As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 6 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo VII · Mas deixemos as lágrimas, e as íntimas…

 

Mas deixemos as lágrimas, e as íntimas e não ostentosas tristezas de Margarida, e vamos chamar ao primeiro plano da cena uma personagem que, contra os seus direitos de primogenitura, temos até agora deixado oculta na penumbra dos bastidores.

Falemos de Pedro, o filho mais velho de José das Dornas.

Pedro, mais idoso do que o seu irmão cinco anos, teve uma infância mais trabalhosa que a dele, mas bem menos digna de menção no romance. Votado, como já disse, aos trabalhos da lavoura, as horas que tinha de ociosidade empregava-as a dormir, sono que as fadigas do dia faziam digno de inveja.

Por certo que os leitores não quereriam que eu lhes referisse aqui as pequenas diversões daquela vida de rapaz de aldeia. Seria uma fastidiosa enumeração de jogos e de frequentes lutas com os companheiros, por vários motivos pueris. Isto até quase aos dezassete anos. Enquanto que Daniel estudava o latim e se distraía já da aridez das regras da sintaxe, conversando a sós no monte com Margarida, Pedro trabalhava, dormia ou brincava no terreiro com os rapazes da sua idade, sem sentir outras aspirações, e achando-se até pouco à vontade junto das mulheres, com quem nem sabia conversar.

Não eram porém definitivas estas disposições de espírito em Pedro, como se vai já mostrar. Aos dezoito anos operou-se a revolução.

Isto não quer dizer que a febre da adolescência começasse a fazer circular nas veias do rapaz lavrador esse sangue inflamado, que devora como uma labareda; que ele tivesse dessas tristezas súbitas, desses devaneios e não sei que fantasiar mal distintas felicidades, desses arroubamentos, desse amor ideal, sem objeto, que é o mais puro e espontâneo culto do coração humano. Nada disso. A natureza não afinara a alma de Pedro para as subtilíssimas vibrações desta ordem. Esta quinta-essência da sensibilidade não lhe fora concedida. A gente da aldeia não conhece os prenúncios do amor, que os poetas têm apregoado no seu lirismo, a ponto de se acreditar por aí na universal realidade deles; sendo forçoso confessar que muita gente há, que nunca na vida sentiu os tais vagos e erráticos sintomas, a que me refiro, e que contudo amam ou amaram deveras. Se serão os bem, se os mal organizados, não me atreverei a decidir, mas que os há isso sustento eu. E Pedro era dos tais.

Querem saber como começou nele a transformação a que aludo? Tudo veio naturalmente, sem aquela intensidade de fenómenos precursores, que, à imitação dos médicos, poderíamos talvez chamar críticos.

Um dia foi convidado para um serão. Aceitou contra vontade. Lá divertiu-se mais do que julgou e voltou contente, dormindo a sono solto depois. Daí por adiante não faltava a nenhuma dessas assembleias campestres: fiadas, esfolhadas, espadeladas, ripadas; lá ia a todas com a sua viola, traste indispensável aos dandies da localidade.

Habituou-se por lá a conversar com as raparigas e, dentro em pouco, era mestre em trocadilhos e conceitos amorosos. Aventurou-se uma vez a cantar ao desafio; a musa auxiliou-o, e dali em diante foi-lhe concedida a palma nesse género de certames.

Com tais predicados não lhe podiam escassear aventuras de amores; e não lhe escassearam.

Mas, em todo este tempo, e apesar de todas as ocorrências, continuava dormindo as suas noites placidamente e de um sono só; dando assim uma excelente lição a esse amantes wertherianos, que, por as mais pequenas coisas, perdem o sono e o apetite. Ele não. Os seus arrufos, as suas contrariedades não chegavam a esses excessos. Com o amor dá-se o mesmo que com o vinho. — Perdoem-me as leitoras o pouco delicado da confrontação; mas bem veem que ambos eles embriagam. É portanto lícito compará-los.

— Diz-se de certas pessoas que — têm o vinho alegre — de outras que — o têm triste — estúpido — bulhento — conforme dá a alguns a embriaguez para a hilaridade, a outros para o sentimentalismo, a outros para a modorra, ou para brigas. Pois com o amor é o mesmo. Amantes há que celebram os seus amores, e até as suas infelicidades amorosas, sempre em estilo de anacreôntica — esses têm o amor alegre; outros que, quando amam, embora sejam ardentemente correspondidos, suspiram, procuram os bosques solitários, que enchem de lamentos, e as praias desertas, onde carpem com o alcião penas imaginárias — têm estes o amor sombrio; a outros serve-lhes o amor de pretexto para espancarem ou esfaquearem quantas pessoas imaginam que podem ser-lhes rivais ou estorvos, e, nesses acessos de fúria, chegam a espancar e esfaquear o objeto amado — são os do amor bulhento e intratável; há os que emudecem e embasbacam diante da mulher dos seus afetos, que em tudo lhe obedecem, que a seguem como o rafeiro segue o dono, e experimentam um prazer indefinível em adormecer-lhe aos pés — pertencem aos do amor impertinente e estúpido. Poderia ir muito longe esta classificação, se fosse aqui o lugar próprio para ela.

Basta porém que diga que o amor de Pedro das Dornas pertencia à primeira categoria; — tinha de facto ele o amor alegre.

Pedro cantava sempre; tudo lhe servia de tema a uma série de quadras improvisadas, de que fazia uso para alentar-se no trabalho. É verdade que talvez isto fosse porque Pedro não tinha ainda encontrado o verdadeiro amor, aquele que, dizem, uma vez só na vida se experimenta. Em todo o caso, era o que sucedia com ele.

Mas o reitor estava sempre a pregar-lhe:

— Pedro, tu andas-me por aí muito à solta! Vê lá onde vais cair.

— Ó Sr. Padre António, a gente também precisa de se divertir um bocado.

— Pois sim, mas tudo se quer em termos e que não venham depois as lágrimas e os arrependimentos!

— Eu não hei de fazer coisa que...

— Sim, sim... Sabes o que eu te digo? O melhor, rapaz, é procurares o que te faça arranjo, e então que seja deveras. Casa-te e deixa-te de andar desnorteado, e nessa vida airada, que raro dá para bem.

— Ora, Sr. Reitor, ainda tão novo, hei de já tomar canseiras de família?

— Queira Deus que, conservando-te assim como estás, as não acarretes mais pesadas ainda.

Não obstante os conselhos do reitor, Pedro não se sentia com grande vocação matrimonial. Todas as suas afeições eram efémeras, e daquelas, em cujo futuro o próprio que as sente não acredita; mas — lá vem uma vez que é de vez — diz o ditado; e, com Pedro, não estava esta fórmula da sabedoria popular destinada a ser desmentida.

Vejamos como foi isto. Ia Pedro nos vinte e sete anos já — era então um rapaz vigoroso e sadio, de belas cores e músculos invejáveis. Andava certa manhã ocupado a cortar o milho num campo, propriedade da casa, o qual ficava situado na margem do pequeno rio, que atravessava a aldeia em continuados meandros.

Próximo, havia uma ponte de pedra de dois arcos, construção já antiga, mas bem conservada ainda; o rio era nesse lugar pouco fundo, e deixava, à flor de água, as maiores das pedras espalhadas pelo seu leito, permitindo assim passagem, a pé enxuto, de uma para outra margem.

De joelhos sobre estas poldras, como por lá lhes chamam, desde o arco até alguma extensão no sentido contrário ao da corrente, um bando de lavadeiras molhava, batia, ensaboava, esfregava e torcia a roupa, ao som de alegres cantigas, interrompidas às vezes por estrepitosas gargalhadas; outras estendiam-na pelos coradouros vizinhos e algumas, mais madrugadoras, começavam a dobrar a que o sol da manhã tinha já secado.

Pedro, do campo onde trabalhava, via estas raparigas, conhecidas suas quase todas, mas sem que o vê-las o distraísse da tarefa em que andava empenhado.

À medida, porém, que, prosseguindo na ceifa, se aproximava mais da beira do campo imediato ao rio, como o adiantado do trabalho lhe concedia mais vagares, pôs-se a reparar com atenção para uma das lavadeiras e a achar certo prazer na contemplação.

Era uma rapariga de cintura estreita, mãos pequenas, formas arredondadas, vivacidade de lavandisca, digna efetivamente das atenções de Pedro e até de outro qualquer, mais exigente do que ele.

As mangas da camisa alvíssima, arregaçadas, deixavam ver uns braços bem modelados, nos quais se fixavam os olhos com insistência significativa. Um largo chapéu de pano abrigava-a do ardor do sol e fazia-lhe realçar o rosto oval e regular de maneira muito vantajosa.

De vez em quando, levantava ela a cabeça e sacudia, com um movimento cheio de graça, a trança mais indomável, que, desprendendo-se-lhe do lenço escarlate que a retinha, parecia vir afagar-lhe as faces animadas, beijar-lhe o canto dos lábios, efetivamente de tentar.

Em um destes movimentos frequentes, reconheceu que era observada, se é que certo instinto, peculiar das mulheres bonitas, lho não fizera já adivinhar. — Sabendo-se observada, conjeturou que era admirada também — conjetura que por mulher alguma é feita com indiferença e muito menos por Clara — era o nome da rapariga — porque, diga-se o que é verdade, tinha um tanto ou quanto de vaidosa.

Lisonjeada, pois, com a descoberta, sentiu Clara desejos de se fazer apreciar mais do que pelos olhos, de cujo conceito ela não podia já duvidar.

Elevou para isso a voz e numa toada conhecida, numa dessas eternas e popularíssimas músicas da nossa província, das que mais espontaneamente entoam as lavadeiras nos ribeiros e as barqueiras aos remos, cantou a seguinte quadra:

Ó rio das águas claras,

Que vais correndo para o mar.

Na pausa que, segundo as exigências da música, se faz ao fim dos dois versos, Clara torceu a roupa que estava lavando, e lançou, com disfarce, os olhos para o lugar, onde Pedro a escutava; depois concluiu:

Os tormentos que eu padeço,

Ai, não os vás declarar.

Pedro efetivamente estava recebendo com prazer o timbre agradável daquela voz feminina; sentiu em si comoção estranha, visitou-o a musa rústica, e atirando-se com vontade ao trabalho, elevou também a voz, já tão conhecida por todos os frequentadores de arraiais e esfolhadas, e respondeu:

Não declara que não pode,

E não tem que declarar.

Na pausa olhou também para o lado onde estava Clara, a qual ria ocultamente com as companheiras, que eram todas ouvidos. A luva fora levantada e começava o certame. O momento era solene! Pedro terminou:

Pois quem, como tu, é bela,

Não pode ter que penar.

Um murmúrio de aprovação se levantou do conclave feminino.

A reputação de Pedro não fora desmentida desta vez ainda. Mas Clara não era menos repentista. Tinha fama de nunca haver cedido o passo nestas pugnas incruentas, mas renhidas. É verdade que, no caso presente, o contendor era de respeito; ela porém aventurou-se e não fez esperar a resposta:

O que eu peno ninguém sabe,

Ninguém o pode saber,

Porque eu peno e não me queixo,

Em segredo sei sofrer.

Novos sinais de aprovação das mulheres, os quais estimularam a emulação de Pedro. Ele respondeu:

Pois o sofrer em silêncio

É um dobrado sofrer;

Melhor é contarmos tudo

A quem nos possa entender.

Esta quadra ainda produziu mais efeito, do que as precedentes — graças à insinuação que nela se fazia, e tendências que mostrava para dar novo carácter ao desafio.

Clara aceitou a direção que lhe era indicada assim, e respondeu:

A quem me possa entender

Tudo eu quisera contar;

Mas os amigos são raros,

Não sei onde os encontrar.

E logo Pedro:

Encontra-os a cada canto

Quem os quiser procurar;

E um dos mais verdadeiros

Aqui te está a escutar.

Chegadas as coisas a este ponto, o combate prolongou-se por bastante tempo, sustentando de parte a parte com igual denodo e perícia. No entretanto a roupa ia-se lavando e o milho achava-se quase todo ceifado. Os contendores, cada vez mais próximos, pareciam cada vez mais de coração empenhados na luta. Mas tudo tem um fim neste mundo.

Com as respetivas tarefas, terminou a justa, ficando ambos os campeões vencidos um por o outro, pois ambos se reconheciam já seriamente apaixonados.

Pedro passou as canas do milho para o carro, Clara meteu a roupa na canastra e puseram-se a caminho. Encontraram-se na ponte e travaram então um diálogo em prosa, que foi a confirmação de quanto, em verso, tinham dito já. E daí se originou uma afeição mútua, que, desde o princípio, assumiu em Pedro carácter mais grave e prometedor de bons resultados, do que as antecedentes.

O reitor, que andava sempre com os olhos em cima do rapaz, disse-lhe dias depois:

— Lembra-te dos meus conselhos, Pedro. Não vás mais longe. Fica por onde estás, que não ficas mal.

Pedro já não lhe opôs os costumados argumentos anti matrimoniais. Calou-se. É que desta vez a coisa era mais séria e que demais Pedro ia nos vinte e sete anos, e por isso começava a sorrir-lhe mais afavelmente o remanso do matrimónio.

Mas, para justificarmos a opinião do reitor a respeito da nova inclinação de Pedro, digamos quem era esta Clara, que assim de repente pusemos diante do leitor, sem prévia apresentação.