Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Angélica Tanus Benatti Alvim · Capítulo 3 de 28

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Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Introdução

 

Angélica Tanus Benatti Alvim, Eunice Helena Sguizzardi Abascal, Eduardo Castedo Abrunhosa

 

O ensino de Arquitetura no Brasil completou 200 anos em 2016, contados a

partir da criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, por D. João VI,

e a Faculdade de Arquitetura Mackenzie, o primeiro curso a se emancipar da

Engenharia em São Paulo, completa em 2017 seus 70 anos. Desde a

emancipação dos arquitetos das corporações de ofício da Idade Média, no

século XV, e da criação em Paris da primeira escola de arquitetura, a

Academia Real de Arquitetura, no século XVII, muitas foram as mudanças

tanto no ensino como na profissão e no ofício dos arquitetos. Constante,

porém, foi a presença de múltiplas habilidades e competências na prática dos

canteiros da arquitetura e definição de um campo disciplinar, bem como de

campos conexos, como o urbanismo e o desenho dos objetos, historicamente

entrelaçados e mesmo incorporados não só à práxis do arquiteto, como às

práticas pedagógicas nas escolas e academias. (RODRIGUES DOS

SANTOS , 2017).

 

Em 12 de agosto de 2017, data que coincide com a introdução do ensino de Arquitetura no Brasil há mais de 200 anos, o Curso de Arquitetura Mackenzie completa 100 anos e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie (FAU-Mackenzie), pioneira no estado de São Paulo e uma das primeiras faculdades de Arquitetura do país, comemora 70 anos. Entre a sua fundação e atualidade,

muitas foram as transformações no ensino e na profissão. 1

O Curso de Arquitetura Mackenzie originou-se em 1917 no seio da primeira experiência de ensino superior do Mackenzie College: a Escola de Engenharia, criada em 1896 como alternativa à Escola Politécnica de São Paulo, instalada dois anos antes pelo governo do Estado (PEREIRA, 2005). Os diplomas expedidos pelo Mackenzie

College 2 eram reconhecidos pela Universidade do Estado de Nova York, sistema que perdurou no Curso de Arquitetura até 1927, quando a escola paulistana ganhou autonomia acadêmica (UNI VERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 2013). No âmbito da Escola de Engenharia, o Curso de Arquitetura formou 89 Engenheiros-Arquitetos, muitos deles profissionais de reconhecida relevância e pioneiros da Arquitetura Moderna no Brasil, como Oswaldo Bratke, Eduardo Kneese de Melo, Henrique Mindlin, Plínio Croce, entre outros (UNI VERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 2017).

O Professor Christiano Stockler das Neves, Arquiteto formado

pela Universidade da Pensilvânia, em 1911, foi o responsável pela orientação e conduta do Curso nos primeiros 30 anos de existência junto à Escola de Engenharia. Além disso, foi também agente da fundação da Faculdade em 1947 como Unidade Universitária (BREIA, 1995). No discurso de fundação, Stockler das Neves ressalta o valor, já naquele momento, do Curso de Arquitetura Mackenzie e da qualidade de seus egressos. Em suas palavras:

 

Ao se instalar, hoje, solene e festivamente, a Faculdade de Arquitetura

Mackenzie, a primeira a se criar em São Paulo, apraz-nos, como fundador do

extinto curso de Arquitetura, anexo à Escola de Engenharia, assistir à sua

transformação em Faculdade autônoma, após 30 anos de labuta deste

estabelecimento de ensino.

Grande já é o número de arquitetos formados no Mackenzie. Muitos, hoje,

são profissionais de renome, vencedores em concursos públicos e

particulares, portadores de altas recompensas. Obtidas em exposições

internacionais de Arquitetura, que fizeram o Mackenzie conhecido além de

nossas fronteiras. A atividade dos arquitetos mackenzistas faz-se sentir em

todos os recantos do País, principalmente nesta Capital, onde são inúmeras

as construções por eles, projetadas e executadas. [...] (ANUÁRIO, 1949, p.

172).

 

Defensor convicto da arquitetura acadêmica, particularmente dos

estilos históricos consagrados pela tradição Beaux-Arts, Christiano das Neves sempre insistiu que os princípios acadêmicos fossem a base da estrutura curricular e da didática de projeto. Principalmente a partir da criação da Faculdade de Arquitetura, no final de 1940, os alunos, na vigência do Movimento Moderno, ansiavam por renovações em sintonia com as manifestações arquitetônicas locais e internacionais (PEREIRA, 2005). Data desse período a fundação do Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura, o Dafam, por um grupo de jovens alunos liderados por Jorge Wilheim, Carlos Millan e Luiz Roberto Carvalho Franco. O objetivo era representar a comunidade discente, fazer ouvir a voz dos estudantes ávidos pelo debate da Arquitetura Moderna e da cultura nacional.

Nos anos 1950, com a construção do edifício sede do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento de São Paulo (IAB/SP) – nas proximidades do Mackenzie, o debate arquitetônico local, no auge do Movimento Moderno, intensificou-se, sempre tendo como importantes interlocutores alunos e professores da FAU-Mackenzie.

Christiano das Neves afastou-se do cargo de direção em 1956, deixando o Mackenzie definitivamente em 1958 (PEREIRA, 2005). A partir de então, a orientação moderna passou a predominar no Curso de Arquitetura. Professores como Franz Heep, Miguel Forte, Salvador Candia, Carlos Millan, Fabio Penteado e Victor Reif, entre outros, contribuíram para impulsionar relevantes transformações no ensino de Projeto, na introdução de disciplinas voltadas ao Planejamento Urbano, ao Desenho Industrial e à Programação Visual, bem como o aprofundamento e a atualização nas áreas de Estética, História e Teoria da Arquitetura.

Em 1970, além do Curso de Arquitetura, três novos cursos vinculados à Faculdade de Arquitetura foram aprovados: Desenho Industrial, Comunicação Visual, e Desenho e Plástica. Em 1978, eles passaram a integrar a Faculdade de Comunicação e Artes, ficando a Escola “apenas” com o relevante Curso de Arquitetura. Em 1979, a Escola passou a denominar-se Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, traduzindo a ampliação do campo profissional e acadêmico. Naquele momento, foi inaugurado o curso noturno, o qual, a partir dos 31 anos de 1990, foi descontinuado e substituído pelo então curso vespertino. A partir de 1980, como consequência da crescente urbanização, com destaque para problemas ambientais e de qualidade de vida, surgiram novas disciplinas, algumas voltadas às infraestruturas, outras aos estudos interdisciplinares.

A partir de 1992,3 o Curso de Graduação em Arquitetura e Urbanismo sofreu importante reestruturação curricular, passando a ser organizado de forma semestral e ampliando o número de

ingressantes4 por semestre, distribuídos nos períodos matutino e vespertino, com a correspondente ampliação do corpo docente. Na sequência, ocorreu a relevante alteração da relação professor/aluno

nas disciplinas de Projeto, 5 contribuindo para a melhoria significativa da qualidade do ensino em projeto de Arquitetura. Data também do início da década de 1990 a instalação da primeira fase do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu, que, em sua origem, tinha o propósito de disseminar a relevância dos Cursos de Mestrado e Doutorado para a carreira acadêmica de grande parte dos professores da Faculdade.

A partir dos anos 2000,6 a estrutura universitária passou por

importantes transformações que se refletem nas Unidades Acadêmicas. Em 1997, a Universidade passou a se denominar Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), reforçando, desse modo, sua identidade institucional cristã e confessional. A criação das Coordenadorias de Pesquisa e Extensão no início dos anos 2000, e mais tarde dos Decanatos Acadêmico, de Pesquisa e Pós-Graduação, e de Extensão (atuais Pró-Reitorias), e o fortalecimento da pesquisa e da pós-graduação foram fatores fundamentais para imprimir um novo modelo que vai além da formação profissional, calcado na tríade ensino, pesquisa e extensão (UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE, 2010).

Em 2000, aprova-se, junto à Coordenação de Aperfeiçoamento de

Pessoal de Nível Superior (Capes), o Mestrado Acadêmico no âmbito do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu, com a área de concentração “Projeto de Arquitetura e Urbanismo”, decorrente do traço característico da formação propiciada pela Graduação em Arquitetura e Urbanismo da FAU-Mackenzie.

A partir de 2004, instala-se na Escola uma importante mudança

de espírito advinda de diretrizes emanadas da Reitoria, com a contratação de parte do corpo docente da Graduação em regime de dedicação integral ou parcial, e a formação de vários Grupos de Pesquisa integrando Pós-Graduação e Graduação. No bojo dessas transformações, a Universidade Presbiteriana Mackenzie promoveu, a partir de 2005, uma reestruturação de organograma de suas unidades, entre elas a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Criaram-se as Coordenações dos Cursos de Graduação, de Pesquisa e de Extensão, além de incorporação da Coordenação de Pós-Graduação, já existente, à Unidade Acadêmica. A pesquisa aliada à produção científica na FAU-Mackenzie fortaleceu-se à medida em que ampliou-se o número de docentes pesquisadores articulando os Cursos de Graduação e de Pós-Graduação.

 

Edifício Christiano Stockler das Neves – FAU-Mackenzie, na

atualidade.

 

Em 2006, o Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo aprova, junto à Capes, o Curso de Doutorado. Data também desse ano a incorporação do Curso de Graduação em Desenho Industrial (atual Curso de Design), antes alocado na Faculdade de Comunicação e Artes.

Um novo e complexo percurso inicia-se na Faculdade de

Arquitetura e Urbanismo Mackenzie a partir de 2006. Para atender a essas mudanças, desde então vêm sendo promovidas constantes adequações e atualizações das estruturas curriculares dos cursos da FAU-Mackenzie em diversos níveis – das infraestruturas de seus espaços físicos, buscando suprir lacunas do universo de conhecimentos e habilidades que hoje devem ser contempladas na formação de seus alunos, futuros profissionais. Relevantes reformas, ocorridas a partir de 2011, envolveram a infraestrutura da Escola com a ampliação de diversos laboratórios, bem como a estrutura acadêmica dos cursos de Graduação e Pós-Graduação, contribuindo para consolidar o perfil da FAU-Mackenzie na atualidade.

Hoje, a FAU-Mackenzie, com aproximadamente 2.800 alunos e

200 professores, possui a seguinte estrutura acadêmica: dois cursos

de Graduação – Arquitetura e Urbanismo e Design;7 Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo, com cursos de

Mestrado e Doutorado; cursos de Especialização 8 em subáreas de conhecimento ligadas à Arquitetura e Urbanismo e ao Design; coordenações de Trabalho Final de Graduação e de Pesquisa, de Atividades Complementares e de Extensão, de Estágio e Protagonismo Estudantil e de Relações Internacionais. Além disso, e não menos importante, entidades e organizações estudantis se fazem presentes na Escola, dentre as quais destacam-se: o Diretório da Faculdade de Arquitetura Mackenzie (Dafam), a Atlética, a Bateria, o MoSaIco (Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo) e a Empresa Júnior de Design. Portanto, na atualidade, para além de Arquitetos e Urbanistas, a Escola forma Designers, Mestres, Doutores e Especialistas em diversas áreas de conhecimento da Arquitetura e Urbanismo e do Design. Constitui-se, assim, uma das maiores Faculdades de Arquitetura e Urbanismo do Brasil, preservando acima de tudo sua identidade e qualidade.

Podemos afirmar que, a longo desses anos, a FAU-Mackenzie

vem se mantendo em posição de destaque no panorama nacional do ensino de Arquitetura e Urbanismo e, mais recentemente, de Design. Isso se deve à sua excelência na formação em projeto em suas diversas escalas; à qualidade e ao valor de seus professores, estudantes e egressos, que atuam de modo destacado no mercado, em cargos públicos e, frequentemente, conquistam relevantes premiações em concursos nacionais e internacionais; ao avanço do conhecimento em pesquisas aplicadas e práticas extensionistas; e, também, ao engajamento político de seus professores e egressos

nas lutas em defesa da profissão. 9

Esta publicação tem o propósito traçar um breve percurso da história dessa importante Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Escrito a várias mãos, por um conjunto de professores e estudantes, e ciente de suas limitações, o livro divide-se em três partes que agrupam os diversos capítulos de maneira a criar nexos para a compreensão dos elementos indispensáveis ao entendimento do pioneirismo e da atualidade da FAU-Mackenzie:

Parte 1 – Faculdade de Arquitetura Mackenzie: origens, concepção e princípios (1917 a 1980)

Discorre sobre a gênese e a concepção da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e sua relação indissociável com o Curso de Arquitetura da Escola de Engenharia Mackenzie; a origem do ensino e seus processos de transição que levaram a avanços significativos: da Escola academista à moderna e, desta, à Escola contemporânea.

Parte 2 – Evolução da estrutura acadêmica, conquistas e atualidade (1980-2017)

Apresenta as transformações recentes que conformam a contemporaneidade da FAU-Mackenzie, seus principais avanços e conquistas no início do XXI. Aborda a reintegração do Curso de Design à FAU-Mackenzie, bem como a trajetória do Programa de Pós-Graduação, com os cursos de Mestrado e Doutorado.

Parte 3 – Protagonismo docente e estudantil: pesquisa e extensão na contemporaneidade e desafios futuros

Relata as mudanças estruturais que ampliaram o escopo de atuação nos Cursos de Graduação e Pós-Graduação com os avanços alcançados a partir do incremento das atividades de pesquisa, de extensão e seus desdobramentos. Sintetiza ainda a contribuição e a inserção social de seus docentes e alunos no âmbito dos concursos de Arquitetura e Urbanismo. Valoriza o protagonismo estudantil, com destaque para o percurso e atualidade do Dafam, das demais entidades, e seus desdobramentos. Reflete sobre os principais desafios do presente com vistas à transformar o futuro.

Ao longo dos capítulos, textos curtos em formato de boxes

contribuem para elucidar alguns aspectos essenciais para a compreensão do papel da Escola ao longo do tempo.

As imagens cuidadosamente incluídas nesta publicação buscam

ilustrar os importantes aspectos da história da FAU-Mackenzie e se organizam em três vertentes: 1) imagens que apresentam parte do rico acervo fotográfico do Centro Histórico e Cultural Mackenzie, com destaque para o período entre 1917 e 1947; 2) fotografias que retratam a “Escola Viva” – aulas, eventos e atividades vivenciadas por alunos, professores e funcionários; 3) fotografias que ilustram, por meio de obras construídas, o percurso e a importância de

algumas gerações de profissionais egressos da Escola. 10

Por fim, esta publicação relata, ao longo de seus capítulos, a rica

e longa trajetória da Escola que foi pioneira no estado de São Paulo, com a consciência de que não é possível suprir todos os aspectos e

personagens que fizeram parte dessa história.11 Revisitar o passado e conhecer o presente é, sobretudo, apontar para a Escola que desejamos no futuro.

 

Referências

 

ANUÁRIO da Escola de Engenharia Mackenzie, 1945-1948 (Compreende os anos de 1945 a 1948). São Paulo: Instituto Mackenzie, 1949, v. 11-14.

 

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<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-

2010/2010/lei/l12378.htm>. Acesso em: 10 abr. 2017.

 

BREIA, M. T. de S. e. O ensino de Arquitetura e Christiano Stockler das Neves. 1995. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo)–Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 1995.

 

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