Arquitetura Mackenzie, 100 anos
Faculdade de Arquitetura Mackenzie: origens e transformações
Faculdade de Arquitetura
Mackenzie: origens e
transformações
Eduardo Castedo Abrunhosa, Maria Teresa de Stockler e Breia
A história e o desenvolvimento da cidade de São Paulo confundem-se com a história do Mackenzie desde a segunda metade do século XIX até hoje. Nesse contexto, a Arquitetura Mackenzie, criada em 1917, destacou-se por meio da participação de seus professores e ex-alunos, profissionais formados para a excelência de sua atividade, não restritos apenas à cidade, mas que atuaram e atuam em todo o Brasil. O objetivo deste capítulo é apresentar as raízes e os aspectos do ensino da Arquitetura nessa instituição, inicialmente como um curso pertencente à Escola de Engenharia Mackenzie e, a partir de 1947, como unidade autônoma, na Faculdade de Arquitetura Mackenzie, chegando até a década de 1970, quando houve uma mudança de rumo do ensino da Arquitetura Beaux-Arts modificada até o ensino da Arquitetura Moderna.
A organização de um curso de Arquitetura na Escola de Engenharia do Mackenzie College foi proposta em 1916 e aceita por Christiano Stockler das Neves, Arquiteto e Professor, com sua primeira turma tendo ingressado em 1917. Ele foi o diretor do Curso de Arquitetura de 1917 a 1947 e da nova faculdade, a Arquitetura Mackenzie, até 1956. Em 1952, foi instalada a Universidade Mackenzie, e Christiano Stockler das Neves foi nomeado o primeiro vice-reitor.
A formação em Arquitetura de Christiano Stockler das Neves se deu na Escola Superior de Belas Artes da Universidade da Pensilvânia entre 1909 e 1911. O curso de Arquitetura foi criado com base no curso da École des Beaux-Arts de Paris (Escola de Belas Artes de Paris ou, simplesmente, École) e alterado com a incorporação ao currículo dos novos avanços tecnológicos da construção em seus conteúdos, conferindo-lhe características peculiares. Por isso, Christiano Stockler das Neves, na elaboração da proposta para o novo curso no Mackenzie, usou a própria formação na instituição norte-americana como referência única.
Para melhor compreender o caminho trilhado pela Arquitetura
Mackenzie, apresentaremos este capítulo na seguinte ordem: o curso da École des Beaux-Arts de Paris; o curso de Belas Artes da Universidade da Pensilvânia; três momentos no Mackenzie: a Escola de Engenharia, a nova Faculdade e o processo de transição para o ensino da Arquitetura Moderna, concretizado ao final dos anos 1960.
A École des Beaux-Arts de Paris
O clássico era a característica fundamental da École des Beaux-
Arts de Paris, caracterizado pelos aspectos da tradição iniciada na Renascença, cujas bases eram a Arquitetura grega e romana. A Arquitetura da Antiguidade clássica fora estudada e interpretada no Renascimento, quando o uso da razão era predominante entre os artistas, independentemente dos temas tratados. Por isso, as obras artísticas desse período tiveram como fundamento os conhecimentos herdados, desenvolvidos e sistematizados pelos artistas e pensadores. Os cientistas, desde a comprovação do heliocentrismo, buscavam comprovar as “verdades” científicas aceitas até então.
Na Arquitetura, foram sistematizados os princípios e as ordens
arquitetônicas, bem como a aplicação da tríade vitruviana: firmitas, utilitas e venustas, isto é, estabilidade, funcionalidade e beleza da edificação. Ademais, os arquitetos passaram a assinar a autoria de suas obras.
A expressão Beaux-Arts no século XVIII era adotada pelos
arquitetos que afirmavam ser a Arquitetura uma “Bela Arte”, constituída de princípios universais percebidos racionalmente. As origens da École des Beaux-Arts de Paris remontam às aulas dadas nas academias de Pintura e Escultura e na de Arquitetura, estabelecidas no reinado de Luís XIV. A École era pública e centralizada, dividida como na origem: uma de Arquitetura e outra de pintura e de escultura.
A Revolução Francesa, em 1789, que trouxe alterações na política e no gosto, afetou sua organização, mas foram mantidas a ênfase no clássico sistematizado no Renascimento e os métodos de ensino lá aplicados até 1968, quando foi fechada.
Na École des Beaux-Arts de Paris, ensinava-se ser correta a abordagem da tradição, e não a da originalidade; além disso, não eram aceitas cópias retiradas de uma só fonte nos trabalhos dos alunos. Era necessário pesquisar em várias fontes e, após a seleção dos elementos adequados ao novo projeto, o autor, devido à sua formação, chamado de “Acadêmico”, elaborava sua composição (denominação que era dada ao que hoje denominamos projeto), ao aplicar os vários elementos escolhidos, compostos de forma harmônica e bela.
Na organização da École em fins do século XIX e início do XX, especificamente no curso de Arquitetura, a formação se fazia em etapas bem marcadas. Aceitos após rigorosa seleção, os ingressantes eram matriculados na Segunda Classe, na qual deveriam somar determinado número de pontos nos concursos (inclusive concursos de Desenho) para passarem à Primeira Classe, na qual o processo se repetia com mais exigências e complexidade. Para a graduação final, deveriam executar mais trabalhos de Composição para vencerem mais concursos; apresentar projeto-tese e comprovar um ano de experiência profissional. O ponto cul77 minante era o aluno ser um dos poucos selecionados para o Grand Prix de Rome, concurso anual aberto apenas aos cidadãos franceses, cujos vencedores iam para a Academia Francesa em Roma para completar sua formação em mais quatro anos de estudos. Na volta, era-lhes garantida nomeação para algum cargo oficial no governo.
Embora houvesse controle rigoroso sobre a natureza e a qualidade dos trabalhos do aluno, eles eram livres para escolher como organizar as atividades e quando as cumprir; a formação completa dependia de o aluno atender a todas as etapas previstas. Nesse período, cabia à École a organização e a administração dos cursos teóricos, a elaboração dos programas para os concursos e formação dos júris. O edifício-sede dispunha de uma biblioteca e uma galeria de modelos a serem copiados pelos alunos.
O elemento principal da formação em belas artes era o atelier. No
início do século XX, havia vinte deles ligados à École, sendo três particulares e os outros, estatais, cada um sob a responsabilidade de um patron ou maître d’atelier. Os grupos de alunos eram liderados pelo massier, aluno encarregado do atelier; os patrons eram arquitetos premiados, reconhecidos e atuantes, que supervisionavam os trabalhos. As propostas de composição elaboradas para a participação nos concursos, essenciais para a formação dos futuros arquitetos, eram desenvolvidas no atelier. Os alunos eram obrigados a buscar excelência em suas propostas, que deveriam combinar: boa pesquisa, obediência aos princípios da Arquitetura acadêmica e excelência na representação gráfica, de acordo com as técnicas de desenho aprendidas.
Os princípios imutáveis da Composição no Classicismo e no
Ecletismo Francês erudito – unidade, harmonia, equilíbrio, estabilidade – eram apreendidos pela observação de cópias de modelos da Arquitetura da Antiguidade e do Renascimento e pelo estudo dos grandes edifícios desses períodos. Os arquitetos Beaux-Arts deviam ser criativos ao propor novas composições com o uso de elementos tradicionais, obtidos em grande variedade de fontes. Era o Ecletismo, cuja constante eram os princípios Clássicos; propunha-se um revival do Renascimento.
A experiência na França impressionava muito os arquitetos de
maneira geral. Assim, os princípios e os métodos adotados na École fundamentaram a criação da maioria dos cursos de Arquitetura do ocidente, do século XIX à primeira metade do XX, com adaptações.
Sendo uma Escola de Arte e Arquitetura das mais antigas, a
École des Beaux-Arts de Paris manteve, até o início do século XX, sua reputação como uma das academias líderes, adicionalmente ao fato de seus alunos serem oriundos de várias partes do mundo para receber a formação considerada exemplar. De volta a seus países de origem, eles propunham novos cursos, tornando o ensino da Arquitetura uma Bela Arte, acessível aos que não podiam estudar no exterior.
Edifício Renata Sampaio Ferreira, São Paulo, 1956. Projeto do
Engenheiro-Arquiteto Oswaldo Arthur Bratke (Mackenzie, 1930).
Exemplo de consolidação da Arquitetura Moderna em São Paulo,
com volumetria em dois corpos – embasamento e torre
diferenciados, e uso de elementos vazados cerâmicos como quebra-
sol, valorizando elementos singulares da Arquitetura brasileira.
A Arquitetura nos Estados Unidos da
América: séculos XIX e XX
Nos Estados Unidos da América, na segunda metade do século
XIX, ficou patente a necessidade de mais profissionais graduados para fazerem frente ao amadorismo e às práticas nem sempre adequadas. De modo geral, a sociedade percebia a relevância de formação teórica e padrões adequados para o exercício da profissão de médicos e advogados. Porém, não incluíam aí os arquitetos, pois imaginavam que essa era profissão de vocação prática, em que se aprendia fazendo.
Experientes em construção, alguns empreiteiros estabeleciam-se
como arquitetos. Não havia regulamentação para o exercício da profissão e das atribuições de cada tipo de profissional ligado à Arquitetura e à construção; qualquer um podia abrir seu escritório de Arquitetura ou sua empresa de construção.
Até então, os norte-americanos mostravam pouco interesse pela
qualidade urbana e estética de suas cidades; os construtores ou atuavam com base em experiências anteriores ou eram pessoas imigradas, com formação superior; a contratação de um arquiteto era rara e ocorria, de forma geral, por pessoas abastadas. Nesses casos, a vontade do contratante determinava as diretrizes para o edifício, que deveriam ser seguidas à risca e nem sempre os resultados eram bons.
A destruição de boa parte de Chicago devido a um incêndio,
construída principalmente de madeira, em 1871, gerou a necessidade de reconstruí-la e, dessa vez, os materiais de construção deveriam ser resistentes ao fogo. As edificações foram erguidas com a utilização de novas tecnologias: estruturas metálicas independentes e novas técnicas para uso do concreto, o armado. Um dos aspectos fundamentais foi a introdução de nova tipologia de edificação, erguida em larga quantidade na cidade, o arranha-céu. Essa tipologia pode ser utilizada em consequência dos novos materiais e técnicas aplicados, mas principalmente do desenvolvimento do elevador para pessoas a partir de 1854. Outra decorrência desses dois aspectos foi a imputação de novas atribuições aos arquitetos.
Nesse cenário, a Exposição Universal de Chicago em 1893 teve papel significativo. O projeto urbanístico desenvolvido por Daniel Burnham e Frederick Law Olmsted para aquele evento expressava os princípios Beaux-Arts de simetria, equilíbrio e monumentalidade. O público, em geral, ficou admirado com a demonstração real de como deveria ser uma cidade, mesmo que em uma exposição.
Na segunda metade do século XIX, os arquitetos norte-americanos buscavam formas para estabelecer padrões mais altos e mais uniformes no exercício de seu ofício, por meio da educação formal, mas que não obrigasse a ida para escolas no exterior. Era necessário criar novas escolas e novos cursos nos Estados Unidos e, para isso, a École des Beaux-Arts de Paris se impunha como referência para seus ex-alunos de forma geral.
Os arquitetos beauxartianos desejavam usar suas experiências para a implantação dos novos cursos, ou seja, queriam adotar os princípios universais e acentuar o caráter arquitetônico de arte, por meio de um currículo bem organizado e uma teoria racional de design, como denominavam as Composições.
O cenário arquitetônico norte-americano na passagem para o século XX era de revisão da atividade profissional. Arquitetos de formação, muitos deles pela École, pressionavam por leis estaduais de licenciamento para melhorar a qualidade dos edifícios públicos e se organizavam em sociedades profissionais; a par disso, o crescimento das cidades e a necessidade de novos equipamentos urbanos exigiam arquitetos de formação superior que aliassem à prática a teoria.
Os arquitetos Beaux-Arts retornavam a seus países extremamente convictos de que a formação na École era a única correta e a estética acadêmica era a única aceitável. Por isso, defendiam com veemência sua formação, buscavam impor seu ideário estético e desprezavam qualquer outra proposta. Os debates foram acalorados. Fundaram-se grupos para a defesa da tradição Beaux-Arts, criticados por sua postura de superioridade em relação aos outros participantes das discussões, o que dificultava o consenso.
Vencidos, em 1893, os acadêmicos criaram em Nova York a
Society of Beaux-Arts Architects (Sociedade de Arquitetos Belas Artes) e, em 1916, o Beaux-Arts Institute of Design (Instituto de Belas Artes de Design), para lutar pela criação de legislação adequada para o desenvolvimento dos novos currículos – que seriam tanto novos quanto resultantes de reformas dos existentes –, bem como para o exercício da atividade profissional. Essas instituições contribuíram de forma significativa para a adoção da formação com base beauxartiana em boa parte dos cursos de Arquitetura na passagem para o século XX naquele país.
A Graduate School of Fine-Arts da
Pennsylvania University
O curso de Arquitetura na Graduate School of Fine-Arts da
Pensilvânia (Escola Superior de Belas Artes) foi a inspiração para o Curso de Arquitetura do Mackenzie College.
O Arquiteto, Pesquisador e Professor Fernando Atique em
pesquisa sobre a Universidade da Pensilvânia e suas origens ensina que, logo após a Independência dos Estados Unidos, o ensino de nível superior foi restaurado e a primeira iniciativa nesse sentido foi a da criação da Universidade do Estado da Pensilvânia; e que a denominação University of the State of Pennsylvania denotava
[...] a ascensão do Estado como mantenedor da obra educacional, bem como
para expressar que certa pluralidade de formações seria possível na cidade,
já que, alguns anos antes, nela havia surgido o primeiro curso de medicina do
Norte do Continente Americano, o qual ficou agregado à recém-criada
universidade. (ATIQUE, 2010, p. 149).
Continuando, Atique refere-se à importância dos conteúdos
ministrados no “College, como lócus de uma formação mais erudita, baseada nos modelos ‘clássicos’ de ensino, [...] posteriormente, reaberto e acoplado à Escola de Medicina, em 1791”. E que “desta junção, por decreto oficial, a instituição educacional assumiu seu atual nome: University of Pennsylvannia” (ATIQUE, 2010, p. 149).
Ainda, Atique cita a falta de acomodações adequadas para a universidade, que funcionava em edifícios na Old City, mesmo com o crescimento constante do número de alunos até 1870. Ele afirma que sua expansão só pôde se acentuar em 1872, com a implantação do novo campus, e acaba por descrever sua nova estrutura: o Departamento de Artes, em 1755; o Departamento de Medicina, em 1765; o Departamento de Direito, em 1789, e o novo Departamento de Ciências, em 1872:
[...] o Department of Arts era, na verdade, o College [...], e mantinha o
oferecimento dos cursos de formação clássica, além do curso de música,
procurado, especialmente, por mulheres. O Department of Medicine
ministrava o curso de Medicina e controlava o Hospital Universitário, criado
em 1874. O Department of Law ministrava o curso jurídico, enquanto o
Department of Sciences seria o responsável pela ministração do curso de
Química aplicada às Artes Industriais; os cursos de Mineralogia, de Geologia
e de Mineração; de Metalurgia e de Materiais; das Engenharias Civil,
Mecânica e de Mineração, além dos cursos de Desenho Mecânico e de
Arquitetura. (ATIQUE, 2010, p. 150).
Quase um século depois, na década de 1880, ainda segundo Atique (2010, p. 151), “houve o aparecimento dos Departamentos de Filosofia, Arquitetura, Arqueologia e Paleontologia [...]”.
A formação em Arquitetura iniciou-se em 1873 e fora organizada por Thomas Webb Richards. Ela era oferecida dentro do College por meio do Departamento de Artes, com a duração de quatro anos, sendo os dois primeiros com disciplinas de humanas em geral e os últimos de arquitetura de forma específica. Posteriormente, ficou sob a responsabilidade da escola de engenharia, a Towne Scientific School. A Escola de Arquitetura só veio a se tornar autônoma em 1890 (ATIQUE, 2010, p. 150-152; p. 161).
Arquitetos locais conhecidos, formados na École, foram os seus professores, com a colaboração de professores da Engenharia. Ao final do século XIX, sua estruturação curricular estava completa como uma das escolas norte-americanas a adotar a ênfase na arquitetura como arte, princípio basilar da École. No entanto, não era mera cópia do curso francês, vez que aí a formação clássica era permeada pelo ensino das novas tipologias arquitetônicas e dos avanços tecnológicos dos séculos XIX e XX referentes às edificações.
Edifício para o Posto de Assistência Médica (PAM) do INSS da
Várzea do Carmo, bairro do Glicério, São Paulo, 1966. Autoria do
Engenheiro-Arquiteto Eduardo Kneese de Mello (Mackenzie, 1932)
e do Arquiteto Sidney de Oliveira (Mackenzie, 1961). Exemplo de
uso de elementos estruturais e de fechamento pré-fabricados.
Em 1903, o dean Warren P. Laird contratou o premiado Arquiteto
francês Paul Phillipe Crét para ser maître d’atelier na Universidade da Filadélfia, que era o patron em seu próprio atelier em Paris, muito procurado pelos alunos da École. Crét encontrou na Universidade da Pensilvânia ambiente propício à sua adaptação como parte do corpo docente, haja vista “[...] a tendência estadunidense de afrancesamento de suas graduações em Arquitetura [...] desde 1890” (ATIQUE, 2010, p. 163).
A presença de Crét foi fundamental para a maior aproximação dos
princípios acadêmicos franceses, sem seguir totalmente os métodos de ensino franceses, pois, segundo Atique (2010, p. 163), “por força do pragmatismo americano, a formação artística foi simplificada e aliada ao caráter técnico que dominava as formações em engenharia, e da qual, não por acaso, a graduação da Penn havia saído há pouco”.
A segunda reforma do Curso de Arquitetura na Universidade da Pensilvânia é citada como ocorrida em 1920, e aqui ele se refere a um texto do dean George S. Koyl, quando foi feita
[...] a transformação da School of Architecture, em School of Fine-Arts,
mudança que, mais que incorporar os cursos de graduação em música e
artes-plásticas, intentou traduzir, literalmente, sua vinculação às Écoles de
Beaux-Arts, embora já ostentasse a separação da carreira do arquiteto em
três campos: a do Architect, a do Urban Designer, e a do Landscape
Architect, seguindo a peculiar estrutura profissional norte-americana.
(ATIQUE, 2010, p. 163).
Quanto à organização e ao curso, um texto escrito por Joseph Esherick, outro ex-aluno da Universidade da Pensilvânia, traz descrição bastante acurada do período entre 1932 e 1937, quando o autor se graduou. Sua descrição, por certo, não corresponde exatamente à do currículo cursado por Christiano Stockler das Neves, mas é bem esclarecedora em relação ao espírito daquela instituição (ESHERICK, 1977, p. 238-279).
O autor descreve os ambientes, as relações professor-aluno, as atividades desenvolvidas, o trabalho nos ateliês, as aulas dos professores catedráticos, os livros de referência adotados para o estudo e o cotidiano da escola. Os professores eram, em grande maioria, ex-alunos da École; ele cita sete deles, inclusive o dean professor Koyle e os catedráticos de Design, quase todos detentores de importantes prêmios franceses (ESHERICK, 1977, p. 239).
Esherick relata também a preocupação e o cuidado aplicados nas adaptações do curso, necessárias devido à Depressão pós-1929, para que os alunos pudessem continuar sua formação (mesmo assim, alguns precisaram se afastar por um ano ou dois, mas retornaram e se graduaram). Explica que foram organizados três programas oferecidos pela “School”, como gostava de chamá-la, na tentativa de manter os alunos, mesmo se eles precisassem se ausentar por algum tempo. Havia um curso especial profissionalizante de três anos; um curso de cinco anos que levava à obtenção do título de graduação em Arquitetura e um curso de sete anos, no qual eram combinadas Artes, Ciência e Arquitetura, e o grau de bacharel era obtido. Um ano a mais de estudos e o curso de Pós-Graduação levava ao Master’s Degree (ESHERICK, 1977, p. 240-241).
Seu relato muito se assemelha ao de Christiano Stockler das
Neves em várias passagens, quando se referiu à camaradagem existente entre os alunos, à relação dos professores com os alunos e ao clima de muita cortesia e dedicação aos estudos, projetos e desenhos (BREIA, 1995). Assemelha-se também aos depoimentos de alguns ex-alunos mackenzistas do período 1917-1947, pela descrição da preparação do material a ser utilizado para a elaboração dos trabalhos (BREIA, 1995; 2005).
As disciplinas relacionadas diretamente ao desenho eram muito
presentes e ocorriam durante todo o curso; abrangiam desde o aprendizado de como apontar um lápis, passando pelas técnicas de como trabalhar sombras, volumes, texturas, como produzir a própria tinta nanquim a partir das pedras, para depois utilizá-la nos desenhos, nos trabalhos de Design (assim era chamada a Composição de Arquitetura nos EUA) e trabalhar com aguadas através de maior diluição da tinta. As técnicas para trabalhos coloridos e aquarelas eram também ensinadas, e os alunos treinavam muito sua aplicação. Para os trabalhos nas disciplinas de Design, os alunos aprendiam a tratar o papel a ser utilizado, as técnicas para prendê-lo nas pranchetas e o tratamento a ser dado às margens, para que não ficassem sujas ou estragadas.
As disciplinas teóricas incluíam o desenho como reforço do
aprendizado, o ensino das cinco ordens arquitetônicas sistematizadas cientificamente no período do Renascimento e as condições para sua utilização.
Esherick se refere à importância dada à contratação dos
professores de Design, arquitetos atuantes e bem-sucedidos no mercado, e enfatiza que os ateliês de desenho funcionavam todas as tardes, das 14h às 18h, e que o patron lá permanecia por todo o período (ESHERICK, 1977, p. 244).
Um fator destacado pelos dois ex-alunos foi a proximidade entre o campus e a cidade, o que permitia a ida a museus, teatros, ópera e concertos, atividades muito incentivadas pela direção e pelos professores, para ampliar a cultura geral dos alunos e despertar-lhes o gosto por todas as manifestações artísticas.
Esherick relata o desconforto dos alunos em sua época, relacionado ao descompasso entre o que aprendiam e o que viam e liam nas revistas especializadas, cuja maioria era assinada pela biblioteca. Essas revistas traziam os novos pontos de vista para a Arquitetura. Em 1934, circulavam entre os alunos textos e livros de autoria de Louis Sullivan, Frank Lloyd Wright e Le Corbusier, lidos por sua conta, sem descuidar do estudo dos textos que faziam parte de sua formação no curso, como os de Julien Guadet, Benjamin Fletcher e o de Iacomo Barozzi da Vignola, escrito no Renascimento mas traduzido e atualizado à realidade norte-americana, que foi chamado American Vignola, por exemplo.
Os alunos se incomodavam com a falta de análise e discussão a respeito dos novos edifícios construídos na Universidade da Filadélfia, os quais poderiam ser analisados ao vivo, assim como a ausência de proposição dos terrenos para a implantação das propostas nos trabalhos de Design. Afirma Esherick que por serem trabalhos solicitados e desenvolvidos na própria Universidade, deveria ser possível no enunciado da solicitação constar um terreno real para a disciplina de Design, para que os alunos do grau C pudessem ter um contato in loco, real (ESHERICK, 1977, p. 264). Outra dificuldade para os alunos aceitarem eram os temas escolhidos para os exercícios de Design, descolados da realidade e alheios às suas preocupações em relação à vida urbana.
Christiano Stockler das Neves –
Aluno, Arquiteto e Professor
Christiano Stockler das Neves (1889-1982) escolheu o curso de Arquitetura na Escola de Belas Artes da Universidade da Pensilvânia após cursar o primeiro ano do curso de Engenheiro-Arquiteto na Escola Politécnica de São Paulo, no qual não encontrou o que procurava.
Arquiteto Christiano Stockler das Neves (1889-1982), fundador da
FAU-Mackenzie.
Foram várias as causas de sua opção pela formação nos Estados
Unidos da América, país que muito admirava devido à tecnologia que lá era desenvolvida e utilizada e aos métodos de ensino aplicados, conhecimento advindo da convivência com George Krug, também ex-aluno da Universidade da Pensilvânia e das revistas norte-americanas assinadas pelo escritório de seu pai, o engenheiro Samuel das Neves, que o mantinham em contato com a Arquitetura daquele país. Outro fator importante foi sua experiência como estagiário no escritório de seu pai, em que convivia com arquitetos europeus imigrados, encarregados dos vários projetos executados e construídos.
Chegado naquele país, após pesquisa, escolheu o curso da
Universidade da Pensilvânia, na qual obteve sua certificação profissional. Durante a formação, entre 1909 e 1911 e mesmo depois, seu professor e grande mentor foi Paul Crét, a quem muito admirava.
Atique, ao pesquisar nos arquivos da Universidade da Pensilvânia, pôde descrever o cenário do curso de Arquitetura estudado por Christiano Stockler das Neves, como segue:
Na Penn, Christiano das Neves vivenciou o período das modificações nas
aulas de Design implementadas pelo Arquiteto Paul Phillipe Crét, que
procurou adequar a formação tradicional da École des Beaux-Arts aos
sistemas americanos, sobretudo o que expedia certificados de proficiência na
carreira, a cada dois anos, ao invés dos longos anos de estudos dispendidos
numa instituição francesa. Embora mais rápido e mais barato do que o curso
de quatro anos, as horas necessárias para o cumprimento ideal deste curso
eram muitas. Como a School of Architecture enfatizava em seu catálogo de
disciplinas, ‘o estudo de desenho [era] então enfatizado, exigindo um
dispêndio significativo de tempo ao longo do curso em seus termos
preparatórios e adicionais’. (ATIQUE, 2010, p. 179).
Edifício Bank of London and South America, no centro velho de
São Paulo, 1959. Projeto do Arquiteto Giancarlo Palanti (Escola
Politécnica de Milão, 1929) e do Engenheiro-Arquiteto Henrique
Mindlin (Mackenzie, 1932).
As correspondências de Christiano Stockler das Neves com o dean Warren Powers Laird, o dean George Koyl, o professor Crét, além de outros professores e ex-colegas de turma, foram significativas, pelo menos até os anos 1930, o quanto se pôde apurar. Terminado o curso, partiu diretamente para a Europa, onde permaneceu viajando por seis meses, conhecendo ao vivo o que havia estudado nos livros e no curso.
Ao regressar ao Brasil em 1912, voltou a trabalhar, agora como profissional, no escritório de seu pai, discordando de pronto da estética que lá predominava, a qual era influenciada por europeus, principalmente italianos, arquitetos ou bons desenhistas, que adotavam os estilos de seus países e também daqueles que eram desenvolvidos sob a influência do Art Nouveau ou do Neoclássico.
O primeiro projeto sob sua responsabilidade foi executado de acordo com a estética arquitetônica que seria a marca de sua carreira, o Clássico Francês, como havia aprendido na Filadélfia. O estilo que admirava era o Luís XVI, utilizado em boa parte dos edifícios construídos na primeira fase de sua carreira (PEREIRA, 2005).
Em suas obras, adotou estruturas construídas em concreto armado (sendo um dos precursores do uso desse material na cidade), técnica pouco conhecida e utilizada em São Paulo; em seus projetos, trabalhava com o repertório Beaux-Arts e com as técnicas construtivas mais recentes, marca do aprendizado na Universidade da Pensilvânia.
Dentre suas obras, podemos citar o edifício Sampaio Moreira, inaugurado em 1922, introdutor da tipologia dos arranha-céus em São Paulo e que alterou o gabarito europeu vigente na cidade; nas fundações desse edifício, foi adotado o sistema em radier, outra inovação na arte da construção brasileira. Christiano Stockler das Neves manteve seu escritório nesse edifício entre 1939 e 1982, quando faleceu.
O projeto da Estação Inicial da Estrada de Ferro Sorocabana de 1926 foi premiado no III Congresso Pan-Americano de Arquitetos em Buenos Aires, com o “Prêmio de Honra e Diploma”, em 1927. Outros projetos que podemos citar são: porteiras do Braz (como era grafado o nome desse bairro na época dos projetos); estações do Braz e E. F. Central do Brasil;
Estação Norte; sede do Automóvel Clube de São Paulo e o
anteprojeto para a construção da Escola de Guerra Naval em 1952, com o Arquiteto Fernando Martins Gomes. Projetou e construiu também vários palacetes, edifícios comerciais e residenciais, hospitais e colônias de férias; reformou edifícios em Campinas, como a sede do clube Campineiro e o Teatro Municipal.
Christiano Stockler das Neves foi grande batalhador pela
regulamentação da profissão de arquiteto no Brasil, que deveria estabelecer as atribuições específicas, tanto dos arquitetos quanto dos engenheiros e dos outros profissionais da arquitetura e da construção civil, sem formação superior, para que pudessem ser responsáveis por diversas etapas de obra. Publicou vários artigos a esse respeito e apresentou a tese intitulada “Regulamentação da Profissão de Architecto” (sic), no IV Congresso Pan-Americano de Arquitetos, no Rio de Janeiro, em 1930. Essa normatização, reivindicada não apenas por ele, mas por arquitetos de forma geral, se deu com promulgação do Decreto Federal nº 23.569, de 11 de dezembro de 1933.
Reagiu contra o pensamento moderno, contra as novas ideias
trazidas da Europa por arquitetos e intelectuais, que começaram a tomar corpo no Brasil e serem objetos de admiração pelos alunos do Mackenzie, desejosos de conhecer a Nova Arquitetura. Combateu a “Arquitetura dos Transatlânticos”, referindo-se à obra de Le Corbusier, no caso, e à Arquitetura Moderna de forma geral.
Em suas batalhas conceituais, sempre defendeu o ensino pelos
métodos Beaux-Arts, que acreditava prover formação ampla, ao mesmo tempo bastante rigorosa e complexa, permitindo toda e qualquer expressão arquitetônica. Para ele, essa opção era extremamente racional, pois não se prestava a modismos, como acreditava que seria o caso da Arquitetura Moderna.
Não possuindo uma architectura nacional digna de respeito à sua tradição,
devemos seguir o critério dos povos mais civilizados em questões de arte. Os
norte-americanos, os inglezes e os argentinos seguem a orientação da
architectura franceza. A Escola de Belas Artes de Paris é a orientadora da
verdadeira architectura que todos os povos latinos devem seguir. A
conservadora Inglaterra e a excêntrica terra do Tio Sam obedecem [...], a esta
corrente estética. Innumeros são os architectos americanos e inglezes que
fizeram sua educação artística na França, reconhecendo assim a innegavel
supremacia da arte que a velha Gallia conserva há muitos séculos. Paris
ainda é a Cidade-Luz. (NEVES apud BREIA, 1995, p. 173).
Mas estamos nos adiantando, sem explicar sua relação com o ensino. Chegado a São Paulo, Christiano Stockler das Neves decidiu se dedicar à criação de um curso de Arquitetura, no qual aplicaria os princípios arquitetônicos aprendidos na Universidade da Pensilvânia, que considerava de extrema valia, aos quais acrescentou os resultados de sua experiência na Europa. A proposta apresentada em 1916 ao presidente do Mackenzie, William A. Wadell, revelava firme confiança em sua formação. Escolheu o Mackenzie College, que considerava “[...] uma instituição livre e a única que estava em condições de aceitá-la, por adotar os mesmos métodos de ensino que fiseram [sic] a grandeza da terra de Tio Sam [...]” (NEVES apud BREIA, 1995, p. 199).
O Curso de Arquitetura da Escola de
Engenharia Mackenzie
Aprovada a proposta, o novo curso de Arquitetura, parte da Escola de Engenharia do Mackenzie College, apareceu pela primeira vez no Catálogo de 1916-1917. O professor Christiano Stockler das Neves foi o primeiro e único responsável pelas disciplinas específicas 89 de Arquitetura nos dois primeiros anos, haja vista que as disciplinas técnicas eram ministradas aos alunos de Arquitetura em conjunto com os alunos de Engenharia. Novos professores, ex-alunos do curso, foram contratados em 1919, o que garantiu a continuidade da direção impressa ao curso, organizado de acordo com o curso da Universidade da Pensilvânia. Quando mais tarde professores com outra formação eram contratados, encontravam um rumo traçado a ser seguido por todos.
Nos primeiros anos e mesmo depois, Christiano Stockler das Neves se dispunha a lecionar disciplinas teóricas, como Teoria da Arquitetura e Filosofia da Arquitetura, mas sua predileção e especial atenção eram voltadas para as atividades em atelier, em que lecionava as disciplinas Pequenas Composições de Arquitetura ou Grandes Composições de Arquitetura, pelas quais foi o responsável até sua aposentadoria.
William Waddell, antigo Presidente do Mackenzie e muito amigo
de Christiano Stockler das Neves, redigiu uma carta de recomendação, quando da adaptação do curso de Arquitetura para equipará-lo ao da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, em obediência à nova legislação. A carta visava a nacionalização de todas as instituições de ensino vinculadas a universidades estrangeiras, como o caso do Mackenzie em relação à Universidade de Nova York:
A QUEM INTERESSAR
O lente Christiano Stockler das Neves entrou na Escola de Engenharia
Mackenzie no princípio do anno lectivo de 1917, portador do diploma de
Bacharel em Architectura da afamada Escola da Universidade de
Pennsylvania. Principiou a organização de um Curso de Architectura do typo
contemplado pelo grau de Bacharel em Engenharia de Architectura. Occupou
os postos de instructor, em 1917, lente associado, em 1920, lente
Cathedrático, em 1924, sempre conservando a direção do departamento. Foi
reconhecido como Deão desde o anno de 1924. Tem dado administração
óptima e desenvolvimento valiosíssimo, testemunhando pelo facto de que o
Curso foi premiado com a medalha de ouro na Exposição Panamericana de
Arquitectura em Buenos Ayres, em 1927, e também com medalhas de ouro e
prata no IV Congresso Pan-Americano de Architectura, realizado no Rio de
Janeiro em 1930, bem como pelo trabalho effectivo feito pelos seus muitos
discípulos. Actualmente está transformando a natureza do Curso de
Architectura, afim de (sic) equipará-lo ao da Escola Nacional de Bellas Artes,
do Rio de Janeiro.
São Paulo, 21 de junho de 1933
W. A. Waddell, Presidente
(INSTITUTO MACKENZIE, 1970, p. 198-199).
Edifício Sede do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento
São Paulo, 1950. Projeto dos Arquitetos Rino Levi (Escola Superior
de Arquitetura de Roma, 1925), Roberto Cerqueira César (Escola
Politécnica da Universidade de São Paulo, 1940), Jacob Ruchti
(Escola de Engenharia Mackenzie, 1940), Miguel Forte (Mackenzie,
1938), Galiano Ciampaglia (Mackenzie, 1938), Abelardo de Souza
(ENBA, 1932), Hélio Duarte (ENBA, 1932) e Zenon Lotufo (Escola
Politécnica do Rio de Janeiro / Escola Politécnica da USP,
1933/1936).
Conforme citado anteriormente, o trabalho em atelier era
extremamente importante e valorizado no sistema Beaux-Arts, tanto na França quanto no caso específico da Universidade da Filadélfia. Relatos espontâneos e depoimentos prestados por vários antigos alunos descrevem as atividades no atelier como extremamente importantes e enriquecedoras, pois nesses momentos havia muito espírito de colaboração e troca de informações, que se concretizavam por meio do mútuo auxílio. Seguindo a tradição francesa, eram organizados concursos internos, anuais, seguidos da exposição dos trabalhos. A Revista de Engenharia Mackenzie publicava projetos premiados nesses concursos e, com o tempo, passou a publicar Projectos-These de formandos até 1947, quando da independência do curso e da formação da Faculdade de Arquitetura.
Interessante acompanhar, por meio dessas publicações, as
pequenas alterações estéticas que iam sendo aplicadas pelos alunos nesses projetos e que, se bem fundamentadas e resolvidas, eram aceitas, embora com restrições, pelo professor Christiano Stockler das Neves.
Sua certeza absoluta de que a Arquitetura era a Bela Arte, e a
defesa radical desse conceito, sem dúvida, o princípio fundamental do Beaux-Arts, levavam-no a radicalizar e a exigir dos alunos que seguissem esse princípio. Sua postura parece-nos ter sido adotada, primeiro, porque o Beaux-Arts era predominante no ocidente e o correto para a época; segundo, porque Christiano Stockler das Neves usava seu rigor quase que como um obstáculo, uma prevenção contra as ideias que denominava “futuristas”, isto é, modernas, que ameaçavam a formação estética e conceitualmente “correta” de seus alunos.
Fator intrigante era que alguns programas de exercícios da disciplina Pequenas e Grandes Composições, redigidos por Christiano Stockler das Neves, traziam temas contemporâneos: “Um posto de gasolina”, “Uma ala de hospital“, “Uma boite” (sic), “Uma ala de presídio”, cujas soluções não se coadunariam com a linguagem do sistema Beaux-Arts. No entanto, também eram solicitadas propostas para temas anacrônicos, como Monumento ao Barão de Rio Branco; outros eram alheios à realidade contemporânea brasileira, como “A ala central de um palácio”, típicos desse sistema de ensino. Mas uma característica muito criticada pelos alunos permanecia: a falta do terreno, um suporte para o projeto a ser desenvolvido.
A ênfase nas disciplinas de Desenho, existentes em todos os anos do curso, tinha por objetivo exercitar o olhar dos alunos e o aprendizado das técnicas de representação desde os primeiros croquis; para isso, era necessário que o material e os instrumentos fossem preparados adequadamente, da mesma forma descrita por Esherick quando se referiu ao curso da Universidade da Pensilvânia.
Aos poucos (a partir do final da década de 1920), os alunos mackenzistas foram desenvolvendo resistência ao ensino de tradição acadêmica e expressavam seus desejos, muitas vezes e de maneiras diferentes, por aprender a Arquitetura Moderna e analisar obras modernas, dos Estados Unidos e da Europa, publicadas no material que mandavam importar, composto de livros e periódicos, partilhado entre eles e, por meio de longas discussões, iam trabalhando suas posturas modernas em relação à Arquitetura.
Além da formação teórica e de prancheta, os alunos faziam estágios nos escritórios de Arquitetura existentes, onde também tomavam contato com o Moderno. Começou-se a projetar e construir obras modernas na cidade de São Paulo e no país. Os alunos faziam visitas a canteiros de obras, aos finais de semana; às vezes, eram acompanhados por um professor ou pelo arquiteto autor da obra.
Da Arquitetura Moderna ao ensino do
Moderno na Arquitetura
A esta altura do texto, julgou-se necessário relembrar os leitores
de alguns antecedentes da Arquitetura Moderna no Ocidente para analisar a implantação da Arquitetura Moderna no Brasil e, em seguida, seu ensino na Faculdade de Arquitetura Mackenzie.
O crescimento precário das cidades a partir da Revolução
Industrial, as conquistas no campo das engenharias e da tecnologia, as novas propostas para a cultura de massa, os avanços em todas as ciências, trouxeram a quase certeza de que os métodos científicos e seus princípios aliados aos avanços e às descobertas em todos os campos do conhecimento humano levaram à valorização da objetividade, da racionalidade e da criatividade. Assim, novas propostas no campo das Artes foram consequência natural e, como a Arquitetura é uma Arte, refletiu esses mesmos fatores.
O espaço de tempo necessário para o percurso em direção à
adoção, no ensino, da Arquitetura Moderna foi longo. Os alunos reivindicavam mudanças naquele sistema Beaux-Arts que consideravam arcaico e descolado da realidade, mesmo quando somado à atualização de conteúdos referente aos novos materiais, às novas técnicas de construção acrescidos de seus respectivos fundamentos e instrumentais.
A grande dificuldade das instituições de ensino da Arquitetura
para mudar de direção era não poder determinar se o Moderno viera realmente para alterar o cenário arquitetônico ou se constituía mais um modismo passageiro (assim pensava o professor Christiano Stockler das Neves), como o Art-Nouveau e o Art-Déco. Se fosse um modismo, não faria sentido abandonar uma tradição de ensino que, do ponto de vista dos responsáveis por seus cursos, se mostrava ao longo do tempo adequada e eficiente. Naturalmente, não se pode supor que a opção pelo ensino da Arquitetura Moderna tenha sido feita concomitantemente em todas as Escolas de Arquitetura.
No entanto, o avanço na industrialização da Arquitetura foi impulsionado com mais velocidade devido à necessidade de reconstrução das regiões europeias destruídas, tanto na Primeira como na Segunda Guerra. Mas sabe-se que as novas ideias não haviam surgido nesses tristes momentos: já se avolumavam em consonância com as vanguardas do final do século XIX e início do século XX.
A Arquitetura Moderna no Brasil
A produção da Arquitetura Moderna no Brasil aconteceu antes na vida prática. Arquitetos, inclusive mackenzistas, embora de formação Beaux-Arts, buscaram em seu trabalho a expressão arquitetônica que consideravam mais compatível com a nova realidade mundial e do país. Por isso, em muitos casos, usavam a produção industrial como fonte de inspiração e, em outros, trabalhavam a Composição, numa linguagem arquitetônica despojada e com o uso de materiais industrializados.
Os fatos e os eventos que animavam alunos e ex-alunos se concretizavam em vários cantos do mundo. O Moderno no Brasil teve início na prática e demorou a ser adotado nos cursos de Arquitetura do País até o final dos anos 1960. Podemos citar alguns deles:
1. As notícias divulgadas anualmente e os textos publicados,
principalmente pelas revistas estrangeiras, que noticiavam os Congressos Internacionais da Arquitetura Moderna (Ciam), criados em 1928 na Suíça e cujo líder foi Le Corbusier. A organização, que contava com os principais nomes da Arquitetura Moderna, promoveu esses Congressos no quais eram discutidas as respostas a serem oferecidas pela Arquitetura Moderna. As diversas edições do Ciams difundiram ideias, conceitos e diretrizes das Arquiteturas Racionalista e Funcionalista.
2. A chegada do Arquiteto russo Gregori Warchavchik (1896-1972)
em 1923, por coincidência, no rastro da Semana de 1922, que
construiu para sua moradia (1927-1928) a primeira casa modernista no País, em São Paulo.
3. O trabalho do Arquiteto Lúcio Costa (1908-1998), pioneiro da
Arquitetura Moderna no país, formado na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro entre 1917 e 1924, na qual recebeu formação acadêmica, com a qual rompeu para se dedicar à Arquitetura Moderna. Foi convidado em 1932 para a Direção de sua antiga escola, com duas missões: a renovação do ensino das Artes e a reformulação do curso de Arquitetura; sua gestão teve curta duração, devido à resistência pelos adeptos do Academicismo, principalmente os docentes da casa, à nova linguagem.
4. A elaboração do projeto para o Ministério da Educação e Saúde
Pública, quando Lúcio Costa trabalhou em parceria com Carlos Leão, Ernani Vasconcelos, Jorge Moreira e Affonso Eduardo Reidy e seu antigo aluno, Oscar Niemeyer, todos eles Arquitetos Modernos e que aplicaram conceitos do Moderno na proposta.
5. As visitas de Le Corbusier ao Brasil. De acordo com o livro Le
Corbusier no Brasil (1987), a primeira visita foi a São Paulo e ao Rio de Janeiro, a caminho de Buenos Aires e do Uruguai, em 1929; em 1936, ao Rio de Janeiro. Nessas ocasiões, o Arquiteto proferiu palestras, assistidas pelos adeptos dessa nova visão sobre a Arquitetura, principalmente por alunos e jovens arquitetos e que tiveram grande repercussão. Sua influência foi mais forte no Rio de Janeiro, capital do país, onde atuava o grupo de arquitetos modernos, liderado por Lucio Costa;
6. O Moderno ampliou aos poucos seu lugar na Arquitetura,
principalmente depois da Segunda Guerra Mundial com obras de reconstrução na Europa; nos Estados Unidos, projetos dos arquitetos modernos europeus para lá emigrados promoveram a Arquitetura Moderna por meio de suas obras e do exercício da docência, principalmente Mies van der Rohe e Walter Gropius.
7. A Primeira Bienal de São Paulo (1951), na qual se
apresentaram obras modernas que desagradaram parte do
público, mas também foram significativas para a aceitação do Moderno na Arquitetura. Nela, foram premiados alguns ex-alunos mackenzistas.
8. O concurso para o Plano Piloto de Brasília, em 1955, que
causou várias polêmicas e discussões. O projeto urbanístico vencedor foi o de Lúcio Costa, que o implantou com alterações. Ex-alunos da Arquitetura Mackenzie fizeram parte de algumas equipes participantes ou constituíram equipes com participação destacada.
Edifício Vila Normanda, São Paulo, 1964. Projeto do Engenheiro-
Arquiteto Lauro da Costa Lima (Mackenzie, 1941).
Esses fatores, mesmo sem se esgotar as possibilidades,
pavimentaram o caminho para Arquitetura Moderna no Brasil.
A Faculdade de Arquitetura
Mackenzie
Na longa gestão do professor Christiano Stockler das Neves houve pressão crescente por parte do corpo discente no sentido da adoção dos princípios da Arquitetura Moderna em sua grade curricular e, principalmente, nas disciplinas de Composição, cujos programas solicitados pareciam-lhes totalmente alheios à nova realidade. Os fatos e eventos citados anteriormente foram paulatinamente absorvidos pelo corpo discente mackenzista; por isso, a pressão feita era cada vez mais forte.
Por ocasião do Centenário da Universidade, em 1970, foi feita uma publicação comemorativa, na qual se lê que o Dr. Benjamin Hunnicutt, presidente do Mackenzie, no Relatório de 1946, referiu-se ao curso de Arquitetura que funcionou na Escola de Engenharia desde 1917 nos seguintes termos:
O curso de Arquitetura foi fundado em 1917, funcionando regularmente, [...],
diplomando, até 1945, 83 arquitetos que vêm exercendo a profissão com toda
a competência, salientando-se de maneira notável, muitos dos seus trabalhos
arquitetônicos, vencendo numerosos concursos, além de terem recebido altas
recompensas no país e no estrangeiro. (INSTITUTO MACKENZIE, 1970, p.
51).
Após 1946, o curso passou a ter a duração de cinco anos, e não mais seis anos. O Anuário da Escola de Engenharia de 1946 traz um relatório redigido pelo Dr. Henrique Pegado, seu diretor, que apresentou as razões e o processo de desmembramento do curso de Arquitetura da Escola de Engenharia, para a criação da Faculdade de Arquitetura Mackenzie, cuja instalação se deu em 12 de agosto de 1947, em sessão solene do Conselho do Instituto Mackenzie, quando foi empossado diretor, o Arquiteto e Professor Christiano Stockler das Neves (ANUÁRIO, 1946).
A partir dessa data, a Faculdade passaria a ocupar permanentemente o prédio onde antes só funcionava o ateliê de Arquitetura, o Edifício Chamberlain, reformado para acolhê-la por inteiro, o que ocorreu até 1961, quando foi inaugurada a primeira parte construída de um novo edifício para a Faculdade, hoje completo.
A grade curricular adotada na nova Faculdade em 1947 trazia
alterações em relação à que existira até 1946. Alguns professores permaneceram, alguns foram substituídos e houve esforço por parte dos Professores-Engenheiros em adaptar suas exigências àquelas consideradas adequadas para a formação dos Arquitetos, pois agora essas disciplinas técnicas seriam ministradas na nova Faculdade e, portanto, conteúdos e exigências deveriam ser diferentes. Essa grade curricular das disciplinas foi aprovada e se distribuía como segue:
1º Ano: Matemática Superior – a) Geometria Analítica; b) Cálculo
Infinitesimal; Geometria Descritiva; Sombras; Topografia – teoria, desenho e campo; Arquitetura Analítica – 1ª parte – teoria e desenho; Desenho Artístico; Modelagem; História da Arte;
2º Ano: Mecânica Racional; Perspectiva; Arquitetura Analítica – 2ª
parte – teoria e desenho; Teoria da Arquitetura – 1ª parte; Composições de Arquitetura – 1ª parte; Resistência dos Materiais; Grafo – estática; Desenho Artístico; História da Arte;
3º Ano: Estereotomia da Pedra – 2º período; Materiais de
Construção; Tecnologia dos Materiais; Teoria da Arquitetura – 2º período; Estabilidade das Construções; Estruturas Metálicas e de Madeira; Pequenas Composições de Arquitetura; Física Aplicada; Desenho Artístico; História da Arte; Composições Decorativas; Sistemas Estruturais;
4º Ano: Mecânica dos Solos; Grandes Composições de
Arquitetura – 1ª parte; Arquitetura no Brasil; Urbanismo – 2º período; Estabilidade das Construções; Estruturas de Alvenaria – Muros de Arrimo; Concreto Armado; Higiene da Habitação – 1º período; Saneamento das cidades – 2º período; Desenho Artístico; Composições Decorativas;
5º Ano: Grandes Composições de Arquitetura – 1ª parte;
Arquitetura Paisagista – teoria e prática; Sistemas Estruturais; Desenho Artístico (modelo vivo); Composições Decorativas; Estatística; Economia Política e Finanças; Direito Administrativo – legislação; Organização do Trabalho; Prática Profissional.
O estágio em escritório de Arquitetura deveria ser feito pelos alunos desde o segundo ano até a formatura e a Assistência a Pequenas e Grandes Composições do segundo ao quinto anos acontecia às quartas-feiras à tarde.
Em 16 de abril de 1952, foi instalada a Universidade Mackenzie e para seu primeiro Reitor foi indicado o Dr. Henrique Pegado, que havia dirigido a Escola de Engenharia por 13 anos e o Professor Christiano Stockler das Neves, como Vice-Reitor (INSTITUTO MACKENZIE, 1970, p. 53).
A Faculdade de Arquitetura
Mackenzie e sua organização
Em obediência à legislação vigente, a nova faculdade foi constituída, administrativamente, de acordo com o Decreto Federal no 19.851, de 11 de abril de 1931, como segue: Diretoria, Conselho Técnico Administrativo – CTA e Congregação. O Conselho do Instituto escolheu o primeiro Diretor, que passou a sê-lo pelo Conselho Universitário desde a criação da Universidade Mackenzie em 1952, a partir de lista tríplice.
Os Diretores da Faculdade de Arquitetura até 1970 foram, conforme a publicação comemorativa do Centenário do Mackenzie (INSTITUTO MACKENZIE, 1970, p. 201), depois do Professor Christiano Stockler das Neves, pela ordem: Américo da Graça Martins, Serafim Orlandi, Francisco Esteves Kosuta, João Francisco Portilho de Andrade, Roberto Frade Monte, Gustavo Ricardo Caron, Salvador Candia e João Pedro de Carvalho Neto (em exercício naquele ano).
O corpo docente, de acordo com o mesmo Decreto Federal, se constituía em quatro categorias: professores catedráticos; auxiliares de ensino; docentes livres e professores contratados. Para chegar a professor catedrático, prestava-se um concurso de títulos e provas. Sua atividade seria monitorada e avaliada pelo corpo administrativo da faculdade, pois, embora vitalício, o catedrático podia ser exonerado de suas funções.
As primeiras referências a propostas de adequação do currículo
em busca de melhor entrosamento entre as disciplinas e adequação dos programas, mesmo mantendo a estrutura acadêmica, datavam da gestão do professor Christiano Stockler das Neves.
Sabe-se que houve pelo menos uma Comissão de
Reestruturação do curso da Faculdade, mas não foi possível saber se sua duração foi em todo o período entre 1958 e 1970 ou se houve mais de uma comissão.
Nessa transição, havia uma sequência nos procedimentos a
serem obedecidos pela Faculdade: a Comissão de Reestruturação devia apresentar suas propostas ao CTA, que deveria analisá-las e discuti-las; se aprovadas, a próxima instância era a Congregação, que discutiria sobre o Relatório encaminhado, consultaria os professores envolvidos, deveria aparar as eventuais arestas e, se fosse o caso, aprová-lo. A instância final era o Conselho Universitário, cujo parecer final seria de aprovação ou negação. O mesmo Conselho daria o passo seguinte: solicitar verbas eventualmente necessárias à implantação das mudanças que, por exemplo, poderiam acarretar em um curto período duplicidade na ocorrência de disciplinas, por exemplo. A reestruturação foi difícil, pois envolveu, além da questão acadêmica, outras institucio nais, como a situação trabalhista dos professores, e a atualização dos equipamentos necessários à nova realidade do ensino.
Edifício Metrópole e Centro Metropolitano de Compras, Centro
Novo de São Paulo. Importante exemplar de Arquitetura Moderna
realizada na década de 1960. Projeto dos Arquitetos Salvador Candia (Mackenzie, 1948) e Giancarlo Gasperini (Università di
Roma/Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil,
Rio de Janeiro, 1949).
Além das dificuldades internas, haviam as pressões externas,
tanto das comissões organizadas pelo grupo das faculdades de Arquitetura do país como do Instituto de Arquitetos do Brasil e do Ministério da Educação. Ademais, o atendimento à Lei de Diretrizes e Bases (ainda em discussão na época) requereria um novo regimento interno que abarcasse o resultado da reestruturação do curso e regesse o cotidiano da Faculdade, que deveria ainda estar em acordo com o Estatuto e o Regimento da Universidade. A reestruturação do curso foi aprovada em janeiro de 1965 para implantação experimental.
Na Arquitetura Mackenzie, como curso e como faculdade, houve
sempre muito cuidado com a constante revisão dos conteúdos para evitar sobreposições de conteúdos. A exigência em todas as disciplinas era grande: as provas parciais e os exames eram difíceis e cuidadosamente redigidos. A presteza na apresentação das propostas de projetos que atendessem aos programas propostos devia ser acompanhada de muita qualidade na apresentação dos trabalhos, tanto para os projetos com prazos comuns como para aqueles desenvolvidos em 6h, 8h, 12h ou até 24 h.
As conversas com alguns ex-alunos trouxeram à lembrança vários
professores, tanto do curso como da faculdade. O professor Adolph Franz Heep, contratado em 1958 para impulsionar de vez a adoção da Arquitetura Moderna, foi lembrado como tão radical em sua visão sobre Arquitetura Moderna quanto era o professor Christiano Stockler das Neves em relação à Arquitetura como uma “Bela Arte”. Mas havia diferenças, e a principal era que, embora ameaçasse descolar da prancheta e rasgar o trabalho de aluno que apresentasse proposta Moderna como solução em Composição, nunca o fez; já o professor Adolph Franz Heep, em mais de uma ocasião, chegou a rasgar e jogar no chão projetos de alunos, como relatou o Arquiteto Vasco de Mello, ex-aluno da escola, aliviado por
nunca ter sido com ele o acontecido. 1
Os alunos da década de 1960, ainda em período integral,
mantiveram a tradição de troca de informações e auxílio constantes em sua convivência na Escola. Um aspecto importante ressaltado com saudade desde os anos 1950 era a localização do Mackenzie, que ficava praticamente ‘dentro’ do cenário da vida cultural paulistana, efervescente até o período da Ditadura Militar.
Na mesa-redonda2 de 5 de abril de 2017, da qual participaram os ex-alunos e atuais professores da Faculdade – Flávio Marcondes, Lauresto Couto Escher, Juan Villá e Ricardo Belpiede, formados, respectivamente, em 1966, 1967, 1968 e 1969 –, ressaltou-se a importância da relação do bairro de Higienópolis com o Mackenzie e com a Faculdade de Arquitetura, no sentido de que seu processo de verticalização ocorreu a partir da década de 1950. Esse fato facilitava aos estudantes de Arquitetura uma forte imersão nos projetos e no acompanhamento das obras e na construção dos novos edifícios, estes projetados por escritórios e arquitetos modernos.
Outro fator importante citado na ocasião foi que os professores das disciplinas de Projeto, substitutas daquelas intituladas Pequenas Composições de Arquitetura e Grandes Composições de Arquitetura, propunham como temas para os trabalhos a serem realizados pelos alunos, durante os quatro anos de duração da disciplina no curso, temas contemporâneos, muitas vezes aqueles em que estavam trabalhando em seus escritórios (depoimento , 2017).
Na ocasião do centenário do Mackenzie em 1970, foram solicitados um curto histórico e um relato da realidade à época, ao diretor de cada unidade, para serem incluídos na publicação comemorativa. O diretor da Arquitetura e vice-reitor da Universidade era o professor João Pedro de Carvalho Neto. Seu texto explicava a origem da Faculdade no curso de Arquitetura (1917-1947) que funcionava na Escola de Engenharia, depois tratava da instalação da Faculdade para constituir uma unidade da Universidade e de sua autorização, pelo decreto 23.275, de 7 de julho de 1947 (INSTITUTO MACKENZIE, 1970).
Para ilustrar a qualidade do curso de Arquitetura na Engenharia, o professor João Pedro de Carvalho Neto citou uma passagem, escrita por Benjamin Hunnicutt no livro Brazil World Frontier:
Em sua Escola de Engenharia por longo tempo sob a licença da University of
the State of New York, o Mackenzie College fez outra contribuição notável ao
introduzir os métodos da Engenharia Americana. O curso em arquitetura, sob
a responsabilidade do Dean Christiano S. das Neves, fez uma valiosa
contribuição ao desenvolvimento da Arquitetura Brasileira. Seus graduados
receberam prêmios frequentemente em concursos nacionais e internacionais,
e têm projetado muitos ótimos edifícios, tanto públicos como privados. Os
métodos e designs da construção americana foram ensinados primeiro no
Mackenzie. (INSTITUTO MACKENZIE, 1970, p. 199).
A transição foi difícil, e mais rápida e efetiva quando o Arquiteto e
Professor Christiano Stockler das Neves se aposentou do Mackenzie em 1956, mas havia muitas dúvidas quanto ao rumo a ser tomado. Alguns professores do período anterior fizeram adaptações em seus conteúdos e enfoques, outros permaneceram irredutíveis. Houve a necessidade de contratação de novos professores (muitos deles ex-alunos do próprio curso), não apenas porque agora as turmas eram compostas por 60 alunos, mas pela aposentadoria ou demissão de membros mais antigos do corpo docente.
A questão fundamental era como atingir os novos objetivos, pois
não havia clareza de como deveria ser o ensino da Arquitetura Moderna. Novos termos passaram a compor o repertório cotidiano, por exemplo: modulação, pré-fabricação, função, funcionalidade, função social do arquiteto, habitação social, conjunto habitacional etc.
A transição havia se completado em 1965, a rota fora alterada,
embora houvesse algumas adequações e melhoramentos a fazer. O curso agora era referente à Arquitetura Moderna, do primeiro ao quinto ano.
Lançamento da pedra fundamental do prédio da FAU-Mackenzie,
em maio de 1960.
Quanto às disciplinas do curso de Arquitetura, o percurso foi desde os conteúdos em conformidade com os princípios Beaux-Arts modificados na Universidade da Pensilvânia e implantados no Mackenzie, seu processo de modificações ao longo do tempo, até a implantação dos conteúdos referentes à Arquitetura Moderna, com novas diretrizes e ênfases.
As disciplinas técnicas eram ministradas pelos professores da Escola de Engenharia que exerciam seu ofício de engenheiros, nas diversas especialidades necessárias ao projeto e à execução de uma obra, o que lhes permitia saber exatamente o tipo de conteúdo a enfatizar. A frequência às suas aulas, no início da Faculdade, não era obrigatória, mas os trabalhos e as provas eram. A exigência no aproveitamento era muito alta, mas os conteúdos das disciplinas paulatinamente foram se voltando mais especificamente para as necessidades de um Arquiteto. As provas eram muito bem elaboradas e os enunciados propunham problemas complexos que retratavam situações que poderiam ser reais; nessas provas eram solicitados, além de cálculos e aplicação de fórmulas, conhecimentos conceituais. Os Programas de Ensino dessas disciplinas forneciam aos alunos formação técnica-instrumental completa, atualizada e útil para o exercício do ofício, permitindo-lhes se sentirem preparados e seguros ao enfrentar os desafios profissionais. Ademais, aprendiam que a concepção estrutural devia nascer como parte da proposta de Projeto (BREIA, 2005).
Discurso de Antonio Luiz Ippolito no lançamento da pedra
fundamental do prédio da Faculdade de Arquitetura da Universidade
Mackenzie. À esquerda, próximo as duas senhoras, está o Prof. Dr.
Henrique Guilherme Thut (Reitor da UPM, 1960-1963).
Quanto às disciplinas teóricas, no curso de Arquitetura e no início
da Faculdade, apresentava-se, em sua maioria, uma abordagem historicista dos temas, com ênfase nas características da arte e da Arquitetura produzidas em cada região e tempo histórico, acompanhada de sólido embasamento estético e formal. Os alunos tinham também de representar por meio do desenho os elementos caracterizadores da Arquitetura de cada período ou região. A obra de Benjamin Fletcher, History of architecture: on the comparative method, totalmente ilustrada de desenhos, podia ser utilizada como fonte de consulta para a composição das pranchas elaboradas pelos alunos. Essa forma de trabalhar os conteúdos foi deste enfoque historicista e de cópia de modelos à explicação a respeito dos diversos momentos da História da Arquitetura, somada às projeções de slides ou filmes, agora acessíveis pelos novos meios de projeção. Consideramos importante a informação de que o conteúdo da História da Arquitetura geralmente ia até a Arquitetura Barroca, quando se encerrava o ano letivo; fato que parece relevante, haja vista a recusa dos Modernos à História imediatamente anterior. A Teoria da Arquitetura passou a trabalhar com textos escritos por arquitetos modernos; a história da arte passou a incluir os artistas da vanguarda e os modernos (BREIA, 2005).
Em meio às disciplinas teóricas, havia aquelas, entre o quarto e o
quinto ano, que tratavam das questões ligadas ao exercício da profissão, em seus aspectos legais e administrativos, e eram ministradas desde o início do curso, na Escola de Engenharia, e foram sendo adaptadas ao passar do tempo. Outros temas diziam respeito à prestação de serviços para órgãos públicos e davam ênfase aos aspectos trabalhistas. Tratava-se inclusive das principais teorias econômicas em vigor (BREIA, 2005).
Turma do 5º ano de Arquitetura, década de 1960. Da esquerda
para a direita, Prof. Franz Heep (em terceiro), e Prof. Elisiário
Bahiana (em sexto).
Quanto ao desenho, principalmente o artístico, ele foi perdendo importância, principalmente após 1956, conforme as características do curso iam se alterando, rumo ao Moderno. Os temas representados se alteraram com o passar do tempo, do figurativo, de cópia, para o conceitual. O período de transição foi muito bem representado por esse grupo de disciplinas, pelo grau de nitidez das mudanças por que passaram as disciplinas. A contratação de novos professores afinados com o moderno transformou o panorama, a criação, o abstrato e a experimentação eram agora elementos ressaltados, solicitados e desejados. Havia maior identificação dos estudantes com esse tipo de abordagem da representação, embora, com a reestruturação, a carga horária reservada para o desenho tenha ficado muito diminuída. Novas disciplinas e conteúdos foram surgindo, como o caso do desenho arquitetônico em 1958, e o próprio desenho industrial, que não figuravam nas grades anteriores (BREIA, 2005).
O grupo de disciplinas mais valorizado e enfatizado em todas as
etapas do curso, a partir do segundo ano, era o de Composição de Arquitetura desde 1917 até a consolidação do Moderno; tão importante que, em 1958, foi definido como o tronco do curso do Curso de Arquitetura. Passava a ser fundamental a percepção do espaço, a compreensão sobre o espaço (BREIA, 2005).
As disciplinas eram divididas por ordem de dimensão e
complexidade dos temas propostos, em Pequenas Composições de Arquitetura e Grandes Composições de Arquitetura; havia algumas outras que tinham a palavra composição em sua denominação e tratavam de elementos subsidiários aos projetos desenvolvidos naquelas disciplinas e que foram suprimidas conforme a afirmação do Moderno na Faculdade, quando também, na década de 1970, as disciplinas relativas às Composições passaram a ser denominadas Projeto (BREIA, 2005).
Enquanto a formação acadêmica alterada da Universidade da
Pensilvânia predominou, era desconsiderada a existência de um terreno real; teoricamente, o suporte seria o terreno ideal para a proposta ideal. A passagem do tempo e as transformações na realidade do Curso de Arquitetura refletiram-se no tipo de solicitação e na maneira de atendê-la. Os temas propostos na década de 1960 eram caracteristicamente modernos, o que implicava no reconhecimento da nova realidade social, da complexificação da infraestrutura e dos equipamentos urbanos, do crescimento e adensamento urbanos e das novas formas de lazer (BREIA, 2005).
Períodos de transição permitem experimentações e novas
práticas; foi nesse espírito que, em 1964 e 1965, criou-se o chamado Atelier Vertical na Faculdade, ideia inovadora, capitaneada pelo professor Adolph Franz Heep, de curta duração, mas que afetou positivamente a memória dos que a vivenciaram (em 1965, o professor Heep deixou suas aulas no Mackenzie, para cuidar do próprio escritório) (BREIA, 2005).
Edifício Itália (1953-1965), São Paulo. Projeto do Arquiteto Franz
Heep, que lecionou na FAU-Mackenzie de 1958 a 1965. Arquiteto de
formação racionalista com grande experiência de trabalho com
Arquitetos Modernistas, tais como Le Corbusier, sua passagem pela
Escola teve papel seminal na formação da geração de egressos
adeptos da Arquitetura Moderna.
O princípio era de que se formassem equipes para funcionar como escritórios de Arquitetura, cujos componentes estariam em diversos estágios de conhecimento, os que sabiam menos teriam a oportunidade de conviver e aprender com os que estavam mais adiantados no curso. Os professores deveriam propor um grande tema a ser pesquisado, discutido e analisado pela equipe para que fossem distribuídas as tarefas de acordo com o grau de conhecimento de cada um dos componentes da equipe. Alguns participantes da experiência a julgaram como muito positiva, outros não apreenderam seu espírito. Foram várias as dificuldades naqueles dois anos: uma das causas foi a resistência de alguns professores que estavam acostumados a conduzir sua disciplina do “seu jeito”; outra, a dificuldade da persistência das mesmas equipes, uma vez que a tendência foi que os alunos mais adiantados tomassem a liderança da empreitada e deixassem aos alunos de estágios menos avançados as tarefas menos estimulantes e importantes. Porém, a principal causa apontada para sua descontinuidade foi o momento político do país, que fazia com que se evitassem reuniões de grandes grupos e discussões sobre temas polêmicos (BREIA, 2005).
Nos anos seguintes, a grade curricular e os conteúdos das
disciplinas se sedimentaram e o ensino da Arquitetura Moderna na Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie estava consolidado na passagem para os anos 1970.
As disciplinas, em 1970, estavam distribuídas como segue:
1º Ano: Projeto I; Cálculo I; Cálculo Numérico; Física Geral I; Álgebra Linear e
Vetores; Química; Ciências Gráficas I; Ciências Gráficas II;
2º Ano: Projeto II; Teoria da Arquitetura I; Física Aplicada; Resistência dos
Materiais; Técnicas de Construção; Comunicação Visual – Desenho;
Representação Gráfica – Perspectiva; Topografia; Estatística;
3º Ano: Projeto III; Teoria da Arquitetura II; História da Arquitetura; Técnica de
Construção; Hidráulica; Eletricidade; Paisagismo; Desenho Industrial;
Estrutura de Metal e Madeira; Estática; Matemática;
4º Ano: Projeto IV; Planejamento I; Evolução Urbana; Estatística; Arquitetura
no Brasil; Mecânica dos Solos; Higiene e Saneamento;
5º Ano: Projeto V; Planejamento II; Organização e Administração; Técnicas
de Construção; Economia Política; Legislação; Sistemas Estruturais; Prática
Profissional; Estudos Sociais; Problemas Brasileiros. Considerações finais
Este capítulo teve o objetivo de apresentar o Curso de Arquitetura Mackenzie e sua história, suas origens, sua criação e seu desenvolvimento até 1947, passando pela fundação da Faculdade de Arquitetura e suas transformações até o início da década de 1970. No âmbito da instituição da Faculdade de Arquitetura Mackenzie, ainda sob a Direção do Professor Christiano Stockler das Neves, que nela permaneceu até 1956, transcorre-se sobre o processo para a implantação do ensino da Arquitetura Moderna na mesma instituição.
Em história, dificilmente existe apenas uma causa para os fatos. No curso da Faculdade de Arquitetura Mackenzie, a transição do ensino Beaux-Arts para o ensino da Arquitetura Moderna foi um processo gradual que se iniciara antes de 1947, de maneira lenta e progressiva, e se estendeu até bem depois da saída de Christiano Stockler das Neves, em 1956, não sendo produto de uma reforma pontual completa. A Revista de Engenharia Mackenzie publicava trabalhos premiados de alunos do curso de Arquitetura (até 1947) e em vários projetos aparece uma simplificação de estilo, linhas mais retilíneas, alguns, inclusive, lembrando elementos do art déco. Em outros, não aparece semelhança tão nítida, mas nota-se a migração para outro momento da Arquitetura, todos eles aprovados por Christiano Stockler das Neves, “desde que houvesse uma explicação coerente para as decisões tomadas”. Acrescente-se ainda o fato de que muitos ex-alunos mackenzistas eram prontamente contratados pelos escritórios de Arquitetura, devido à sua competência derivada da formação em Arquitetura.
A chegada ao ensino da Arquitetura Moderna no Mackenzie foi produto de muitas e muitas discussões do corpo docente, do corpo discente, mistas e da Universidade com os representantes da Faculdade. O objetivo era claro, mas não o caminho de como atingi-lo, pois algumas características da Faculdade eram independentes de qualquer vertente adotada; por exemplo: a localização do campus em Higienópolis, onde os edifícios construídos durante o processo de verticalização levava a uma maior aceitação do Moderno pelas pessoas; a coincidência de o curso do Mackenzie e o da FAU-USP serem praticamente vizinhos e haver bastante convivência entre os alunos de ambos; a efervescência da vida cultural no teatro, na música, nas artes de maneira geral, que ocorria principalmente na região central da cidade; os “cinquenta anos em cinco” de Juscelino Kubitschek. No período de transformação do curso, deve-se também ressaltar o impacto da Ditadura Militar, a partir de 1964.
Quanto ao curso propriamente dito, havia entraves burocráticos,
como a legislação trabalhista à qual as instituições tinham de se submeter e o tempo de trabalho dos professores; a legislação federal para o ensino e as reformas curriculares obrigatórias para a adaptação do curso às novas diretrizes no passar do tempo, por exemplo.
No ensino da Arquitetura, além de se contratarem ex-alunos,
prática usual desde 1919, para fazerem parte do corpo docente, houve a necessidade da contratação de egressos de outros cursos, para preencherem as lacunas em diversas disciplinas. Esse fato permitiu uma renovação significativa, sobretudo no grupo dos professores das Composições, denominadas a partir da década de 1960 como Projeto, cuja sequência ia do segundo ao último ano do Curso, em que primeiro se fizeram mudanças mais drásticas e significativas em direção à Arquitetura Moderna. Nesse aspecto, a contratação do professor Adolph Franz Heep foi de suma importância, pois ele havia se formado na Alemanha e posteriormente trabalhado no escritório de Le Corbusier, na França; na década de 1950, já no Brasil, abrira seu escritório de Arquitetura e seu renome chegou ao Mackenzie, que o contratou para lecionar na sequência 107 das Composições, depois Projeto. Sua formação era eminentemente moderna, por isso, suas exigências, tão fortes quanto aquelas de Christiano Stockler das Neves, aceleraram o processo de implantação do Moderno na Arquitetura Mackenzie.
As mudanças não foram apenas em Projeto. Como se pode
depreender da leitura deste texto, toda a estrutura curricular foi mudada, com algumas permanências, principalmente nas disciplinas técnicas. Outros grupos de disciplinas tiveram seus conteúdos alterados devido à nova ênfase no Moderno. Há que se lamentar, porém, a diminuição muito significativa das disciplinas de Desenho, principal meio de expressão dos arquitetos.
Fator determinante foi também o papel dos alunos do Curso, que mantinham atitude reivindicativa, até alcançarem o desejado. Antes de 1964, foram feitas numerosas assembleias e greves, com o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura Mackenzie (Dafam), sempre presente e liderando as tomadas de decisões. Esses movimentos diminuíram e cessaram após 1964, pois eram perigosas reuniões naqueles tempos ditatoriais.
O processo foi longo, difícil e trabalhoso, mas, no final da década de 1960, a Arquitetura Moderna passou a nortear o ensino da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie.
Referências
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Edifício Parque Siqueira Campos, São Paulo, 1967. Projeto do
Arquiteto Rodolpho Ortemblad Filho (Mackenzie, 1950). Ortemblad
estagiou na França com o Arquiteto Le Corbusier e foi editor da
Revista Acrópole de 1953 a 1955.
s/d. Turma do 3º ano de Arquitetura junto ao edifício da FAU-
Mackenzie.