As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 10 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XII · Ao deixar José das Dornas, na tenda…

 

Ao deixar José das Dornas, na tenda do seu vizinho da esquina, o reitor apoiado na grossa bengala de cana, companheira fiel das fadigas de muitos anos, foi seguindo pelos caminhos pouco cómodos da sua paróquia, e entrando nas casas mais pobres, onde levava a esmola e o conforto de doutrinas evangélicas, que tão singelamente sabia pregar.

Era esta para ele tarefa habitual.

Senta-se com familiaridade à cabeceira do jornaleiro doente, ele próprio lhe arrefecia os caldos, lhe temperava os remédios e lhos ajudava a tomar; guiava com os conselhos e ensinava com o exemplo os enfermeiros, que, entre a gente pobre dos campos, são quase sempre os mais pequenos da família, aqueles que, pela idade, representam ainda uma parte pouco produtiva de receita; porque os outros reclamam-nos as exigências imperiosas do trabalho.

No cumprimento desta obra de misericórdia, atravessou o reitor quase toda a aldeia, e, com o coração apertado pelos infortúnios que vira, e desafogada a consciência pelo bem que fizera, continuava placidamente a sua tarefa abençoada.

Depois de muito andar e de muito consolar misérias, parou algum tempo por baixo das faias, que assombravam um largo terreiro, e sentou-se com o fim de ganhar forças para prosseguir.

Enquanto descansava, foi dar balanço às algibeiras, que trouxera bem providas de casa. Este balanço foi desanimador para os projetos ulteriores do velho. A esmola, essa sublime gastadora, que nunca abandonava a direita do pároco nestas visitas pastorais, havia-lhe esgotado o capital, sem que ele desse por isso.

O reitor mostrou-se mortificado; não que lamentasse o dinheiro, gasto assim, mas porque estava longe de casa, e tinha ainda mais infelizes a socorrer.

Poucas cogitações financeiras de um ministro de estado, perante um deficit do orçamento, valem as do pároco naquela ocasião. Apertando entre o indicador e o pólex o lábio inferior e com o olhar imóvel, próprio das profundas abstrações de espírito, conservou-se por bastante tempo irresoluto, entre o prosseguir a sua visita com as mãos vazias, e o transferir para outra vez o complemento dela.

Nem um nem outro alvitre lhe agradavam porém.

De vez em quando, tornava a procurar nas algibeiras, a ver se lhe passara desapercebida alguma pequena moeda, que o tirasse de maiores dificuldades. Mas nada lhe valia a pesquisa.

Enfim levantou-se; radiava-lhe a fisionomia com um ar de resolução, como se afinal lhe ocorrera o pensamento desejado; e foi já com andar firme e decidido que continuou o seu caminho, murmurando consigo mesmo não sei que palavras pouco percetíveis, acompanhadas às vezes de certa mímica de mãos.

Depois de trezentos passos, pouco mais ou menos, dados assim, achou-se o reitor em frente de uma casa branca, cujas funções eram bem indicadas pelo ramo de loureiro que pendia à porta e pelo coro de vozes, e ruído de gargalhadas e juras, que vinham do interior dela.

O padre tomou a direção desta casa.

Não o surpreendeu o espetáculo que presenciou, porque o esperava.

Alguns lavradores e homens de ofício, sentados à volta de uma banca de madeira, e todos formidavelmente munidos de grandes copos de vinho, estavam recebendo ali simultâneas as comoções da beberronia e do jogo de parar. Cada um eles seguia de olhos atentos as evoluções do baralho de cartas, moído e sebento, que um banqueiro, igualmente dotado desta última qualidade, executava com a prestidigitação de consumado artista; o ardor do ganho, e a recíproca desconfiança que os animava, rompiam ainda através dos densos nevoeiros que pareciam toldar aquelas vistas avinhadas.

Havia um considerável monte de cobre e alguma prata, no meio da mesa, e montes parciais, mais ou menos bem providos, ao lado de cada jogador. A cada sorte, que se decidia entre um silêncio e ansiedade de suspender quase a respiração, seguia-se um vozear infernal, composto de exclamações de júbilo dos felizes e de pragas dos sacrificados.

O reitor assomou ao limiar da porta, num desses momentos de tumulto. Discutia-se, quase tão desordenadamente como nas mais importantes sessões dos nossos parlamentos, a legalidade e inteireza da mão última de jogo.

A correr parelhas com a pouca moderação das palavras, só a das libações do vinho. Os copos vazavam-se e enchiam-se com rapidez pasmosa, e o taberneiro, a cada um que se despejava assim, traçava um sinal a giz na porta vermelha da cozinha.

O aparecimento do reitor causou sensação.

O primeiro movimento dos circunstantes, ao darem por ele, foi o de esconderem as cartas e o dinheiro; mas, na impossibilidade de o fazer a tempo, levantaram-se e, com ar de embaraço, tiraram o chapéu e abaixaram os olhos.

Houve um momento de silêncio, empregado por o reitor em reconhecer os delinquentes, e durante o qual estes não ousaram levantar os olhos.

— Não é o regedor, sosseguem — disse enfim o reitor ainda do limiar da porta — e pena é que o não seja, para vos meter a todos na cadeia. — E, adiantando-se na taberna, continuou: — Santa vida esta! Assim é que é ganhar o reino do céu! Sim, senhores! Aqui estão uns poucos de santos varões, que empregam bem o seu tempo! Respeitáveis e exemplares patriarcas, de quem muito se pode esperar como educadores da família! Sim, senhores! — E, mudando para tom mais severo: — Vossas mulheres estafam-se com trabalho, para dar um pouco de pão negro aos vossos filhos e a vós esta vida regalada, não é assim? Ainda agora encontrei o teu pequeno, Manuel, que pedia esmola pela porta dos vizinhos; não tens vergonha? — A tua mulher, Francisco, estava há pouco de cama e teve de mandar à cidade a filha mais nova com uma canastra de hortaliça, com que ela mal podia; ia a vergar, a pobre pequena! — Achas isto bonito? — O teu irmão, João, ainda não há três dias, que foi pedir emprestado, chorando, ao José das Dornas, dinheiro para pagar ao mestre da fábrica, em que traz o filho na cidade; talvez tu não tivesses para lho emprestares? — Não há muito que o pobre José da Maia se me queixou a mim, de que tu, Damião, ainda lhe não tinhas pago por inteiro o preço daqueles bois que lhe compraste. Mas que importam estas pequenas coisas? Que importa lá a miséria que vai por casa, se não falta dinheiro para o vinho e para o jogo. Isso é o que se quer! E tu — acrescentou voltando-se para o taberneiro que, detrás do mostrador, assistia calado a toda esta cena: — tu vais engordando à custa destas misérias todas. Passam fome as mulheres e as crianças, para te encher as gavetas e a barriga! Ó santo Deus! — e tanta desgraça, que por aí vai, e tanta gente sem pão para comer! — Essa é boa! O meu ofício é vender vinho, vendo-o; faço o meu dever — resmungou o taberneiro despeitado.

— Fazes o teu dever, enchendo com outro tanto de água as pipas do vinho que vendes? E permitindo na tua casa estes costumes proibidos pelos homens e amaldiçoados de Deus? — estes jogos infernais, que têm levado tantas cabeças à forca, e tantas almas ao inferno? É esse também o teu ofício? Pois deixa estar que eu avisarei o regedor, para que te dê a recompensa, por o bem que o cumpres.

O taberneiro não redarguiu.

O reitor voltou-se de novo para os jogadores, ainda silenciosos:

— Chego ao meio de vós com as mãos e algibeiras vazias. Vede. O dinheiro, com que saí de casa, ficou-me por esses caminhos, algum nas casas de muitos dos que vejo agora aqui. A esses não estou disposto a perdoar a dívida, pois vejo que não precisavam da esmola, que eu lhes dei; os outros, que têm para perder no pecado, também o hão de ter para obra de misericórdia ou tisnada trazem já a alma, pelo fogo do inferno. Tenho ainda muitos pobres para ver, e não trago já dinheiro comigo. Peço esmola para os pobres — prosseguiu o reitor em voz alta, e aproximando-se da mesa — quem não dará aqui esmola para os pobres? — Amanhã, continuando vós nesta vida, eu pedirei também esmola para vós. Lembrai-vos disso.

E a um por um estendia o chapéu, fitando-os com um gesto de nobre e composta severidade.

O respeito, que lhes impunha a figura do ancião, pedindo desinteressadamente para a pobreza, e, em muitos, a voz da consciência coroaram do melhor êxito a inspiração do pároco.

Houve quem lhe despejasse no chapéu todo o dinheiro, que tinha diante de si.

Um só não correspondia ao pedido.

O reitor fitou-o com rosto austero:

— E tu?

— Não tenho nada — respondeu este homem com ar abatido — perdi e devo.

— Não tens nada! — redarguiu o padre com amargura — tens, sim; tens cinco filhos e uma velha mãe moribunda.

O homem cobriu o rosto, para ocultar as lágrimas.

— A que vem este choro, agora? Pois julgavas tu que matarias a fome à tua família por esta maneira? Para que te deu Deus os braços robustos, homem, e peito valente, se os negas ao trabalho? — E, voltando-se para os jogadores que sabia mais abastados, prosseguiu com maior veemência: — E vós tivestes alma para vos entregardes a este jogo danado com um homem, que punha em cima da mesa o pão e o sangue dos seus filhos e da sua mãe! Vergonha e desgraça sobre vós, miseráveis, se dentro de um dia não compensardes o mal que fizestes, abrindo por vossas mãos a este pai e filho desnaturado a carreira do trabalho, que é da honra igualmente — dentro de um dia, como podeis e deveis. Eu vos forçarei a isso. Homens, que tão bem servis para perder, servi um dia ao menos para salvar. Não podes pagar?... Alguém pagará a tua parte.

— Não pode pagar, não — confirmou o taberneiro — que a mim me deve ele uma conta, e não pequena, de vinho.

— Ah, sim? — disse o reitor, voltando-se para o da observação. — Pois hás de ser tu o que pagarás a parte dele. Ainda não deste nada. Dá-me a sua dívida.

— Mas, Sr. Reitor... — balbuciou o taberneiro.

— Consideras-te mais do que os outros? Só se for por seres o mais culpado.

— Não, senhor... De boa vontade lha perdoo; lá por isso... — E acrescentou, falando consigo, o taberneiro: — Não cedo grande coisa, que por perdida a tinha eu há muito.

Depois desta abundante colheita, o reitor continuou:

— Compensem ao menos com esta boa ação o pensamento diabólico, que vos juntou aqui. E agora ide para vossas casas, e para o trabalho. Lembrai-vos que mal vai à família, e à fazenda do que se esquece na taberna assim; e retenha-vos essa lembrança, se ainda não tendes endurecido o coração. O que entra rico nestas casas, sai a pedir; se entrar pobre, sai criminoso. Ide. Fugi às tentações destes inimigos — isto dizia tomando as cartas da mesa — e fazei como eu quando as tiverdes à mão. — E, com um rápido movimento do braço, fez voar todo o baralho até ao fogo, que em pouco tempo o reduziu a cinzas.

E pondo outra vez o chapéu na cabeça, saiu da sala.

Após ele, foram saindo também os joviais consócios da taberna, que não se sentiam com alma de continuar ali.

Para alguns tinha de ser aquela a última tentação.

O que menos contrito se mostrou foi o dono do estabelecimento, que deu ao diabo a intervenção do pároco na pacífica diversão de meia dúzia de fregueses honestos e tementes a Deus. No entretanto o reitor ia prosseguindo a visita e distribuindo pelos necessitados o dinheiro dos ociosos. Sorria de satisfação o velho, ao fazê-lo.

— As grandes ventanias — monologava ele — são também um mal para o lavrador, porque lhe derrubam as searas, mas... Como se não pode evitar... Que se faz? — levantam-se nos montes as asas de uns moinhos e elas aí estão aproveitadas. Aproveitemos pois também da loucura má destes perdulários, já que ainda não pude acabar com ela de todo. Se a água é muita nas presas, não se deixa extravasar à toa, abre-se um regueiro, que a leve onde ela seja precisa. Ó Santo Deus! E então que há por aí terras tão sequinhas de água! Doer-me-ia a consciência se tivesse enchido assim a bolsa com as esmolas dos laboriosos e poupados; mas com as destes... Ora!... Folgo e orgulho-me. 

CAPÍTULO XIII

 

 

Ao chegar a um largo todo plantado de sovereiros, quase seculares, que havia no centro da aldeia, ainda o bom do pároco levava as algibeiras bem fornecidas.

A tarde aproximava-se do fim; estendiam-se já as sombras muito para o oriente, e coloriam-se de vermelho afogueado as vidraças voltadas ao ocaso.

O reitor encaminhou-se para uma das casas de mais miserável aparência, que havia naquele lugar.

— Terminemos por este — dizia o velho consigo.

Empurrou adiante de si a porta desta casa e ia a entrar, quando deu de rosto com Margarida, que saía.

Os olhos vermelhos da sua pupila, a expressão de dor que trazia no rosto, chamaram a atenção do reitor.

— Que tens, Margarida? — perguntou ele com solicitude. — Esses olhos são de quem chorou.

— É que despedaça o coração ouvi-lo.

— Então está mais doente?

— Está muito mal.

— E aonde ias tu?

— A casa. O boticário quer o dinheiro dos remédios...

— Que não vá arruinar-se o homem. Deixa que tem de me ouvir. É pior que o pior dos seus cáusticos. Porém não tem dúvida, que eu venho bem provido. Entra, mas antes alegra-me esse rosto. Vamos. 

E os dois entraram na sala. O interior da casa não contradizia o aspeto de fora.

Era a casa de um pobre.

Com a cabeça encostada nas mãos e os cotovelos apoiados na mesa, estava um homem encanecido e pálido — tão absorto, que nem deu pela chegada do reitor, o qual se aproximou dele lentamente.

Este homem era o infeliz, que servira de mestre a Margarida.

O pároco ficou por algum tempo a observá-lo em silêncio; vendo porém que não era sentido, dirigiu-lhe a palavra:

— Que grande dormir é esse, Sr. Álvaro, que nem dá pela chegada de um amigo?

O velho levantou finalmente a cabeça, como sobressaltado por aquela voz.

— Ah! É o Sr. Reitor? Não dormia, não...

— Então?

— Pensava.

— Em quê?

— Em quê! E falta-me em que pensar? Na minha vida passada e na futura, que está próxima já.

— O passado — disse o reitor sentando-se do outro lado da mesa e sem desviar os olhos do velho Álvaro — é um sonho, que se sonhou. E quando dele, felizmente, não ficaram remorsos, que peçam reparações, arrependimentos, ou... Penitências, perde-se muito tempo, a pensar nele assim. Da vida futura... Bom é ter dela sempre o pensamento, decerto, mas quem sabe lá quando nos está próxima?

— Sei-o eu. Há dois dias que me sinto fraco, muito fraco. Nem já pude sair para, como costumava, ir ver o pôr do Sol lá acima, dos degraus da capela do Calvário.

— Isso lá... Todos nós temos dessas fraquezas, sem causa. Há dias assim. E então desanima por isso?

— Desanimar! — replicou o velho, sorrindo tristemente. — E que ânimo tenho eu ainda para perder? Há muito que ele me falta na vida. Bem vê — continuou, apontando para Margarida — que tenho precisado de um braço para me sustentar.

— Grande ânimo tem o que sai das grandes provações com a cabeça levantada. Para que se faz cobarde, diante de quem lhe conhece e admira a coragem? A Cristo, também houve uma mulher, que lhe limpou o suor da cara vergada; e mais era um ânimo divino, aquele.

— Não, eu não sou forte — continuou o velho doente. — Colocado, como estou, entre a morte e a vida, receio-me de ambas. Desfalece-me o alento diante das provações continuadas de uma; assusta-me a incerteza, o desconhecido da outra. O meu coração é muito da terra para poder ser forte. Os meus olhos ainda se não secaram para as lágrimas...

— Bem-aventurados os que choram! — redarguiu o reitor.

— Como me não há de assustar a vida se há muito que, onde busco a consolação, encontro só o desespero? — continuava o enfermo. — Ao findar o dia, gostava eu de me ir sentar lá fora, a ver descer o Sol; mas, dentro em pouco, tomava-me de uma tristeza profunda e rompia em lágrimas, que não podia estancar. Aquele descimento do Sol lembrava-me outros ocasos. Eu tenho visto tantos! Um dia, em volta de mim, apagaram-se os esplendores da riqueza. O meu coração era de homem..., padeceu, mas Deus sabe que não foi para ele esta a prova mais terrível. Outro dia apagou-se a luz da vida no olhar de uma esposa adorada; outro, nos rostos de duas crianças inocentes, que, ainda a morrer, me sorriam; então sim, fez-se a noite na minha alma... Era isto que me recordavam aqueles ocasos...

— Mas então para que procurava essas ocasiões de tristeza, diga? — perguntou Margarida com afabilidade e quase sorrindo. — Olhe; se às mesmas horas se voltasse para o outro lado, para aquele, onde o Sol nunca se vai esconder, nem as estrelas, havia muitas vezes de avistar a Lua que subia, a Lua que não deixava que a sua noite fosse escura de todo. Também ela o afligiria assim?

— Também ela. Às vezes a vi. Lembrava-me então que, para mim igualmente, ao apagarem-se as ardentes afeições do meu coração, nasceu a luz do teu afeto, melancólica e suave como a dela, Margarida; entristecia-me com a lembrança.

— Porquê? — perguntou Margarida.

— Porque, tentando descobrir a força misteriosa que te aproximava da minha desventurada velhice, a ti, a quem, pela idade, só alegrias deviam atrair, encontrava apenas a explicá-lo a tristeza dessa alma, tristeza que é o segredo do teu coração, que a ninguém revelas, e Deus queira que não acabe por te devorar um dia.

Margarida desviou os olhos da vista fixa e penetrante do velho, e respondeu, fingindo sorrir:

— Pois então, desta vez, meu bom amigo, era bem sem razão, que se entristecia.

— Prouvera a Deus que o fosse... Que o seja. Mas, bem veem, havia em mim muita amargura para me ser suportável a vida. Se o travor nos está nos lábios, não há doçura de mel que o disfarce. Vergava pois sob o peso da existência. Pedia fervorosamente a Deus, que me tirasse deste martírio, e era sincera a prece, era! Persuadia-me eu que, ao ouvir bater a minha última hora, a saudaria com júbilo; e agora que bem sinto que chegou..., e chamam-me forte ainda! Agora, ao ouvi-la, assusto-me, estremeço... Está próximo a revelar-se o mistério... E que segredos me descobrirá? Que verá minha alma ao rasgar-se a nuvem, que caminha diante dela? Que verá minha alma depois do túmulo? Que verá minha alma no dia de amanhã?

— A glória eterna, a bem-aventurança do céu! — respondeu o reitor com a firme convicção da fé.

O velho Álvaro fitou nele um olhar demorado e perscrutador, e depois, escondendo o rosto entre as mãos, exclamou quase soluçando:

— Senhor! Senhor, porque me negais o bálsamo de uma crença como esta!

O reitor contemplava-o com olhos de piedade. Para a sua alma, ingénua e sinceramente cristã, era desconhecida e quase inconcebível esta excitação febril, a que certa ordem de meditações arrebatam alguns espíritos ilustrados. A dúvida, esse demónio inquietador, nunca dirigira às suas crenças piedosas a interrogação fria e implacável, que as faz estremecer. Elas protegiam-lhe ainda, como dantes, a cabeceira do leito contra os maus sonhos dos filósofos e, iluminado pela sua luz, achava-se também o bondoso pároco no fim da viagem da vida, sem se lembrar de perguntar a que porto chegaria. Sabia-o, de pequeno; desde então lhe repetia o nome de contínuo. Como que já aspirava as auras desse país, e às vezes quase se iludia a ponto de o julgar entrever. Era feliz na sua fé.

Contudo o reitor era destes homens, que têm coração para se compadecer de todos os infortúnios, daqueles mesmos que a sua inteligência não compreende bem.

A solicitude, com que se aproxima dos infelizes, não podia comparar-se à do médico, que procura sondar e conhecer o mal, para o debelar apropriadamente; era antes como a da mãe, que responde a todos os gritos do filho estremecido com beijos e com lágrimas, e se não cura assim a causa da dor, porque a desconhece, mitiga-a, por as simpatias que revela.

As palavras, cheias de resignação cristã, que o reitor dirigiu ao atribulado enfermo, serenaram a este um pouco as amarguras do espírito, que o espinho da dúvida pungia; e foi com verdadeira gratidão, que apertou as mãos do padre, quando este se preparava para retirar-se.

Uma das razões, que levaram assim o pároco a resumir a sua visita, foi o parecer-lhe ter ouvido o rumor de altercação um pouco viva, travada à porta da casa entre Margarida, que momentos antes deixara a sala, e outra pessoa, cuja voz parecia vir da rua.

Ao aproximar-se, o reitor percebeu melhor que a sua pupila falava em tom suplicante e o interlocutor, senão com aspereza, com menos cordura, do que o pároco desejaria. Isto obrigou-o a apressar o passo.

— Mas, por amor de Deus, fale mais baixo que não vá ele ouvir. Eu lhe prometo que tudo se lhe pagará — dizia Margarida, quando o reitor chegou junto deles.

— Que é? — perguntou este com modo desabrido, saindo para a rua e fechando atrás de si as portas da casa.

O personagem que falava com Margarida baixou logo de tom, ao reconhecer o reitor, e respondeu com certa timidez:

— Era uma continha que trazia; mas uma vez que aqui a menina se responsabiliza... — Eu sou o senhorio. — Sim, porque V. S.a bem vê que, se eu estivesse no caso de poder fazer esmolas, de boa vontade.

— Quem lhas pede? — disse asperamente o velho padre, tomando o papel das mãos do credor, que falara assim. — Para pagar aos vampiros como você, é que se pedem esmolas aos outros; aos que têm coração. Aluguer de dois meses — olhem a grande coisa! Então é o que se lhe deve? Aí tem — acrescentou, contando-lhe o dinheiro. — Não repare em ir quase todo em cobre; mas é dinheiro de esmolas e poucas se realizam em prata cá na terra.

— Mas, Sr. Reitor, eu não exijo de V. S.a... Eu confio...

— Leve isso daqui, homem! E saia você também, que me está inquietando o espírito.

O senhorio foi embolsando o dinheiro, insignificante preço de dois meses de aluguer daquele miserável casebre, e retirou-se, com uma cortesia profunda.

— Restam cento e dez — disse o pároco, vendo o dinheiro que lhe ficara. — Chegará para os remédios? — perguntou, olhando para Margarida.

Esta fez um gesto de dúvida.

— Nesse caso, eu vou falar com o boticário, que não é mau sujeito afinal; e hei de resolvê-lo a esperar até amanhã. E de caminho, irei também visitar o filho do José das Dornas, que deve já ter chegado.

Estas últimas palavras não foram escutadas com indiferença por Margarida.

— O Sr. ... Daniel chega hoje? — perguntou ela.

— Pelo menos o pai espera-o.

E acrescentou como para consigo:

— Agora para aí vem estabelecer-se o rapaz. Deus queira que ele sossegue daquela cabeça, que, segundo me informam, não tem sido lá das mais assentes. Vai tu para casa também, Margarida. O teu mestre fica mais sossegado e espero que dormirá. O que é preciso é mandar o recado ao João Semana para que o venha ver. Acho-o muito abatido e mudado nos modos. Aquilo não está bom, não. Adeus. Eu vou avisar a Maria do Caleiro, que venha tratar do doente. É uma esmola que se faz também à pobre mulher.

E o reitor saiu, para realizar estes diversos intentos. Margarida, depois de se despedir do seu velho mestre, que de facto parecia mais sossegado, partiu também para casa.

Entre os pensamentos, que a dominavam na volta, um dos mais persistentes era o que a anunciada vinda de Daniel lhe sugerira; e contudo nada de extraordinário havia no facto. Se quiséssemos dizer quanto lhe ocorria a este respeito, ver-nos-íamos embaraçados. São tão vagas, tão difíceis de apreender as ideias, que evoca em nós a lembrança de uma pessoa querida!