As Pupilas do Senhor Reitor
Capítulo V · No dia seguinte, que era um domingo,…
No dia seguinte, que era um domingo, vestia-se o reitor na sacristia, para celebrar a missa conventual. Entre as diversas pessoas que assistiam a este acto, avistou ele o nosso conhecido José das Dornas, e a lembrança do ocorrido na véspera surgiu-lhe outra vez ao espírito, acompanhada de todas as circunstâncias desagradáveis que se deram então. Durante a noite, havia o padre, a sós com o travesseiro, tomado uma resolução. Foi pensando nela que, no momento em que José das Dornas se aproximou mais do lugar, em que ele se aparamentava, lhe disse:
— Logo, depois da missa, espera-me lá fora, no adro, que temos que conversar.
José das Dornas fez um sinal de assentimento, e entrou para a capela.
Nada ocorreu durante a missa, que exija especial referência. Foi dita pelo reitor com todas as formalidades do ritual, e escutada pelo auditório, e principalmente por José das Dornas, com respeitosa atenção.
Acabada ela, formaram-se diferentes grupos pelo adro, do qual frondosa alameda fazia, naquela época do ano, um dos lugares mais apetecíveis da terra; José das Dornas trocou meia dúzia de palavras com alguns conhecidos seus. Falou no tempo, no aspeto das searas, nas mudanças de lua, e, pouco a pouco, foi ficando cada vez mais desacompanhado, porque os aldeãos iam dispersando, atraídos pela lembrança do jantar, que os esperava.
Finalmente achou-se de todo só e pôs-se, de mãos nos bolsos, a passear no adro. No entretanto ia fazendo suas conjeturas sobre os motivos que levariam o reitor a mandá-lo esperar, e sobre a natureza da conversação que ia ter com ele.
Estas conjeturas porém não lhe ofereciam solução que o satisfizesse e, muito razoavelmente, acabou o homem por se decidir a esperá-la do entretenimento que não podia tardar.
De facto não tardou. O reitor saiu afinal da sacristia, e dirigiu-se imediatamente para José das Dornas, que se descobriu ao avistá-lo. — Está à vontade, José, está à vontade. Ora... Nós temos que falar a respeito do teu pequeno.
— Então é preciso comprar-lhe mais alguns livros? O que V. S.a vir que...
— Nada, nada. A coisa agora é muito diferente.
— Então?
— É que... Ora escuta, José. Lembras-te de que eu te disse, aqui há tempos, que o rapaz havia de ser padre?
— Se lembra? Muito bem. E eu disse...
— Bem, bem. Pois... Se queres que te fale a verdade... Parece que o melhor... É dar-lhe outra arrumação.
José das Dornas parou e pôs-se a olhar boquiaberto para o reitor.
— Então... O pequeno não tem memória para os estudos?
— Tem, tem, e até de mais. Mas... Ouve cá: esta vida de sacerdote quer vocações decididas. Não as havendo, é um grande erro abraçá-la, e um grande pecado constranger ninguém a segui-la contra vontade.
— Credo! Pois quem diz menos disso? Mas então, acha o Sr. Reitor que o rapaz não terá queda?...
— Hum, hum... — murmurou o reitor. — Parece-me que não tem grande queda, não.
— Valha-me Deus, mas... Porque julga V. S.a isso? E queira perdoar se sou confiado em perguntar.
— Cá por certas coisas.
— E eu que até me parecia que o pequeno fora mesmo talhado para a vida!
— Também eu o julgava.
— O seu gosto era ajudar à missa.
— Olha lá se o vês agora?
— Até pelos seus brinquedos. Olhe que não havia para ele como armar igrejinhas e pregar sermões.
— Isso agora... Enquanto a gostos e brinquedos... Parece-me que houve sua mudança ultimamente.
— Então?
O reitor hesitava em revelar a verdade inteira a José das Dornas; por isso, a esta pergunta, começou ainda a titubear, e respondeu evasivamente:
— Sim... Creio que já se não entretém muito com igrejinhas...
— Ah! Pois sim... Mas... É que agora tem já outras canseiras... Os estudos...
— Ah!... Os estudos... É o que me lembra.
— Olhe, Sr. Reitor — continuava José das Dornas, um tanto incrédulo a respeito da mudança de inclinação do filho — eu, finalmente... Sim... Como o outro que diz... Não sei lá as razões que tem V. S.a para pensar dessa forma... Mas a mim, está-me a parecer que V. S.a se engana.
O reitor tinha atingido os limites da sua grande paciência. Esta dúvida de José das Dornas, ainda que formulada a medo, acabou de resolvê-lo a ser mais explícito.
— E se eu te disser, José das Dornas — exclamou ele, parando e voltando-se para o seu interlocutor — se eu te disser que o teu filho Daniel, apesar dos seus doze, ou treze anos, que será a idade dele, tem já na aldeia a sua conversada?
José das Dornas parou como fulminado.
O reitor continuou o seu caminho.
— Que diz, Sr. Reitor?! — exclamou afinal José das Dornas, atrasado já uns cinco ou seis passos, e na mesma posição em que o deixara a revelação.
— O que sei!... — respondeu o reitor, com eloquente laconismo.
— Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo! Está o mundo roto! Pois o rapaz... Ó Sr. Reitor, palavra, que, se fosse outra pessoa que mo dissesse, eu não acreditava.
— E se eu te afirmar que vi, com os meus olhos, o teu Daniel, sentado no monte ao pé da rapariga, cantando juntos, lendo juntos, e afirmando-lhe o rapaz que nunca há de ser padre, pois queria casar com ela?
— Ora, ora, Sr. Reitor, essa é de mais. Há de perdoar, mas essa...
— E se eu te disser que lhe deu um beijo? — acrescentou o padre, em tom confidencial.
— Um beijo!
— E se eu te disser que ele, todos os dias, me sai da aula às cinco horas, e passa o resto da santa tarde junto da pequena?
— Ora o rapazinho!
— Então já vês que não convém fazê-lo padre. Para dar maus exemplos, temos cá infelizmente bastantes. E quando o pano é assim em amostra, que fará a peça inteira!
— Mas que lhe havemos de fazer agora?
— Se te guiares pelos meus conselhos, aí tens um plano: deixa-te de ordenar o rapaz. Pega nele e remete-mo quanto antes para um colégio, onde lhe não deixem pôr o pé em ramo verde. Fá-lo depois médico... Advogado... O que quiseres e que a ele não repugne...
— Então quer dizer que o mande para Coimbra?
— Para Coimbra?... Eu sei?... Homem, a falar a verdade, semente desta em Coimbra é para dar uns frutos por aí além. Para o Porto, onde ele possa estar sob as vistas dos parentes que lá tens, vai muito melhor. Põe-mo a cirurgião. Eles, hoje, dizem que saem de lá como de Coimbra, e olha que é uma boa carreira. O nosso João Semana está velho, e, morrendo ele, não temos por aqui mais ninguém. Mas é preciso tratar já disso. Impõe-me o rapaz daqui para fora, se queres fazer dele alguma coisa de jeito.
— Mas, ó Sr. Reitor, e quem era a cachopa?
— Isso agora já não é da tua conta. Faz o que eu te digo, e deixa o resto.
E, nestes termos, se separaram os dois, tomando cada um a direção da casa.
José das Dornas ainda esteve por algum tempo impressionado com o que lhe acabara de dizer o reitor.
Há notícias de uma digestão demorada e laboriosa, como a de certos alimentos.
Enquanto ela dura, o espírito não se acha à vontade e como que se agita sob a influência de uma incómoda sensação; mas, pouco a pouco, opera-se um íntimo trabalho assimilador, acalma-se a espécie de febre digestiva, que acompanhara aquela elaboração mental, e tudo entra na ordem. A notícia, que nos impressionara, perde enfim quanto se nos havia figurado ter de estranho; sentimo-nos mais livres, e em mais felizes disposições para encararmos os factos.
Assim aconteceu com José das Dornas: o que, ao princípio, lhe avultara como calamidade, acabou por se transformar numa coisa naturalíssima e engraçada até; o que lhe parecera desmoronamento de um belo edifício em construção, convencendo-o em pouco tempo que não passava de uma reforma preparatória para futuro melhor, e de carrancudo e pesaroso que ficara ao princípio, acabou por se tornar prazenteiro e quase risonho.
— O rapaz sai-me da pele do diabo! Com que, já tinha também a sua conversada! Havia mister! Ah! Ah! Ah! E o reitor atrapalhado! Ah! Ah! Ah! Agora é que eu lhe acho graça! E como ele soube dizer que não havia de ser padre, porque queria casar! Ora o rapazinho! Esperto é ele! Olá! Mas como diabo o ouviu o reitor? A falar a verdade... O pequeno tem razão. Eu, que tão bem me dei com aquela santa, que está no céu, como havia de obrigar um filho meu a não gozar de uma felicidade como a minha? Deixar o rapaz... Quer casar?! Faz ele muito bem. Deus lhe depare uma boa cachopa, que seja mulher de casa... Mas quem seria a tal? Isso é que o padre não diz. Pois hei de sabê-lo. Sempre mandarei o pequeno para o Porto... E que dúvidas? Nas terras grandes é que se fazem os homens... Há de ser cirurgião, se quiser. O reitor lá nisso diz bem. O João Semana está acabado... Padres não faltam... E, com a esperteza do Daniel, era uma pena não fazer dele outra coisa... Ai o rapazinho que é os meus pecados! Ah! Ah! Ah! Some-te! Já tem o sangue na guelra. Madruga!
E, com este monólogo e as mais fagueiras disposições de ânimo, chegou José das Dornas a casa, e jantou com apetite. À mesa lançava, às furtadelas, maliciosos olhares para o filho mais novo, o qual, sentindo-se sob iminente pronúncia, não levantava os seus. O pai a custo podia suster o riso, ao observá-lo.