Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Angélica Tanus Benatti Alvim · Capítulo 13 de 28

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Arquitetura Mackenzie, 100 anos

Formação acadêmica e atuação profissional: opiniões e perspectivas de ex-alunos da FAU-Mackenzie (1994-2000)

Formação acadêmica e atuação

 

profissional: opiniões e

 

perspectivas de ex-alunos da

 

FAU-Mackenzie (1994-2000)

 

Volia Regina Costa Kato 1

 

A pesquisa realizada com Arquitetos e Urbanistas formados pela

FAU-Mackenzie, no período de 1994 a 2005, surgiu no contexto das discussões pedagógicas no início de 2005, momento em que foi levantada a relevância do conhecimento sobre o percurso profissional de egressos. Embora objetivasse, primordialmente, caracterizar a inserção profissional dos ex-alunos e suas opiniões pessoais sobre as relações entre a qualidade de sua formação acadêmica e as condições e as exigências do mercado de trabalho atual, a pesquisa apresentou resultados surpreendentes em termos de percepções vivenciadas no interior do campo da produção arquitetônica.

As hipóteses iniciais remetiam, por um lado, à percepção de que o

Arquiteto recém-formado atualmente se insere predominantemente no universo de transformações das relações de trabalho, que envolve, sobretudo, modalidades de trabalho informal e temporário, em um contexto mais amplo de precariedades que perpassam outras áreas de atuação profissional, inclusive em termos de remuneração. Essas condições objetivas tenderiam a acentuar as tensões entre o imaginário social de autonomia profissional e as possibilidades de sua concretização.

Um dos objetivos era conhecer algumas particularidades das

relações entre a formação acadêmica e a atuação profissional. No entanto, colocava-se ainda um leque de indagações sobre as experiências vivenciadas no exercício profissional em termos das competências profissionais exigidas pelo mercado de trabalho e dos vínculos com o preparo obtido no Curso de Graduação.

Definida do ponto de vista metodológico como uma sondagem exploratória de cunho qualitativo e de adesão voluntária, a realização dessa pesquisa foi operacionalizada por meio de entrevistas formais estruturadas, compostas de questões fechadas e algumas abertas voltadas à obtenção de opiniões e de percepções subjetivas, enviadas para endereços eletrônicos e outras elaboradas por contato telefônico. A ausência de subsídios financeiros imprimiu à pesquisa uma necessidade de trabalho colaborativo e voluntário entre professores e alunos, que atuaram criativamente diante de inúmeras dificuldades operacionais, especialmente em relação à adesão dos entrevistados e/ou dificuldades de acesso. A amostra é composta por 59 entrevistas. Quanto à análise de dados, foram aplicados procedimentos quantitativos e qualitativos, agrupados segundo os blocos de conteúdos temáticos do questionário. No caso das respostas abertas, houve um uso combinado de análise qualitativa do discurso do entrevistado e sistematização das principais questões temáticas referenciadas.

Cabe salientar que a composição dos participantes por ano de formação não foi homogênea, com uma concentração significativa no intervalo entre 1999 a 2002 (30 entrevistas). Destaca-se no perfil da amostra a predominância de mulheres (66%), em sua maioria solteiras (72%), e de jovens profissionais entre 25 e 35 anos (85%).

Do ponto de vista da inserção profissional, 95% eram atuantes no mercado de trabalho, dos quais 17% simultaneamente trabalhavam e estudavam.

Alunos realizando a montagem de instalações no jardim da UPM

– campus Itambé, em frente ao edifício da FAU-Mackenzie, em maio

de 2017, para o componente curricular “Arquitetura e Cultura

Contemporânea”.

 

Um fenômeno importante a ser destacado é que 84%

desenvolviam atividades profissionais relacionadas à formação acadêmica. Entretanto, como um fenômeno indicativo das condições contextuais de trabalho, praticamente 50% deles desempenhavam mais de uma atividade de trabalho.

Ainda em relação às atividades profissionais presentes no

momento da pesquisa, duas áreas de atuação são predominantes: projeto arquitetônico (40 referências) e arquitetura de interiores (30 referências), seguindo em importância numérica atividades vinculadas ao design e à construção civil.

As características da atividade atual dos entrevistados revelavam

a predominância de relações instáveis, precárias e mal remuneradas, aspectos fortemente reafirmados e detalhados pelas opiniões pessoais dos entrevistados. No geral, o emprego atual dos entrevistados é recente (69,5%), marcado por baixas remunerações (cerca de 30% recebe menos de um salário mínimo), e, ainda, por relações de trabalho autônomas e temporárias ou assalariadas sem registro em carteira profissional. O emprego assalariado possuía pouca representatividade, da mesma forma que os que se declararam como proprietários de escritórios também constituem uma categoria pouco significativa.

Sobre o significado do trabalho, as opiniões desses profissionais revelaram uma compreensão, ainda que fragmentada, das relações complexas no campo de produção arquitetônica, campo este entendido como uma arena competitiva, na qual atuam conjuntamente instituições sociais, indivíduos e discursos que se suportam mutuamente – Arquitetos, críticos, profissionais de Arquitetura, construtores, clientes, parcela do Estado, instituições financeiras, exigências legais, discurso arquitetônico etc.

De acordo com os depoimentos, as percepções desse jogo são vistas como problemas inter-relacionados: envolvem as precariedades das condições de trabalho, incluindo o baixo nível de remuneração e as práticas competitivas entre profissionais que tendem a reforçar o rebaixamento dos valores das remunerações por trabalhos e produtos. Além disso, para eles, a inserção profissional supõe conhecimento e preparo para atuar competitivamente na área, como revelaram inúmeros depoimentos.

Diante das condições de inserção fragmentada e pontuais nos processos produtivos associadas a baixas remunerações, a valorização subjetiva do trabalho fica comprometida e, muitas vezes, é vista como resultado da diminuição da relevância social do Arquiteto enquanto profissional. Ao mesmo tempo, revela-se de forma ambígua o valor pessoal do trabalho: embora possa ser chamada de uma inserção conformista às condições impostas, existe um desejo manifesto de aperfeiçoamento profissional e de adequação às exigências constantemente em mutação do mercado de trabalho, que se apresentam em constante transformação. Um exemplo é a percepção de que as relações de trabalho autônomas representam uma tendência definitiva e de que os Arquitetos não foram formados ou não estão preparados para gerenciar as atividades profissionais tendo em vista essas novas condições. Apesar de maioria dos ex-alunos reconhecer que sua formação foi adequada, esse distanciamento é visto como problema substancial.

Em vários outros aspectos, as percepções e as avaliações

qualitativas possuem uma riqueza inusitada, não apenas porque inauguram a importância efetiva desse tipo de investigação no interior da FAU-Mackenzie, mas, sobretudo, porque dão voz aos ex-alunos e permitem a sua aproximação com um dos elementos estratégicos de identidade pessoal – a Escola na qual se formaram.

Alunos em atividade no Laboratório de Metais e Vidros, 2017.