carlos Nóbrega, personagem importante na história do Movimento e na sua continuidade. Todos os elementos complementam-se e trazem à tona uma perspectiva atual acerca do Movimento Armorial.