Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Angélica Tanus Benatti Alvim · Capítulo 2 de 28

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Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Pioneirismo e atualidade: afirmação de uma escola

Pioneirismo e atualidade:

 

afirmação de uma escola

 

Carlos Guilherme Mota

 

Ao completar 70 anos, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

(FAU-Mackenzie) ostenta hoje uma história de sucesso. Agora, incluindo decididamente o Urbanismo e o Design, a escola participou com destaque institucional e cultural do processo de modernização da cidade de São Paulo e do país, tendo se projetado no plano internacional.

A Faculdade de Arquitetura possui raízes que datam de 1917,

quando foi criado o Curso de Arquitetura na Escola de Engenharia, por sua vez criada em 1896. Como se sabe, o objetivo era formar com rigor Engenheiros-Arquitetos, e, desde então, a luta pela autonomia do Curso – a busca de uma identidade própria – tornou-se constante.

Em 1947, conseguiu-se tal autonomia, diferenciando-se da Escola

de Engenharia, já solidamente implantada. Nesse processo de autonomização, o papel do Arquiteto Christiano Stockler das Neves foi decisivo e marcante, como se verificará ao longo das páginas deste livro, pois logrou alinhar a Faculdade ao lado das Faculdades de Engenharia, Ciências Econômicas e, à semelhança da Universidade de São Paulo, de uma Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (ideia de resto a ser reconsiderada). Detalhes desse longo caminho enriquecem a obra esclarecedora que o leitor tem em mãos, na qual se revelam os diferentes níveis de historicidade, memória e criatividade que caracterizam e impulsionam a renovada Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM).

Não por acaso, a FAU-Mackenzie está situada no mais aprazível

local do campus, junto a um dos poucos bosques que restam no bairro de Higienópolis, tão bem descrito por Claude Lévi-Strauss em seu livro notável Tristes Trópicos. No centro de um triângulo cujos vértices são o Prédio 1 (hoje sede do Centro Histórico e Cultural Mackenzie), o Auditório Ruy Barbosa e o icônico Edifício Chamberlain, a Faculdade abriga uma sofisticada equipe de professores-pesquisadores, e a qualquer hora nela podem ser encontrados docentes e alunos operosos em suas pranchetas ou computadores, ou conversando à sombra das árvores sobre seus projetos. Esquina da Itambé com a Maria Antônia... Um discreto episódio ilustra o encanto do lugar: foi sob essas árvores que o jovem historiador Stanley J. Stein, hoje senior da Universidade de Princeton, latino-americanista e autor de obras clássicas sobre o Brasil, conheceu, nos anos 1940, sua esposa Bárbara, futura historiadora e bibliotecária-chefe da Biblioteca Firestone, também em Princeton, ambos autores da obra Herança Colonial da América Latina. E por aqui passaram, entre muitos, escritores como Lucien Febvre (fundador da École des Annales, em Paris) e Richard Morse (autor da clássica Formação Histórica de São Paulo).

Edifício Chamberlain (Castelinho), 2017.

 

Impressionante a quantidade de edifícios relevantes e outras

construções, além de planos de urbanização para inúmeras cidades, que saíram das pranchetas de professores e ex-alunos, que ajudaram a redesenhar o perfil de nossas cidades, sempre com espírito inovador. Em outros estados, e pelo mundo, não é raro toparmos com obras já consagradas de ex-estudantes da FAU-Mackenzie. Os nomes de estudantes que se tornariam grandes Arquitetos – de reconhecimento internacional, como Paulo Mendes da Rocha, Pedro Paulo de Mello Saraiva e Fábio Penteado – e Urbanistas poderiam ser mencionados, em arrolamento que não

caberia nos limites desta breve apresentação.1

Ao longo da história do Curso de Arquitetura e das origens da Faculdade – estudada com brilho pelo professor Marcel Mendes –, esboçou-se e se afirmou a ideia de que essa pequena coletividade constituía uma “Escola”, marcada pelo rigor que vem da rígida metodologia de seu criador, a mão firme e o olhar agudo que o ofício impõe e cultiva. Durante largo tempo, a FAU-Mackenzie foi identificada no meio universitário e profissional por formar “arquitetos de prancheta”, com menor atenção à sua formação em estudos humanísticos, em contraste com o que ocorria na FAU-USP, “mais voltada às Ciências Humanas”. Tal impressão vem se evanescendo nos últimos tempos, sobretudo após a implantação do Programa de Pós-Graduação, de caráter multidisciplinar. Além disso, notáveis artistas plásticos e designers são frutos do Mackenzie...

Como se sabe, historicamente, o universo dos Arquitetos e Urbanistas quase sempre foi muito aberto e “respirado”, com intenso e contínuo cultivo de ideias, sonhos e utopias. De bom convívio crítico, enfim. Da utopia do founding-father conservador Christiano Stockler das Neves aos tempos atuais, marcados por gestores e mestres igualmente bem formados e competentes, a “Escola” se

(re)afirma, pioneira e atual. 2

Ca.1955. Grupo de pessoas ao lado do Edifício Christiano

Stockler das Neves, parcialmente construído, nova sede da

Faculdade de Arquitetura a partir da década de 1960. O projeto

executado, é de autoria dos Arquitetos Professores Eduardo

Corona, Takeshi Suzuki e Jun Okamoto.