Arquitetura Mackenzie, 100 anos
MoSaIco: notas sobre o Escritório Modelo da FAU-Mackenzie
MoSaIco: notas sobre o
Escritório Modelo da FAU-
Mackenzie
Lizete Maria Rubano, Lucas Fehr
O Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo (Emau) tem como perspectiva viabilizar, na formação dos estudantes, experiências de cidadania e de construção do pensamento crítico. Apresentar esse objetivo não traduz, entretanto, o que tem sido nossa vivência de discussão, debate, aprendizagem, trabalho conjunto e complementar, enfim, de interesse pela realidade e, essencialmente, de formação, que temos experienciado ao longo desses 13 anos de Emau.
O MoSaIco se constituiu com poucos (alunos e professores) em pequeníssimo espaço dentro da Escola. Hoje, habita o terceiro andar e abriga muitos cacos, conquistados – ano a ano – pelo mês de imersão (evento de recepção dos calouros em que o escritório é apresentado de maneira precisa e sedutora).
Com o Emau, identificamos que oferecer aquilo que aprendemos a fazer (projetos, fotos, mobiliário, publicações etc.) pode não só ser muito útil (ou até imprescindível) a quem recebe, mas também tem trazido a cada um de nós, participantes desse mosaico, experiências de força e valor, ambos aplicados no sentido do reconhecimento do papel social do arquiteto e da construção da cidadania, traduzidos em visão de mundo e nosso papel nele.
Aqui, estamos falando da universalização dos direitos, concepção do processo civilizatório que estrutura a motivação do escritório. Estrutura, também, a vontade de aprendermos uns com os outros quanto à ampliação de nossa possibilidade de tangenciar o mundo – do ambiente e das pessoas – para atribuir-lhe uma possível – e desejada – qualidade nova.
O MoSaIco tem como perspectiva uma gestão horizontal e
coletiva, e assim tem se organizado. Representa importante instrumento de formação, e ali estudantes de todos os períodos do Curso contribuem e trocam suas experiências. Os trabalhos são compactuados com as instâncias da sociedade civil, com as quais estabelece relação de colaboração e parceria. E é ainda dessa maneira que o Emau se organiza internamente.
O forte e estrutural nessa experiência para todos nós –
professores e alunos – é o fato de que os trabalhos são motivações de discussão de temas significativos para a realidade de nossas cidades e sociedade, e para que uma ética, de trabalho e de cooperação, seja valorizada em experiência de troca e de prestação de serviço de mão dupla.
O Emau-MoSaIco também conforma, como um caco, estrutura
maior do movimento estudantil – a Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (FeNEA) e os Conselhos de Entidades Estudantis de Arquitetura e Urbanismo (nacionais e regionais).
Ele tem participado, com intensidade, dos encontros que agregam
os escritórios-modelo (Seminário Nacional dos Escritórios Modelos de Arquitetura e Urbanismo, SeNEMAU) e colocado, em debate, nossas experiências coletivas de formação, atuação nos grupos organizados e, essencialmente, de construção de frentes de trabalho fundamentais a diversas demandas sociais. Constitui possibilidade de apresentar, dentro da própria escola – e para a sociedade –, uma alternativa de apoio pelo projeto, entendido amplamente.
Edifício Jorge Rizkallah Jorge, São Paulo, 1976. Projeto do
Arquiteto Sami Bussab (Mackenzie, 1967). Painel em concreto da
artista plástica Maria Bonomi.
O projeto pode ser um instrumento solidário aos movimentos de
resistência urbana, um instrumento emancipatório aos grupos sociais distanciados do acesso e do direito à cidade, de requalificação de equipamentos de uso coletivo e público, de proposta para se viver junto. E é nesse sentido que buscamos atuar no cotidiano da experiência coletiva e nas tarefas postas ao MoSaIco que, para além de desafios, representam importante contribuição à formação dos Arquitetos e Urbanistas de nossa escola.
Um caco, dois cacos, três cacos...
conformando um mosaico:
depoimentos
“A experiência de formação vai além de uma grade curricular. Ela
só é uma base primária do universo de saberes que devemos descobrir. Meu desejo era o de começar a enxergar a cidade real e questionar qual seria o meu papel nela... A partir dessa questão, começamos a ver nossa autonomia como estudantes e a decidir que tipo de profissionais queremos ser, ou não ser, quando sairmos da academia. [...] Cinco anos de MoSaIco e carrego comigo um dever de poder transmitir isso para os outros cacos, alunos e professores que irão passar por ali. Pois o Emau é um espaço criado por alunos, transformado por todos aqueles que buscam construir, de alguma forma, um mosaico.” – Nathália Conte (aluna do 9º semestre da FAU-Mackenzie).
“O MoSaIco representou uma grande aprendizagem para mim.
[...] O projeto que mais me marcou e me transformou foi o da Vila Itororó. Esse projeto me mostrou claramente que o território da cidade é um local de disputa em diversas dimensões. [...] Houve também grande aprendizagem pelas inúmeras trocas que vivenciei junto às famílias que viviam na Vila Itororó, junto aos demais colegas do MoSaIco, aos professores e amigos. [...] Se é verdade que eu, como caquinho, ajudei a formar o MoSaIco, o MoSaIco ajudou a me formar não só como arquiteto e urbanista, mas, sobretudo, como cidadão.” – Felipe Moreira (Arquiteto formado pela FAU-Mackenzie em 2009).
“Quando entrei na FAU-Mackenzie não sabia ao certo o que um Arquiteto poderia fazer, e durante as primeiras semanas de aula tentei descobrir tudo que a Faculdade podia oferecer além da sala de aula. Foi quando um pessoal entrou numa das aulas, com os olhinhos brilhando, e perguntou: ‘vocês conhecem o mosaico?’. Depois desse dia eu não consegui mais sair do sótão. [...] Durante esse período participei dos Grupos de Trabalho e da organização do Seminário Nacional dos Escritórios Modelos de Arquitetura e Urbanismo 2015 (SeNEMAU). Acredito que todas essas experiências tenham contribuído mais do que qualquer outra coisa para a minha formação acadêmica.” – Larissa Cortezani (aluna do 10º semestre da FAU-Mackenzie).
Atividades de alunos e professores na Empresa Junior de Design.
Ao fundo o IVM Brasil (Instituto Cidade em Movimento), ambos
escritórios funcionam nas dependências da Universidade, ligados à
FAU-Mackenzie, abril de 2017.