As Pupilas do Senhor Reitor
Capítulo XXXVIII · — Chegou talvez para mim o momento…
— Chegou talvez para mim o momento do castigo — murmurou Daniel, passado algum tempo, depois de Margarida se retirar.
— Que está a dizer? — perguntou o reitor, olhando-o admirado.
— Que talvez àquelas mãos, das quais até hoje só tem saído o bem, vá Deus confiar a arma de uma vingança cruel.
— De que maneira?
— Pois não ouviu a firmeza daquela resposta?
— E então?
— E então! É que eu tenho o pressentimento de que, se um dia se atear a mim uma paixão violenta e fatal e tiver de ser repelida assim, sucumbirá com ela este coração.
— Ora adeus! Sabe os objetos que se partem, batendo de encontro às rochas? São os fortes e rijos; porque os outros, os moles, o mais que podem é tomar nova forma; quebrar é que não quebram; e o seu coração é dumas branduras!
— Reconheço que o meu passado não me dá o direito de ofender-me da ironia; custa-me até entrar de novo em justificações, que só me valem sorrisos, mas...
— Mas, ainda assim, sempre vai tentar mais uma vez — disse o reitor, sorrindo. — Ora ande lá.
— Ouça-me. É uma triste confissão para o meu orgulho, a que vou fazer, mas é verdadeira. Há muito que tenho este pensamento; até no tempo em que mais procurava evitá-lo, ele me acudia. É por certo arriscado para qualquer mulher confiar de mim o seu amor, menos num caso, que até aqui se não dera ainda comigo.
— Então, qual é esse caso?
— É se ela conseguir dominar-me; se aos meus olhos se conservar sempre a altura, que dê à paixão, que me inspirar, a natureza de um culto. Há caracteres para os quais é isto necessidade. De ordinário, todos os meus esforços são despojar desse prestígio, que me enleia, a mulher a quem amo; porém, desde que o consigo, já não respondo por mim. Sei-o por experiência. Mas, previa-o há muito tempo, se me encontrar com uma destas naturezas superiores, para as quais nunca se extingue o resplendor que as rodeia, há de fixar-se este coração volúvel, e não haverá para elas o risco, de que das minhas afeições lhes possam resultar lágrimas.
— E conclui daí? — perguntou o padre no mesmo tom, quase zombeteiro, em que sustentava o diálogo.
— Que Margarida nada podia recear do meu amor. Eu, que duvidava já que viesse a amar seriamente, porque me julguei superior a todo o predomínio, hoje...
— Hoje, mudou de opinião.
— E mudei, creia-o. Nunca me conheci assim. Ainda antes de a ver, quando da sala imediata a estivemos escutando, não sei porquê, sentia, ao ouvi-la, reviver todo o meu passado, a parte mais pura dele.
— Sei eu — resmoneou para si o reitor.
— Depois que a vi, foram sensações novas para mim, as que experimentei. Eu, que por tantas vezes e a sorrir tenho dado passos na vida, que fazem recear os mais audazes; eu que, para ser arrojado, não careci nunca do forte impulso de uma paixão, pois me bastava o simples estímulo de um capricho; hesitei há pouco, como viu, ao fazer a proposta a que o dever e o coração me impeliam, hesitei de timidez, como se fosse um sacrilégio da minha parte. Depois, ao receber aquela recusa, pareceu-me sentir escurecer-se-me o futuro e, pela primeira vez na minha vida, senti-me desalentado com este mau êxito, em lugar de encontrar nele incitamento para persistir, como tantas vezes o tinha encontrado.
— Desconfie dessas impressões súbitas e violentas, desconfie. Margarida tem razão. Eu próprio já me não atreveria a aconselhar-lhe o contrário. É melhor deixarmo-nos guiar pelas inspirações daquela alma de anjo.
— Mas se eu a amo?
— Paixão de quinze dias! — disse o reitor, encolhendo os ombros.
— Não, não. Sinto-me seguro desta vez a jurar-lhe...
— Não jure — atalhou o padre — não jure nada, homem de Deus, que almas de outra têmpera, que não é a sua, têm falhado, depois de jurarem. Lembre-se do que diz o Evangelho: «Seja o vosso falar: sim, sim; não, não. Porque tudo o que daqui passa, procede do mal» — Se não perder a ideia desse amor, trabalhe por merecê-lo; mas não faça juras. Que, se alcançar aquele coração, grande riqueza granjeia, isso lhe afirmo eu. E não tenha escrúpulos de se deixar dominar, que melhor é a cabeça de Margarida, do que... Mas que fazemos ainda aqui? Vá, vá ter com o seu irmão. E veja como se porta. Não entre em grandes explicações. Abrevie-as, quanto puder, que é o mais prudente. E até logo.
Daniel saiu da sala vagaroso e triste. O reitor, ficando só, conservou-se por algum tempo pensativo.
Esta tácita meditação acabou-a ele, murmurando não sei que mal distintas palavras e depois em tom mais percetível:
— Contudo é pena. Remediava-se este enredo assim, e bem. Seria talvez uma providência para o rapaz. E eu iria mais descansado deste mundo, a dar contas da minha tutela no outro aos pais das raparigas. Mas lá se Margarida tem os seus escrúpulos... E a falar a verdade com alguma razão; e depois, o que é mais e muito mais, se ela não se sente com inclinação para aí. Aquilo é uma santa. Coração possui ela, mas para caridade, que não para amores. Paciência!
E falando assim, caminhava lentamente o reitor de sala em sala, de corredor em corredor, até se encontrar quase sem saber de que maneira — tão distraído ia — junto do quarto de Margarida, cuja porta viu meia aberta. Entrou.
Ao rumor dos seus passos, ergueu-se, de súbito, uma mulher, que estava de joelhos no chão, e debruçada sobre o leito, como num genuflexório.
Era Margarida.
Colhida de improviso, não teve tempo de enxugar as lágrimas, que em fio lhe corriam pelas faces descoradas. Em vão se esforçava por desvanecer com sorrisos o efeito daquelas lágrimas e da expressão de tristeza, que tinha profundamente gravada no rosto.
O reitor surpreendeu-a assim e olhou para ela inquieto.
— Que é isto? Lágrimas! Choros! — exclamou ele, levantando-lhe a cara, que Margarida inclinava, para esconder dos olhos do seu velho amigo aquele indiscreto choro. — Ai, filha, que me dizias tu há pouco? Era então mentira a indiferença que asseguravas? Eu logo vi... Mas... Valha-me Deus... Nesse caso... Para que fui eu?... Então, Margarida! — então! — então... ? Nossa Senhora te valha, filha! Não chores, olha que não sou teu amigo. Mas para que dizias tu?... Pois está bem de ver, sempre custa... Vamos, sossega, mais vale dizer a verdade. Isto assim não tem jeito. Sossega, rapariga, sossega. Vá o mal a quem toca. Nem todos podem ser santos. Os santos?... Os santos estão nos altares, ora adeus. Há coisas que são superiores às forças humanas. Não chores, filha; isso até é uma vergonha. Pedro é bom e perdoará a Clara e, perdoando ele, quem tem direito de condenar? E se não perdoar... Não sei que lhe faça. Quem mal a cama faz nela se deita; ora é muito boa! Enquanto ao mundo... Adeus, minha vida, o mundo é o mundo; importa lá o mundo. Era o que faltava se por causa dele te ias agora sacrificar. Na verdade que valia a pena! Deixa estar que tudo se há de arranjar. Verás. Mas não chores; pareces-me uma criança. Então, então, Margarida? E aí estás chorando mais!
E o bom homem quase chorava também.
Efetivamente, como a todos nos sucede quando, dominados por a tristeza, encontramos um coração compadecido, uma voz amiga a pretender consolar-nos, quando reconhecemos verdadeira simpatia nas palavras de conforto que nos dirigem; cada vez era mais violenta a explosão de sentimento em Margarida, mais abundantes as lágrimas, mais sufocadores os soluços.
— Então, Margarida, filha, então!... — dizia o reitor, deveras aflito, e, tentando todos os meios de acalmar aquela dor, acrescentou contra o seu costume: — Guida! Guida! Isso não é bonito.
Só passados alguns momentos é que Margarida conseguiu falar, e ainda com a voz entrecortada de soluços disse para o reitor:
— Perdoe-me, perdoe-me por quem é. Mas não pude, não posso mais. Não julgue que me arrependo do que fiz, que me lembro de recuar. Creia-me, pouco me importa o mundo, o que dizem, o que virão a dizer. Pouco me importa.
— Mas então este choro?
— Nem sei porque choro, eu mesma não o sei. Mas faz-me bem o chorar. Deixe-me, deixe-me por piedade.
— Mas, minha orgulhosa, porque não aceitaste tu a proposta de Daniel?
— Isso é que nunca — exclamou com impetuosidade Margarida, e de novo lhe saltaram as lágrimas dos olhos.
— E aí estás a chorar cada vez mais! Mas isto não deve ficar assim. É preciso dar-lhe remédio. A tua irmã não pode querer...
— Mas se eu lhe juro que não choro por isso! Se eu lhe afianço que pouco me importa o mundo!
— Mas, então, ó Virgem Santa, então porque choras tu? Eu endoideço ainda hoje... Endoideço. Sacrificas a tua reputação para salvar a de Clara e não choras por isso; tiveste na tua mão o meio de remediar tudo, aceitando o leal oferecimento de Daniel, e que afinal o pobre rapaz fazia do coração, e recusaste sorrindo. E agora venho encontrar-te neste estado e dizes-me, e juras-me que não é nada! Recusas confiar-me a causa! Margarida, é preciso saber, quero saber porque choras assim!
— Agora não posso, não sei até dizer-lho. Se me estima, se me quer, como diz, não me pergunte nada; não? Deixe-me só, peço-lhe por favor, por alma da minha mãe. Logo volte e, quando voltar, verá que me há de achar contente, prometo-lho. Que mais quer? Os abalos da noite passada causaram-me isto. Não sei que tenho. Vá, peço-lhe que vá. Então não vai?
O padre olhou por muito tempo para ela e depois, tomando o chapéu, saiu sem dar palavra, mas limpando uma lágrima também. Margarida, vendo-o sair, deixou-se cair outra vez de joelhos sufocada pelo choro.
— Fraca! Fraca! — dizia entre soluços — que não tive forças para me sustentar até ao fim! Vá, vá, acabem de correr por uma vez estas lágrimas; e que sejam as últimas; que ninguém mas veja mais nos olhos. A causa, a causa... Oh! Essa, ninguém a há de adivinhar.
— Enganas-te, Guida. Adivinhei-a eu já.
Margarida ergueu-se de repente ao escutar estas palavras, que lhe foram ditas quase ao ouvido. Voltou-se. Era Clara.
— Que dizes, Clara? Que estás a dizer, filha?
No rosto de Clara, onde uma pouco costumada tristeza se desenhava ainda, havia um ligeiro sorriso de malícia, da que se poderá chamar angelical, se alguma vez for lícito associar estas duas palavras.
— Digo que te adivinhei, Guida. Que mais queres? Estás descoberta, minha reservada. Não tinhas confiança na tua irmã, e assim te perdias por uma pessoa, de quem desconfiavas! É ação de santa, é; mas eu te prometo que isto não há de ficar assim.
— Clara, tu não sabes o que dizes.
— Escuta. Que promessas, que oferecimentos eram aqueles do... Do Sr. Daniel? E porque os não aceitaste tu?
— Clarinha!
— Vamos. Eu ouvi tudo o que disse agora o Sr. Reitor. Não mo queres dizer? Digo-to eu. Daniel propôs-te...
— Basta, Clara, basta. Bem sabes que não aceitei.
— E porquê? Isso mesmo é o que eu mais quero saber.
— Porque... Não devia aceitar.
— Não devias?
— Não, não devia. És tu a que me vens dizer que se pode, que se deve aceitar um esposo a quem...
— A quem? — interrogou Clara, fitando na irmã olhar inquisitorial.
— A quem não... Amamos?
— E então é certo que não amas o Sr. Daniel? — perguntou Clara, conservando em Margarida o mesmo olhar e demorando intencionalmente a articulação de cada sílaba.
— Que pergunta! — disse Margarida, baixando os olhos confusa.
— E ainda não queres que te ralhe! Ora ouve, Guida. Desde hoje que o desconfio. Passaste a noite à minha cabeceira. Eram três horas quando dormias, e eu estava acordada então. Ora tu também tinhas febre, também sonhaste em voz alta e alguma coisa disseste...
— Que disse eu? — perguntou Margarida, com perturbação.
— Alguma coisa, algumas palavras soltas, certo nome, de que eu ao princípio fiz pouco ou nenhum caso, mas em que depois me deu para cismar. E tanto cismei, e tanto cismei, que afinal descobri, minha pobre Guida...
— O quê?
— Que esse teu coração não era, por fim, o que se supunha; não era o que eu, e o que todos supúnhamos. E olha que mais te quis por isso; porque eu gosto de quem tenha coração.
— Mas enfim que queres tu dizer?
— Quero dizer que tu amas, que tu amavas, e há muito, o Sr. Daniel.
— Estás louca, filha?
— Não o negues ou ficamos de mal. Eu depois recordei-me do que dizia o Sr. Reitor, de que Daniel fora em pequeno o teu conversado. Muitas vezes te vi corar ainda, quando o Sr. Reitor, a rir, te caçoava com isso. Ora eu sei como tu és... Isto é, hoje é que me lembrei de que tens um génio singular, tu. Eu podia esquecer-me da minha afeição de criança. Tu não, que tudo tomas a sério. É teu costume. Eu sei. Depois, certa maneira de falar... Certo acanhamento... E as lágrimas de há pouco... E as palavras de agora... E essa má vontade com que estás... E esse olhar que se não atreve a levantar-se para mim... É certo, ama-lo; e por isso pergunto: porque recusaste o seu oferecimento?
Margarida conservou-se por algum tempo silenciosa. Depois, por uma destas resoluções, que são raras em caracteres como o dela, mas enérgicas quando chegam a formar-se, disse com uma espécie de desespero, revelando nas palavras, no gesto, nos movimentos, e tomando com ímpeto as mãos da irmã, que apertou convulsivamente nas suas:
— Porquê? Queres sabê-lo? Porque o amo. Entendeste agora?
— Não — respondeu Clara que, surpreendida por aquela exaltação, não podia desviar os olhos do rosto de Margarida.
— Pois não vês, criança — continuou esta — não vês, louca, que seria um martírio horrível, um tormento, que nem se imagina, aceitar a compaixão do homem, a quem se ama? Saber que só para generosamente nos salvar a reputação, só para isso, ele nos fez o sacrifício do seu futuro, das suas ambições; que se baixou condoído, para do chão nos levantar até si! Há lá nada mais doloroso! Diz, desejas-me esse martírio? Conheces o coração da tua irmã, dizes tu; e pensas que ele não estalaria de angústias? E depois, se fosse só isso! Mas, quem sabe? Um dia talvez entraria uma suspeita naquela alma; se a delicadeza fechasse os lábios, lá estava o olhar talvez a revelar-lhe o pensamento secreto de que tudo isto em mim fora um propósito interesseiro e vil, de abusar dos seus brios... Ai, Clara, e pensas que eu resistiria a esta ideia? Cuidas que eu teria coragem para... Oh! Deixa-me, deixa-me; fizeste-me já dizer o que eu nem a mim mesma dissera ainda. Nunca mais me ouvirás falar nisto e, se és minha amiga, nunca mais me falarás também.
E, dizendo estas palavras, saiu arrebatadamente da sala.
CAPÍTULO XXXIX
Ao abrir as janelas do seu quarto de dormir e ao franquear os pulmões ao ar fresco da madrugada, a Sra. Teresa, a fiel esposa do nosso conhecido João da Esquina, recebera, de mistura com o perfume das flores, que andava nos ares, não sei que cheiro de escândalo, de lhe desafiar a curiosidade.
Para estas coisas tinha inquestionavelmente a Sra. Teresa um sexto sentido, apurado como nenhum dos outros.
Segundo era seu costume, quando percebia em si tais manifestações, pegou na cesta da meia, e veio tomar assento por detrás do mostrador e entre as sacas de arroz da loja do seu marido.
A menina Francisca, aquela mesma trigueira celebrada em octossílabos por Daniel, viera sentar-se também ao lado da sua mãe. Era a primeira vez que tal sucedia, depois dos episódios que terminaram as visitas do estouvado clínico.
Com os seus olhos travessos, e o sorriso malicioso já de volta aos bem talhados lábios, valeu naquele dia aos pais uma afluência maior de fregueses à loja.
A cada nova personagem que entrava, a Sra. Teresa dirigia, com um sorriso de afabilidade, a pergunta sacramental:
— Então que se diz de novo?
E de cada vez esperava achar justificada a voz do instinto de escândalo, que, naquela manhã, tão alto berrava em si.
Por muito tempo foram, porém, malogradas estas esperanças.
Mas, aí pelas nove horas, entrou na loja o sacristão da freguesia, a comprar cigarros — porque o Sr. João da Esquina, como é costume nas terras pequenas, vendia tudo, desde o doce de chá, até à vela de sebo; e os cigarros entravam também na lista dos objetos do seu negócio.
Era este sacristão um rapaz de cara rapada, e tipo de velhacaria, sempre em olhares e suspiros diante da menina Francisca, em quem estes sintomas de afeto não encontravam demasiado agrado.
— Ora aqui vem, quem nos traz novidades fresquinhas — exclamou, ao vê-lo entrar, a Sra. Teresa, que apesar da opinião que lhe ouvimos sobre o poder nutritivo das aparas de hóstias e escorralhas de galhetas, não era, ultimamente, de todo desfavorável às pretensões do sacristão.
— A Sra. Teresa é que mas devia dar — disse este; — pois está mais perto do sítio, onde elas hoje ferveram.
— Não te entendo, Joaquim; então que há? — perguntou, já ralada de curiosidade e pousando a meia, a esposa do Sr. João; e os olhos daquela família toda convergiam para os lábios do homem da sacristia.
Este sentiu-se lisonjeado com as atenções e muito principalmente com as da menina Francisca, cujo olhar fixo por pouco lhe fazia perder a frieza de ânimo.
— Então deveras não sabem do escândalo desta noite?
— Não; que houve? Conta lá isso, Joaquim, conta lá.
E o Sr. João da Esquina, no ardor da curiosidade, e para fazer boca doce ao orador, trouxe-lhe uma mão-cheia de figos secos de uma seira enxertada e rejeitada por freguês pechoso; e a Sra. Teresa esfregou as mãos e agitou-se para ouvir melhor; e a menina Francisca puxou a cadeira, em que estava, para junto do mostrador. O sacristão começou:
— O filho aqui do seu vizinho... O doutor novo...
Neste ponto, despediu olhar certeiro à menina Francisca, a quem um acesso de tosse acometeu; a Sra. Teresa espirrou, e o Sr. João deixou cair não sei o quê e abaixou-se para apanhar o que deixou cair. O orador prosseguiu:
— Pois o tal senhor doutorzinho... Esteve para o levar o diabo esta noite.
— Que me dizes, homem? — perguntou a Sra. Teresa já debruçada no mostrador.
— É verdade.
— Mas como foi isso?
— Foi o irmão, o Pedro, que esteve para o matar.
— Ora, contos! — disse o Sr. João da Esquina, encolhendo os ombros, a afetar uns ares de dúvida, mas dando um pau de canela ao sacristão, que era perdido por gulodices.
— É o que eu lhe digo — insistiu este, chupando a casca aromática.
— Mas então porquê?
— A mim, contou-me esta manhã a tia Brásia, à missa primeira, que o Pedro pilhou o irmão a sair de casa das do Meadas, e disparou contra ele a espingarda. A tia Brásia afirmou-me que tinha ouvido o tiro.
— Agora me lembra que também ouvi um tiro esta noite — disse a Sra. Teresa, e acrescentou com a maior fleuma do mundo: — E matou-o?
— Não, não o matou; mas julgo que o feriu.
— Não se perde nada — disse laconicamente o Sr. João da Esquina.
— E é de perigo? — perguntou, um tanto inquieta, a menina Francisca.
— Sossegue, menina — respondeu o sacristão, despeitado pelo tom de voz, em que ela dissera isto. — Sossegue, que, ainda que lhe tirasse um olho, ficava-lhe outro para ver as raparigas da terra, que todas lhe fazem conta.
A petulância foi repelida por a menina com um gesto de soberano desdém.
— Mas então... — continuou a mãe — diz-me cá, então o Daniel tinha assim entrada em casa das do Meadas? Como se entende isso?
— Ora como se entende isso? Pois não conhece ainda aquele melro?
— Mas era com a Clarita, então?
— Pelos modos, era com a Margarida, ao que dizem, mas... Eu por mim, inclino-me a que era com ambas — respondeu o sacristão com a firmeza do historiador crítico, que decide ecleticamente entre duas versões de um facto controvertido.
— Com a Margarida?! — exclamou João da Esquina. — Pois com aquela cara da nossa Senhora da Soledade... Aqueles ares de santa... Eu sempre vejo coisas!
— São as piores — sentenciou a esposa. — Bem me fio em santidades.
— Não sei como se pode gostar daquilo — disse desdenhosamente a menina Francisca.
— Deixe lá, menina — notou com ironia o sacristão, ainda despeitado. — A Margarida não é para desprezar assim. É trigueirinha, mas nós todos sabemos que Daniel não desgosta delas, ainda mais trigueiras.
Francisca mordeu os beiços ao escutar a alusão e espetou a agulha no novelo das linhas; o pai lançou ao sacristão um olhar furibundo e descarregou com o martelo uma forte pancada nos pintos falsos, que, para escarmenta de velhacos, tinha cravados no mostrador; e a própria Sra. Teresa armou-se de um sorriso constrangido, pouco animador para o sacristão, e ao mesmo tempo apertou nervosamente uma orelha ao gato maltês, que dormitava acocorado junto dela, sobre um saco de arroz.
Muda, mas expressiva linguagem simbólica, que se podia traduzir assim:
A menina Francisca — Tinha alma de te atravessar o coração com esta agulha, maldito.
O Sr. João da Esquina — Não sei o que me contém, que te não quebre com este martelo quantos dentes tens na boca, brejeiro.
A Sra. Teresa — O que tu merecias era um puxão de orelhas, bem puxado, maroto.
No entretanto, o sacristão prosseguia imperturbavelmente:
— A tia Brásia disse-me que há muito que Daniel não largava a porta das do Meadas. E isso é facto. Pelos modos, o Pedro soube-o, e ontem, se lho não tiravam das mãos, dava cabo dele.
— Mas então sempre havia alguma coisa com Clara também? — insistiu a Sra. Teresa, a quem a opinião crítica do narrador agradava, por mais escandalosa.
— Pois isso para mim é de fé — disse o sacristão.
Por este tempo tinha entrado na loja um jornaleiro, o qual, tendo ouvido as últimas palavras do diálogo, percebeu logo do que se tratava.
— Houve mosquitos por cordas esta noite lá para as minhas bandas, houve — disse o homem com sorriso malicioso.
— Ah! Também já sabe? — perguntou o sacristão.
— Ora se já sei! Pois eu não estive lá?
— Ai, pois viu?
E os quatro, que em comum fizeram esta pergunta, fitaram avidamente os olhos no jornaleiro.
— Eu digo-lhe — disse o homem, tirando o chapéu e coçando na cabeça. — Eu tinha chegado de fora, há meia hora. Tinha sido rogado para uns trabalhos aí para longe. Por sinal que me pagaram, como a cara deles. Sempre lhe digo, Sr. João, que isto de jornais está uma pouca vergonha. Deu o que tinha a dar. Eu lembro-me dantes... Mas, vamos ao caso, eu chegava a casa e tinha dito lá, à minha patroa... Que, coitada, também não tem andado lá essas coisas, não — mas tinha-lhe eu dito que me fritasse uns ovos com presunto — e, deixe-me dizer, que os ovos este ano também são uma peste. Parece que deu o arejo nas galinhas. Diabos as levem. Daqui a pouco, da maneira que isto vai, ficamos sem ter que comer e a fazer cruzes na boca. Mas estava lá a minha patroa a fritar-me os ovos... É verdade, ó Sr. João, que diabo de azeite me deu vossemecê, o outro dia, que nem à mão de Deus padre se pode levar?
— Homem, pois ninguém mais se me tem queixado dele. É você o primeiro.
As mulheres e o sacristão começavam a impacientar-se.
— Eu não sei que lhe acho, sabe-me a chapéu velho, o maldito. Mas estava lá a minha Quitéria ao lume, eis senão quando, eu ouço uns gritos de — «Aqui d’el-rei».
— Então eles gritaram «Aqui d’el-rei»?
— Que os ouvi eu, sim, senhor, tal qual. Pus-me logo na rua. Porque eu cá sou assim. Olhe o Sr. João quando foi daquela espera que fizeram ao escrivão da fazenda, eu lá estava.
— Na espera? — perguntou o sacristão, em tom de zombaria.
— Não que eu não sou desses — respondeu o jornaleiro, carregando a sobrancelha; — quando quero fazer mal a alguém, não me escondo. Vou ter com ele, esteja onde estiver; na sacristia, que seja. Ora fique sabendo que pode ser que lhe sirva.
— Então acaba ou não acaba a sua história, Sr. Manuel? — disse a Sra. Teresa, desfazendo a altercação nascente.
— Salto eu para a rua — continuou o jornaleiro — e, como o barulho vinha do lado dos Juncais, tomei por lá. Vi-me em calças pardas. Não fazem ideia como está aquilo nos Juncais. Uma coisa é ver, outra é dizer. Sempre temos uma câmara, louvado seja Deus!
Deixa estar aquele mar nos Juncais... Porque é um mar, sem tirar nem pôr. Eu queria que a Sra. Teresa passasse por lá de noite como eu, que sempre havia de dar ao diabo a cardada.
— Mas depois que viu? — perguntou a Sra. Teresa, exausta de paciência com as intermináveis digressões do orador, e acrescentou baixinho: — Some-te, demo mau!
— Quando cheguei perto da casa das do Meadas, passou por mim um homem e eu meti-me num canto, para, se fosse preciso, agarrá-lo...
— Deixá-lo fugir — concluiu impertinentemente o sacristão, sorrindo.
O Manuel do Alpendre, que era a graça do jornaleiro, nem se dignou responder; continuou:
— Vi que era o Daniel ou o Diabo por ele, mas pareceu-me que o homem levava alguma coisa quebrada. Ia assim como a mancar. Olhe que sempre se vai saindo o tal menino! Eu digo, que se ele escapa de tantas que faz! Mas há gente assim. Uns a cavar pés de burro por esse mundo, outros então a levar a vida com uma perna às costas. Este é um dos que parece ter nascido num fole, o tal Sr. Daniel... Bem fez cá o Sr. João, em lhe fechar a porta na cara, e pôr termo às visitas que ele fazia por aqui; já se sabe porquê, sim, já à boca cheia se dizia...
— Vamos ao caso, vamos ao caso — interrompeu a Sra. Teresa. — Você que fez depois?
— Eu? Segui o caminho e cheguei à porta das raparigas. Estava já lá o Pedro do Abade, o João das Pontes, o tio Gaudêncio das Luzes... Por sinal que anda escangalhado o velho. Perdigão perdeu a pena, não há mal que lhe não venha. Não sei que diabo aquilo é. Eu ponho as mãos numas horas, se o homem deita o ano fora. Quem viver, verá. Mas vai, chego-me a ele... «Ó ti Gaudêncio, digo-lhe eu, que é isto aqui?» — Olha, diz-me ele. — E vai, eu olho e vejo o Pedro das Dornas, com uma espingarda na mão e o Sr. Reitor ao pé dele, e no chão uma mulher...
— Morta? — perguntou com vivacidade a Sra. Teresa.
— Morta não, senhora. A mulher estava viva.
— Mas o tiro que ele deu?
— Eu lá disso não sei!... Pois ele deu algum tiro?
— Pois eu não ouvi um tiro? — disse a Sra. Teresa. — E não fui eu só; houve mais quem ouvisse.
— Que ele tinha a espingarda, isso lá tinha.
— E deu o tiro; não tem dúvida que deu. Mas então era a Clara?
— Nada, não era; era a irmã, a mestra. Eu bem a vi. E vai ao depois, o Sr. Reitor não sei que disse e tal, sim senhores, e pega e vai ao Pedro e manda-o embora e volta-se para o povo, que por ali estava, e manda-o também embora, dizendo que não dessem à língua; e com razão, porque a rapariga é bem afamada e, se se começasse agora por aí a falar... Sempre me há de lembrar que quando a minha mulher...
— Mas o Pedro que disse à saída?
— Não disse nada. Parecia nem dar por a gente. Ia assim a modo de estarrecido. Se lhe parece! Sempre um homem às vezes se encontra nelas boas! Uma ocasião tinha eu ido...
— Mas então está bem certo que era a Margarida a que...
— Ora se era! Pois eu não conheço a Margaridita? Ainda o pai era vivo, quando eu, indo com ele um dia a uma patuscada... Que nós dávamo-nos muito; aí está que, faz pelo S. Martinho doze anos... Dantes é que o S. Martinho era S. Martinho... Lembra-se, Sr. João, daquela vez que nós fomos todos?... Que tempo! Ainda era vivo o tio André de Murtosa... Que homem tão divertido! Aquilo era uma coisa por maior... Pois quando ele ia de serandeiro às esfolhadas! Dantes sim, é que se faziam esfolhadas!... Agora já se não fazem que prestem... Aí está que eu fui no outro dia à do Damião... Pois senhores parecia-me um enterro... Ele também teve fraco S. Miguel este ano... O homem não sabe dar amanho às terras... As terras querem-se bem tratadas, não há que ver... É como uma pessoa; quem não tem o sustento preciso, não pode medrar. Olhem aquela rapariga, filha do João Ferreiro... Quem a viu e quem a vê...
E, de incidente em incidente, corria à vela cheia o pensamento de Manuel do Alpendre pelo vasto mar das suas recordações, afastando-se cada vez mais do assunto primitivo e cada vez desesperando mais a curiosidade do auditório.
O sacristão cortou o fio da digressão.
— Mas aí vem quem nos pode dar informações exatas — disse ele, vendo entrar na loja nova personagem.
Era uma mulher de cor de cera, muito macilenta, de olhos meio fechados e sorriso de beatitude nos lábios. Usava o cabelo curto, penteado para diante da testa, a qual ficava coberta por ele até às sobrancelhas; cingia-lhe a cabeça um lenço branco, posto à maneira de barrete; sobre o primeiro, outro de cor escura, atado por baixo da barba e puxado para diante até deixar-lhe o rosto como no fundo de uma gruta, e, ainda por cima, a capa de baeta, sem cabeção.
Das mãos pendia-lhe constantemente um comprido rosário.
Era enfim um destes tipos de beata, comum nas nossas aldeias; — mulheres, cuja vida se passa em devoções contínuas, em novenas e vias-sacras e em perene confissão; obra dos gordos missionários, que deixam a outros o cuidado de desbravar a gentilidade das nossas possessões, para andar na tarefa mais cómoda de tolher o trabalho e a atividade na casa do lavrador.
Imbuindo o espírito das mulheres de preceitos de devoção absurda, afastam-nas dos berços dos filhos, da cabeceira do marido enfermo, do lar doméstico, para as trazer ajoelhadas pelos confessionários e sacristias; com uma brava eloquência, perigosa para quem não tiver o senso preciso para a achar ridícula, incutem-lhes falsas doutrinas, desmentidas e condenadas em cada página do Evangelho, tão severo sempre contra fariseus e hipócritas.
Numa localidade, não muito distante do Porto, ainda há pouco um desses apóstolos, que andam por aí reformando escandalosamente a moral dos povos, pregou do púlpito «que a salvação de um homem casado era tão difícil, como o aparecimento de um corvo branco».
É triste e desconsolador o aspeto da terra, onde esta praga farisaica tem feito maiores estragos. A alegria do povo, esse reflexo da alegria das mulheres, porque das mães se reflete nos filhos, das esposas nos maridos, das raparigas nos amantes, desaparece pouco a pouco.
Com os trajos escuros, os cabelos cortados, os olhos baixos, as mulheres têm por pecado o rir; o cantar como um crime; ou se cantam, são certas cantigas ao divino, ensinadas pelo missionário, nas quais a austeridade do conceito nem sempre é mais respeitada do que a eufonia da forma. Algumas ouvi eu, em que a vinda dos missionários era saudada com um vigor de imagens, quase oriental; eram arremedos grosseiros do Cântico dos Cânticos, que fariam rir, se se lhes não percebessem piores intenções.
E no meio destas ostentações de ascetismo, quantas vezes se esconde folgada a devassidão, que não duvida ornar o pescoço de camândulas e bentinhos, e vê na excitação nervosa, produzida pelos jejuns, um alimento a favorecê-la?
O horror ao escândalo, eis o que caracteriza esta moral de Tartufo. Salvem-se as aparências, rezem-se as devoções todas, e a culpa será atenuada.
Traz-se, por exemplo, o pulso cingido por uma cadeia de aço, benzida de certa forma — distintivo das escravas da nossa Senhora — cadeia milagrosa, que, asseguram os missionários por lá, tem a propriedade de se alargar ou apertar de per si, de modo a andar sempre justa ao braço quer este engorde quer emagreça; pois já o Diabo não se atreve, contra quem usa desse talismã.
Ora digam se, quando não seja senão para aperrar o Diabo, não dá logo vontade de experimentar a eficácia da cadeia, cometendo um delito?
Era pois a Sra. Josefa da Graça a mais famigerada vergôntea deste viveiro de aspirantes a santas, que se estava organizando na aldeia. O reitor, que não era para imposturas, tratava-as a todas com aspereza, o que não lhe granjeava muitas simpatias neste beato congresso.
— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo — disse ao entrar na loja, e com voz dolentemente melodiosa, a santa de que falamos. — Para sempre seja o Senhor louvado — respondeu-lhe, menos beatamente, a Sra. Teresa.
— Faz-me o favor de me vender duas velinhas de cera para uma promessa que fiz ao Divino Coração de Maria, Sr. João, e que seja pelas Divinas Chagas do nosso Senhor Jesus Cristo.
João da Esquina satisfez prontamente a requisição, mas enquanto o fazia, perguntou:
— Então que houve esta noite lá pelas suas vizinhanças, tia Zefa?
— Eu sei, filho? Eu, de portas para fora, nada posso dizer. Já não é pouco tratar cada um da sua alma e dirigi-la no caminho do céu. O padre José ainda ontem o disse.
— Pois sim; mas, quando se faz muito barulho na rua, sempre se abre um cantinho da janela — disse João da Esquina, piscando o olho para o sacristão, que lhe sorriu em resposta.
— Abrir a janela? Para que há de uma pessoa abrir a janela? Para se meter em trabalhos? Não que eu, filho, todas as noites rezo ao meu devoto padre Santo António, para que me livre de perigos e de trabalhos, de maus vizinhos de ao pé da porta e de ferros de el-rei.
— Mas pelos modos o santo não a tem ouvido, porque enquanto a maus vizinhos...
— Nem por isso a deixam dormir, não é assim, tia Zefa? — perguntou a Sra. Teresa, entrando na conversa.
— Vizinhos... O que se diz vizinhos, não tenho eu; a casa mais perto é a das pequenas do Meadas e dessa à minha ainda é um bocadinho.
— Mas ouvia-se de lá o barulho? — perguntou o sacristão.
A beata fez um gesto afirmativo e acrescentou:
— Olhe, Sr. Joaquim, pecados deste mundo, sabe?
— Vamos lá. A tia Zefa sempre tem inclinação pelas raparigas. São suas conhecidas há muito tempo, e por isso...
— Eu?! Olhe, ainda esta manhã disse ao padre José, aquilo são tentações do demónio; sabe o Sr. João da Esquina o que são tentações do demónio? Pois é aquilo. Não que dizem que não vale nada ser escrava da nossa Senhora. Não, não vale. Lá se está a ver. As coisas estão a saltar aos olhos.
— Mas, afinal que houve? O caso foi com a Clara ou com a irmã?
A pergunta era feita pelo sacristão, por quem a beata tinha suas contemplações, e por isso respondeu:
— Foi com a Margarida, Sr. Joaquim. Aquilo estava de ver! Então admirou-se? Pois olhe, eu... A gente não deve murmurar do seu próximo, mas enfim... Isto é por conversar e não passa daqui. Aquela rapariga vai mal; ainda hoje mo disse o padre José; tirando lá a sua missa ao domingo, já ninguém a vê mais na igreja. Olhe a Sra. Teresa que, ali onde a vê, não quis pertencer à confraria do Sagrado Coração de Maria! Já viram? Mas, como disse o Sr. Padre José, e é assim, a culpa não é dela.
— O nosso Reitor é quem a aconselha — insinuou João da Esquina.
— Julgo que sim, Sr. João, e... Enfim cada um sabe de si, e Deus de todos, mas a falar a verdade... — isto não é agora por dizer mal do Sr. Reitor, que é muito boa pessoa, assim não fosse aquela zanga que ele tem ao padre José e à confraria; mas que ele não as traz bem guiadas, isso não traz.
— Mas vamos a saber — disse, interrompendo-a, a Sra. Teresa, e tomando um tom de íntima familiaridade, que provou admiravelmente em soltar a língua à beata — mas se o caso era com a Margarida só, como é então que o Pedro quis matar o irmão? Que tinha o Pedro com isso?
— Pelos modos — disse o jornaleiro que estivera calado — ele julgou ao princípio que era a Clara. Faz-me lembrar quando, há de fazer três anos...
— Nada, não, senhor, não foi isso — emendou a beata. — O que me disseram foi que a Margarida quis lançar as culpas à Clara, e que foi então que o Pedro espetou a navalha no irmão.
— Então ele espetou-lhe alguma navalha? — perguntou a menina Francisca.
— Pois não espetou? E diz que, por pouco, lhe chegava ao coração...
— Santo nome de Jesus! Isso é crime de degredo, pelo menos.
E, dizendo isto, a Sra. Teresa parecia satisfeita por o escândalo ir assumindo maiores proporções.
O jornaleiro notou do lado:
— Ó tia Zefa, isso é que me não parece verdade. Eu julgo que ele nem o feriu.
— Pois eu não vi, Sr. Manuel?
— Com as janelas fechadas, tia Zefa?!
A beata mordeu os beiços.
— Vi esta manhã o sangue, é o que eu queria dizer. E por sinal não era tão pouco.
— Quem havia de dizer que aquela sonsinha da Margarida... — ponderou o tendeiro.
Neste ponto entraram na loja mais alguns fregueses, que, já informados do que se passara, prestaram logo ouvidos à conversa.
Entre eles achava-se também a criada de João Semana, a qual viera comprar arroz para o jantar do seu amo.
Não foi de todo o auditório a menos atenta esta nossa conhecida; mas uma contração de lábios e sobrancelhas e o olhar que fixou na beata mostravam que não era de ânimo satisfeito, que ela escutava os boatos daquela manhã.
A confessada do padre José continuava:
— Olhe, Sr. João da Esquina, isto de viver assim ao deus-dará, não é lá grande coisa. Aquilo naquela casa é uma república, sabe? Falta ali uma pessoa de juízo e de temor de Deus. O Sr. Reitor... Enfim, eu não quero dizer mais nada.
— Pois é pena — resmungou a Sr. Joana.
— É assim, tia Zefa, é assim. O Sr. Reitor dá toda a liberdade àquelas raparigas. Aquilo mais tarde ou mais cedo estava para suceder — disse a Sra. Teresa.
— Melhor tu olhasses por o que te vai por casa — continuava a resmonear Joana.
— Olhem que mestra de crianças! — observou uma gorda oleira, que viera comprar uma quarta de sabão. — Não, filha minha não mandava eu lá.
— Deixa estar, que contigo havia de aprender boas prendas — comentava ainda Joana.
— Não há de ser a minha que há de lá voltar.
— Nem a minha — disseram algumas das mulheres presentes.
A Sra. Joana começou a ser acometida de uma tosse seca, tão significativa, que desviou para ela as atenções.
Mas a Sra. Joana, na qualidade de governante do velho cirurgião, era na terra uma potência, com que poucos se atreviam a arrostar. Fizeram-se por isso desentendidos.
— E quem vê aquilo então! — disse João da Esquina. — Toda de mantos de seda, toda Santo Antoninho onde te porei.
— Tentações do inimigo mau, sabem? Tentações do inimigo mau, e é o que é. Não que dizem que não serve de nada confessar-se a gente a miúdo e rezar as orações dos missionários...
— Ai, serve para livrar de maleitas depois da morte — respondeu, já em voz alta, a Sra. Joana, preparando-se para sair.
A beata, fingindo não entender, continuou:
— Ainda esta manhã o padre José...
— Oh! — disse expressivamente a criada de João Semana, já da porta.
A beata fitou nela os olhos chamejantes de cólera. Aquela interjeição irritara-lhe os nervos.
— A Sra. Joana tem alguma coisa que dizer do Sr. Padre José?
— E você que lhe importa? — retorquiu-lhe Joana embespinhada, voltando para dentro.
— Eu sempre queria saber...
— Ora meta-se com a sua vida, que não é de muitas canseiras, e não tome tanto fogo pelo que se passa nas casas alheias. Não está mau o descoco! Olhem agora o estafermo.
— Não se zangue, Sra. Joana; lembre-se que a ira é o quarto pecado mortal.
— Dê conselhos a quem lhos pedir, que eu, quando precisar deles, sempre hei de ter, graças a Deus, outras barbas melhores que as suas, para mos dar.
— Presunção e água benta, cada qual toma a que quer — disse a beata, com um sorriso de sarcasmo.
O nariz da Sra. Joana afogueou-se de vermelhidão, sinal de borrasca iminente.
— Ó Sra. Zefa da Graça, repare bem com quem se mete. Olhe que eu não sou da sua igualha, para tomar comigo esses ares de confiança. Veja que lhe pode sair caro o risinho.
— Ninguém falava com a Sra. Joana. Quem não quer ouvir as coisas...
— Então, então, isso não vale nada — disse, intervindo pacificamente, a mulher de João da Esquina.
— Que não vale nada, sei eu — continuou Joana — porque tenho bastante juízo para receber as coisas, como da mão de quem vêm. Mas na verdade que lá custa a uma pessoa estar a ouvir semiscarúnfias destas a porem a baba na fama de uma rapariga, de quem um só cabelo da cabeça vale por todas as beatas fingidas desta terra, por todas de cambalhota, e por o tal padre também.
— Veja o que diz! Depois não se queixe se ouvir...
— Que hei de eu ouvir, sua desavergonhada, sua papa-novenas, que hei de eu ouvir? — exclamava, já de punhos cerrados e olhar cintilante, a irascível Joana. — Eu não tenho medo das verdades, e para as mentiras tenho estas mãos desempenadas, graças a Deus. Diga o que sabe, diga para aí. Não, minha amiga, a mim não me engana você. Cuida que o rosário é fieira de alcatruzes que há de levar ao céu? Está servida.
— Quem chega à missa depois do credo... Não pode falar... — murmurou, já intimidada, a beata.
— E você, sua rata de sacristia, tem alguma coisa com isso? Que lhe importa se eu chego tarde, ou cedo? Não que eu não tenho a sua vida, sabe? Deus, que lê nos corações, bem conhece que não é de propósito que eu... Mas vejam esta santinha, com que atenção está à missa, que repara para quem entra e quem sai. São todas assim. Estas e outras coisas é que elas vão dizer ao confessor. E há de ser isto que há de pôr a boca em Margarida?
— Então julga que é peta o que toda a gente sabe por aí já?
— Não, a verdade deve dizer-se — observou João da Esquina. — É facto que esta noite...
— Histórias! Isso não há de ser tanto como dizem. Sabem que mais? Eu só lhes desejo, aos que tiverem filhas, que Deus lhes dê a elas um bocadinho do juízo da Guida do Meadas. Adeus.
E a Sra. Joana ia a retirar-se.
— Espere, espere — exclamou a Sra. Teresa ofendida — isso que quer dizer?
— Não posso estar a taramelar das vidas alheias, que tenho a olhar por a minha.
E saiu.
Não lhe ficaram fazendo muito boas ausências as mulheres, que se conservaram na loja.
A beata sobretudo espalhou todo o seu fel em palavras acerbas, apesar da costumada doçura de pronúncia, com que lhe saíam dos lábios.
Afinal retirou-se também da loja para ir contar a outra parte o escândalo da noite passada, já mais ampliado talvez.
Dentro em pouco, não se falava em outra coisa na aldeia. Cada imaginação se encarregava de variar o boato...
Houve quem desse Daniel quase morto e o irmão fugido; outros que pelo contrário ungiam Pedro e desterravam Daniel.
De Margarida dizia-se que tinha querido sacrificar a irmã e que esta a punha fora de casa, deixando-a assim a pedir esmola: e mil outras variantes, que o leitor pode conjeturar.
— Este rapaz não acaba bem. Ora verão — concluiu, no fim de tudo isto, o Sr. João da Esquina.
A Sra. Teresa apenas observou:
— Mas como lhe deu para olhar para aquela rapariga? Vejam as grandes bonitezas!
A menina Francisca, inclinada sobre o mostrador da loja, escrevia nele distraidamente, com um gancho do cabelo, diferentes palavras sem nexo, e no fim suspirou.