As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 26 de 30

Páginas do PDF

As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XXXIV · Uma noite, depois de dormido o primeiro…

 

Uma noite, depois de dormido o primeiro sono, ergueu-se Pedro, como solícito proprietário, para ir rondar um pinhal, distante de casa, onde, segundo informações recebidas, se tinham ultimamente praticado alguns roubos de pinheiros.

Ao vê-lo sair, o criado mais velho da casa, o mesmo ao qual vimos Daniel disposto a fazer compreender a teoria dos eclipses, quis acompanhá-lo.

— Deixe-me ir consigo, Sr. Pedrinho.

— Vai-te daí, homem; eu não sou nenhuma criança, para precisar companhia.

— Mas...

— Deita-te; já te disse.

E o noivo de Clara saiu, de espingarda ao ombro, e assobiando uma toada popular.

Apesar da quase certeza que tinha de se não encontrar àquela hora com o principal e constante objeto dos seus mais gratos pensamentos, dirigiu o itinerário, com prejuízo da economia de tempo, pela rua em que morava Clara.

É que é já um prazer contemplar os muros, a cujo abrigo se sabe repousar a mulher que se ama; prazer inocente, entre os que mais o são, e que, desde tempos imemoriais, os amantes saboreiam.

Fique a leitora sabendo que, muitas vezes, enquanto dorme, se lhe estão fixando nas janelas, desapiedadamente cerradas e obscuras, os olhos amorosos de algum desses tresnoitados passeadores. 

À medida que se aproximava do lugar, que o obrigara a este rodeio, ia diminuindo Pedro a velocidade da marcha.

Chegou perto do muro do quintal e insensivelmente parou. Lembrou-lhe que bem podia ser que, apesar do adiantado da hora, Clara estivesse acordada, pensando nele talvez. Que amante deixaria de fazer, nas mesmas circunstâncias, iguais suposições?

Como meio de verificação, pôs-se a cantar:

 

Meia-noite, tudo dorme,

Só eu não posso dormir;

Pois não me deixa este amor,

Que me fizeste sentir.

 

Depois de pequena pausa, prosseguiu:

 

Este amor, que é minha vida,

Vida do meu coração,

Atrás do qual meus...

 

A interrupção foi devida a certo rumor, que Pedro julgou ouvir do quintal. Calou-se por isso e pôs-se a escutar.

Tudo caiu em silêncio.

Aplicando, porém, o ouvido à fechadura, pareceu-lhe perceber o murmúrio de vozes abafadas.

— Quem anda aí dentro?! — perguntou em voz alta Pedro, batendo à porta.

Ninguém lhe respondeu.

Continuou a escutar e de novo julgou distinguir o mesmo som.

Ia a interrogar outra vez, mas refletindo, mudou de plano.

Continuou o seu caminho cantando:

 

Este amor, que é minha vida,

Vida do meu coração,

Atrás do qual meus suspiros,

E meus pensamentos vão.

 

E seguiu, cantando assim, até certa distância da casa; depois, retrocedendo, voltou, com todas as cautelas, para junto da porta donde viera o rumor que o estava inquietando.

— Se fossem ladrões — pensava Pedro — que tinham de fazer as pobres raparigas neste sítio solitário e sem braço de homem em casa para as defender?

E este pensamento decidiu-o a não sair dali, sem averiguar aquilo.

O seu estratagema prometia produzir efeito. Desta vez não era já possível a ilusão. As vozes percebiam-se distintamente e como em conversa acalorada, e entre elas, Pedro julgou reconhecer uma de mulher.

Então, sentiu ele um doloroso confrangimento do coração. Uma ideia terrível, súbita e sinistra, como a luz do relâmpago, lhe iluminou o espírito, e, pela primeira vez concebeu suspeitas que o fizeram estremecer.

— Se Clara... — murmurou subjugado por aquela ideia. E um tremor convulso passou-lhe pelos membros com tal violência, que o constrangeu a apoiar-se à ombreira da porta, para não cair. Naquele estado a pulsação febril das artérias das fontes impediu-o de escutar mais nada; o coração palpitava-lhe tão agitado, que o ouvia bater.

O som de vozes tornava-se mais audível, como se se aproximassem da porta as pessoas que assim conversavam.

Pedro levou maquinalmente a mão ao gatilho da espingarda e ficou à espera, com a vista fixa e a respiração reprimida. Era terrível o seu olhar naquele momento!

Ouviu-se o voltar da chave na fechadura, a porta moveu-se lentamente e um diálogo, travado a meia voz, chegou aos ouvidos de Pedro; mas a energia da vertigem, que lhe tomara os sentidos, não lho deixava perceber, senão de maneira confusa.

— Foi para lhe dizer isto, só para lhe dizer isto, que consenti em ouvi-lo aqui — dizia uma voz feminina. — Bem vê que seria uma loucura, se continuasse; mais do que uma loucura, seria um pecado até. Agora espero que cumpra a sua promessa. Mostre que é homem de bem. Adeus.

— Adeus — respondeu-lhe outra voz. — E perdoe-me se não posso ainda dizer friamente esta palavra. Mas verá que saberei emendar-me. Obrigado pela confiança que teve em mim. Adeus.

E, depois disto, um homem, todo envolvido numa capa comprida, saiu da porta do quintal, tendo antes apertado a mão, que se lhe estendia de dentro.

Pedro mal tinha ouvido e mal conseguiu ver tudo aquilo; passavam-lhe pelos olhos como que nuvens de fogo. Correu para este visitador noturno com a impetuosidade, de que o animava a raiva e, apontando-lhe ao peito a espingarda, gritou com um rugido aterrador:

— Alto, miserável! Pára, ou estás morto!

O homem ficou imóvel.

Dentro do quintal ouviu-se então um grito dilacerante e a porta fechou-se, violentamente impelida de encontro aos batentes.

Pedro rompeu para o desconhecido, que recuou diante dele.

— Quem és? Quero conhecer-te antes de te matar, infame.

E como o embuçado cada vez procurasse ocultar-se mais, Pedro lançou-lhe a mão, e, com um movimento rápido, descobriu-lhe o rosto, arrojando ao chão a capa, em que se envolvia. O luar bateu em cheio nas faces do outro.

Reconheceu Daniel.

É inexprimível em linguagem conhecida o que neste momento se passou no coração do pobre rapaz.

— Daniel! — bradou ele, sufocado pela intensidade da comoção que recebera.

Daniel conservava-se mudo e abatido. Dir-se-ia fulminado.

Houve longo espaço de silêncio.

Pedro sentiu que se lhe formava no coração uma tempestade medonha; um raio de razão, que lhe luzia ainda, inspirou-o para dizer em voz, já cava e abafada:

— Por alma da nossa mãe, Daniel, por alma da nossa mãe, sai daqui se não queres que suceda alguma desgraça.

— Ouve-me, Pedro, escuta-me — tentou dizer Daniel, mas as palavras, a custo, se lhe articulavam e a voz prendia-se-lhe na garganta.

— Daniel, foge, foge daqui, se me não queres perder! Foge, irmão! — bradava Pedro e, como que já sem consciência, contraíam-se-lhe espasmodicamente os dedos sobre o gatilho da espingarda.

Daniel ia a falar-lhe ainda, quando sentiu uma mão pousar-lhe no ombro, e em seguida, um homem que, durante o ocorrido, se aproximava do lugar, veio interpor-se entre ele e o irmão.

— Retire-se — exclamou este homem com voz severa, voltando-se para Daniel. — Eu tinha previsto esta desgraça!

Era o reitor.

Ia a dirigir-se depois a Pedro, mas já não o encontrou ali.

O padre estremeceu.

— Meu Deus, é preciso evitar algum crime. O rapaz vai louco.

Pedro batia violentamente com a coronha da espingarda na porta do quintal, que pouco tempo lhe poderia resistir. Daniel, vendo-o, ia a correr em defesa da mulher, cujo futuro perdera talvez irremediavelmente.

O padre susteve-o com energia, pouco de esperar daquela idade avançada.

— Retire-se — bradou com voz vibrante e exaltada. — Não está ainda satisfeito com a sua obra? Quer acabar de perder aquela pobre rapariga?

— Mas ele vai matá-la.

— Estou eu aqui para velar por ela. Cabe-me esse direito, que me foi conferido pela sua mãe no leito, onde agonizava. Retire-se!

O reitor naquele momento transformara-se; sublimara-se a ponto de exercer império completo na vontade de Daniel; no olhar do velho parecia haver não sei que influxo magnético, que obrigou Daniel a baixar a cabeça e a retirar-se, constrangido por irresistível impulso. Pedro tinha arremetido contra a porta do quintal com verdadeira desesperação. Um pensamento sinistro o dominava; a raiva do ciúme e da vingança perturbava-lhe a razão.

Afinal a porta cedeu. Pedro penetrou no quintal como verdadeiro louco; empeceu-lhe porém os passos uma mulher, que lhe caía aos pés, bradando:

— Pedro, Pedro, não cause, não queira causar a minha perdição!

Este grito fê-lo recuar. À voz desta mulher, que o implorava assim, Pedro passou da agitação do delírio à imobilidade do letargo.

— Que é isto? — bradou enfim, como ao acordar de um mau sonho. — Margarida aqui?!

Era efetivamente Margarida a mulher, que de joelhos e mãos erguidas lhe jazia aos pés.

Desenhava-se no rosto da simpática irmã de Clara o mais violento desespero; e quem sabe o que lhe ia no coração!

Era pois Margarida a que tivera a entrevista com Daniel? Esta abençoada suspeita iluminou pela primeira vez as trevas do espírito atribulado do pobre Pedro! Abençoada lhe chamei, pelo conforto que gerou; porque, na horrível tortura de coração daquele desgraçado, foi um bálsamo consolador.

— Margarida — disse-lhe ele, trémulo de incerteza e de esperança — fale-me a verdade. Em nome de Deus, diga-me; quem estava aqui com Daniel? Diga-me, diga-me tudo, pelo Salvador!

Houve um momento de silêncio. Margarida parecia hesitar; por fora da porta apareciam já alguns rostos de curiosos, que chegavam atraídos pelo ruído.

— Quem estava aqui com Daniel? — repetia Pedro.

Na alma de Margarida alguma coisa se passou de terrivelmente doloroso, que quase a fez desfalecer.

Fechando os olhos, como quem adota uma resolução desesperada, como quem se despenha num abismo, respondeu com voz trémula, mas perfeitamente inteligível:

— Era eu!

A turbação em que estava não lhe impediu de perceber o sussurro de vozes que, de fora da porta, acolheu esta resposta.

Pedro, alheio a tudo o que o rodeava, ergueu as mãos para o céu; e rebentando-lhe as lágrimas dos olhos, exclamou:

— Bendito seja Deus! Sirva de remissão dos meus pecados o tormento destes poucos instantes!

Quando o pároco chegou, encontrou-os nesta posição.

Caminhou com rosto severo para a mulher que via ajoelhada, mas recuou também, espantado, ao reconhecer Margarida.

— Margarida! Pois era?... — O reitor suspendeu-se, antes de concluir, como se um pensamento súbito lhe ocorrera. — Não pode ser, não pode ser. — E aproximando-se de Margarida, tomou-lhe o braço com energia, bradando-lhe: — Que quer dizer isto, minha filha? Que fazes tu aqui?

Margarida juntou as mãos e, olhando para o reitor com expressão particular, respondeu:

— Peço misericórdia!

— Para que culpa, minha filha?! — perguntou o padre, que não tirava os olhos dela.

— Para a minha...

— Para a... Entendo! — disse ele, como falando para si. — E devo eu consentir que?... Talvez que tenhas razão — continuou, fitando Margarida com olhar de bondade e quase de respeito, e acrescentou a meia voz: — Seja como quiseste, como Deus to inspirou decerto. — Depois, voltando-se para Pedro: — E que tens mais que ver aqui, homem?

— Tenho que pedir perdão a todos.

O reitor empurrou-o amigavelmente pelos ombros, dizendo-lhe:

— Vai, vai. Deixa isso para outra vez. Não temos agora vagar para justificações.

— Mas, Sr. Reitor...

— Então! Vai para a tua vida, Pedro. E não me andes mais de espingardas, que são más companhias.

Dando depois com os olhos nos poucos espectadores desta cena, que se conservavam boquiabertos à porta, exclamou todo irritado:

— E vocês que fazem aí, pasmados? Quem vos chamou cá? Não sois tão prontos para o trabalho. Andar! E ter cautela com a língua. Ouviram?

Pedro saiu cabisbaixo. Os grupos dispersaram-se.

Logo que os viu retirar, o padre levantou Margarida, que se conservava de joelhos quase exânime, e disse-lhe comovido:

— Foi um sacrifício heroico, Margarida, para o qual poucas teriam fortaleza.

— Um sacrifício?!...

— Sim, não é a mim que iludiste, filha, que te conheço bem e há muito. Vai ter com a verdadeira culpada...

— Não a condene, Sr. Reitor; o seu anjo bom não a abandonou, ainda desta vez.

— Bem sei — respondeu o reitor. — Pois não te vejo eu aqui? Mas vai e acaba a tua obra abençoada, confortando-a e chamando-a ao caminho do arrependimento. Eu também tenho a minha tarefa. E dou graças a Deus por ter permitido que os meus deveres paroquiais me conservassem por fora até estas horas. Até amanhã, minha filha.

E o reitor saiu, mas em vez de tomar o caminho de casa, voltou em direção oposta. 

CAPÍTULO XXXV

 

A cena a que, um tanto imprevistamente, fizemos, no último capítulo, assistir o leitor, exige de nós algumas palavras de explicação. Releve-se-nos portanto a rápida digressão retrospetiva, em que vamos entrar.

Daniel, como tínhamos dito, prometera a si próprio falar, uma vez ainda, a Clara, para atenuar a má impressão que a sua última entrevista pudesse ter deixado no espírito da rapariga, e inspirar-lhe de novo a confiança perdida.

Parecerá talvez um meio singular este de corrigir os efeitos de um passo imprudente por outro mais imprudente ainda; mas a razão humana, sofismando com a maior candura do mundo, concebe muitas vezes projetos assim.

Em Daniel, sobretudo, eram frequentes estas resoluções irrefletidas. Inspirava-lhas um sentimento de mal fundado brio; mas nem sempre era bastante a força do seu carácter para briosamente as sustentar até ao fim.

Não aprendera ainda a desconfiar de si, a ponto de fugir, como devia, a essas ocasiões de tentação.

Foi por isso que, esquecido já das suas promessas a Clara, renovou outra vez os antigos passeios pelas circunvizinhanças da casa dela, sempre com esperança de obter a entrevista, que imaginara necessária à reivindicação do seu crédito.

Clara evitava porém todas as oportunidades de se encontrar com ele; constrangendo-se até para isso a estreita reclusão. 

Depois da cena da fonte, prometera ela a sua irmã e ao reitor não falar mais com Daniel, até estar efetuado o casamento, que o pároco mais que nunca procurou acelerar.

Assim, todas as tentativas de Daniel para vê-la e falar-lhe, ou na rua ou na janela, saíam-lhe baldadas.

Longe de o desanimar este mau êxito, antes o estimulou, e, irritado pelas dificuldades que encontrava, formou resolução mais audaz.

Um dia, entrando no quarto, Clara encontrou no chão e próximo da janela, que deixara aberta, um papel dobrado.

Abriu-o e leu. Era um bilhete de Daniel a pedir-lhe, nos termos mais respeitosos, uma entrevista — a última. Alegava, em favor da sua pretensão, o não poder resignar-se à desconsoladora ideia de ser mal conceituado de Clara; prometia e jurava respeitá-la como irmã, pois como tal a considerava já; e acrescentava que não deixaria de a perseguir, até que ela condescendesse a escutá-lo. Se receava, dizia ele no fim, que essa entrevista desse lugar a interpretações injuriosas, regulasse e impusesse ela as condições debaixo das quais a concederia.

Esta carta, que não primava em laconismo, parecia, em boa lógica, dispensar a entrevista requerida, e na qual, pouco mais restaria a fazer do que desenvolver o tema, já tão extensamente assim parafraseado por escrito. Mas a lógica não domina de ordinário situações daquelas.

Clara não respondeu ao bilhete e continuou, mais que nunca, a evitar Daniel.

Da parte deste continuaram pois as imprudências, às quais servia de novo estímulo, o despeito, esse poderoso fermento de paixões nas almas mais sujeitas a elas.

Outro bilhete, recebido por Clara da mesma maneira, instava ainda com maior veemência pela entrevista pedida.

Clara esteve para referir tudo a Margarida, mas faltou-lhe o ânimo.

Este estado de coisas continuou por algum tempo mais; até que um dia Clara, animada da confiança em si, que não perdia nunca, e da boa-fé, que depositava nas conversas dos outros, resolveu consentir em escutar Daniel.

Não lhe prometia ele ser essa a condição indispensável para a não perseguir de novo!?

— Acabe-se pois este constrangimento em que vivo — dizia ela. — Que posso eu recear? A minha boa estrela não me abandonará.

Formada esta resolução, seguia-se regular a maneira de a levar a efeito.

A curiosidade pública trazia muito vigiada a casa das duas irmãs; era pois difícil iludi-la. Demais, a promessa feita ao reitor e a Margarida embaraçava Clara. Daí, diversos expedientes lembrados, pesados e postos de lado, até enfim terminar pela adoção do pior de todos.

O excesso de prudências e de cautelas conduz muitas vezes a imprudências mais perigosas.

Clara comunicou a sua resolução a Daniel; este, exultando pela confiança que nela via transluzir, agradeceu-lha com efusão e prometeu a Clara, e a si próprio, mostrar-se digno dela.

Assim se preparava a entrevista, cujos resultados o leitor conhece já.

Margarida porém que, observando as recomendações do pároco, continuara a espiar a irmã, não era de todo alheia ao que se passava.

Naquele dia sobretudo julgou perceber nos modos de Clara certa preocupação, que a fez mais vigilante.

Eram Trindades quando Margarida ia, como costumava, fechar pelas suas próprias mãos a porta do quintal. Clara não lho permitiu; e com tal instância teimou em se encarregar desse cuidado, aquela noite, que Margarida teve pressentimento do que se estava preparando. Isto obrigou-a a ficar a pé, depois de se recolher no quarto.

Apagou a luz, para que lhe não suspeitassem a vigília, e não abandonou a janela.

Passado tempo, viu — e com que amargor da alma! — confirmadas as suas suspeitas. Clara saía furtivamente de casa. Margarida não hesitou; e com passos incertos e o coração oprimido de tristeza seguiu-a, sem ser sentida. Valeu-lhe para isso a espessura das árvores que orlavam os arruados do quintal.

Naquele momento, a mais comovida das duas não era decerto Clara.

Enfim ouviu-se o ruído de passos na rua exterior; a porta abriu-se e Daniel apareceu.

A impressão, que neste momento experimentou Margarida foi tal, que quase a fez sucumbir.

Cedo porém a reação daquela vontade enérgica, apesar de feminil, dominou a luta. Margarida continuou a observar. Daniel, ao princípio, foi grave e mostrou-se fiel à promessa que fizera; mas, pouco a pouco, influíram nele as condições singulares daquela entrevista. As palavras ganharam fogo e, em breve, animava-as já o entusiasmo impetuoso dos vinte anos. Esquecia-se que viera para justificar-se, e ia agravando a culpa.

Clara, escutando-o, não conseguiu disfarçar completamente a turbação que a dominava; mas foram sempre dignas da noiva de Pedro as palavras com que lhe respondia; assim a não traísse o tremor da voz, a ânsia do respirar e, mais que tudo, o facto de se achar ali, só, àquela hora da noite, embora lhe atenuasse o delito o pensamento de generosidade, que a animara a cometê-lo.

Mas os instintos nobres de Daniel só por momentos se deixavam adormecer com as insidiosas carícias da fantasia; pouco bastava para os acordar vigorosos.

Desta vez produziu esse efeito salutar a cantiga de Pedro.

Escutando-a ambos se sentiram arrependidos de se acharem ali. Viram claro toda a futilidade de motivos que, momentos antes, para eles justificavam de sobra este passo irrefletido, e curvaram a cabeça.

— É meu irmão — murmurou Daniel; — que fará por aqui a estas horas?

— Trazido talvez pela mão de Deus para... — disse, quase para si, Clara, no mesmo tom de voz.

— Adeus, Clara; perdoe e esqueça mais esta imprudência minha. Prometo-lhe que será a última. E de hoje em diante...

— Adeus.

Foi neste momento que Pedro os interrompeu pela primeira vez.

O resto já é sabido.

Quando, no momento em que Daniel saía, Clara reconheceu a voz do noivo, soltou um grito de terror, e fechando instintivamente a porta, caiu desfalecida na rua do quintal.

Foi então que Margarida correu, que a arrastou nos braços para longe daquele sítio, e depois, sacrificando a sua reputação ao futuro da irmã, veio aos pés de Pedro, como a verdadeira culpada.

O conceito que Pedro formava do carácter de Margarida não o tinha deixado imaginar sequer que pudesse ser ela a que aceitara a entrevista com o irmão. Apesar de todo o seu amor por Clara, era maior ainda a confiança que depositava em Margarida.

O que viu depois espantou-o, mas deu-lhe grande alívio.

Clara ignorou tudo quanto ultimamente se passara, pois, durante todo esse tempo, não recuperara os sentidos. A noite toda levou-a num quase delírio, no qual imaginava ver Pedro e Daniel, travando uma luta fratricida.

Margarida, velando à cabeceira da doente, torcia as mãos de desespero.

— Meu Deus! Meu Deus! — dizia ela. — Se lhe não passa este delírio, tudo está perdido. Pedro saberá a verdade.

Pela madrugada, porém, Clara sossegou; um sono reparador acalmou-lhe a febre e, após ele, só lhe ficou o abatimento e a palidez geral, que denunciavam a crise terrível que tinha vencido.

Margarida, ao despertar do sono, também inquieto, porque mal passara, encontrou-a acordada e já aparentemente tranquila. Receando renovar-lhe a crise, em nada lhe falou. Clara olhava-a em silêncio, mas como que não ousava também interrogá-la.

Afinal fez um esforço, fitou na irmã os olhos, arrasados de lágrimas, e disse com desalento:

— Tudo está acabado! De hoje em diante, todos me apontarão ao dedo e me chamarão uma rapariga perdida.

Margarida não pôde também reprimir as lágrimas.

— Que estas a dizer, Clarinha? Foi mau o passo que deste, foi; mas sossega. Eu que te ouvi, sei que estás inocente.

— Ouviste?

— Tudo. Eu sabia.. Suspeitava a verdade.

— Mas ele..

— Ele.. Pedro? Nada sabe ainda.

— Nada sabe! Queres enganar-me, Margarida? Pois não surpreendeu ele o... Outro, quando...

— Mas ignora que fosses tu...

— Então quem julga que era?

Margarida calou-se embaraçada, e desviou a vista do olhar fixo da irmã.

— Não sei, mas... Tenho a certeza de que ele não suspeita já de ti... E sabes? É preciso fazer agora por te levantares e alegrares-te para que, se ele vier por aí, não conheça, ao ver o estado em que estás, a verdade, ou suspeite mais do que a verdade, que é ainda muito pior. Vamos; veste-te; foi uma nuvem a de ontem; uma nuvem que passou. Hoje está um sol tão vivo — acrescentou, abrindo as portas das janelas — que dá força e alegria. Vê. Ora anda, levanta-te.

Enquanto Margarida assim falava, Clara parecia engolfada em profunda abstração. Afinal, como se nada tivesse percebido de quanto ultimamente Margarida lhe dissera, exclamou com vivacidade:

— Guida, eu quero saber como isto é. Pedro soube que estava uma mulher ontem à noite no jardim. Se, como dizes, ele não suspeita de mim, de quem pode pois suspeitar?

Margarida não respondeu e baixou os olhos perturbada.

— Guida, diz-me a verdade — continuou Clara mais inquieta já. — Pedro julga-me inocente?

— Julga.

— Quem é pois aos seus olhos a culpada?

A confusão de Margarida serviu de resposta.

De pálidas que estavam, tingiram-se então de um rubor de indignação as faces de Clara. Meia erguida no leito, os olhos animados, os lábios trémulos, exclamou:

— Ele suspeita de ti! De ti! Margarida? Pedro suspeitar de ti! E pôde ter um pensamento... E pôde imaginar que tu serias... Atreveu-se a acusar-te! Ele? Pedro! Mas, diz-me, Guida, diz-me. Como fez ele isso? Quem lhe deu esse direito?

— Fui eu.

— Tu!

— Sim, fui eu. Não lho poderia eu dar? — acrescentou Margarida, quase sorrindo e afastando os cabelos desordenados, que cobriam a cara da irmã.

— Entendo. Perdeste-te para me salvar. Limpaste com os teus vestidos a lama dos meus, para me apresentares pura aos olhos do meu noivo, que com razão me supunha culpada! Entendo. Viste-me perdida, e fizeste como aquela criança que, há tempos, se afogou para livrar um irmão da corrente; salvaste-me, mas afundando-te. E havia eu de consentir isto, Margarida? Tão má ideia fazias tu de mim, para imaginares que eu te aceitaria nunca o sacrifício? Ó Guida, de mim aceitarias tu sacrifício igual? Não: quero que o Pedro saiba tudo; que me perdoe ou que me despreze depois; a uma ou outra coisa me sujeitarei; mas a sacudir sobre a tua cabeça a vergonha que chamei sobre mim, oh! Isso...

Margarida tomou-lhe infectuosamente as mãos e, em tom persuasivo, pôs-se a dizer-lhe:

— Ora escuta, Clarinha. Hás de primeiro ouvir-me com muito sossego e muito juízo, e depois dirás se eu tenho razão. Queres contar a verdade a Pedro, dizes tu. Que fazes com isso? Torná-lo infeliz, fazes com que entre ele e o irmão exista sempre, daí por diante, motivo para aversão; e a ti, que amas Pedro, apesar de uma leviandade de momentos, e a mim, que te amo, e a nós ambos e a todos vais fazer infelizes. Eu que posso perder em que Pedro continue na mesma suspeita? Se ninguém mais a tem? — forçou-se ela a dizer, mas baixando os olhos, porque bem sabia que mentia. — Ele não é capaz de a divulgar. E depois, olha, Clarinha, quem nunca pensou em grandes futuros, não tem que ter saudades de projetos desfeitos. Eu já não formo projetos, há muito; acredita. Cansei-me. Hoje recebo tudo da mesma maneira. E olha — continuou sorrindo — que dentro em pouco, chego a não diferençar o que é bem do que é mal. Tenho-me feito assim. Que lhe hei de eu fazer? Mas tu, minha pobre irmã, que ainda fazes tantos projetos, não te custaria a perder o mais risonho de todos? De mais a mais, eu tenho uma dívida antiga a pagar-te, e não sossego enquanto a não pago. Lembras-te quando me vinhas ajudar nas tarefas, e repartias comigo a tua ração de merenda? São serviços que nunca mais esquecem. Deixa-me pagar-tos da maneira que posso. Se soubesses como é uma consolação para os pobres achar um meio de saldar as suas dívidas! Então, vamos, prometes não dizer nada?

— Guida, Guida! O que me pedes é impossível. Seria um grande pecado, se eu deixasse assim a outra expiar a falta que é toda minha.

— Clarinha não vês que, de outra sorte, causas a desgraça de tantos?

Clara levou as mãos às faces e calou-se.

Neste tempo o reitor entrara de mansinho na sala. Pousara o chapéu e a bengala e pusera-se a contemplar as duas irmãs, que lhe não sentiram a entrada.

Passado algum tempo de silêncio, Clara levantou de novo a cabeça e, com voz lacrimosa, exclamou:

— Pois deverei aceitar este sacrifício, meu Deus?

— Deves — respondeu o reitor, adiantando-se. — É necessário respeitar as inspirações dos anjos como este! — e apontava para Margarida. — Eu também hesitei, ao princípio, mas, depois que julguei melhor, resolvi obedecer-lhe. A minha filha, o que se passou na noite de ontem, tem-no por um aviso do céu. Dá graças a Deus, por te não haver abandonado a tua boa estrela e Faz por nunca mais incorrer num perigo daqueles. Mas aceita; não é só a tua felicidade que recebes do sacrifício da tua irmã, é a de Pedro e a de uma família inteira, é a da própria sacrificada; pois não é assim, Margarida?

— Se for preciso que lho peça de joelhos... — respondeu a bondosa rapariga.

— Não há de ser. Agora vou procurar Daniel. A Pedro já eu confortei. Consegui dissuadi-lo de vir aqui, porque suspeitei que a sua vinda podia ser funesta, enquanto se não desvanecessem naqueles olhos todos os sinais de lágrimas. Daniel não o pude encontrar ainda. O pobre rapaz errou toda a noite por esses caminhos e Deus queira...

— Jesus, meu Deus! — exclamou Margarida, fazendo-se pálida. — Acaso receia que ele?...

— Tenho fé que nenhuma desgraça sucederá; mas é mister olhar por isto. Adeus. 

CAPÍTULO XXXVI

 

As vagas apreensões do reitor, em relação a Daniel, comunicaram-se a Margarida, e nela adquiriram maior intensidade. As afeições arreigavam-se profundamente naquele bom coração; baldado era impedir que viessem à luz e florescessem; a cada momento, recebiam elas uma vida nova e desenvolviam-se, como estas árvores que, cortadas todos os anos, rebentam a cada primavera, brotando jovens renovos.

Vão lá cobrir de gelo um coração assim. Tem vida de sobra para todo o fundir em lágrimas e inflamar-se depois ainda.

Tendo salvado a irmã, a generosa rapariga só tinha, agora, orações para pedir ao Senhor a salvação de Daniel. De si esquecera-se! — sublime esquecimento!

Cumprindo o que dissera, pusera-se o reitor em caminho, a procurar Daniel. Levava o coração apertado o bom do pároco, ao atravessar os lugares, onde, segundo os seus cálculos, mais provável seria encontrá-lo.

Muitos desses lugares eram os mesmos, que, há anos, seguira com uma intenção análoga, — a de espiar os passos do seu pequeno discípulo, que já então mostrava o que viria a ser.

Lembrava-se agora o reitor daquele dia, e de como fora encontrar o rapaz no mais remoto sítio da aldeia, em diálogo pueril com a pequena pastora, que hoje, por notável coincidência, tão intimamente se achava ligada ao seu destino. 

Não sei que ideias associadas estas trouxeram consigo, que, muito contra o que era de esperar, o reitor pôs-se a sorrir.

Dir-se-ia que estava entrevendo um desenlace feliz a todo este enredo e que, a pensar naquilo, se esquecera das críticas circunstâncias presentes.

Mas as ideias negras voltaram cedo a assombrar-lhe o rosto.

— Que será feito do rapaz? — dizia o padre consigo. — Esta gente da cidade é tão sujeita a loucuras! É ver aquele infeliz de que falaram as folhas do Porto, que, não sei porque histórias de amores, se atirou das Virtudes abaixo. Quem me diz a mim que Daniel... Num momento de desespero... A nossa Senhora nos valha! Mas tem-se visto coisas!... Que génio aquele! A quem sairá este rapaz? A mãe, uma santa mulher, o Senhor a tenha em glória; o pai, um homem sério... Mas, na verdade, dá-me que pensar este desaparecimento! Ele não dormiu em casa... Não teve ânimo de se encontrar com o irmão talvez... Santo António nos acuda! Quem sabe se iria para o Porto? Pode ser. Antes fosse.

Ia pensando nisto o velho pároco, quando, ao tomar por a ponte de madeira, que atravessa um despenhadeiro, de cujo fundo pedregoso chegava aos ouvidos o fragor medonho de uma torrente, se encontrou, face a face, com o objeto da sua pesquisa.

Passou um calafrio pelo reitor ao ver Daniel naquele lugar e ao reparar-lhe para as feições.

Daniel estava excessivamente pálido e com o rosto desfigurado pela vigília e, mais ainda, pelas angústias de espírito, que naquela noite o torturaram.

Olhava com a vista espantada e numa espécie de fascinação o abismo, a que ficava sobranceiro, e parecia atento a uma voz interior, que o impelia ao suicídio.

O reitor parou, fixando nele o olhar perscrutador.

— Que faz aqui? — perguntou-lhe, segurando-o com força pelo braço, como se pretendesse desviá-lo do precipício.

Daniel levantou para o padre os olhos entorpecidos e em seguida, baixando-os de novo para o fundo do despenhadeiro, respondeu com uma frieza, que fez estremecer o velho:

— Estava a fazer contas comigo mesmo; assistia ao meu julgamento.

— Ora vamos. Não seja criança. Deixe-se de loucuras. Venha-se embora. Não queira fazer a infelicidade dos mais, dos que o estimam, já que a sua lhe merece tão pouca importância. Lembre-se do seu pai, e veja lá se quer pagar-lhe assim os sacrifícios que tem feito por si. Venha comigo.

— Sr. Reitor, não se ocupe de mim. Repare que está falando com um miserável. Não creia que me pode regenerar pelo arrependimento. Eu sou relapso. A minha alma fraca sabe sentir, mas não sabe vencer-se. Sabe sentir, disse eu? Nem isso. Em mim já se apagou todo o sentimento moral.

— Não diga blasfémias. Filho, não descreia assim. A fé é o primeiro passo para a regeneração de que fala.

— A fé? Agora?... Tenho-a na quietação da morte.

E outra vez fitou a vista na torrente.

— Chama quietação à morte? Engana-se; depois dela é que começa muitas vezes o maior movimento, o movimento sem fim, sem remissão, o eterno. Mas oiça, Daniel; eu concebo o desespero do seu coração neste momento. Pesa-lhe o que fez? Tanto melhor. Não o quisera ver tão endurecido, que dormisse tranquilo depois das cenas desta noite. Sente doloroso o pungir dos remorsos; pois é essa a porta aberta à expiação.

— Remorsos! E daqueles que só acabarão, quando este amaldiçoado coração deixar de bater.

— Que durem como preservativo de novas loucuras, e não virá mal daí. Mas escute: julga haver destruído o futuro do seu irmão, imagina que lhe espremeu a esponja do fel no copo, que o pobre rapaz preparava para levar aos lábios? E assim esteve para ser; e, se fosse, também eu não sei que vida se prepararia para esse seu coração incorrigível. Mas tranquilize-se; Deus foi misericordioso; enviou um dos seus anjos protetores. Tudo está salvo.

— Salvo?! Que salvação pode haver para mim? Como desviar a desgraça iminente sobre as cabeças deles?

— Então não lho estou eu a dizer? Esquece-se das asas do anjo? Clara foi protegida por elas. Pedro ignora que fosse a noiva dele a que esteve no jardim a noite passada.

— Não queira iludir-me; Pedro surpreendeu-me quando...

— Bem sei. Mas não a viu.

— Não se precipitou ele contra mim com a raiva do ciúme?

— A estas horas, está arrependido.

— Arrependido! Não o vi eu ainda correr, cego de paixão, para o quintal? Diga-me o que sucedeu depois; Clara...

— Já não estava lá, quando ele entrou.

— Pedro?...

— Retirou-se passado tempo, manso e pesaroso.

— Mas...

— Numa palavra, Pedro julga haver-se enganado.

— Enganado? E como podia enganar-se?

— Sendo outra a mulher da entrevista.

— E quem mais podia ser?

— Margarida, a irmã mais velha de Clara.

— Mas ela pugnará pela sua inocência.

— Pelo contrário. Foi ela quem se acusou.

— Ela?! E levou-a a isso?...

— A felicidade da irmã leviana, mas não criminosa, cujo futuro viu ameaçado.

— E existem ainda anjos assim neste mundo, Sr. Reitor?

— Existem, existem, homem descrente e desalentado, existem — respondeu o padre com gesto severo — e sirva-lhe esse exemplo heroico, para lhe dar crença e fortaleza.

— E há quem lhe aceite a abnegação?!

— Assim é preciso. Ninguém a pode recusar, sem sacrificar alguma coisa, além da própria felicidade.

Daniel calou-se. Olhou mais uma vez para a espuma da torrente; mas eram já menos poderosas as seduções do abismo. Levantou depois os olhos ao céu e, a meia voz, disse, quase só para si:

— Como me sinto pequeno e miserável, diante daquele exemplo! E há quem julgue em decadência moral o mundo, ao qual descem ainda almas assim!

E calou-se outra vez.

O reitor observava-o.

Depois de algum tempo de silêncio, o padre, pousando a mão no ombro de Daniel, disse-lhe afavelmente:

— E porque não pede a essa alma, que admira tanto, um pouco da sua angélica fortaleza? Porque não procura purificar a natureza, demasiado terrena, do seu malfadado coração, na abençoada influência dela?

— E ser-me-á concedido?

— É; siga-me — respondeu o reitor, não disfarçando o seu contentamento. E, dirigindo o caminho, prosseguiu: — Talvez que, vendo-a, tenha memórias a avivar. Mas oiça-me, Daniel, se, como diz, desconfia do coração — e tem razão para isso — faça por o subjugar e deixe dominar a consciência, a consciência, que ontem mesmo, através da loucura — que foi loucura decerto aquilo — que ontem mesmo lhe devia estar exprobrando o seu mau proceder. Agora veja também como se apresenta ao seu irmão. Olhe que é necessário que ele viva na crença em que está, ou morre para a felicidade. Veja o que faz. Vamos.

Daniel, com a cabeça inclinada sobre o peito, seguiu maquinalmente o velho reitor.