Arquitetura Mackenzie, 100 anos
Pragmatismo e idealismo na Faculdade de Arquitetura Mackenzie: concepções de partida e a genealogia de uma identidade
Pragmatismo e idealismo na
Faculdade de Arquitetura
Mackenzie: concepções de
partida e a genealogia de uma
identidade
Eunice Helena Sguizzardi Abascal
A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, criada há 70
anos, segue em seu virtuoso caminho formando Arquitetos, Urbanistas e Designers, que se destacam na profissão pelo valor de suas contribuições às cidades.
Resgatar suas origens e raízes, assim como o ideário que a
fundamentou desde o início, envolve não somente reconhecer a trajetória de seu fundador, o arquiteto Christiano Stockler das Neves, mas conhecer o pensamento e os princípios que sustentaram o ensino e as práticas pedagógicas ao longo do tempo. Essa conduta supera a exaltação de atores históricos para evidenciar a genealogia de práticas e concepções, que, enraizadas, se colocam sob o crivo da transformação e do futuro.
Ao recuperar essa trajetória de ideias e princípios, a fim de
identificar uma cultura que se mantém ao longo dos anos, é importante abordar a formação e o desempenho de atividades acadêmicas e profissionais do fundador da FAU-Mackenzie, enquanto faculdade autônoma em 1947, tornando-se independente da Escola de Engenharia do Mackenzie College, a qual permaneceu vinculada desde 1917. O pensamento intrínseco à formação de mackenzistas permite identificar características fundamentais dessa cultura de ensino, que alicerçam a relação entre tradição e vanguarda na Instituição.
Genealogia de uma escola: formação
de um ideário da FAU-Mackenzie –
entre a tradição e a vanguarda
A formação de Christiano Stockler das Neves na Escola de Belas Artes da Universidade da Pensilvânia (Fine Arts School of Pennsylvania University) é uma condição de partida para compreender a feição da FAU-Mackenzie. Sua atuação docente e profissional no Brasil, iniciada ao retornar a São Paulo já formado, em 1912, contribuem para elucidar características de formação e o ideário acadêmico vigente nos Estados Unidos da América, pautado pelo Pragmatismo, significativos para explicitar uma marca impressa à formação dos arquitetos na FAU-Mackenzie, no recorte que abrange desde sua passagem pela Fine Arts School (1909 a 1911), o retorno ao Brasil em 1912 e a atuação no Mackenzie de 1917 – ano de criação do curso de Arquitetura do Mackenzie College – a 1956, ao deixar a Direção, tendo dela se afastado em definitivo em 1958. As tensões estabelecidas entre a continuidade das convenções de ensino consagradas no longo período de permanência de Christiano Stockler das Neves e o 112 processo de modernização que acompanhava a cidade e a FAU-Mackenzie, inevitavelmente, estendem-se pelos anos de 1960 e 1970, décadas nas quais se verifica um forte ímpeto de reformas pedagógicas e administrativas, rumo a uma escola modernizada, adequada aos anseios reformistas de estudantes e docentes.
O período das décadas de 1960 e 1970 se reveste de grande importância ao espírito transformador de vanguarda próprio àqueles tempos, e para compreender a consolidação de uma produtiva tensão que impelia ao futuro, nutrida pelo ímpeto transformador e pela intranquilidade própria ao quadro político que o Brasil assistiu na primeira metade dos anos 1960. Um claro movimento de transformação progressista tomou conta do país, invadindo as instituições de ensino, o que foi reforçado pelo ideário pragmático intramuros, ‘que olhava o futuro apesar da tradição’, apoiando-se na própria cultura de ação e de adequação aos novos tempos e exigências, preconizada pelo fundador Christiano Stockler das Neves.
A consolidação de uma escola moderna de arquitetura, que
buscou uma renovação profunda nas décadas de 1960 e 1970, se viu acompanhar desses princípios gestados no longo arco que abrange a criação do curso de Arquitetura do Mackenzie College e perpassa a fundação da FAU-Mackenzie.
O ideário pragmático da FAU-
Mackenzie: antecedentes
No Centro de Arquivos e Registros da Universidade da
Pensilvânia, é possível encontrar os registros acadêmicos de Christiano Stockler das Neves. Nestes, consta como aluno especial, egresso da Escola Polytechnica de São Paulo, que ingressa no curso norte-americano em 23 de setembro de 1909 e o conclui em 21 de junho de 1911 (PEREIRA, 2005).
As disciplinas ministradas na Universidade da Pensilvânia, logo
em seu primeiro semestre, envolviam o aprendizado das ordens clássicas, entendidas como ‘elementos de arquitetura’ ou de uma gramática arquitetônica. Seus instrumentos eram as disciplinas oferecidas, como Sombras, História da Arquitetura Antiga e Medieval, Carpintaria e Desenho à Mão Livre, com grande ênfase ao caráter informativo desses componentes, que deveriam ser plenamente dominados para que fosse possível avançar a outro estágio, o da concepção arquitetônica propriamente. Encontram-se ainda menções à natureza central da disciplina de Composição Arquitetônica (então denominada Design), em que o aluno deveria mostrar-se apto a aplicar o instrumental constituído pelo conjunto das matérias organizadas em disciplinas (PEREIRA, 2005).
O caráter prático conferido aos componentes que formavam a
matriz curricular vigente encontra ressonância na evolução do ensino de Arquitetura nos Estados Unidos. A introdução do ensino formal de Arquitetura naquele país teve como marco a compilação de 113 publicações e de desenhos de construção civil, num gesto que validava os manuais de arquitetura, considerados fonte indiscutível de casos arquitetônicos exemplares.
A formalização do ensino veio se consolidando com a publicação de inúmeros manuais dessa natureza desde as últimas décadas do século XVIII para nortear o aprendizado prático de Arquitetura. A obra The country builder’s assistant, de Asher Benjamin (1797), compilava informações sobre traçados, geometria descritiva, materiais e técnicas construtivas, sombras, sistemas estruturais e ordens clássicas, escalas e exemplos de soluções de arquitetura residencial, educacional e religiosa. Escritos com clareza e didatismo e fartamente ilustrados, os manuais rivalizavam com periódicos especializados, como o The American Architect e o Building News, que cumpriam também essa função disseminadora, divulgando legislações, códigos de obras e aspectos sanitários das edificações.
Na segunda metade do século XIX, a educação formal e acadêmica dos arquitetos foi então disseminada nos Estados Unidos da América (PEREIRA, 2005), complementando a prática exercitada nos ateliês de profissionais renomados. Nessa época, o exercício profissional ocupava grande parte das atividades dos arquitetos e, para o cumprimento de misteres de ofício, percebiam-se baixos salários.
Os arquitetos de maior destaque buscavam uma formação especializada, difundida na Europa, sobretudo na École des Beaux-Arts (Escola de Belas Artes) em Paris, o que possibilitou a que seus egressos seguissem carreira docente, vindo a serem os primeiros professores nas escolas de Arquitetura norte-americanas, e, os mais habilitados para atuarem no nascente sistema de ensino formal nos Estados Unidos.
Manuais de Arquitetura se tornaram as principais referências, como síntese dos modelos de ensino, sobretudo dos modelos francês (Academista) e inglês (Arquitetura como ofício) (BANHAM, 2006). Manuais norte-americanos alcançaram publicação nesse período, com ênfase aos instrumentos e às soluções que fundamentavam o exercício profissional, e matérias como desenho, matemática, geometria, história da arquitetura, ornamentação, estudos de ventilação, insolação, orçamentos, contratos e especificações, tais como foram apresentadas no The American Vignola, de William Robert Ware e Giacomo Vignola (1902).
O fundamento clássico embasou caminhos práticos revestidos de
caráter cientificista, de acordo com a época – soluções tipológicas aplicáveis graças à sua adaptabilidade operativa. Interpretações da História identificavam-na a um devir teleológico – a História seguia rumo a uma causa final, manifestação última de sua finalidade e condição ideal. Pragmatismo e idealismo se sobrepuseram, delineando o historicismo do século XIX.
Projeto de uma colônia de férias para crianças, apresentado pelo
discente Aluísio da Rocha Leão, orientado pelos Profs. Christiano
Stockler das Neves e Fernando Martins Gomes, em 1951.
Fonte: Revista de Engenharia Mackenzie, 1951.
O ensinamento prático como experiência consistiu em um
fundamento rústico; defendia-se a adoção do modelo europeu como base para o refinamento necessário ao ensino da Arquitetura compreendida como Arte, emulando a filosofia e o método acadêmico, e incorporando aos quadros docentes pelo menos um professor educado em Paris. Em solo norte-americano, essa modalidade de ensino se iniciou em 1860 com a criação da primeira Escola de Arquitetura no Massachussets Institute of Technology (Instituto de Tecnologia de Massachussets – M.I.T.) por William Baston Rogers. A segunda escola dessa natureza se estabeleceu na Universidade de Illinois em 1867, conduzida por Harald M. Hansen, e na Cornell University, a criação de uma escola de arquitetura data de 1871, por iniciativa de Charles Babcock (PEREIRA, 2005).
Apesar de terem sido encontrados registros de cursos de
arquitetura desde 1868, apenas em 1890 foi oficialmente criado o Departamento de Arquitetura da Universidade da Pensilvânia por Theophilus Parsons Chandler Jr., com origem na Graduate School of Fine Arts (Escola Superior de Belas Artes). Formado em Engenharia, em viagem à França, Chandler Jr. estudou no ateliê Vaudremer, cujo patron (o mestre condutor dos discípulos), Joseph-Auguste-Emile Vaudremer, fora o segundo colocado no Grand Prix de Rome de 1854. Nesse ateliê, teriam sido educados Louis Sullivan e William Robert Ware.
A Graduate School of Fine Arts foi criada oficialmente em 1890,
mas há registros de cursos de arquitetura oferecidos na Universidade da Pensilvânia desde 1868. No início do século XX, vários professores qualificados atuavam na instituição, entre eles se pode mencionar Walter Cope, John Stewerdson, Frank Miles Day e Wilson Eyre. Em 1903, Warren P. Laird, que sucedeu à diretoria de Theophilus Parsons Chandler Jr., contratou o francês Paul Philip Crét (1876-1945) para ensinar e desempenhar a função de novo patron d’atelier; ele propôs então uma nova metodologia de projeto, transformando-a em uma renomada instituição de ensino.
Paul Philip Crét adaptou-se com facilidade às condições de produção e ensino da arquitetura nos Estados Unidos, tendo estudado nas Escolas de Belas Artes de Paris e Lyon entre 1893 a 1897 (PENN BIOGRAPHIES, 2017). Seu método apresentava a simplificação da sintaxe e dos detalhes do vocabulário da arquitetura clássica, inspirado na formação recebida de Jean-Louis Pascal e Julien Guadet. Defendera a atualização e o registro da tradição e da ‘modernidade’ por meio da arquitetura, adequando os edifícios às suas necessidades atuais.
O parti (ou partido arquitetônico) foi então compreendido como aplicação de leis compositivas, axialidade, simetria, hierarquia e proporção. Caberia ao arquiteto a adequação pragmática da linguagem ao programa, e uma interpretação que atendesse às necessidades de cada tempo, ao preservar a composição como princípio. Edifícios de programa complexo atendiam, sobretudo, às instituições públicas, a quem se destinava a maior parte das realizações arquitetônicas grandiosas.
Deve-se a Crét, que lecionou na Universidade da Pensilvânia de 1903 a 1937 (exceto durante a Primeira Guerra Mundial, em que esteve absorvido em lides bélicas na Europa), a transformação do modelo acadêmico em uma versão adaptada em terras norte-americanas, tal como um ‘clássico modernizado’, entendido como atualização dos princípios acadêmicos vigentes. Ele aceitava a distinção academista entre ‘linguagem’ (ornamentos, tais como elementos originários da arquitetura greco-romana e renascentista, e a roupagem das fachadas) e ‘leis compositivas’, conceituando-as como um conjunto de fundamentos estéticos inalienáveis.
Sua marca pedagógica pode ser observada na prática e no ideário de arquitetos formados na Universidade da Pensilvânia, e que vieram a se tornar expoentes, tais como o estônio Louis Kahn. Titulado em 1924 (CAPITEL, 2009), depois de viajar a Europa, Kahn retornou aos Estados Unidos em 1929, e trabalhou no ateliê de seu professor. Defendeu o racionalismo, a adequação da arquitetura à sua função, mas buscou a coerência da forma e da estrutura como uma expressão da ‘ordem’, o que pode ser consagrado em escritos como Order and Form (1955). A obra de Kahn expõe a persistência do fundamento da composição, entendida como ordem às partes de um todo; expressa-se no ordenamento de elementos, culminando na distinção entre espaços servidos e servidores. No Edifício dos Laboratórios Richards (1957-1961), Kahn unifica o conjunto de sete torres de geometria elementar (quadrados), que se conectam fisicamente, e criam um conjunto rigoroso, a partir da semelhança das partes. A materialidade destaca o conjunto, e faz parte da expressão unitária, bem como a escala dialoga com o rigor formal, da mesma forma ensinada por Crét, em que a ideia de composição foi forjada.
Métodos projetuais propriamente norte-americanos (BREIA, 1995)
enfatizavam pesquisa e inovação – compreendendo-as como exploração de materiais, sistemas estruturais e técnicas de construção, tais como o cimento armado, e estruturas reforçadas por elementos e barras metálicas, buscando-se a melhor adequação do edifício à sua função sem sacrifício de padrões estéticos vigentes, atendendo por objetivo a atualização eficaz da materialidade e o melhor desempenho funcional –, diretrizes que conduziram o ensino na Universidade da Pensilvânia.
Esse é o ambiente em que foi educado o jovem Christiano
Stockler das Neves, compactuando do respeito aos fundamentos e à inovação, moldadas pelo ‘pragmatismo’. O termo, atribuído a Charles Sanders Peirce (1839-1914), foi popularizado por William James (1892-1910): o sentido de qualquer proposição se encerra na relação com outras proposições decorrentes da primeira, e todo significado somente tem existência ao visar o futuro (BLAU, 2005).
O significado pragmático das crenças e dos fundamentos da
ciência se explicaria pelo uso atribuído às proposições; sua verdade residiria na utilidade futura. Do mesmo modo, a verdadeira Arquitetura, embora indissociável de seus princípios essenciais, era capaz de transcendê-los e atualizar-se, e a profissão não deveria olhar apenas para o passado como modelo, mas mirar o futuro.
Esses princípios científicos e lógicos foram transpostos ao campo
da Ética – pautada na ação e na atualização das proposições e das práticas sociais, a visão do pragmatismo enfatiza o futuro, mas não descarta valores e princípios imanentes que condicionam e limitam a experiência possível, impondo a necessidade de um sistema filosófico que “[...] combine as coisas, a lealdade científica aos fatos e a disposição em levá-los em conta, o espírito de adaptação e de acomodação, em suma, mas também a velha confiança nos valores humanos” (BLAU, 2005, p. 33).
O pragmatismo conformava uma forma tensa de ver o mundo; procurando conciliar o empirismo e o racionalismo, assinalou em ambas as doutrinas uma tensão produtiva entre dogmatismo e inovação, contrapondo o ‘absoluto’ e o que é ‘próprio ao devir da história’, afirmando por essa dialética o espírito do pragmatismo. Ao interpretar essa dualidade como a síntese do pragmatismo norte-americano, William James asseverou que, embora houvesse valores e princípios, eles se submetem à ação transformadora e à correção histórica, opondo o ‘monismo’ racionalista ao ‘pluralismo’, contaminado e eclético, por definição.
É possível pensar que a Fine Arts School, da Universidade da Pensilvânia, transpôs tais princípios éticos à Estética. A formação recebida nas escolas norte-americanas, inseparável das ideias em circulação permeadas pelas concepções filosóficas vigentes, e no contexto em que foram elaboradas, preconizaram que, embora modelos e princípios fossem necessários – difundidos pela École des Beaux-Arts de Paris –, os mentores das instituições norte-americanas clamavam por subvertê-los, propondo uma modernização fundada na necessidade, que reduziu modelos e abrandou sua eternidade.
A opção de Christiano Stockler das Neves pela Fine Arts School pode ser esclarecida por esse ideário, e por discordar da formação da então Escola Polytechnica de São Paulo, a qual havia ingressado em 1907. A perspectiva que priorizava a Engenharia, na formação de Engenheiro-Arquiteto, e a ênfase aos aspectos técnicos o desagradaram. Christiano Stockler das Neves ansiava transformar a prática da Arquitetura no Brasil e especialmente em São Paulo, em que predominavam as competências dos engenheiros-arquitetos ou engenheiros-civis, tanto na elaboração de projetos como na execução de obras. A busca por uma formação específica e diferenciada em Arquitetura fez com que ele abandonasse então o Curso da Escola Polytechnica de São Paulo. Era uma premissa capital a definição de uma clara fronteira entre Engenharia e Arquitetura, e defendia com veemência o arquiteto como o mais importante profissional no processo de projeto e construção, devido à sua dupla formação, estética e técnica.
Após concluir o curso na Fine Arts School em junho de 1911 e
antes de retornar ao Brasil, Christiano Stockler das Neves saiu em viagem à Europa, visitando lugares emblemáticos em países diversos, com o objetivo de conhecer os monumentos históricos e arquitetônicos significativos do Velho Mundo – os modelos, parâmetros determinantes, a seus olhos, de uma eterna, verdadeira e correta arquitetura.
Projeto para uma pequena residência na Rua Alagoas
(Higienópolis, São Paulo) do aluno Kurt Hollander (Mackenzie, 1954), premiado com Menção Honrosa no âmbito da disciplina
Pequenas Composições de Arquitetura.
Fonte: Revista de Engenharia Mackenzie, 1951.
Ao retornar a São Paulo em 1912, motivado pela experiência no
estrangeiro e já formado, reformulou métodos e rotinas de trabalho do escritório técnico de seu pai, o engenheiro Samuel Augusto das Neves (1863-1937). O Escritório Técnico Samuel das Neves, um dos mais prósperos da cidade, assumiu, então, uma feição moderna, contratando mão de obra especializada de desenhistas e de engenheiros com o intuito de desenvolver refinados projetos de arquitetura que contemplassem temas e programas atuais e complexos.
De 1912 até o fim da década de 1940, o Escritório Técnico
Samuel das Neves desenvolveu importantes trabalhos, e entre estes, muitos foram os projetos e obras atribuídas a Christiano Stockler das Neves (BREIA, 2005). Entre essas obras referenciais destacam-se o Edifício Sampaio Moreira (São Paulo, 1924), e a Estação Inicial da E. F. Sorocabana, o projeto para a Estação da Central do Brasil, com o qual, em 1927, obteve o prêmio de honra da III Exposição Pan-Americana de Arquitetura realizada em Buenos Aires. Nessas obras, os princípios teóricos da École des Beaux-Arts comparecem como modelos formais e de referência.
O Renascimento e o Neo-Clássico francês foram adotados como
repertório para a realização de projetos e definição de partidos e escolha de elementos decorativos. Tais referenciais eram adaptados e modernizados, gerando uma gramática partir da qual uma linguagem arquitetônica poderia ser constituída.
Normas clássicas e acadêmicas constituíam para o discurso e a
prática do Arquiteto uma referência essencial e originária, mas o valor de um projeto consistia em aplicá-las e produzir ‘efeitos’ práticos, considerando o passado como fonte operativa de informações que poderiam ser constantemente revitalizadas e atualizadas.
Esse ideário conduziu a estrutura pedagógica do Curso de Arquitetura do Mackenzie College, criado em 1917, e perdurou na Faculdade de Arquitetura autônoma, fundada em 1947. O Curso de Engenheiros Architectos do Mackenzie College apresentava em sua grade de estrutura curricular essa visão instrumental e operativa. Na disciplina Elementos de Architectura, os alunos aprendiam as ordens e seus elementos derivados, Desenho da Renascença (modelo reduzido fundamental), e Elementos Gerais de Composição e Proporções. A disciplina Theoria da Arquitectura ministrava aulas de acordo com as especificidades temáticas: Habitação, Habitação Coletiva, Hospitaes, Asylos e Hospícios, Edifícios Administrativos, Políticos, Judiciários e Penitenciários, Edifícios para Espetáculos e Audição, Architectura Decorativa e Jardins (PIMENTA; ABASCAL; MENDES, 2009).
Essa concepção filosófica, acadêmica e humanista, no sentido renascentista do termo conferido por Argan (1999), contrapõe-se a uma visão providencial da História, em que o curso dos acontecimentos seguia os desígnios da Providência. O pragmatismo transformou esse pensamento, cedendo lugar a uma visão para a qual a História não se repete, mas o passado vale como ação contínua e causa material no presente.
Casa à Rua Alagoas, de Kurt Hollander. Entrada principal.
Fonte: Revista de Engenharia Mackenzie, 1951.
Casa à Rua Alagoas, de Kurt Hollander. Fachada posterior.
Fonte: Revista de Engenharia Mackenzie, 1951.
Casa à Rua Alagoas, de Kurt Hollander. Detalhe do living.
Fonte: Revista de Engenharia Mackenzie, 1951.
Da perspectiva humanista, permaneceu a exaltação do ‘monumento’, da grande arquitetura, meio que possibilitava que o passado permanecesse no presente, podendo se projetar no futuro – assim se estabeleceram as bases para a crença na condição essencial da arquitetura clássica, uma crença na tradição acossada pelo desconforto dos humanistas, ao confrontarem formas universais ou modelos às divergências e contradições, às incongruências entre regras clássicas e dimensões e proporções reais dos edifícios e das cidades, assinalando uma tensão entre a regra e a diferença, tensão que identifica com toda Arte que se propõe “moderna”.
A tensão explícita entre a regra e a sua negação, baseando-se nos edifícios construídos, não está exposta como fragilidade ou decadência, ou degradação das formas, mas, sob esse ponto de vista, o Classicismo deixa de ser entendido como repertório eternamente válido. Dessa maneira, “[...] a ação humana que dá forma à realidade no momento exato em que acontece” (ARGAN, 2005, p. 10) não preconcebe a Arquitetura, mas confere-lhe individualidade, mesmo ao manter seu significado universal.
A tensão clássica e anticlássica pode ser observada na dualidade da formação de Christiano Stockler das Neves – por um lado, os ensinamentos da regra, e, de outro, a ação materializada na prática da profissão, que o arquiteto encontra na Universidade da Pensilvânia. O significado do ‘universal’ se expressou ao longo de sua prática profissional, na adoção do Renascimento e do Neoclássico francês como fundamentos. Negando, no entanto, a tese de Benedetto Croce, de que toda Arte é intrinsecamente clássica (ARGAN, 2005), acatou a correção proposta pela prática e pelas diferenças próprias ao seu tempo, caras ao humanismo e ao pragmatismo americano.
À época em que Christiano Stockler das Neves cursou na Fine
Arts School, a crítica arquitetônica e artística reiterava o papel da forma na Teoria da Visibilidade Pura. Em 1915, Heinrich Wölfflin (2006) publicou Conceitos Fundamentais de História da Arte, obra em que contrapôs aos cânones clássicos outros princípios, que lançaram luz ao Maneirismo e ao Barroco como abordagem.
A exclusividade do rigor clássico era então questionada, e
Christiano Stockler das Neves conviveu com uma complexa carga conceitual, em que comparecem traços idealistas e pragmáticos, que se interpenetram – evidenciadas pelas transformações assistidas pela cultura na passagem do século XIX ao XX. As mudanças preconizadas nas cidades que experimentavam a expansão de fronteiras, de populações e formas culturais conviviam com mentalidades de preservação das origens. Ao mesmo tempo, a modernização urbana urgia a adaptação da Arquitetura às necessidades e aos programas de seu tempo, conduzindo-a devidamente ao fim e motivada por ambições mais amplas.
Estilos e modelos deveriam enfrentar o devir e a transformação
imposta à Arquitetura pela sociedade, com sua redução frente ao parâmetro absoluto, passando à posição de linguagem e instrumento. Colquhoun (2004) assevera que o Classicismo em sua pretensão absoluta sempre gerou reações críticas, de modo que Viollet-le Dûc, por exemplo, elevou o Gótico à condição de referência contra a arquitetura das academias, atualizando-o.
Essa abertura às expressões arquitetônicas que fugiam às regras
gerou, desde fins do século XIX e primeiras décadas do século XX, um historicismo de feição eclética, acatando a pluralidade estilística e acentuando certa “[...] inquietude cultural premente, em busca de uma perfeição não garantida pelos grandes modelos da natureza e da história e sim pela necessidade de enfrentar os problemas dos meios expressivos” (ARGAN, 1999, p. 15).
Essa inquietação acolhedora do ecletismo fez conviver a tradição acadêmica e a modernização arquitetônica, que se apresentou na obra de arquitetos que atuaram em São Paulo nas décadas de 1910 a 1930 do século XX, tal como Christiano Stockler das Neves: Alexandre de Albuquerque e Antonio Capua, por exemplo, adotaram um clássico modernizado que se despia de ornamentos, e depois emulando o art déco. Os modelos perderam substância de autoridade, reduzidos a fios condutores da ação modernizadora – um novo significado às regras de composição afigurava-se. Ao retornar do estrangeiro, esforçou-se por dinamizar o Escritório Técnico Samuel das Neves e adaptá-lo às transformações e exigências profissionais que a cidade de São Paulo enfrentava em sua modernização verticalizadora.
Os projetos realizados pelo Escritório a partir de seu retorno exibem clara definição estilística, eram apresentados por meio de requintados desenhos, nos quais a concepção se concretizava na execução e na adoção de materiais e sistemas construtivos inovadores, expressos em grande parte dos trabalhos profissionais. O arquiteto detinha o controle da concepção, da representação do projeto, da estrutura e da construção, diferenciando-o da produção de artesãos e de engenheiros.
Um estilo geometrizado e abstrato marcou as grandes estações ferroviárias norte-americanas, que se tornaram modelo para Christiano Stockler das Neves, visível nas obras de 1922 e 1930 – Estação do Norte e Porteiras do Brás, utilizando o Luís XVI modernizado, que apareceu ainda no projeto da Sede do Jockey Club de Campinas, de 1923.
Edifícios de escritórios projetados e executados entre 1917 e 1940 se tornavam símbolo da modernização da cidade de São Paulo com a verticalização. A racionalidade da circulação vertical e a utilização de elevadores conviveram com motivos arquitetônicos de estilo, como no Edifício Sampaio Moreira (1924, à Rua Líbero Badaró, 346) e o Edifício Riachuelo (de 1929, na Rua Líbero Badaró, esquina com Dr. Falcão), projetos de Samuel das Neves e Christiano Stockler das Neves.
Edifício Copan, São Paulo, 1951. Projeto original do Engenheiro-
Arquiteto Oscar Niemeyer (ENBA, 1934), encomendado para o IV
Centenário de São Paulo (que viria a ser comemorado em 1954).
Niemeyer encarregou sua execução ao jovem Arquiteto Carlos
Alberto Cerqueira Lemos (Mackenzie, 1950).
Modernidade e tradição: a transição
dos anos de 1940 e 1950
Na década de 1940, a fidelidade à simetria, o ritmo, a proporção e a harmonia clássicas conviviam com formas mais puras e o despojamento de ornamentos. A arquitetura cedia ao passo do tempo, aproximando-se dos princípios racionalistas que Le Corbusier e a equipe liderada por Oscar Niemeyer aportaram ao seminal edifício do Ministério da Educação e Saúde, em 1936, no Rio de Janeiro.
Em 12 de agosto de 1947, foi fundada a Faculdade de Arquitetura Mackenzie, desvinculando-se da Escola de Engenharia, da qual fazia parte desde 1917. O momento era de uma profícua e heterogênea presença da arquitetura na cidade em modernização. Nesse mesmo momento, o Edifício Esther, de Álvaro Vital Brasil e Adhemar Marinho, já marcava a paisagem paulistana, e em 1946 o edifício Prudência e Capitalização, de Rino Levi, chegava à Avenida Higienópolis.
Nos anos quarenta, edifícios públicos institucionais vieram a integrar a produção do arquiteto e fundador da Faculdade de Arquitetura Mackenzie, utilizando-se da estética art déco – o Edifício
para o Ministério da Guerra (1937-1941),1 de autoria de Christiano Stockler das Neves e José Ferreira Louro, construído no Rio de Janeiro no mesmo terreno do antigo Quartel da Praça da República, erguido no século XIX, e o Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (1940). Representam adaptação e mudança, abandonando-se os primeiros modelos consagrados, os do Renascimento e do Neoclássico.
Exercícios realizados nas disciplinas Pequenas e Grandes Composições passariam a exibir uma expressão clássica modernizada, que no início dos anos de 1950 reproduziam o art déco – motivado pela presença do carioca Elisiário da Cunha Bahiana (formado pela Escola Nacional de Belas Artes, ENBA, Rio de Janeiro), que passou a integrar o corpo docente na década de 1950. Elisiário da Cunha Bahiana é autor do conjunto formado pelo Edifício João Brícola (antigo Edifício do Mappin Stores e originalmente projetado para abrigar a sede do banco Banespa) e o novo Viaduto do Chá, resultado da urbanização do Vale do Anhangabaú na primeira administração do prefeito Prestes Maia em 1938.
Ao avançar a década de 1950, a linguagem clássica como
instrumentação operativa seguiu sendo ensinada na FAU-Mackenzie. A reprodução de modelos arquitetônicos de aplicação era prática corrente, sobretudo nas aulas de Arquitetura Analítica e Pequenas e Grandes Composições (BREIA, 1995).
No entanto, a constrição academista convivia com o aprendizado
de novas técnicas e sistemas construtivos, tais como concreto armado e protendido, cujas aplicações projetuais eram ensinadas pelo Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo (MENDES; ABASCAL; BREIA, 2015). Temas arquitetônicos próprios à época eram aceitos nos projetos e trabalhos de formatura realizados por alunos – edifícios públicos, institucionais e privados de programa complexo, que procuravam atender à cidade em processo de modernização (REVISTA DE ENGENHARIA MACKENZIE, 1951). A inserção do campus do Mackenzie no bairro de Higienópolis, canteiro vivo de um sem-número de edifícios modernos construídos desde os anos 1940, de autoria de professores e arquitetos expoentes da época, foi certamente um fator de estímulo ao processo de transformação do ensino e da Arquitetura na FAU-Mackenzie.
A procura pela excelência no ensino e rigor, buscados por
Christiano Stockler das Neves, expressou-se durante essa década na elevação do tempo dedicado pelos estudantes aos exercícios projetuais, realizados na própria faculdade, tais como revelaram
depoimentos de vários egressos. 2 Projetos realizados em 24h e 48h eram prática corrente na década de 1950, elaborados em prancheta individual, com identificação nominal.
A avaliação dos projetos assumia muitas formas, que envolviam a
participação coletiva de professores e alunos. Muitas vezes, foi realizada por comissões ou júris externos, sobretudo nos anos mais avançados da formação. Tais júris eram integrados pelos docentes da Faculdade e profissionais de expressão na cidade, convidados especialmente para avaliar os projetos mais arrojados de autoria dos discentes, que deliberadamente procuravam aplicar princípios da Arquitetura Moderna, com princípios corbusierianos,
funcionalistas ou organicistas. 3
A apresentação aberta dos projetos expostos à comunidade acadêmica demonstrava que era possível sustentar posições e que sua defesa deveria ser fundamentada em argumentação consistente e rigorosa da solução projetual. Quanto mais ousada a solução adotada pelo aluno, mais se exigia dele conhecimentos e argumentos capazes de sustentar trabalhos dissidentes da ortodoxia academista.
A convocação de júris externos se justificava como exercício e preparo para o exercício da profissão, exigindo-se que o discente argumentasse em defesa do projeto diante de uma banca. Concursos internos a partir de projetos realizados em 24h e 48h eram também avaliados por profissionais de destaque. Rivalidades e competições dessa natureza contribuíam como incentivo para que soluções esmeradas pudessem ser concebidas para os projetos acadêmicos ou modernos.
Em outras ocasiões, projetos do quarto ou quinto ano, expostos nas salas de aula para efeito de avaliação, eram visitados por alunos dos demais anos para troca de informações e difusão do processo de concepção. Esses projetos modernos foram reiteradamente expostos nas dependências do campus da Universidade Presbiteriana Mackenzie, sob organização do Diretório
Acadêmico da Faculdade de Arquitetura Mackenzie (Dafam). 4
O ensino acadêmico do que Summerson (1994) denominou ‘essência’ clássica jamais foi abandonado, sendo internalizado nas práticas pedagógicas e nas expressões arquitetônicas modernas, produzidas por alunos que buscavam a vanguarda. Avançava-se de um clássico estilizado à arquitetura genuinamente moderna, que atendia a programas funcionais complexos e aos anseios de discentes que desafiavam ares conservadores.
Enquanto exerceu a docência, Christiano Stockler das Neves seguiu defendendo que a arquitetura é arte, e que argumentações funcionalistas não deveriam confundir o entendimento de princípios funcionais, construtivos e estéticos (FAU-MACKENZIE, 1947). Movido pela defesa do ‘caráter’ dos edifícios, questionou a estandardização, a qual entendia como homogeneização acrítica da arquitetura. Foi também crítico do funcionalismo, insistindo no valor da forma como elemento distintivo da arquitetura como arte, e que Arquitetura e Urbanismo deveriam caminhar juntos, como manifestações estéticas solidárias.
Defendeu a importância da documentação das formas
arquitetônicas como elaboração de repertório, para que o estudante pudesse compreender o limite e a pertinência de sua aplicação e prática. O ‘historicismo instrumentalizado’ deveria se converter em um fundamento, para os mais conservadores, no repertório do arquiteto, sendo possível justificar a ênfase no Renascimento e no Neoclássico francês como ‘modelos reduzidos’.
A Arquitetura Moderna, ainda pouco internalizada e entendida
como mais uma atualização do repertório historicista, embora vista com suspeição, era aceita como possibilidade na FAU-Mackenzie. Muitos são os depoimentos de egressos, no entanto, que deixam evidente a prática de projetos modernos durante o período em que foram alunos de Christiano Stockler das Neves. Relatos evidenciam a realização de bancas para os Trabalhos de Tese, reunindo professores internos e um membro externo, este geralmente um arquiteto atuante na cidade, formado muitas vezes pelo Curso de Arquitetura do Mackenzie College, a exemplo de Oswaldo Bratke, convidado a julgar projetos que se mostravam para além da ortodoxia clássica, e deixam essa contradição entre conservação e modernização da Escola um fato evidente.
A evidência de que projetos modernos conviviam com versões
acadêmicas, e que essa polêmica envolvia docentes e discentes, não quer dizer que a Arquitetura Moderna fosse, à época, professada livremente, sequer a partir de seu pleno entendimento, e eminente professor arquiteto a via com grande suspeição e hesitação. Embora recusasse o funcionalismo e a relação linear ou imediata de forma e função, recusava toda emergência ou irrupção de fenômenos estéticos e arquitetônicos sem base em uma genealogia.
Christiano Stockler das Neves se contrapôs à prática inconsciente
da Arquitetura Moderna, a qual reputava passível de incorrer na omissão de uma correção estética e formal, mas a compreendia como inerente ao seu tempo, mesmo ao nutrir sentimentos de hesitação em relação ao seu valor e prática. O conceito de linguagem e de caráter dos edifícios e de pertinência temática estava imbuído de uma posição conservadora, que concluía por ser possível projetar um hospital moderno, mas que não era recomendável que essa solução se universalizasse, estendendo-se esse conservadorismo a todos os temas projetuais, questionando a pregnância da Arquitetura Moderna em sua potencialidade de transformação social.
Edifício Banco Sul Americano, atualmente do Banco Itaú, na
Avenida Paulista, São Paulo, 1961. Projeto do Arquiteto Rino Levi
(Escola Superior de Arquitetura de Roma, 1925) e dos Engenheiros-
Arquitetos Roberto Cerqueira Cesar (Escola Politécnica da
Universidade de São Paulo, 1940) e Luiz Roberto Carvalho Franco
(Mackenzie, 1951), este último aluno da primeira turma da
Faculdade de Arquitetura Mackenzie. Carvalho Franco foi parceiro
de outros mackenzistas, a exemplo de Galiano Ciampaglia e Miguel
Forte.
Em seu discurso de posse, por ocasião da Fundação da Faculdade de Arquitetura em 12 de agosto de 1947, lembrou o Professor Christiano Stockler das Neves de que a oportuna criação de curso autônomo encontrava lastro na expressiva atividade dos Arquitetos Mackenzistas, renomados profissionais ganhadores de concursos e prêmios, quer nacionais, quer internacionais. Assinala que é a Arquitetura a mais antiga das artes, de onde emanam as demais. Defendeu a profissão de arquiteto, lutando por sua regulamentação no Brasil, e, polemista incansável e defensor do debate, submeteu o ensino da Arquitetura Moderna na FAU-Mackenzie a um estado crítico pautado por juízos e princípios de adequação aos fins (FAU-Mackenzie , 1947).
O sistema de avaliação por ele adotado a partir de 1947 na disciplina Grandes Composições (gênese das disciplinas de Projeto) foi concebido com base na estrutura de pensamento que fundamentou sua trajetória, e envolvia o tom polêmico e crítico dos projetos modernos a que reputava funcionalistas, sem impedir sua apresentação pelos estudantes que ousassem contrariar o uso do
repertório eclético. 5 Uma hierarquia temática e escalar regia o ensino, à luz da estrutura academista que propugnava uma escalada de exercícios, desde o mais próximo – a residência unifamiliar – até o edifício de programa complexo.
Paulo Mendes da Rocha (Mackenzie, 1954) reforça a realização de concursos no quarto e no quinto ano do Curso de Arquitetura, com a vinda de convidados externos como parte do júri:
O grêmio da faculdade também, pela mão desses colegas ilustres que se
dedicavam à política estudantil, possuía uma exposição anual de trabalhos e
arquitetos de fora eram convidados para julgar. Lembro que no quarto ano, ou
talvez no quinto, ganhei quase todos os prêmios, tendo no júri Rino Levi e
outros convidados. (ROCHA, 2007, p. 4).
Polemizando o Futurismo, estendeu sua crítica à arquitetura racionalista e aos arquitetos modernos do Brasil, como Gregori Warchavchik e Lucio Costa (NEVES, 1929). A polêmica em relação ao Futurismo se concentrou na possível ruptura com a historicidade, afirmando que “as mais belas épocas da arte são aquelas em que a tradição foi mais respeitada, onde o progresso era o aperfeiçoamento contínuo [...] não existiria uma ‘geração espontânea da arte’” (NEVES, 1929, p. 5).
Em defesa de um contínuo referendum da história para a
arquitetura de vanguarda, essa tensão propunha que tradição e vanguarda eram solidárias, e que toda expressão original dependia da experiência ou do universo da disciplina arquitetônica, entendida como Composição.
A Disciplina de Composição permaneceu longamente no currículo
da FAU-Mackenzie, comparecendo até meados da década de 1960
(UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1962-1966).6 Nesse documento, a disciplina de Composição era oferecida no primeiro ano, e, a partir do terceiro ano, apareceu como Projeto.
A longa permanência da Composição se explica pela resistência à
originalidade como ruptura radical com o passado (originalidade pela originalidade), enfatizando que a Arquitetura não é ciência, mas uma arte, e, como tal, transcende a construção.
Paulo Mendes da Rocha,7 ao se relembrar da atuação de
Christiano Stockler das Neves e seu legado, assinala a maneira peculiar como o ensino de projeto – Pequenas e Grandes Composições – se fundamentava em ensinamentos históricos:
Stockler das Neves tinha uma consciência muito clara e, como é sabido, uma
fixação um tanto acadêmica pela arquitetura de estilo. Mas isso era, antes de
mais nada, um ensaio, porque obrigava a fazer projetos dirigidos enfocando a
arquitetura grega, greco-romana e coisas assim. Mas se aprendia literalmente
a importância da história como experiência. E sempre nós víamos, num
templo grego, que seria o mais clássico, um sistema construtivo belíssimo. O
Mackenzie era uma escola que não obrigava a engolir uma visão formal
daquelas coisas. Era o simples exercício de um prédio existente, a visão de
há quanto tempo existiu e progrediu para o concreto armado e outros
materiais. E isso é muito mais útil do que você sempre pensar que a coisa da
sua época é uma novidade total – que é o que hoje ocorre, a ponto de se
designar algo como pós-isso ou pós-aquilo. O homem não pode ser pós-
nada. Nós somos sempre. (MENDES DA ROCHA apud SERAPIÃO, 2007, p.
4).
O Arquiteto enfatiza a habilidade adquirida com a prática do
desenho, levando à representação dos referenciais históricos, voltados a aplicações modernas. Indagado a respeito da qualidade e da modernidade dos projetos acadêmicos de Carlos Milan, seu contemporâneo, afirma:
Sim, sem dúvida nenhuma. Ele [Carlos Milan] fez uma casa, que era o tema,
toda à mão, croqui. Com certeza não teve nota grande, mas o projeto era
uma maravilha. Nós brincávamos, no bom sentido, no sentido intelectual da
palavra, dentro da própria escola. Você fazia, com grande habilidade, o que o
nosso querido Christiano pretendia, no primeiro trabalho, e tirava nove, dez. E
depois fazia outros trabalhos com mais liberdade. Você não ia tirar zero, de
qualquer maneira, e, na média, cinco dava para passar. [...] (MENDES DA
ROCHA apud SERAPIÃO, 2007, p. 4).
Desde a data de fundação, verificaram-se na FAU-Mackenzie movimentos estudantis que clamavam por novos rumos para o ensino, aspirando ao pleno domínio e à aceitação da Arquitetura Moderna. Na década de 1950, Carlos Milan e Jorge Wilheim, alunos à frente do Dafam organizaram e editaram a revista Pilotis, que juntamente com a Revista de Engenharia Mackenzie, editada pelo Grêmio do Mackenzie College, se tornaram publicações para a disseminação de trabalhos e debates da época (PEREIRA, 2005).
Embora o ensino na ocasião seguisse moldes Beaux-Arts, a produção gráfica de ex-alunos revela um número cada vez maior de projetos modernos, uma diversidade e até mesmo contraposição das soluções projetuais propostas, não apenas com uma tolerância para as soluções modernas, mas a presença de um corpo docente que endossava a nova arquitetura.
Mudanças seminais na década de
1960
Em fins da década de 1950, com as pressões exercidas pelas transformações da cidade e do mercado imobiliário em expansão, e com a presença cada vez mais expressiva da Arquitetura Moderna, as posturas estética e historicista do Prof. Christiano Stockler das Neves se fragilizaram. Os alunos reivindicaram mudanças na organização do curso e em suas modalidades pedagógicas, o que culminou em assembleias e documentos que exigiram sua saída. Retirou-se da Diretoria em 12 de agosto de 1956, abandonando a docência e a FAU-Mackenzie, definitivamente, em 1958.
Após sua saída, sucederam-se anos de transição marcados por
debates acalorados, que tiveram à frente o corpo docente, os discentes e o Dafam. As mudanças propostas buscavam uma atualização pedagógica, que se iniciara em fins da década de 1950 e avançou pelos anos 1960. Os eventos políticos de 1964 alteraram os rumos desse processo; no entanto, é possível dizer que os primeiros cinco anos da década de 1960 foram ricos em avanços, representando uma vontade de atualização contra preceitos agonizantes. Professores e alunos eram unânimes diante da necessidade de estabelecer um vínculo mais próximo entre a cidade que se transformava e a FAU-Mackenzie, e uma relação produtiva e mais próxima entre Arquitetura e Urbanismo.
Em 1961, o então professor João Francisco Portilho de Andrade
(o Andradinha, docente da cadeira de Arquitetura Analítica), representante dos professores na Comissão Permanente criada por ocasião do II Encontro de Diretores e Alunos, capitaneava o debate sobre as novas necessidades do ensino, revelando um interesse geral no aprimoramento do ensino e forte identidade de pensamento de docentes e discentes diante de uma percepção e de um novo tempo (GHIRALDINI, 1961).
O ano de 1962 assinala momentos de revindicações estudantis, e
a sinalização do Conselho Universitário de que era justo o movimento de reestruturação do Curso de Arquitetura, salientando o estudo de dez meses que havia sido realizado por docentes e discentes, aprovando-se orçamento para a Unidade (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1962). Ainda em 1962, Adolph Franz Heep, que estudou Arquitetura na Escola de Artes e Ofícios de Frankfurt, na qual foi aluno de Walter Gropius e Adolf Meyer, com quem trabalhou na prefeitura de Frankfurt entre 1924 a 1928, foi incorporado ao quadro de docentes, vindo a lecionar a disciplina Grandes Composições de Arquitetura. Nesse mesmo ano, Jun Okamoto, egresso da FAU-Mackenzie, é incorporado como docente, vindo a lecionar Teoria da Arquitetura, que surgiu no currículo em 1960, complementando a disciplina Teoria e Filosofia da Arquitetura (PIMENTA; ABASCAL; MENDES, 2010).
Residência Antônio D’Elboux, São Paulo, 1962. Projeto do
Arquiteto Carlos Barjas Millan (Mackenzie, 1951).
O momento é marcado pela inauguração de Brasília, por ares desenvolvimentistas e a expansão urbana. Em São Paulo, a ampliação de uma classe média urbanizada permite a expansão do mercado da construção civil e de empreendimentos imobiliários residenciais. A expansão da mobilidade e de veículos sobre pneus reforça as periferias e seus problemas, e a cidade exibe aos estudantes de arquitetura uma nova realidade social, na qual cidade e arquitetura não se dissociavam.
A abertura à diversidade de soluções e programas revestia o Curso de Arquitetura de um caráter plural, sem a convivência pacífica de posições muitas vezes em franca oposição. Evidenciava-se a iminência de um processo de transformações, sobretudo de um debate crítico que trouxe à luz visões progressistas de professores e alunos, e que marcou a Escola em defesa de uma visão pragmática olhando o futuro, de acordo com a condição de devir histórico da Arquitetura.
Acompanhando a diversidade de soluções que os tempos exigiam, o curso da Faculdade de Arquitetura se voltou também ao ensino de técnicas e de sistemas construtivos inovadores, acreditando que sem esses conhecimentos não seria possível ao estudante sustentar soluções arquiteturais consistentes e inovadoras. Assim, é possível compreender, no contexto, o ensino do concreto armado e protendido, por meio da atuação do Engenheiro Roberto Zuccolo (1924-1967), e sua contribuição à formação de seus arquitetos diplomados.
Na ocasião, clamava-se por uma melhor integração curricular, um ensino prático específico à formação dos arquitetos, com ênfase ao Planejamento Urbano e à Composição, nas atividades denominadas de Ateliê. Preconizava-se ainda a elevação do número de professores assistentes e o Trabalho de Tese como finalização dos estudos de Arquitetura. Dessa Comissão participaram os professores Gustavo Caron (Pequenas Composições de Arquitetura), Sigmund Golombeck (Mecânica dos Solos e Fundações) e Antonio Cuoco (Economia Política, Legislação e Direito), e o recém-chegado Eduardo Corona (Teoria da Arquitetura), que foi incumbido do estudo de cargas horárias e da proposta de criação de cargos de professor em dedicação de período integral.
Sobre essas propostas, Ghiraldini (DAFAM, 1962, p. 3) teria dito:
Quero declarar com toda honestidade que não sou pessimista quanto ao
ensino que foi e está sendo ministrado nesta casa. Sou por uma
‘reestruturação’, mas não por uma revolução. Não compartilho com aqueles
que dizem que aprenderam Arquitetura apesar das faculdades de Arquitetura.
[...] Acredito que qualquer alteração deva ser metódica, planejada,
experimental, por etapas e a longo prazo.
A Comissão elegeu um representante dos professores (Portilho
de Andrade) e outro dos alunos (Nedir Falqueiro), que se debruçaram sobre o detalhamento de um plano de reestruturação do ensino. A ela teriam se juntado os professores Hoover Sampaio e Alfredo Paesani, com a consultoria dos professores João Francisco de Andrade, Roberto Zuccolo, Philip Lohbauer, Franz Heep, Takeshi Suzuki, Jun Okamoto e José Gugliotta (DAFAM, 1962).
Os princípios dessa reforma pautavam-se por um ensino
compreendido como objetivo, que deveria vir a ser implantado em dois ou três anos, com grande ênfase às cadeiras de Composição e Planejamento, e propondo-as como estruturadoras do Curso. Milton Carlos Ghiraldini (Docente da disciplina Traçado de Cidades – Urbanismo) integrava a Comissão, defendendo a integração em um único ateliê das cadeiras de Composição e a criação de disciplinas de Planejamento Urbano.
Embora a disciplina projetual nesse momento ainda se
denominasse Composição, a reforma de ensino preconizada procurava estabelecer integrações com Urbanismo, técnicas de construção e sistemas estruturais, propondo uma progressiva complexidade dos exercícios, chegando-se, por exemplo, a que no quarto ano do curso fossem equacionados problemas de composição de uma estrutura urbana de 2 a 5 mil habitantes (DAFAM, 1962).
Desses debates que culminariam em importantes transformações
após 1965, participaram intensamente as Diretorias do Dafam, entidade formada em 1947. Em 1963, a direção do Dafam foi assumida pelo então acadêmico (e posteriormente, professor da FAU-Mackenzie na disciplina Projeto) José Carlos Isnard Ribeiro de Almeida – o Zeca (DAFAM, 1964a). Em seu relato, José Carlos Isnard Ribeiro de Almeida deixa clara a existência de um movimento estudantil favorável à contratação de novos professores, e em prol de uma reestruturação do ensino.
Tempos difíceis culminaram no episódio político de 1964, o que não impediu naquele momento esforços para a reestruturação do ensino, melhoramentos da biblioteca, bem como propostas para a provisão de bolsas aos estudantes (DAFAM, 1964b), integrando também o corpo docente, na época, o arquiteto Fabio de Moura Penteado. A proposta de reestruturação do ensino prosseguiu, tendo sido apresentada ao Conselho Universitário em fevereiro de 1964, pelo Prof. Roberto Frade Monte, então Diretor, obtendo aprovação (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1964).
Em 1965, sob a Reitoria da Profa. Esther de Figueiredo Ferraz, o então Diretor Gustavo Caron entregou ao Conselho Universitário a proposta de reestruturação assinada pelo Prof. Jun Okamoto, tendo sido incorporado em 1967 à Comissão de Reestruturação da Universidade (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1965).
As cátedras no Brasil foram extintas em 1968 com a Lei no 5.540. Em 1961, no entanto, a Lei de Diretrizes e Bases (LDB, Lei no 4.024/61) vetou-as, fragilizando juridicamente a figura do catedrático, mas não impedindo sua atuação, nem diminuindo seu prestígio e poder. A LDB mencionou na ocasião os Conselhos Departamentais, e definiu o Departamento como reunião de cátedras afins, pois essas permaneceram com base na Constituição. Entre 1961 e 1968, cátedras e departamentos ainda convivem, e a Constituição de 1967 revogou o princípio de vitaliciedade da cátedra. A partir de 1968, a figura do Departamento surgiu nas universidades públicas, prevendo a corresponsabilidade de todos os seus membros, destituindo o catedrático de seu poder
centralizador diante das decisões acadêmicas (FÁVERO, 1995).8 Esse período de discussões e veto das cátedras coincidiu com os movimentos de reforma da FAU-Mackenzie levados a termo na primeira metade dos anos de 1960.
Tais ações inovadoras não teriam sido implementadas, sofrendo
com os reveses de 1964, mas deixaram as sementes para formação dos Departamentos de Projetos Arquitetônicos, Planejamento Urbano e Teoria e História da Arquitetura, motivada pela Reforma Universitária de 1968 (FAU-MACKENZIE, 2013), que extinguiu as Cátedras, e com a formação de um único Departamento de Arquitetura, que recebeu posteriormente a denominação de Departamento de Pesquisas Arquitetônicas no início dos anos de 1970. Este reunia várias cadeiras, de cuja organização participaram ativamente vários professores. A criação dos departamentos comparece nas Atas do Conselho Universitário de 23 de setembro de 1970 (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1970a).
Nos históricos escolares de alunos que colaram grau em 1968,
fica clara a progressiva reestruturação do currículo: Grandes Composições de Arquitetura e Pequenas Composições de Arquitetura deram lugar à sequência de Projeto (I, II e III), ficando a disciplina Composição (I e II) alocada no primeiro e segundo anos (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1961).
A organização departamental tinha como objetivo estimular o
diálogo e a integração docente e discente, o que as propostas de reforma da primeira metade da década de 1960 já haviam proposto. Uma integração do ensino à pesquisa e ao aprimoramento do quadro docente, próprios à estrutura departamental, vinha para contrapor as faculdades autônomas, e a formação profissional pautada em cadeiras e catedráticos, gerando uma estrutura vertical hierarquizada e isolada.
Nesse tempo, embora a disciplina Composição fosse ainda
lecionada, e se fizessem sentir traços do ensino acadêmico, pouco a pouco chegavam novos docentes para lecionar em atividades de Ateliê, como os profs. Telésforo Cristofani, Marcelo Fragelli, Ubirajara Giglioli, Samuel Szpigel, Israel Sancowsky, Joel Ramalho e Eduardo de Almeida. Ocuparam nesse período a cadeira Composição os docentes: Composição III – Hoover Américo Sampaio; Fernando Augusto Senna Arantes; Miguel Forte e Victor Reif (BREIA, 1995); no quarto ano, Composição IV – Adolpho Rubio Morales; Edgar Altino Ferreira Leite, Ivan Gilberto Castaldi, e Jonas Spalter; quinto ano, Composição V – Gustavo H. Caron e Adolf Franz Heep. Esses docentes integraram em 1964 a primeira
experiência de Ateliê vertical integrando alunos dos diversos anos, 9 que durou dois anos.
Reurbanização do Vale do Anhangabaú, São Paulo, 1981. Projeto
dos Arquitetos Jorge Wilheim (Mackenzie, 1952), Jamil José Kfouri e
da Arquiteta Rosa Glena Kliass (Universidade de São Paulo, 1955).
Os avanços da década de 1970
A década de 1970 foi marcada pelo desenvolvimentismo e pelas pressões sociais advindas da metropolização em processo, deslocamentos populacionais e nova problemática das grandes cidades, acompanhada pelo déficit habitacional. O número de vagas para ingresso no Curso de Arquitetura se elevou a 100. Foram Diretores os professores Jun Okamoto (1971-1974), Luis Teixeira Torres (1974-1977), e Walter Saraiva Kneese (1978-1983). Em 1979, a Faculdade ganhou a denominação de “Faculdade de Arquitetura e Urbanismo”, com a ampliação da consciência dos problemas ambientais e urbanos que a formação das metrópoles acarretou, tornando-se autônomo o Departamento de Planejamento Urbano. Novas disciplinas voltadas ao saneamento ambiental e infraestruturas de serviços urbanos pautadas por estudos interdisciplinares ganhavam espaço, com o nascimento de organismos estatais de planejamento, bem como de controle das atividades profissionais.
As disciplinas de Projeto, constituídas em meados dos anos 1960, contaram nos anos 1970 com a integração em torno dos departamentos recém-criados (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 1970b), e novos docentes, como os arquitetos Carlos Augusto M. Faggin, Humberto Leone, Ernani M. Junior, Mario Durão Filho, Galba Osório e Nadir Cury Mezerani, entre outros.
O professor Adolpho Packer Filho observava que as transformações da Arquitetura exigiam a contínua incorporação de disciplinas técnicas, que suprissem três setores – Mecânica das estruturas, Materiais, Métodos e Processos de construção e Instalações e Higiene. Frisava a necessidade de visualização da forma estrutural, adequação dos materiais e boa expressão da relação estrutura e meio ambiente, como fundamentos de um ensino tecnológico, embora nesse momento as disciplinas técnicas estivessem lotadas na Escola de Engenharia, sendo o Departamento de Técnicas organizado somente em 1998 (universi -dade PRESBITERIANA MACKENZIE, 1970b).
Uma nova reestruturação do ensino veio a ser apresentada, com
a formação da Comissão de Pesquisa e Atualização do Ensino da Arquitetura (Copea) em 1975, pautada no entendimento da Arquitetura como inseparável do meio, do homem e da sociedade, propondo-se um curso de período integral no primeiro ano, uma disciplina de Projeto Integrado, vinculada às demais disciplinas afins, e também a disciplinas optativas. É de grande interesse notar o conceito de “Projeto” adotado, como atividade que “[...] concerne aos problemas do meio ambiente e intervir criando-se instrumentos geradores de sua transformação” (MELLO, 1975, p. 3). A passagem demonstra uma preocupação de definição da arquitetura para além de uma somatória de ciência e arte, com ênfase nas múltiplas escalas projetuais – do objeto à cidade e região, que acompanha as transformações do pensamento arquitetônico e urbanístico.
Caminhos para novas pesquisas
Polêmico, Christiano Stockler das Neves manteve intacta uma
visão de arquitetura, cidade e arte no período em que atuou como diretor do curso de Arquitetura da Escola de Engenharia (1917 a 1947) e depois como o primeiro diretor da FAU-Mackenzie (1947-1956). Representa a tensão entre o idealismo Beaux-Arts e o pragmatismo, para expressar uma sempre necessária atualização dos processos de concepção e das práticas arquitetônicas, sujeitas à inexorável transformação histórica. Referências e modelos eram então vistos como necessários e próprios à imanência da Arquitetura, mas devendo atualizar-se, levando a admitir sempre novas expressões, como resposta à transformação da sociedade. No entanto, todas as inovações deveriam passar pelo crivo de um rigor da disciplina arquitetônica e projetual, uma educação erudita, calcada no aprendizado dos fundamentos disciplinares.
É possível dizer que, no curso das várias reformas pedagógicas
atravessadas pela Escola, esse sentido de mudança sem prejuízo dos fundamentos da boa formação em Arquitetura jamais se perdeu. A nenhuma expressão arquitetural se permitiu uma simples aceitação ou negação, mas se exigiu uma consciência crítica, polemizando a inovação ex abrupto, destituída da fina trama de determinações que integram a Arquitetura e o Urbanismo.
Valorizou-se a importância do embate de ideias, e não se dispensou o olhar rigoroso para o que era novo. Ao negar o utilitarismo, o funcionalismo e o princípio simplista de que a função encerra a Arquitetura, admitiu-se a pluralidade, mas não o relativismo, pois sob este poderia se ocultar a fragilidade da argumentação, insistindo-se em avaliar o rigor do projeto arquitetônico, e sua finalidade social.
A FAU-Mackenzie sempre foi palco do debate de ideias e espaço em que se expôs a diversidade de problemas que solicitam a arquitetura, e de soluções, meios e processos pedagógicos, cabendo ao estudante o direito de divergir, sob a condição de que estivesse devidamente fundamentado para sustentar seu projeto e suas posições.
Essa tensão desencadeou um desconforto produtivo, uma inquietação para investigar as possibilidades modernas e vanguardistas, colocando à prova expressões conservadoras, fruto de uma formação academista, seguindo a Faculdade de Arquitetura Mackenzie rumo ao futuro, pautando-se nos passos anunciados por Christiano Stockler das Neves, na Escola que criou e viu se transformar.