Arquitetura Mackenzie, 100 anos
Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura Mackenzie (Dafam): debate político, ensino e cultura
Diretório Acadêmico da
Faculdade de Arquitetura
Mackenzie (Dafam): debate
político, ensino e cultura
Paulo Olivato, Victoria Braga, Vinicius da Costa, Cristina Kesselring
Introdução
Este capítulo se propõe a ser um documento histórico, uma narrativa do que o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura Mackenzie (Dafam) significou e permanece significando nos seus 70 anos de existência. Foram reunidos depoimentos, imagens e fragmentos de memórias das diversas gerações de estudantes. No entanto, como afirma Benjamim (apud GAGNEBIN, 1998, p. 695-701), articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “tal como ele propriamente foi”. Traçou-se portanto aqui, um breve e inacabado percurso a partir do presente e com o olhar nos acontecimentos pregressos que, ainda hoje, marcam esse vivo e democrático espaço de representação estudantil.
Em julho de 1947, foi fundado o Diretório da FAU-Mackenzie simultaneamente à instalação da Faculdade, que, na época, era dirigida por seu patrono, o Arquiteto Christiano Stockler das Neves. As convicções estilísticas de Stockler das Neves foram imprescindíveis para a criação do Diretório, que inicialmente teve como objetivo a oposição às ideias arquitetônicas difundidas pelo próprio patrono. Os primeiros traços dessa história foram grafados pelo grupo pioneiro de alunos; que, entre seus membros, tinha presença de Carlos Millan, Jorge Wilheim e Luiz Roberto Carvalho Franco. A primeira gestão do Dafam também foi responsável pela criação da logomarca original composta pela figura do Modulor, de Le Corbusier, ícone do Modernismo internacional, ao lado de uma coluna dórica, uma provocação ao estilo neoclassicista defendido pelo então Diretor da Escola. É o marco inicial da criação desse espaço, do qual se podem ouvir os ecos produzidos a partir das inúmeras narrativas, sucessão de momentos quase sempre indissociáveis da história da FAU-Mackenzie, da Universidade e dos seus diferentes contextos culturais, sociais e políticos.
Por que publicamos?
Na FAU-Mackenzie, os alunos fundadores do Dafam, Carlos
Millan, Jorge Wilheim, Luiz Roberto Carvalho Franco, egressos do Mackenzie, respectivamente, em 1951, 1952 e 1951, juntamente com Paola Tagliacozzo e Sidney Fonseca, ambos formados pelo Mackenzie em 1951, criam também a expressão do diretório: a revista Pilotis – referência à coluna então símbolo da Arquitetura Moderna. A publicação foi idealizada como instrumento de resistência dos alunos aos postulados da Arquitetura Moderna e, novamente, em contraposição ao pensamento defendido pelo Diretor Christiano Stockler das Neves.
O Prédio Chamberlain n° 10, conhecido como “Castelinho”, no
campus Higienópolis, foi a sede da Faculdade de Arquitetura do
Mackenzie e do Dafam desde 1947. Atualmente é um espaço
utilizado amplamente por professores e alunos: no subsolo,
permanecem as instalações do Dafam; no térreo sala de aula e auditório, no primeiro andar, encontram-se as coordenações de
Estágio e Protagonismo Estudantil; Extensão e Atividades
Complementares e de Pesquisa e TCC, bem como os laboratórios
de informática; e no segundo, os gabinetes de professores
pesquisadores. O edifício foi tombado em 1993 pelo Conselho
Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e
Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), juntamente com
outros 11 edifícios do campus.
Em 1949, na terceira edição da Pilotis, é possível compreender com clareza as ideias propostas na revista:
No entanto, as conquistas da moderna arquitetura brasileira foram realizadas
por um punho de bravos que lutam com a incompreensão de grande maioria
de um público ineducado e um clima escolar, didático, o pior possível. Deve-
se ampliar esse grupo, pois o que ele realizou ainda é pouco dentro do
formidável volume de construção do Brasil.
Público, profissionais e alunos, presos ainda a clichês de arquitetura
passada, comercial ou da pseudo-arquitetura, devem ser equipados para
compreensão da arte hoje.
Torna-se imprescindível mostrar qual é a diferença entre a boa arquitetura
contemporânea e o infelizmente difundido ‘estilo moderno’, uma falsa
arquitetura presunçosa e artificial que, apesar de imitar superficialmente a
bons arquitetos, têm os mesmos defeitos da má arquitetura do século
passado: não é orgânica nem verdadeira.
Acreditando na necessidade do intercâmbio e não no isolamento das artes,
Pilotis publicará não apenas obras arquitetônicas, como também artigos e
obras concernentes a outras artes, afim de poder participar e contribuir para
formação da personalidade e capacidade do estudante de arquitetura
(EDITORIAL, 1949, p. 1).
Após isso, houve apenas mais uma publicação, totalizando quatro
edições da revista, um dos mais importantes veículos da difusão da Arquitetura Moderna no período:
Primeiro, havia a discussão entre os professores – não muito entre os alunos,
que viam aquilo de forma aventureira. Graeff escreveu, na época, um texto
importante. Depois, as revistas, que eram várias, como Habitat, Acrópole,
Arquitetura e Engenharia, Módulo e Arquitetura. Isso sem contar publicações
acadêmicas, como a Pilotis, do grêmio do Mackenzie, e as regionais, como a
Espaço, do Rio Grande do Sul (SERAPIÃO, 2012, p. 1).
Apesar da vida curta, a revista representou forte expressão do
pensamento intelectual do Diretório e da Escola, expondo a qualidade de seus estudantes – inventivos e críticos – ao tempo promovendo, de forma inaugural, o debate entre os discentes e a instituição.
Uma breve homenagem ao grande
Arquiteto e Professor Pedro Paulo
Aluno das primeiras turmas da recém-criada FAU-Mackenzie, o então estudante Pedro Paulo de Melo Saraiva (diplomado em
1955)1 vence, em 1954, o 1° Prêmio organizado pelo Dafam em certame do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp). O projeto vencedor para a casa modernista do sr. Hercílio Pedro da Luz foi posteriormente construído em Florianópolis. Menos de 20 anos depois, em 1973, o Arquiteto seria o responsável pelo projeto da Escola de Administração Fazendária (Esaf), na capital Brasília (CORSI, 2013).
Lançamento do livro Pedro Paulo de Melo Saraiva, o Arquiteto, na
FAU-Mackenzie, em 10/8/2016. Na foto, em pé, Silvana Romano,
Abilio Guerra, Luis Espallargas Gimenez e Pedro de M. Saraiva.
Sentados, Angélica Tanus Benatti Alvim e Pedro Paulo de Melo
Saraiva.
Além da brilhante atuação profissional, Pedro Paulo de Melo Saraiva também é lembrado por ter sido um rígido e engenhoso professor, ao mesmo tempo que foi rigoroso do ponto de vista técnico, sem perder a dimensão humana e social do ofício. Foram várias as oportunidades que o Dafam e os estudantes tiveram para interagir e trocar experiências com o professor, como no dia de lançamento de seu livro em agosto de 2016, no saguão da FAU-Mackenzie. O Arquiteto concedeu depoimento de maneira irreverente e descontraída; as risadas foram uma constante para a plateia; ele estava visivelmente realizado com a publicação do livro, um de seus desejos antigos.
Aquela foi a última vez que os estudantes estiveram na presença
do professor, que faleceu no dia 16 de agosto de 2016. Na inevitabilidade da despedida, o adeus foi dado seis dias antes, sob salva de palmas das mais duradouras que se ouviu no edifício da FAU-Mackenzie.
Ame-o ou deixe-o? Should I Stay or
Should I Go
Algumas memórias musicais nos levam a ouvir acordes de
guitarras, que, em saltos, nos transportam para Liverpool. Beatles. Lennon. Guerra Fria. Estamos na década de 1960. Época marcada por posições políticas definidas e profundas transformações sociais e culturais.
Em 1962, o Dafam promove uma greve para aumentar a
representação estudantil nos conselhos da Universidade, o que desencadeia outra ainda maior, espalhando-se pelo país com reivindicações similares, conta o Professor e Arquiteto Flávio
Marcondes,2 tesoureiro do Dafam na gestão de 1963: “O estopim inicial havia ocorrido em função da greve local, encabeçada pelo diretório”. A participação na gestão da União Nacional dos Estudantes (UNE), por exemplo, torna-se estratégica, momento em que emergem os nomes de protagonistas do cenário político nacional.
Além de gritos de protesto, também se ouve no campus uma nova
canção. Uma nota só, uma mistura inusitada de samba e jazz. Mas que nada, é o evento Bossa Nossa que ocorreu no teatro Ruy Barbosa no início da década de 1960. Estavam presentes no Mackenzie o maestro Tom Jobim, o “poetinha” Vinícius de Moraes, Alaíde Costa, Sérgio Mendes, Carlos Lyra, entre outros. O ritmo se popularizou, com as vozes que construíram em boa medida a cultura musical brasileira. “Foi esse o primeiro espetáculo paulista de grande repercussão que vinculava a música popular contemporânea aos centros estudantis”, registra Zuza Homem de Mello (2003).
Alunos participando das atividades do Dafam – Gestão Através
(2017), Edifício Chamberlain, subsolo.
O Dafam mergulha na ebulição cultural da época. O evento teve como origem o Jazz Arquitetura Mackenzie (JAM), promovido pelos estudantes, que trouxeram do Beco das Garrafas (boate da época, em Copacabana) artistas que lançaram músicas que se tornaram conhecidas, como se lembra o Professor e Arquiteto Tito Lívio Frascino, “Foi também o momento da (Rua) Maria Antônia em sua versão mais fervilhante do ponto de vista cultural e intelectual.”, contextualiza Flávio Marcondes.
Croqui feito pela estudante da FAU-Mackenzie Thais Bio Ribeiro
da antiga disposição do Dafam em 1996, Gestão “Voz”.
Interdição da diversidade – pós-Golpe
Militar (1964)
No centro do debate está a Arquitetura Moderna − em pleno
borbulhar de Pampulha, de Oscar Niemeyer, da Nova Capital e do edifício da FAU-USP na Cidade Universitária (projeto de 1961 concluído em 1969, de João Batista Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi). Momento de um grande debate em torno do planejamento urbano. Tem-se no mesmo ano a publicação da obra Morte e Vida de Grandes Cidades (americanas), de Jane Jacobs, também em 1961, que faz uma crítica à renovação urbana, por meio da implantação de infraestruturas viárias, desarticuladoras do seu contexto local. Inseridos nessas discussões, os estudantes mantêm vivo o desejo de atuação estudantil na dimensão pública das nossas cidades.
Mas esse clima de efervescência cultural e de confraternização se esfriou com a instalação do Regime Militar em 1964. Impõe-se longa pausa na liberdade de atuação e de expressão. É o momento do enrijecimento. Os diretórios no país acabam por se tornar agremiações ou centros acadêmicos, caracterizando-se uma espécie de desmonte. Apesar disso, o Dafam não perde seu status de diretório, isso talvez por sua forte inserção política e cultural.
“Soltei os panos sobre os mastros no
ar” (Os Mutantes, 1969)
A conhecida Batalha da Maria Antônia (3 de outubro de 1968) expõe o forte sectarismo que marcou a fase do Regime Militar, e que, infelizmente, parece não ter nos deixado por completo. Haveria semelhanças com a dicotomia “petralhas” versus “coxinhas” de hoje? Não temos resposta definitiva para essa pergunta, mas é amplamente documentado que os estudantes do Mackenzie e da Universidade de São Paulo (USP) se enfrentaram com paus, pedras, foguetes e rojões. Lançavam-se no ar coquetéis molotovs. Ouviram-se tiros na Rua Maria Antônia. Morreu um estudante secundarista. Tal evento, além de uma triste marca da histórica, expõe a própria crise da Universidade no Brasil, que não desempenhava mais um papel de agente de transformações estruturais da sociedade e também não acompanhava as necessidades de um país que se modernizava. O Dafam reforça, então, seu papel de resistência ao Golpe, ao se posicionar com os movimentos que defendiam uma rápida transição democrática, uma espécie de “aparelho de esquerda”, posição corajosa diante da circunstância do momento histórico, dentro da Universidade Mackenzie que também abrigava o Comando de Caça aos Comunistas (CCC).
O então discente da FAU-Mackenzie Pedro Nosralla, na ocasião
Presidente do Dafam, com o Presidente General Ernesto Geisel,
solicitando a revogação do Decreto-Lei no 477.
É decretado o AI-5 em um momento em que se acentuam as
polarizações, com aplicação de amplas restrições aos direitos públicos e privados. Não foram proibidas as proibições! Mas a sociedade sempre pode engendrar a sua transcendência. Inicia-se processo de reversão de forças hegemônicas de direita. Observam-se movimentos organizados contra a ditadura. Alguns grupos, em particular os Movimentos Estudantis, ganham voz potente no protagonismo de discussão quanto aos possíveis caminhos para o país e, consequentemente, para sua emancipação.
O Professor e Arquiteto Pedro Nosralla Jr. lembra-se de que
esteve com o presidente Ernesto Geisel em 1975, para a revogação do Decreto-Lei no 477. O Arquiteto Eduardo Sampaio Nardelli, presidente do Dafam em 1978 e hoje professor na FAU-Mackenzie, conta que à época três correntes ideológicas eram as principais presentes nas Universidades: a “Liberdade e Luta” (Libelu) de alinhamento trotskista, a “Caminhando”, desdobramento do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), e a “Reforma”, ligada ao Partido Comunista (PC). Esses movimentos orientavam as organizações políticas, e com o Dafam não foi diferente. Desde a gestão do presidente Vasco Caldeira, durante os anos de 1976 a 1977, houve um alinhamento do Diretório aos movimentos de esquerda voltados para um projeto de país, porém em vertentes mais independentes.
“Somos iguais todos os seres” (Hino
à Internacional Comunista, 2017).
Os movimentos sociais e estudantis em geral foram, então fortemente reprimidos, e, não raro, seus participantes torturados nos porões do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Entretanto, para os que enfrentaram corajosamente esse momento, a partir do espaço do diretório, a história pode ser contada como forma de resistência e enfrentamento. Eduardo Nardelli, um dos protagonistas dessa época, acrescenta que o Dafam teve efetiva participação nas discussões políticas e na representação estudantil. O Diretório, então, resolve participar das eleições da União Estadual dos Estudantes (UNE) com uma chapa de esquerda e tenta a candidatura da chapa no Diretório Central dos Estudantes (DCE) do Mackenzie. Mas neste obtém fortes reações contrárias, reveladas nas hostilidades sofridas no campus, sobretudo em confrontos com estudantes da Faculdade de Direito. Nardelli conta que, diante dessa situação, membros do Movimento Liberdade e Luta enviam pessoas para protegê-lo, quando da apuração final. Dirigiram-se então à Fundação Getulio Vargas (FGV), onde cantaram a Internacional Socialista – essa é a última geração a deter tal memória.
O Professor e Arquiteto Alessandro Castroviejo, também presidente do Dafam na época, passa a compor a nova chapa do DCE. Trata-se de uma fase de embates diretos, em que as armas não eram ideias e conhecimento, mas revólveres, paus e pedras. As radicalizações, no entanto, encontravam mediação nos segmentos mais moderados. Ao tomar posição contra o fechamento do curso noturno, por exemplo, desencadeia-se uma greve de 47 dias em um período no qual não se podia falar em política, de acordo com as determinações do Regime Militar.
Escadaria de acesso ao Dafam, Edifício Chamberlain.
“Canta mais, enfeitando a praça,
preparando a tinta” (Fantasia, Chico
Buarque)
Na caixa de som, um CD. Os sons do presente conduzem-nos
para tempos mais recentes. Mãos revelam novas imagens. Os retratos estão em preto e branco, imersos em líquido químico contra uma luz negra. Laboratório de fotografia. Vislumbram-se formas a partir de linhas que correm desde uma bancada de cerâmica para fora de um laboratório. Nem tão perto, nem tão longe, aqui encontramos um pequeno plano elevado, colina de memórias, de onde miramos com lentes de afeto nosso plural espaço.
Estamos na década de 1990. Surge uma gestão de nome incomum, Branco 8 Ponto Som, que reinventa o Dafam. Amigos apaixonados por Arquitetura se unem, movidos por certa angústia da situação legada ao diretório. Momento no qual a produção arquitetônica nacional e paulista distancia-se da discussão cultural. A gestão inicia sua atuação com a reforma do espaço físico do diretório. Uma simbólica reinauguração desse espaço de possibilidades. Refazem-se os vínculos com a Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura (Fenea), indica-se a Arquiteta da FAU-Mackenzie Thais Bio Ribeiro como presidente da instituição.
A gestão promove o importante evento Habitação (1996), concurso que estimula na Faculdade as discussões da moradia e do viver na cidade. E, no acaso de uma conversa de elevador, o Professor e Arquiteto Ricardo Ramos conta que: “nós conseguimos convidar (os arquitetos portugueses) Fernando Távora e Álvaro Siza para uma palestra aqui na Faculdade”. Lembra-se de que o evento lotou o Auditório, mas que o Arquiteto Álvaro Siza não pôde vir. O croqui – tradição de todos os arquitetos que realizam palestras na Faculdade – existe e está na sede do Dafam.
Nessa época, as iniciativas dos estudantes são acolhidas no diretório. O evento Contemporâneos, Unidos por um Mesmo Tempo conseguiu reunir em um único arco temático a astrologia e a Arquitetura Moderna. O Grupo de Teatro Purangaw, patrocinado pelo Dafam e pelo Diretório João Mendes Jr., dirigido pelo Arquiteto Gilson Carvalho, sensibilizou muitos estudantes quanto às possibilidades expressivas do teatro e sua intertextualidade com a Arquitetura, expressas na interação das pessoas com o meio e o espaço. O diretório parece retomar a credibilidade, como órgão de apoio aos estudantes: o Xerox (quem dessa época não se recorda da Dona Neusa?), o Curso de Autocad (release 12). Contrata-se uma secretária, a publicitária Adriana Boarini, que ajuda na organização dos eventos diversos, serviços dos comunicados, informações e apoio nas contas.
Atividades da XI Semana Viver Metrópole, no saguão da FAU-
Mackenzie, outubro de 2014.
Acesso ao interior do Dafam.
Estamos em 1997, em pleno exercício democrático no panorama nacional. A gestão é a Voz, que segue, em linhas gerais, as tendências desenhadas pela anterior. Reforça, entretanto, um tom mais politizado da atuação estudantil, que se poderia qualificar como participativa e marcante. Estabelece um diálogo aberto com os alunos, convidando à participação estudantil e a suas iniciativas individuais e coletivas. É dessa época o Jornal Voz, a implantação do Laboratório de Fotografia e da banca de livros do Toninho, a formação do Escritório Modelo, do concurso de ideias para o saguão, da avaliação docente, realização da Revista Se… (em parceria com o Prof. Carlos Egídio Alonso) e a criação da Gincana dos Bixos. Havia uma clara intenção de acolher os calouros, introduzi-los à Faculdade e ao Centro de São Paulo, em uma posição crítica ao tradicional trote. Mas como? Um grupo de estudantes que convivia no porão, provindos de semestres diversos, concebe talvez um dos projetos mais longevos e bem-sucedidos do Dafam. Com viés político mas apartidário, essa gestão, cujo presidente era o Arquiteto Juan Pablo Rosenberg, realizou em conjunto com o Diretório João Mendes Jr. (que tinha como presidente o advogado, empresário e apresentador de TV Alexandre Youssef), tornou-se um dos eventos de maior repercussão nacional, denominado Terra. Com a presença dos dirigentes da Universidade, nomes como Sebastião Salgado, Chico Buarque e José Saramago se encontraram no Auditório Ruy Barbosa completamente lotado, para lançar livro homônimo, realizado a seis mãos, sobre a questão agrária em apoio ao Movimento dos Sem-Terra (MST), um ano após o Massacre de Eldorado dos Carajás (1996). Ao olharmos a história do Diretório em retrospectiva, sobretudo nos anos de 1970, poderíamos perguntar: teria ocorrido, com esse evento, uma conciliação histórica?
Motivada pelo espírito da anterior, a gestão de nome Gesto levou
adiante os projetos, porém voltada com forte ênfase às questões de ensino e extensão. Seu desafio primeiro foi realizar a devolutiva da primeira avaliação discente, realizada pelo Dafam em parceria com a Faculdade de Saúde Pública da USP, no âmbito da recém-promulgada Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB). Nesse contexto, foi eleito como representante do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) da Universidade o presidente do Dafam, hoje professor na escola, o Arquiteto Paulo Olivato. Em conjunto, levou-se adiante o projeto e a criação do Departamento de Técnicas da FAU-Mackenzie. Paulo conta que: “esta era uma antiga reivindicação dentro da Faculdade, dos alunos e dos professores, voltar o olhar para as questões técnicas do ponto de vista qualitativo do projeto de arquitetura”. Lembra-se de que: “O Reitor (Dr. Cláudio Lembo), na época, de forma até bem-humorada, me repreendeu pela insistência nesse assunto no Conselho, porém, no final, reconheceu a relevância dessa mudança para o ensino da Faculdade”.
A criação do evento chamado Se Mostra revelou o temperamento
multidisciplinar da gestão. A ideia era utilizar o próprio espaço do subsolo do Prédio 10 como suporte para promover exposições da produção dos alunos, para além das tarefas cotidianas e também incentivar as investigações práticas e teóricas no aprendizado da Arquitetura. Desenhos, fotos, performances, teatro, vídeos etc. puderam ser vistos e festejados em confraternizações sempre musicais, ganhando maior espaço e integrando as mais diversas formas de expressão.
Área externa do Dafam, Edifício Chamberlain.
A Semana Viver Metrópole
A Semana Viver Metrópole nasceu em 2003 a partir da intenção de criar uma Semana da Arquitetura na FAU-Mackenzie. No ano anterior, o Dafam havia realizado um evento isolado intitulado Viver Metrópole, nome que agradou à escola – estudantes e Direção –, sendo, então, adotado em definitivo dali em diante. Ambiciosa desde o princípio, a primeira edição da Semana se propôs a receber a Escola inteira: palestras, oficinas e um ateliê vertical compunham o cronograma. Havia um desejo dos estudantes de que o evento não fosse um fórum de palestras, mas que abrigasse atividades diversas – demonstrando, talvez, desde aquele momento, uma vontade de atuar menos como espectadores e mais como agentes de produção de conhecimento. A festa de encerramento daquele ano aconteceu no icônico edifício-sede do IAB-SP, a poucas quadras da FAU-Mackenzie.
De imediato, a Semana Viver Metrópole se firmou não somente
no calendário da escola – e da Cidade –, mas principalmente no imaginário dos estudantes, o desejo de experimentar, durante sete dias, as diferentes versões do que a escola poderia ser.
Esse entendimento da Semana, não apenas como data, mas
como forma de pensamento, engendrou o processo de assimilação pelo diretório, que logo tomou a frente da sua organização, passando a agir, pouco tempo depois, com considerável autonomia na realização do evento – ainda que contando sempre com apoio da Direção da FAU-Mackenzie e da Universidade.
Desde sua criação, a participação do corpo docente tem sido
fundamental na construção da perspectiva de que a Escola pode e deve estar em constante transformação. A Semana, a cada ano, aporta nova abordagem – realiza-se em um período de cinco dias, e é capaz de levar adiante seu produto no cotidiano da Escola, dentro e fora das salas de aula. A Semana Viver Metrópole tem sido uma oportunidade ímpar de ensino e aprendizado, amadurecimento e, principalmente, de questionamento: afinal, que escola somos e queremos ser? Mais do que respostas, a Semana sempre deixa muitas perguntas, pois são as incertezas que nos movem.
Depois de 13 edições, o evento ganhou escala, pluralidade de
atividades, competência crítica e, consequentemente, visibilidade. Conta, desde 2015, com a participação efetiva dos estudantes de Design na sua realização – anteriormente, Arquitetura e Design se organizavam de forma independente e não integrada, mas hoje se fortalece por meio dessa união – e é vista atualmente como um dos eventos de Arquitetura, Urbanismo e Design mais importantes da cidade de São Paulo.
Alunos trabalhando na área externa do Dafam, Edifício
Chamberlain.
A participação recente das gestões no
cotidiano da escola
Desde a última década, as gestões à frente do Dafam vêm desempenhando papel de mediadoras no que se refere ao ensino na FAU-Mackenzie. Foram inúmeras as vezes em que o iretório se fez presente de maneira participativa em questões viscerais à faculdade, como a elaboração do atual Projeto Pedagógico, o engajamento dos Representantes de Classe, a elaboração das Avaliações Semestrais, entre tantas outras ações de caráter efetivo; não foram poucas as mobilizações estudantis desde então.
O dia 24 maio de 2013 foi marcado por uma grande manifestação dos estudantes contra a aprovação do Novo Projeto Pedagógico. Uniram-se três gestões do diretório, a atual à época gestão Fractal, e as duas anteriores, a Escala (2012) e a Púlpito (2011). Deixando de lado diferenças ideológicas e embates antigos, seus representantes conseguiram, juntos, mobilizar os estudantes da FAU-Mackenzie que exigiam maior participação discente nos órgãos representativos e, portanto, nas decisões dentro da escola.
Após a manifestação, a gestão da Escola resolveu discutir o
Projeto Pedagógico com participação discente, implicando transformações na proposta. Os conteúdos de história e teoria da Arquitetura sofrem reestruturação, as matérias técnicas são integradas ao eixo de projeto arquitetônico. O êxito de um projeto pedagógico, na visão do Diretório Acadêmico, está no alinhamento da experiência dos docentes com o desejo dos discentes.
No ano de 2014, por iniciativa dos alunos do grupo denominado
ExperimentAÇÃO, com apoio irrestrito do Dafam e constante diálogo com professores e a direção, inaugurou-se o espaço do Canteiro Experimental, localizado à Rua Maria Antônia, 163. A conquista foi grande, pois um espaço de canteiro para os estudantes era reivindicação antiga, e concretizá-la mostrava a força e o reconhecimento do diretório enquanto entidade representativa perante os órgãos administrativos da faculdade.
No mesmo ano, o Diretório organizou a XI Semana Viver
Metrópole, evento consolidado na faculdade, que nessa edição reuniu quantidade especialmente grande de Arquitetos e Urbanistas de renome para palestras, mesas-redondas, visitas e oficinas com os estudantes da FAU-Mackenzie.
Em outubro de 2015, na sua 12ª edição, a Semana Viver
Metrópole adquiriu escala maior na parceria com o Curso de Design, e um caráter mais prático, tendo sido organizada por meio de eixos e “workshops contínuos”, que abordaram as temáticas habitar, locomover, produzir, ensinar e viver.
Pouco tempo depois, próximo à eleição do(a) novo(a) diretor(a) da
FAU-Design Mackenzie, a gestão Rizoma e a chapa Identidade desempenharam papel relevante no que veio a ser o resultado oficial da votação realizada pela Congregação da Escola e a sua confirmação pela Reitoria da Universidade.
Manifestação dos alunos no dia 24 de maio de 2013, na FAU-
Mackenzie. Cerca de mil alunos se reúnem com a intenção de
discutir o novo Projeto Pedagógico, que seria votado no mesmo dia.
Área do antigo Laboratório de Fotografia, atualmente usado como
espaço de trabalho para os alunos, no Dafam, Edifício Chamberlain.
Anteriormente, os estudantes, de modo geral, não se envolviam
no processo de eleição, tampouco estavam certos de seu papel neste. O Dafam convocou os(as) candidatos( as) ao cargo para debater e apresentar suas cartas-proposta no saguão da escola, reunindo grande quantidade de discentes e docentes.
Nos dias seguintes ao debate, o Diretório organizou uma
simulação da eleição, contando com participação intensa dos estudantes e, após apuração dos votos, a Profa. Angélica Tanus Benatti Alvim foi escolhida por 88% dos alunos, definindo os votos dos representantes discentes na Congregação. A partir de então, o Dafam, órgão máximo de representação estudantil da escola, manifestou oficialmente seu apoio à candidatura de Angélica Tanus Benatti Alvim.
No dia da votação oficial, durante reunião da Congregação, os
membros do diretório, juntamente com os demais estudantes, não somente se fizeram presentes com cartazes reivindicativos, mas também estavam representados pelos discentes votantes na Congregação da FAU-Mackenzie. É inquestionável que sem a participação intensa dos estudantes e do Dafam durante as eleições o resultado teria sido outro, o que revelou a força de articulação que o Diretório apresentaria dali para a frente, principalmente no diálogo com os órgãos administrativos da Faculdade.
Coletivo Zaha
O movimento estudantil mais recente pode ser caracterizado pela diversidade de atores e pelas múltiplas ações, com diferentes pautas. O Coletivo Zaha é uma organização horizontal e independente ao Dafam, mas que conta com o incentivo e o apoio direto da entidade.
O Coletivo Zaha (Coletivo Feminista da FAU-Mackenzie) leva o nome da Arquiteta iraniana Zaha Hadid, primeira mulher a ganhar o Prêmio Pritzker de Arquitetura em 2004. O Coletivo foi organizado no dia 20 de março de 2016 por um grupo de alunas, dentre elas Fernanda Corsini e Mikaella Brandão, do Curso de Arquitetura e Urbanismo. Seu intuito é unir e acolher mulheres que buscam discutir a questão de gênero, o feminismo, a constante construção do movimento, o empoderamento e, principalmente, o espaço da mulher nos campos acadêmico e profissional.
No dia 25 de abril de 2016, o movimento organizou seu primeiro ato denominado #esseémeuprofessor, ação que criou um canal de diálogo com respeito a eventuais situações de assédio e hostilidade verbal. A ação consistiu no recolhimento de depoimentos das estudantes e na colagem de cartazes pelas paredes da Escola.
Saguão do Prédio 9, evento organizado pelo Dafam pela gestão
Identidade, em setembro de 2016. Visita do então prefeito de São
Paulo, Fernando Haddad, para discutir os desafios da gestão da
maior cidade do país e do Plano Diretor Estratégico de 2014. Na
foto, da esquerda para direita: Victoria Braga, presidente do Dafam (2016), João Sette Whitaker Ferreira, então secretário Municipal de Habitação, Valter Caldana, diretor da FAU-Mackenzie (2009-2016),
prefeito Fernando Haddad (2013-2016), Flávia Ribeiro,
representante da UEE, Mateus Weber, diretor da UNE, e Nabil
Bonduki, secretário Municipal de Cultura.
O ato foi divulgado em diversos canais de comunicação, entre
eles os jornais O Estado de São Paulo, Folha de S.Paulo, O Globo, a revista M de Mulher e os sites Catraca Livre e Huffpost, inspirando a fundação de outros coletivos em diversas faculdades do país. Com a repercussão, o Coletivo fortaleceu-se internamente e ganhou reconhecimento dentro e fora da faculdade, estabelecendo-se no movimento estudantil.
Em agosto do mesmo ano, o coletivo organizou a I Semana
Delas, reunindo relevantes nomes como os das Arquitetas Elisabete França e Ana Gabriela Godinho Lima, a vereadora Sâmia Bonfim (PSOL), as ativistas do feminismo negro Luana Hanssen, Drika Ferreira e Ryanne Leão, entre outras figuras importantes na militância feminista. A Semana foi marcada por uma série de palestras e rodas de conversa que discutiram temas relacionados à igualdade de gênero e racial, dentre eles o feminismo na atualidade, feminismo negro, padrões de beleza, bem como o panorama atual da mulher nas esferas da Arquitetura, Urbanismo e política.
Para além dos eventos pontuais que o Coletivo promove, seu objetivo maior é transformar o cotidiano da Faculdade em espaço de conscientização acerca da importância da equidade de gênero e, principalmente, o reconhecimento das mulheres como figuras indissociáveis do ofício da Arquitetura e Urbanismo.
Visita do prefeito da cidade (2016)
No início de 2016 em um clima amistoso, o então prefeito de São Paulo Fernando Haddad compareceu à FAU-Mackenzie, convidado pela gestão Identidade. A conversa tinha como tema Os Desafios de Gerenciar uma Metrópole como São Paulo. A figura do prefeito, para muitos, significou um marco para o desenvolvimento urbano da cidade. Haddad pôde explicar os principais projetos de seu governo, como o Plano de Mobilidade, que contrariava a lógica rodoviarista, a inclusão de circuitos socioculturais na cidade e a reorganização fiscal da Prefeitura, que naquele ponto acumulava uma dívida antiga com o governo federal. Enfim, importantes pautas puderam ser discutidas de perto com o então prefeito da cidade.
Figura fundamental para aprovação do novo Plano Diretor Estratégico (PDE/2014), Haddad pôde explanar sobre os impactos que a Prefeitura esperava para os dez anos seguintes. O PDE, segundo ele, era um projeto democrático de cidade, inclusivo, ambientalmente responsável, produtivo e, sobretudo, de melhoria de qualidade de vida. Pensar em novas lógicas de cidade, concordando ou não, naquele momento, com elas, não era o mais importante, mas o debate era o evento mais interessante.
O momento do debate político atual tem sido animado por polarizações, posições acirradas e excessivo conteúdo emocional no discurso, o que tem fragilizado o ambiente democrático. A escola deve ser o espaço privilegiado para o exercício da cidadania. Para tanto, é preciso construir um processo crítico, participativo e democrático.
No subsolo do Prédio 10 – o Dafam
O Dafam é o órgão de representação dos estudantes da FAU-
Mackenzie, mas muitas de suas narrativas – neste breve panorama – nos levam a imaginar não “o que ele é”, mas “o que ele pode se tornar”, seja para a atuação na política estudantil, seja para a realização de projetos coletivos ou apenas para uma pausa nos sofás do porão – sublime subsolo – ou para uma deliciosa marmita de micro-ondas. Pensamos ser um espaço plural, livre e de múltiplas iniciativas que ajudam a interpretar e fazer acontecer o presente – desafios da contemporaneidade como cidadãos e futuros profissionais. Um tempo incerto no qual tentamos enxergar a nós mesmos e, especialmente, nossa relação com o outro e com o mundo.
Referências
CORSI, D. Sob a sombra do planalto. A Escola de Administração Fazendária em Brasília de Pedro Paulo de Melo Saraiva. Vitruvius, ano 13, n. 153.02, set. 2013. Disponível em:
<http://www.vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/13.153/4870>.
EDITORIAL. Pilotis, São Paulo, n. 3, p. 1, set. 1949.
GAGNEBIN, J. Verdade e memória do passado. Projeto História. Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados de História, v. 17, p. 213-221, jul./dez. 1998. Disponível em:
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MELLO, Z. H. de. A era dos festivais: uma parábola. São Paulo: Editora 34, 2003.
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França, 1969. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?
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SERAPIÃO, F. Entrevista Alberto Xavier: “Havia livros sobre arquitetura, mas poucos” “Quem autorizou isso?”: Lucio Costa esbravejou ao ver a primeira edição do livro do arquiteto. Projeto Design, n. 322, 2002. Disponível em:
<https://arcoweb.com.br/projetodesign/entrevista/alberto-xavier-01-
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Estudantes reunidos na Atlética da FAU-Mackenzie.