Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Angélica Tanus Benatti Alvim · Capítulo 9 de 28

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Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Relato de uma trajetória

Relato de uma trajetória1

 

Maria Elena Merege Vieira

 

Se hoje é difícil reconhecer a relevância de conhecer nossas

origens e saber aonde vamos em um mundo tão complexo, imagine como era há mais de 50 anos, quando eu só tinha 18 anos. Éramos 60 jovens em busca de um sonho: nos tornarmos arquitetos.

Aquele era um tempo muito bom – falo assim porque, para mim,

faz muito tempo. Eu gostava muito de assistir às aulas, que praticamente se estendiam durante o dia inteiro, manhã e tarde.

O nosso trote foi peculiar; nós, calouros, deveríamos durante um

mês andar com um bambolê, sempre que nos deslocávamos no campus até chegar à rua. O difícil era ir para casa, pois tínhamos de pegar ônibus com aquele bambolê. No entanto, a experiência valeu a pena, pois foram divertidas as estratégias que precisamos utilizar.

Quando iniciamos o curso, fomos apresentados a uma prancheta

que deveria ser só nossa durante todo o curso. Começamos a estudar no “Castelinho” (Edifício Chamberlain) e só no último ano nos mudamos para o edifício Chamberlain. Éramos 60 alunos e fomos divididos em ordem alfabética em duas turmas de 30 alunos, A e B. Nos fins de semana, fazíamos festinhas no Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura Mackenzie (Dafam), bailinhos. Cada aluno levava um prato de salgadinhos ou bebidas e todos dançavam.

Pelo fato de sermos poucos alunos, nos tornamos muito amigos

(até casei com um colega de sala). Até hoje somos amigos e nos encontramos pelo menos uma vez ao ano.

Não posso me esquecer também de que foi na minha turma que

entraram mais mulheres. Ingressaram 13 moçoilas em 1958, quando anteriormente entravam apenas duas ou três. Acho que inauguramos um novo tempo, com muitas dificuldades, para a mulher se inserir em uma carreira que era exclusivamente masculina.

E muito interessante foi comparar esse momento com o filme Moonlight, ganhador do Oscar 2017, passado na mesma década. Pude conferir que todos os problemas das mulheres lá apresentados eram os mesmos que passamos, acrescidos pelo preconceito da cor da pele: em especial, a luta da mulher para se posicionar na sociedade profissionalmente. Mas é muito bom recordar e sentir que valeu a pena.

Entretanto, o mais importante de todos os acontecimentos foi o contato com os nossos mestres que, sem dúvidas, eram especiais. Profissionais, arquitetos, engenheiros, o artista plástico Laszlo Zinner, advogados, cada um contribuía com o próprio conhecimento para a nossa formação. Nós, sem dúvida, aprendemos muito, pois aquela foi uma turma de ótimos profissionais, que em muito contribuíram para nossa sociedade.

Alguns mestres nos marcaram de forma especial, sobretudo os arquitetos, como o Franz Heep, que trazia uma nova experiência no ato de projetar; o Coroninha, que nos ensinou a desenhar de uma forma artística; o Caron; o Nolasco; o Andradinha com os desenhos a bico de pena; o Lobauer; o Zuccolo (que hoje é nome de uma ponte na Marginal Pinheiros) com seu concreto protendido (o terror dos que não gostavam de cálculos); o Golombeck, professor de mecânica de solos (esse marcou mesmo, pois fiquei de segunda época, mas estudei tanto que na prova tirei 9,0. Esse foi um feito e tanto); o Silvio Niskier; o Takeshi Suzuki; o Sergio Sonnino e o Elisario Bahiana, que, para mim, foi muito importante, pois o Elisario me deu a primeira aula de paisagismo, despertando a minha escolha de atuação profissional como arquiteta paisagista.

Sede Social do Clube Harmonia, São Paulo, 1964. Projeto dos

Arquitetos Fábio Penteado (Mackenzie, 1953), Teru Tamaki (FAU-

USP, 1961) e Alfredo Paesani (Mackenzie, 1954).

 

Um professor muito importante não só para mim, mas para todos

que tiveram aula com ele, foi o engenheiro Serafim Orlandi, diretor da Faculdade de Arquitetura naquela época. Seus teodolitos para fazer as cartas topográficas são usados até hoje, pois sempre os vemos com os alunos espalhados pelo campus. E, para completar o conhecimento sobre topografia, fazia parte do nosso currículo uma ida, no fim do semestre, a um acampamento no sítio Cabuçu, de propriedade da Mackenzie. Ficávamos lá duas semanas, levantando o sítio o dia inteiro, e à noite fazíamos os cálculos, e muitas vezes a poligonal não fechava. Bom para recordar, mas na ocasião foi difícil.

Desenho artístico era uma disciplina que percorria o 1º, 2º e 3° anos (não semestres). Portanto, é fácil adivinhar porque provavelmente todos os senhores arquitetos que atuam ao meu lado, meus contemporâneos, em geral gostam de desenhar, e muitos são pintores, inclusive eu.

Algumas disciplinas tinham nomes bonitos, como “Estereotomia”, que hoje, no word, é uma palavra não reconhecida. Ela significa técnica de dividir científica e regularmente materiais de construção (pedras, madeiras, cantarias etc.). Também tínhamos aulas em canteiros de obra no Serviço Nacional da Aprendizagem (Senac), na Vila Mariana.

Tudo isso que relatei e mais uma porção de nomes que a memória apagou foram, muito importantes para a minha formação profissional. Verificando o currículo daquele tempo, podemos observar que as disciplinas artísticas representavam 50% do curso e as técnicas, os outros 50%.

Claro que todas as disciplinas foram relevantes para a minha formação profissional, e, com o transcorrer do tempo, tenho certeza de que é a diversidade do conhecimento e da prática profissional que contribuem para acumularmos conhecimento.

Se pesquisarmos todas as disciplinas que naquele momento tivemos e as compararmos com as que são ministradas atualmente, verificaremos que elas apresentam os mesmos objetivos (a formação do arquiteto), mas a forma do aprendizado e de apreensão delas pelo aluno é muito diferente. Claro, só pode ser. Seria muito estranho se assim não fosse. O tempo com sua inexorabilidade passou, mudou, e com ele também mudamos, graças a Deus.

Estamos no século XXI, o que nos proporciona uma nova forma de vivenciar tudo o que acontece no planeta e, às vezes, até fora dele. Mas os anseios dos nossos jovens alunos são os mesmos: a busca do sonho de ser arquiteto.

Atualmente, temos, de uma forma muito mais fácil, todo o

conhecimento à nossa disposição, é só saber digitar o que queremos no nosso celular, por exemplo. No entanto, o que mais gosto desse tempo é a possibilidade que ele oferece a todos, e não a poucos privilegiados. É preciso ir atrás daquilo que sonhamos.

Entretanto, quero deixar algumas palavras para os alunos que

aqui estão: Nunca vejam os problemas e os desafios como desvantagens, mas como fatos que nos levam a descobrir como maneiras de superar adversidades, e nunca deixem a sua moral mudar pela conveniência. Todos sabemos que, para manter o caráter, precisamos ter fé em Deus e muita coragem.

E, finalmente, como ex-aluna (estou no Mackenzie desde 1955,

quando ainda era uma menina), quero registrar a minha gratidão a essa entidade, por todos os anos aqui transcorridos, pela minha formação na Universidade Presbiteriana Mackenzie, assim como pela possibilidade de aumentar o meu conhecimento no mestrado e no doutorado.

Sem dúvida, é na universidade que mora o conhecimento, assim

como a diversidade cultural e de pensamento, para a criação de uma sociedade mais justa, melhor e mais forte.