Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

Luís Adriano Mendes Costa · Capítulo 11 de 23

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Antonio Carlos Nóbrega em acordes e textos armoriais

A Música Armorial

A síntese dessas aulas está representada na aula-espetáculo “Romançário”, realizada no dia 6 de dezembro de 2010, em celebração aos quatro anos de gestão. Com acesso gratuito, a aula contou com a participação da pianista Elyanna Caldas e de 13 artistas, sendo cinco músicos, dois cantores, um cantador e cinco bailarinos. A escolha do Teatro Santa Isabel, em Recife, para o encerramento das suas atividades a frente da Secretaria Especial de Cultura do Governo do Estado não foi à toa. Afinal, foi nesse mesmo espaço, no ano de 1946, que Ariano Suassuna, então com 19 anos de idade, realizou sua primeira aula-espetáculo. Já em 2011, Ariano Suassuna dá continuidade ao seu trabalho em prol da cultura do Estado de Pernambuco ao integrar a equipe do Governo do Estado, assumindo o papel de secretário-chefe da Assessoria Especial do governador Eduardo Campos, mantendo, mais uma vez, uma relação estreita com a esfera política.

 

A Música Armorial

Sendo a música uma das atividades de maior repercussão nacional do Movimento Armorial, e em se tratando de um estudo da obra de Antonio Carlos Nóbrega (o que significa dizer que é na música que vai se encontrar a base maior do seu trabalho), faz-se necessário uma avaliação mais específica sobre como essa atividade evoluiu e fez crescer o Movimento.

Inicialmente, as atividades em torno da música armorial foram realizadas através de um Quinteto fundado por Suassuna em 1969. Com uma estrutura baseada no “terno” de Mestre Ovídio, composto por dois pífanos e duas rabecas, a primeira experiência armorial no campo da música contava com “duas flautas – por causa dos dois pífanos do ‘terno’ – um violino e uma viola-de-arco – por causa das duas rabecas – e percussão, por causa da ‘zabumba’” (SUASSUNA, 1974, p. 57).

Esse primeiro Quinteto, no entanto, não atendia aos anseios de Suassuna. Além da exclusão dos “instrumentos rústicos” por “instrumentos refinados”, ainda se fazia o uso da bateria em vez da “zabumba”, para a percussão. Outro aspecto que não satisfazia Suassuna era a ausência da viola sertaneja, considerada por ele fundamental e que, vez por outra, era suprida quando, a convite de Jarbas Maciel e Cussy de Almeida, o violonista Henrique Annes procurava, com o violão, preencher a falta da viola dos cantadores.

Paralelamente às atividades do Quinteto, o violonista Cussy de Almeida fundou a Orquestra Armorial de Câmara, que inclusive, incorporou os membros do Quinteto e que, por sugestão do próprio Cussy a Suassuna, participou do lançamento oficial do Movimento ocorrido com a Orquestra e não com o Quinteto. As atividades, então, ficaram divididas. Enquanto a Orquestra encarregava-se da execução das músicas, com os membros do Quinteto integrados a ela, Suassuna continuava supervisionando o trabalho dos músicos e encomendando as partituras para a Orquestra.

Mesmo sendo a pesquisa das tradições populares a base para as experimentações da música armorial, a Orquestra Armorial não incorporava instrumentos de cunho popular. A esse respeito declarou Cussy de Almeida:

a idéia inicial minha, do Suassuna, do Clóvis Pereira, do Guerra

Peixe era a utilização de certos instrumentos mais

característicos da cultura popular, como a rabeca, através de

instrumentos clássicos da cultura européia. Até hoje, nenhum

luthier conseguiu explicar por que duas rabecas populares,

feitas da mesma madeira, nunca têm o mesmo som e a mesma

tonalidade, ainda que afinadas exatamente iguais. Isso nos

levou a utilizar o violino e a viola para representar essas duas

rabecas. (DIDIER, 2000, p. 111).

Enquanto Cussy de Almeida preocupava-se mais com a unidade do som da Orquestra, Suassuna, a exemplo da experiência anterior com o Quinteto, acreditava que os instrumentos populares deveriam estar presentes na música armorial, dando-lhe uma característica mais próxima da realidade nordestina. Esse ponto de vista de Suassuna resultaria em discordâncias dentro do próprio Movimento. As divergências entre Suassuna e Cussy de Almeida, além de provocarem uma série de polêmicas em torno do Movimento Armorial, concretizaria a formação de um segundo quinteto, o Quinteto Armorial. Fundado por Suassuna, essa nova experiência da música armorial visava contemplar os anseios do criador do Movimento, aproximando à cultura nacional, uma “originalidade” da tradição musical brasileira. No início, o Quinteto Armorial contava com Antônio José Madureira que, além de coordenador do grupo,

tocava viola-sertaneja3; Edilson Eulálio, no violão; Antonio Carlos Nóbrega, na rabeca e no violino; Egildo Vieira, na flauta e pífano; e

Fernando Torres Barbosa tocava berimbau4.

A apresentação de estreia do novo Quinteto aconteceu na Igreja Rosário dos Pretos, em Recife, no dia 26 de novembro de 1971. Além do Quinteto Armorial, houve também uma exposição de artes plásticas com esculturas em madeira, cerâmica, desenho e tapeçaria. O programa de apresentação foi dividido em três partes. A primeira destinada à música barroca europeia, que foi apresentada com uma sonata de Scarlatti, uma contradança do compositor espanhol do século XVIII, Fernando Ferandieri, um andante de Vivaldi e um allegro de Haendell. A segunda parte trabalhava a música barroca brasileira, sendo executadas uma peça de Luís Alvares Pinto e outra de José de Lima. Na terceira e última parte da apresentação, destinada à música armorial, foram executadas músicas de autoria de Antônio José Madureira como, “Improviso”, “Repente Armorial”, “Chamada”; e outras duas peças armoriais de José Generino Luna.

Segundo Suassuna (1974, p. 59), a utilização de elementos considerados arcaicos do povo tinha um caráter “didático” inicial. “Era um modo de, digamos assim, “reeducar” nossos músicos, encaminhando-os a um despojamento, a uma pureza e a uma estrutura musical brasileira que os afastassem dos padrões convencionais europeus”. Outra observação de Suassuna esclarece a proposta do repertório de apresentação do Quinteto. De acordo com ele, a importância da arte barroca, principalmente o barroco ibérico, para a arte armorial dava-se através do espírito medieval e pré-renascentista, com seus “cantares”, que aqui estavam presentes nos séculos XVI, XVII e XVIII (DIDIER, 2000, p. 113).

De acordo com o pesquisador e crítico de música José Ramos Tinhorão (apud DIDIER, 2000, p. 44), o Movimento Armorial, através do Quinteto Armorial, conseguiu realizar a integração e a singularidade sugeridas por Suassuna, ao fundir o universal e o regional, o popular e o erudito:

se a descoberta de novos lençóis de petróleo anuncia a

perspectiva de um desenvolvimento independente da ajuda das

multinacionais, a revelação musical do Quinteto Armorial vem

mostrar que, das profundezas da criação popular, também se

pode tirar uma cultura autenticamente nacional. (SUASSUNA

apud DIDIER, 2000)

Outra experiência da música armorial se daria em 1975, quando Suassuna é empossado secretário de Educação e Cultura de Recife e estabelece como uma de suas metas a criação da Orquestra Armorial Brasileira que, mais tarde, se tornaria Orquestra Romançal Brasileira, para distinguir da Orquestra Armorial de Câmara. Sob a regência de Antônio José Madureira, a Orquestra teve sua estreia no dia 18 de dezembro de 1975, no Teatro Santa Isabel, em Recife, marcando a chamada fase Romançal do Movimento.

No seu repertório, a Orquestra Romançal Brasileira apresentou quatro composições de Antônio José Madureira e outras três músicas de origem ibérica, de compositores anônimos do século XVI. Essa outra atividade da música armorial estava intimamente ligada às propostas do Quinteto Armorial, só que dessa vez, com a constituição de uma orquestra nacional ligada às tradições populares, o que representava de perto o objetivo maior do Movimento: uma cultura nacional, a partir das nossas raízes populares.