As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 16 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XXII · N o dia seguinte Daniel voltou. A…

 

N o dia seguinte Daniel voltou. A família Esquina, até sem exceção do elemento masculino, sorriu-lhe cordialmente.

O que fizera esquecer assim ao tendeiro as suas negras apreensões e abrira em sorrisos aqueles sobrecenhos da véspera?

O leitor, que toma a peito, decerto, a varonil rijeza de carácter do tesoureiro da confraria do Sacramento, não me perdoaria, se eu não explicasse o fenómeno.

Foi o caso que, na véspera, depois que Daniel se retirou, a menina Francisca, ainda pensativa e enleada, veio à janela para o ver passar e, ao perdê-lo de vista, retirou-se suspirando.

Este suspiro entrou pelos ouvidos da mãe, a qual chegava à sala naquela ocasião.

A Sra. Teresa teve uma ideia.

Este fenómeno dava-se, de vez em quando, na esposa do Sr. João da Esquina.

— Tem umas maneiras muito bonitas este rapaz — disse ela, fixando na filha o olhar mais investigador que tinha à sua disposição.

— Tem — respondeu esta secamente.

— Ou ele ou o João Semana, a quem ninguém pode tirar da boca uma palavra delicada. Este é coisa mais fina.

— É — replicou a outra.

— Bem mostra que tem vivido entre gente polida e educada.

— Bem — continuava a menina. 

— E não lhe hão de faltar bons casamentos a este rapaz.

— Não — dizia a filha.

— Isso há de ser bonito agora. Todas as raparigas da terra a enfeitarem-se para lhe agradar. Há de ter que ver.

— Há de.

A Sra. Teresa começava a impacientar-se com o laconismo da filha.

— Mas acham-se muito enganadas — continuou ela; — um rapaz assim não cai facilmente. Estas nossas raparigas são umas estúpidas. Louvado seja Deus! Não sabem dizer duas palavras. E desembaraço é o que se quer.

— É...

— E porque não o hás de tu ter, menina? — acrescentou ela, em tom mais baixo e insinuante.

— Eu?

— Tu, sim, porque não? Para que gastou teu pai contigo a mandar-te aprender os verbos, senão para poderes agora mostrar o que és, e diferençar-te das outras?

A menina desta vez nem um monossílabo pronunciou. Encolheu os ombros só.

— Bem se viu que o Sr. Daniel logo conheceu com quem lidava. Cuidas tu que ele se gastava assim com qualquer Maria do Monte? Diz-lhe que sim. Ele bem sabe que seria deitar pérolas a porcos. Por isso, menina, não deixes perder a ocasião. Acredita que darás muito gosto aos teus pais, se...

A Sra. Teresa vacilou ao começar a condicional, em que ela queria conservar a conveniente dignidade materna.

— Se?... — perguntou a filha, e foi este de todos os monossílabos, que até ali tinha soltado, o mais embaraçoso para a mãe.

— Se... Sim... Quero eu dizer que eu e o teu pai não levaríamos a mal se... Um dia, o Sr. Daniel nos viesse pedir a tua mão.

O ar de satisfação, que se desenhou no rosto da esposa do Sr. João da Esquina, mostrou que ela estava contente consigo pela construção final da frase.

A menina, ao ouvi-la, baixou os olhos e devia ver-se corar, se tal fenómeno fosse de possível observação nas faces dela. Enquanto a palavras, limitou-se a balbuciar um «ora!» eloquente de graciosa confusão.

A Sra. Teresa passou à loja onde estava o marido.

— Ó João, olha que nós temos que conversar — disse-lhe ela, sentando-se ao pé do mostrador.

— Vens falar-me do arsénico outra vez? — perguntou o marido inquieto.

— Não; ainda que, para dizer a verdade, não sei porque o não hás de tomar.

— E a dar-lhe!

— Mas ouve. Esta visita do Daniel do Dornas não te deu que pensar?

— Deu-me que pensar, deu. E vou já mandar dizer-lhe que escusa de cá voltar, porque...

— Não sejas tolo, homem! Abre os olhos e vê — exclamou a Sra. Teresa, com ar de mistério.

— O quê? — perguntou João da Esquina, não podendo deixar de abrir instintivamente os olhos.

— Que idade tem o Daniel?

— Eu sei lá?

— Vinte e tantos anos, vá. E que idade tem a Chica?

— Ela nasceu logo depois do cerco...

— Faz vinte e um anos para Setembro.

— E daí?

— E daí? E quanto virá a herdar o Daniel por morte do Pai?

— Eu te digo... Para cima de trinta mil cruzados, não falando em...

— E ainda perguntas: «E daí?»

João da Esquina olhou para a mulher significativamente, e não deu palavra. Tinham-se compreendido os dois.

Passados momentos, murmurou o homem:

— Olha que não era mau, se...

— Vê lá então agora...

— O pior é...

— Pois sim, eu não digo que...

— Mas eles já...? Sim...?

— Não, porém...

— Então quem sabe se...

— Isto é... Até certo ponto...

— É verdade que também...

— Sim, pois está claro, e...

— E mau era que já...

— Com certeza... Demais...

— Agora o que é preciso, é...

— Isso com o tempo... Bem vês que...

Não sei se o leitor penetrou bem o sentido deste diálogo, cortado de expressivas reticências e ao qual falta, para o interpretar, a eloquência do olhar e de gestos, que os dois cônjuges trocavam entre si. É certo que eles se compreenderam assim, e largas horas ficaram discutindo os teres e haveres de Daniel, e as probabilidades e vantagens de uma união entre a casa dos Esquinas e a dos Dornas, as quais, com os anos, podiam fornecer sofríveis elementos para a confeção de um brasão heráldico.

A Sra. Teresa foi encarregada por o marido de excitar na menina o ardor pela conquista e industriada em dirigir o negócio de maneira a «prender o melro por a asa» — foi a frase imaginosa, da qual João da Esquina se serviu.

— O pior há de ser o pai: mas segura-me tu o rapaz, que eu depois tomarei ao meu cargo a empresa — dizia ele.

Conspirados assim os dois, sentiam-se radiosos de esperanças no futuro.

João da Esquina estava de tão condescendente disposição de espírito, que a sua cara-metade aventurou um pedido:

— Agora, para seres bonito, João, devias tomar arsénico.

O tendeiro deu um murro no mostrador.

— Não te calarás com isso, Teresa?!

Aí ficam expostas as razões dos sorrisos, com que o próprio João da Esquina recebeu Daniel, à segunda visita.

A mãe conduziu-o aos aposentos da menina, e teve o discreto cuidado de se distrair à janela, enquanto Daniel interrogava a doente.

O sistema de tratamento encetado continuou, e com igual êxito. Daniel desta vez, ao retirar-se, levava já a autorização para continuar por escrito as consolações, começadas vocalmente.

A Sra. Teresa não deixou sair Daniel sem que ele visse todas as obras de crochet das industriosas mãos da menina e os modelos caligráficos, que escrevera na mestra. De passagem, disse-lhe também que ela tinha aprendido os verbos, coisa que pouca gente sabia na terra.

A Sra. Teresa possuía fé, quase supersticiosa, nesta ciência dos verbos.

João da Esquina quis obrigar Daniel a beber um cálice de vinho, do que ele muito a custo conseguiu dispensar-se.

Da rua, Daniel voltou-se para cima e, vendo à janela a descendente dos Esquinas, cortejou-a com um sorriso cheio de amabilidade.

Um cotovelão da Sra. Teresa fez notar ao marido esta circunstância. O homem conseguiu arranjar um gesto de finura, e recomendou gravidade.

Naquela tarde Daniel, escrevendo a um seu antigo condiscípulo, dizia, entre outras coisas, o seguinte:

«Participo-te que se está desenvolvendo em mim o gosto pelo género campestre. Principio a achar mais dignas do pincel do artista estas formosuras expressivas e, quase direi, enérgicas da aldeia, do que as sempre monotonamente lânguidas maravilhas da cidade. Pena é que o reconhecesse um tanto tarde. Resta-me já pouco alento para empresas de rapaz e, demais, a minha nova posição social obriga-me a uma seriedade que me tolhe a ação. Agora só devo aspirar às doçuras emolientes da vida conjugal. Não obstante, andam-me a tentar uns olhos pretos, e eu não sei se sustentarei o equilíbrio por muito tempo. Encomenda a todos os santos a manutenção da minha sisudez, se não queres ver perdida a fama do teu amigo, no ninho seu paterno.»

As visitas de Daniel a casa do João da Esquina continuaram.

O mulherio da vizinhança falava já.

A Sra. Teresa deixava falar o mulherio. Se isso entrava até nos seus planos!

Uma vizinha, comadre e muito íntima da Sra. Teresa — uma só ocultava à outra o mal que dela dizia pelas costas — falando-lhe um dia, aludiu a Daniel e às suas visitas.

— Então, comadre? Pelos modos o nosso cirurgião novo gosta muito destes sítios.

— Cada um vai para onde mais lhe agrada, comadre.

— Isso lá é assim. E quem sabe o que será?

— Que será o quê?

— Sim, comadre, ele não é de raça que não seja a sua filha.

— Decerto que não é, não.

— Pois então...

— O futuro só Deus o sabe.

— É verdade. O ponto está que a sua pequena... Se ainda lhe não passou aquela cisma que teve para o Chico, sapateiro...

— O Chico, sapateiro! — exclamou indignada a Sra. Teresa. — Não que a minha filha é cabedal muito fino, para ir às mãos de um remendão daqueles.

— Nisso tem razão. Ainda se fosse com o Joaquim, sacristão...

— Qual sacristão, nem meio sacristão. A comadre pensa que uma criatura se sustenta com aparas de hóstias, e com escorralhas de galhetas?

A comadre aplaudiu com uma gargalhada o dito, e observou:

— O das estradas é que... Está feito... Já era assim mais jeitoso, esse.

— Pássaro de arribação! Olhe, enfim não sei o que será. Esta pequena é muito difícil de contentar. Que quer? Está estragada de mimo... Mas, se ela o não enjeitar... Que tem agora ocasião de fazer um bom casamento, isso tem.

— E ele?

— Ele? Pois não vê como o rapaz nos não larga a porta?

— Mas, será... Com boas ideias?

— Ora essa, comadre! Então julga que nós somos...?

— Não digo isso. Mas... Dizem que ele foi um estroina dos meus pecados...

— Pois sim; mas isso é com a gente de pouco mais ou menos, mas nós cá...

Neste estado estavam as coisas e assim duraram alguns dias mais.

Chegou a ocasião da Sra. Teresa julgar ter obtido grande alavanca, para fazer caminhar o negócio.

Houve nesse dia longa conferência entre os cônjuges.

Ficou demonstrado para eles que o «melro estava preso pela asa».

João da Esquina, levantando a sessão, disse com modo solene:

— É ocasião de dar o grande passo!

E, enfiando a sua roupa dos domingos, preparou-se para sair.

Agitava-o certa comoção interior, própria das grandes ocasiões. Queixou-se disto à mulher. Esta observou-lhe:

— O culpado és tu.

— Então? — perguntou o marido.

— Se tomasses o...

João da Esquina não ouviu o resto. Saiu impetuosamente. A Sra. Teresa, vindo à janela, para o ver, dizia consigo:

— Mas porque não há deste homem tomar arsénico?

Que circunstância tinha convocado o conciliábulo conjugal, e o que foi fazer o Sr. João da Esquina, assim ataviado? Vê-lo-emos no capítulo seguinte.