As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 25 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XXXIII · Tendo formado esta resolução, João Semana picou…

 

Tendo formado esta resolução, João Semana picou de esporas a sua égua, a qual, estranhando a insólita amabilidade, de um salto o apresentou junto de Daniel, que era, como o leitor sabe já, o vulto em questão.

Daniel, vendo-se descoberto, julgou que o melhor partido era entrar em jogo rasgado.

— Boas-noites, colega — disse ele em tom prazenteiro e caminhando para João Semana.

Este deu um estremeção na sela, ao reconhecer o seu jovem confrade. O não muito favorável conceito que ultimamente formava dele, em relação a certas qualidades morais, fê-lo agourar mal da sua presença naquele lugar.

— Ah! Ah! Você por aqui! Anda a fazer versos?

— Ou a inspirar-me para isso.

— Não é mau sítio, não. E ao mesmo tempo pode dar-se a estudos de química também; a água dessa fonte...

— Já me disseram que era medicinal.

— É excelente.

— Para que moléstias?

— Para muitas. Agora o que não sei é se para certos esvaimentos de cabeça também servirá. Bom era que sim, que anda por aí muito disso.

Daniel fingiu não entender a alusão, e observou com modo natural: 

— Está aqui muito agradável.

— Ai o sítio é bom, lá isso é. E para caça?! Não gosta de caçar?

— Alguma coisa.

— Pois por estes montes há caça famosa. Ainda agora, quando eu vinha, fugia daqui uma... Lebre e com uma pressa admirável. Não a viu?

— Não, não vi.

— O que é ser poeta! Não se vê coisa nenhuma. Com os meus oitenta anos vejo melhor. Pois é verdade; atravessou neste mesmo instante por esta rua e... Ia jurar até que se escondeu ali, no quintal; pareceu-me vê-la escapar através daquela porta.

— Tens boa vista, João; mas não tão boa que te não passe por alto um amigo velho.

A voz, que dissera estas palavras, parecia vir do ar.

João Semana levantou a cabeça e deu com os olhos no reitor, muito pachorrentamente estabelecido sobre o tronco de um pinheiro derrubado, no topo das escadas que desciam do outeiro.

João Semana ficou espantado com tal descoberta e só isso o impediu de notar que Daniel o não ficara menos. Quando, porém, desviou para este os olhos, encontrou-o já sem sinal de perturbação, e até anediando os cabelos, com toda a naturalidade.

As suspeitas, vagamente concebidas pelo cirurgião, desfizeram-se logo.

— Que diabo fazeis vós ambos aqui? E tu então de poleiro, Abade?!

— É que isso aí em baixo é húmido, como um charco, e eu não quero dar-te que fazer com o meu reumatismo, João. Mas eu desço, eu desço.

— Não, não, deixa-te lá estar, deixa. Lá por isso...

— Não, que vão sendo horas também de me chegar até casa. Pois é verdade — continuava o pároco, apoiando-se na bengala e descendo, com vagar e cautelosamente, os poucos suaves degraus, cavados no saibro do monte — pois é verdade; estávamos nós aqui, eu com o Daniel e a Clarita, a conversar...

— Ah! Bem me pareceu que era ela.

— Era ela, sim. Então que dúvida. Olha que sempre fizeste uma descoberta!

— Mas para que diabo fugia a rapariga, então?

— Diz antes porque diacho não fugimos nós? Mas o meu reumatismo é que me não deixou. Quando me hás de tu dar um remédio para isto, homem?

— É pregar com os ossos nas Caldas, querendo. Mas, dizias tu, fugir! Para que tinham de fugir de mim?

— De todos. Quando se conspira...

— Então vocês?...

— Conspirávamos, sim, senhor. Aqui mesmo onde nos vês, estávamos a combinar uma coisa...

— Que diabo era o que combinavam?

— Combinávamos...

O reitor achava-se um pouco embaraçado por nada lhe ocorrer a propósito; por isso exclamou, para contemporizar:

— Que maldito costume que tu tens, João, de estar sempre com o nome do inimigo na boca! Perde-me esse jeito.

— Pois sim, sim; hei de fazer por isso, apesar de que já vou um pouco tarde. Eu digo agora como aquele franciscano, a quem repreendiam por, já de idade avançada, cair ainda na fraqueza, em que Noé caiu: «Já agora hei de morrer com isto, dizia ele; porque de duas uma: ou já estou condenado e então não sei que lhe faça; não vale a pena a emenda; ou não estou, e quem pode perdoar uma bebedeira de quarenta anos, não deve pôr dúvida em perdoar a de meia dúzia mais». — Mas então em que combinavam vocês?

A renovação da pergunta, depois da referência do caso, fez perder ao reitor as esperanças de eximir-se a responder. Quando João Semana conservava uma ideia fixa, através da narração de qualquer anedota de frades, era para dificilmente a deixar.

Conhecendo isto por experiência, o reitor resignou-se, e ainda sem saber o que dizia, começou a responder:

— Combinávamos...

E, fingindo arrepender-se, exclamou:

— Mas é boa essa! Não há senão perguntar. Tu não deves entrar no segredo. A coisa é entre nós três.

— Homem, Diz lá o que é. Que diabo...

Um gesto do pároco obrigou João Semana a corrigir-se.

— Que S. Pedro de escrúpulos são esses agora?

A substituição no nome do espírito maligno pelo do apóstolo não lhe valeu a resposta que pedia, e que o reitor de boa vontade lhe dera, se a tivesse para dar.

— E a teimar! — dizia o padre, ganhando tempo. — Sempre és um curioso!

Daniel interveio enfim.

— Olhe, Sr. João Semana, basta que saiba, e depois não pergunte mais nada, que estávamos preparando uma surpresa ao meu irmão Pedro, para o dia do casamento dele.

O reitor franziu as sobrancelhas, ao ouvir Daniel. Apesar do auxílio que ele lhe viera dar, desgostou-o a presença de espírito que mostrava, quando devia estar enleado de confusão e de vergonha; foi por isso que acrescentou com um evidente tom de severidade e irritação:

— Casamento que, se Deus quiser, hei de brevemente abençoar. Estás agora satisfeito, João Semana? Pois é verdade, Daniel meditava grandes novidades para o dia do casamento do irmão, grandes festas por casa dele e da noiva, e etecetera, e etecetera. Mas o seu projeto não mereceu, nem merece, a minha aprovação.

Daniel baixou os olhos, ao ouvir aquelas palavras do padre.

Este prosseguiu:

— Clara pensa como eu, mas este homem é obstinado e, através de tudo, teima em seguir a sua vontade; mas eu protesto que...

— Vejo que não me entendeu, Sr. Reitor — disse Daniel, com vivacidade.

— Entendi, entendi, homem. E julgo que não acha a propósito entrar agora em maiores explicações.

Daniel guardou silêncio.

— Mas então não podiam tratar disso em casa? — teimou João Semana, que não largava assim facilmente a ideia, de que se tivesse apossado.

— E a dar-lhe! Não há que se lhe faça! — dizia o reitor. — Homem, nós não queríamos que a Margarida soubesse nada disto, porque... Porque... Mas tu vais a cavalo e nós a pé. Segue o teu caminho e apressa-te, que a Joana já há de estar com cuidado pela tua demora.

— E eu com vontade à ceia.

— Então porque esperas? Vai com Deus, homem.

— Até amanhã, Abade. Adeus, Daniel. Olhe lá você como se porta, rapaz. Juizinho!... Se não está mal servido com a sua vida. Lembre-se daquele frade...

— Ai, se pegas a contar histórias, não chegas a casa à meia-noite.

— Pois já não conto.

E, fustigando a égua, desapareceu cedo da vista dos dois.

Logo que ele se afastou, Daniel ia a dirigir-se ao padre.

— Sr. Reitor, foi providencial a sua vinda. Acredite, porém...

O gesto, cheio de severidade, com que o reitor o acolheu, não o deixou continuar.

— Basta. Não quero escutá-lo. Explicações não as preciso, porque ouvi tudo; justificações não as tem, não as pode ter, para dar. Boas-noites.

E, colocando-se diante da porta das suas pupilas, à frente da qual tinham tinham chegado, afastou-se para deixar passar Daniel.

— Mas... — ia este a dizer.

— Boas-noites — repetiu secamente o reitor, e tão secamente que fez perder a Daniel a coragem para insistir. Curvando-se com respeito diante do velho, retirou-se dali.

O reitor, ficando só, entrou em casa das raparigas.

Depois de trocar algumas palavras com Margarida, chamou de parte Clara, e em tom um pouco desabrido, disse-lhe:

— Julgo que recebeste hoje um aviso do teu anjo da guarda, Clara. Olha agora se o aproveitas.

Quando a rapariga, levantando para ele os olhos, ia a interrogá-lo, o padre afastou-se, dizendo-lhe simplesmente:

— Adeus.

Dissera bem o reitor.

Clara ouvira de facto o seu anjo da guarda.

Aquela noite, conheceu o perigo do caminho que seguira, a sorrir; e resolveu fugir-lhe. E iria já a tempo? Pensava ela.

Da involuntária entrevista, que tivera com Daniel, sairia salva de todo? De todo livre de suspeitas?

A voz de João Semana, chamando-a de longe, mostrava-lhe que ela fora reconhecida. Mas que se passara depois? O reitor parecia também estar informado do sucedido. Como o teria suspeitado, ou previsto?

Mas, por outro lado, o tom moderado das palavras que lhe dissera, levaram-na a crer que ele conhecia a verdadeira extensão da sua culpa e não a exagerava.

No meio desta corrente de pensamentos, Clara às vezes estremecia.

Se no dia seguinte, lembrava-se então, se levantasse contra si um desses boatos surdos, rápidos a propagar-se, prodigiosos a crescer, que infamam, que mancham de lodo as mais firmes reputações e inoculam veneno subtil numa existência inteira?

A esta lembrança, Clara erguia as mãos com terror.

Aos pés de uma imagem da Virgem, pedia então misericórdia e prometia evitar, dali em diante, todas as ocasiões de novos perigos.

Daquela condenação, cuja lembrança bastava só para a assustar assim, a salvara um acaso... Ou antes a Providência.

O reitor, a cujos ouvidos continuavam a chegar todos os dias vozes desfavoráveis a respeito de Daniel, andava inquieto por causa da assiduidade com que o vira frequentar as proximidades da casa das suas pupilas.

Aquelas prolongadas palestras, da rua para a janela, podiam dar que falar, receava ele; e cedo viu que efetivamente iam já dando.

Qual não foi, pois, o seu desassossego, quando de casa de um pobre enfermo que fora confessar, viu, às Trindades daquele dia, passar furtivamente, e meio disfarçado, um homem, que, apesar de todo o disfarce, o reitor logo conheceu ser Daniel!

Deu-lhe uma pancada o coração e, mal que pôde desobrigar-se da sua santa tarefa, saiu apressado, e correu a casa de Margarida, a quem perguntou pela irmã.

Sabendo que naquele momento tinha ela saído para a fonte, para lá se dirigiu também o velho, mas por outro caminho, que levou ao próximo pinheiral.

Chegou ali justamente quando Daniel aparecia a Clara; e pôde, sem ser visto, assistir a todo o diálogo entre os dois.

Foi por esta forma que o reitor, a quem muitas vezes estava confiado o papel de Providência na sua paróquia, conseguiu salvar oportunamente a boa fama de Clara, no conceito de João Semana e, provavelmente, na opinião geral da terra.

Se as recordações desta noite agitavam o espírito de Clara, não deixaram mais indiferente e tranquilo o de Daniel.

Cruzando a passos largos o pavimento do quarto, velou grande parte da noite.

Poucas provações mais amargas há para os caracteres humanos do que a de se sentirem desprezados pela própria consciência.

Experimentava-o Daniel então.

— Têm razão os que desconfiam de mim — pensava ele — conhecem-me melhor, do que eu próprio. Que subtis distinções ando eu a marcar por aí, entre o meu proceder e o de muitos miseráveis, que me causam tédio e desprezo? Que ridículas lamentações do homem não compreendido são as minhas? É no que se vingam sempre aqueles, cujos sentimentos inspiram aversão geral... Clamam que ainda não encontraram espírito ou coração de harmonia com o seu. Vejamos. Pois não é infame o meu procedimento? Que lhe falta para ser completamente infame? Que espero eu de Clara? Para que a persigo? Para que a procurei hoje? — Não hesitei em dar estes passos que, na aparência, a podem perder... E hesitaria em perdê-la na realidade? Quem mo assegura? Tenho acaso certeza disso?

E, passeando mais agitado ainda, conservou-se por muito tempo sob o domínio desta ideia. — Depois continuou com mais exaltação:

— Tenho, sim. Não rebaixemos também a tal ponto os nossos sentimentos. Eu sou volúvel, imprudente, inconsiderado; conheço-o; e odeio-me, quando me vejo assim; porém não sou perverso, porém não sou capaz de uma paixão vil, porém não sou capaz de uma traição infame... Queria que me acusassem de tudo, mas que não me suspeitassem disso, e muito menos Clara, essa generosa rapariga, e muito menos o reitor, esse homem honrado... Mas que importam as minhas intenções, se dou lugar a que se diga, a que se possa pensar uma calúnia? Se não fosse hoje o reitor, a quem a Providência parece haver inspirado, que se diria amanhã nesta mexeriqueira terra? — De mim, digam lá o que quiserem; mas daquela rapariga... — É tempo de me fazer outro homem. E poderei consegui-lo? Este meu temperamento é de uma mobilidade! Pequenas causas fazem-lhe perder o equilíbrio, que por momentos a razão consegue dar-lhe. Será pois isto em mim um mal incurável? É verdade que os médicos falam de certos estados nervosos, que pequenas impressões sustentam e exacerbam, e que, muitas vezes, uma profunda comoção consegue serenar, dando a esses temperamentos a estabilidade que não tinham. O estado do meu coração é assim. Talvez ainda não experimentasse a têmpera, que tem de o fortificar; talvez. Em todo o caso, devo lutar comigo mesmo. Mas poderei resignar-me à má opinião que de mim conserva aquela rapariga? Não; preciso de falhar-lhe uma vez ainda, para que me perdoe e me restitua a sua confiança; serei depois para ela um amigo sincero, um verdadeiro irmão. Hei de falar-lhe.

Adormeceu, por altas horas, com esta resolução e com ela se levantou na manhã seguinte.