As Pupilas do Senhor Reitor
Capítulo XVII · Era meio-dia, um meio-dia de verão, ardente,…
Era meio-dia, um meio-dia de verão, ardente, asfixiante, calcinador, a hora em que tudo repousa, em que as aves se escondem na folhagem, as plantas inclinam as sumidades, desfalecidas de seiva, e os ribeiros quase nem murmuram, de débeis e de exaustos que vão.
Nem uma ténue viração fazia sussurrar as alamedas e os soutos nos vales ou os pinheirais dos montes.
Apenas pelas sarças volteavam, como em danças caprichosas, enxames de insetos alados, sendo o seu zumbido importuno ou o cantar longínquo dos galos os únicos sons a interromperem o silêncio daquela hora.
Os caminhos e os campos estavam desertos; povoadas e fumegantes as cozinhas, onde a família do lavrador se reúne para a refeição principal do dia.
Mas quem estendesse a vista pelo extenso lanço de estrada a macadame, que corta em linha reta a povoação, e onde, naquele momento, o Sol batia em cheio, sem ser impedido por a menor folha de árvore ou beira de telhado, descobriria o vulto de um cavaleiro, caminhando a trote e envolto na densa nuvem de poeira levantada pelos pés da cavalgadura.
Este cavaleiro era João Semana.
Trajava com toda a singeleza, o velho cirurgião. Um fato completo de linho cru, botas amarelas de solidez de construção, à prova de todo o tempo, chapéu de palha, de abas descomunais, tudo abrigado daquele sol canicular por a enorme umbela de paninho vermelho, rival em dimensões de uma tenda de campanha, eis o vestido característico do nosso homem.
As rédeas flutuavam à solta, sinal evidente da distração do cavaleiro e dos admiráveis instintos e superior discrição da alimária, que mostrava conhecer a palmos o caminho de casa e para ela se dirigia mais apressada que de costume.
Causava dó olhar para a fisionomia de João Semana naquela ocasião. As faces, de vermelhas que naturalmente eram, quase se lhe tinham feito negras; o suor corria-lhe como lágrimas, pelas faces abaixo.
Mas o heroico octogenário não desanimava. Sorvia filosoficamente a sua pitada, assoava-se com ruído, e soltando depois um daqueles ahs bem guturais — eloquentíssima expressão das delícias que o olfato pode proporcionar a um mortal — dava mostras de consolado.
De caminho, ia João Semana lançando um olhar de comiseração para o milho dos campos adjacentes à estrada, algum do qual o calor e a escassez das águas tinham definhado; e ao contemplá-lo parecia mais sentir por ele, do que por si, a insuportável temperatura daquele ambiente.
João Semana era também proprietário rural, e portanto apaixonado pela lavoura, conhecedor das leis de cultura, e experiente prognosticador do futuro das novidades agrícolas; por isso, examinando com profunda curiosidade o aspeto dos campos, cujos donos, pela maior parte conhecia, quase chegara a esquecer-se de que um ardentíssimo sol lhe dardejava sobre a cabeça raios ameaçadores, tentando em vão exercer naquela robusta constituição a sua influência maligna.
A égua é que se não esquecia assim facilmente disso, e, cada vez mais rápida, procurava furtar-se a tão incómodo calor, e ao seu inevitável cortejo de moscas, que a traziam impaciente, não obstante os folhudos ramos de carvalho, com os quais João Semana lhe enfeitara o pescoço.
Depois de cinco minutos mais de trote acelerado, tomou o pobre animal, com manifesta ansiedade e sem esperar sinal do cavaleiro, por uma rua estreita, que, abrindo-se ao lado esquerdo da estrada, seguia, sob espesso toldo de verdura, por entre duas quintas carairas.
Era um oásis, depois do deserto.
João Semana, porém, parecia tão indiferente ao vantajoso da mudança, como o fora à desagradabilíssima influência dos raios do Sol, em campo descoberto.
Daí por diante começavam a ser mais frequentes as habitações, e, ao barulho que fazia a égua sobre o terreno sólido e nas pedras soltas do caminho, assomava a cada janela uma cabeça e João Semana recebia um cumprimento e um convite para jantar, a ambos os quais ele correspondia com benevolente familiaridade e às vezes com gracejos, sempre bem recebidos e festejados.
Logo ao princípio, foi um velho, em mangas de camisa e de cabeça já despovoada de cãs, que, segurando uma enorme tigela de caldo de tronchuda e vagens, coroado por uma pirâmide de boroa esmigalhada, apareceu à porta da cozinha, e disse com a boca meia ocupada por mantimentos, e sorrindo:
— É servido do meu jantar, Sr. João Semana? É pobre, sim, mas dado com a melhor vontade.
— Obrigado, tio José das Bicas, vou ver se lá em casa a Joana tem também o meu caldo em bom andamento.
— Então vá com a graça do Senhor, vá, que o calor não se sofre.
— Está picante, está. — E, andando sempre e falando já com as costas voltadas, perguntou: — E como vão os seus milhos, Sr. José?
— Ora!... Nem me fale nisso! A sequeira é muita.
— Veremos se para a lua nova haverá mudança de tempo.
— Deus o queira.
— Há de querer.
E prosseguiu no seu caminho.
Mais adiante, foi uma mulher idosa que espreitou do postigo de uma casa meia arruinada.
João Semana desta vez foi o primeiro a saudar.
— Bons-dias, tia Rosa. Então como vai lá o seu velho? Fero e rijo, hem?
— Muito agradecida a V. Exa. Está fraquinho ainda, e por isso...
— Pois que saia, que saia. É preciso também trabalhar por deitar fora as moléstias; nós não podemos fazer tudo. Que passeie, diga-lhe que passeie. O mais que lhe pode acontecer, é que deem com ele as jovens, mas disso não se morre.
— Já não está em idade para tanto, Sr. Doutor.
— Fie-se nele, fie-se nele; olhe que são os piores.
E, dando uma gargalhada, dobrou a esquina e tomou por outra rua.
Do interior de um pardieiro saiu-lhe ao encontro uma rapariga do povo, magra, remendada e com o rosto que denotava aflição.
— Muito boas-tardes, Sr. João Semana — disse a pobre rapariga, com voz chorosa.
— Que temos lá, Maria? Alguma novidade?
— É que... — dizia ela hesitando e baixando os olhos.
— Fala; despacha-te, que vou com pressa.
— É que me esqueci do que me disse daquele remédio para a minha mãe...
— Então onde diabo tinhas tu o juízo, galo doido? Ai que vocês andam-me com essas cabecinhas não sei porque terras, e eu que vos ature depois. Aposto que te lembras melhor do que te disse ontem o teu conversado?
— Ora, o Sr. João Semana tem coisas! É que não sei se o remédio era todo para uma vez, ou...
— É o que eu te digo; é o que eu te digo. Estouvada! Cabeça no ar! Quantas vezes te repeti que era para três porções. Cuidas que não tenho mais que fazer, do que andar sempre a cantar a mesma cantiga por esse mundo de Cristo? Ora vamos!
— E há de ser distante das comidas, que?...
— Que diabo aprendeste tu então de tudo o que te recomendei, fazes favor de me dizer? Pois não te expliquei, cabeça de bugalho, que era para lho dares, meia hora depois das comidas? Que tinhas tu nos ouvidos?
— Muito agradecido, Sr. João Semana; e perdoe por as almas, mas... A gente tem tanta coisa na cabeça...
— Valha-te uma figa.
E quando a rapariga se ia já a retirar, ele acrescentou, mudando de tom:
— Olha cá, ó Maria. Ouves?
A rapariga voltou-se. Levava os olhos vermelhos de chorar.
— Então que diabo é isso? Porque choras tu?
— Nada, Sr. João Semana; é cá a nossa vida.
— Quanto te levou o boticário pelo remédio?
— Seis vinténs.
— E... Diz-me: mataste hoje a galinha para a tua mãe?
— Dei-lhe o resto da de ontem.
— E para amanhã?
— Para amanhã...
E a rapariga calava-se, embaraçada e triste.
João Semana tossiu para desimpedir a laringe de um pigarro importuno e pôs-se a olhar atentamente para um tronco de árvore, que lhe ficava à direita, como se lhe achasse o que quer que fosse extravagante.
Durante este tempo, mexia nos bolsos do colete e depois nas algibeiras das calças; em seguida, olhando em roda, como se receasse ser observado, curvou-se sobre o pescoço da égua e introduziu uma moeda de prata na mão da pobre rapariga, dizendo-lhe com modo rápido e desabrido:
— Toma lá. Olha agora se te pões por aí a dar à língua, como costumas. Aflige bem a tua mãe, aflige!
A rapariga não teve uma só palavra com que lhe agradecer. Quis-lhe tomar as mãos, para beijá-las; João Semana furtou-lhas rapidamente, dizendo-lhe com simulada aspereza:
— Larga, larga. Não me venhas com essas imposturas, que eu não sou para isso.
O melhor dos agradecimentos tinha-o ele nas lágrimas, que desciam pelas faces da pobre, na expressão de entranhado afeto, que lhe animava o olhar.
O velho cirurgião sabia compreender estas coisas, apesar das aparências de homem endurecido, de que fazia ostentação.
Ao afastar-se do lugar da cena que descrevemos, dizia ele para si:
— Excelente vida! Lucrativa clínica! Rendeu-me esta consulta, na verdade! Quem não há de fazer casa assim?
Estava o bom homem a fingir de interesseiro consigo mesmo!
Dentro em pouco tinha-se esquecido do que praticara.
Mais adiante, esperava-o um lavrador robusto, sentado na soleira da porta, a comer uma fêvera de bacalhau. Assim que João Semana se aproximou, levantou-se o homem e tirando o barrete:
— Nosso Senhor venha na sua companhia.
— Bons-dias; então que há?
— Queria que vossemecê me dissesse se a minha mulher pode comer uma sardinha assada.
— Pode, mas de caminho avisa o padre que a venha sacramentar.
— Credo! Mas então...
— Adeus minhas encomendas. A perguntas tolas não se dá resposta. Forte descoco!
E, sem mais palavra, estimulou o passo da égua.
O consultante sentou-se de novo e, voltando-se para dentro, disse:
— Ouviste-o? Ora aí tens.
Respondeu-lhe um suspiro.
Ainda não pararam aqui as consultas. Ao passar por uma azenha, o moleiro, vindo à porta, anunciou ao velho facultativo que a mulher não queria tomar remédio algum.
— Está no seu direito — respondeu João Semana. — E que queres que eu lhe faça?
— Mas, sendo precisos?...
— Sabes que mais, Francisco? Eu, se me não casei, não foi para agora andar a aturar as impertinências das mulheres do meu próximo. Atura-a, atura-a, rapaz, que são ossos do ofício.
E continuou cavalgando, e deixou o moleiro embasbacado. Depois de se ter afastado, acrescentou, elevando a voz, mas sem se voltar para trás:
— Olha lá; sempre lhe vai dizendo que, se amanhã a não encontrar melhor, prego-lhe um cáustico nas costas, que lhe há de fazer ver as estrelas ao meio-dia. Ora anda.
Enfim, num largo assombrado de castanheiros, foram duas crianças as que lhe interromperam a passagem; assim que o avistaram, ergueram-se do chão, onde estavam sentadas, tirando o chapéu e pondo-se a coçar na cabeça.
— Que temos nós, pequenada? — perguntou-lhe João Semana.
Um dos pequenos foi o relator da comissão.
— O nosso Luís está doente e a mãe manda pedir ao Sr. Doutor para o ir ver.
— Está bom; lá irei de tarde; e como está a tua mãe?
— A mãe diz que está melhor, mas ela chora tanto!
— Tens razão, Manuel, em duvidar da saúde do que chora. Pois eu verei isso. Vá; ide jantar e fazei rir vossa mãe, que é meia cura já.
Por tal forma ia sendo o bondoso João Semana cumprimentado, interrogado e consultado, e ele a responder a tudo com a máxima expedição possível, que já lhe não sofriam delongas as reclamações imperiosas do estômago.
Chegou assim ao largo da igreja da freguesia e atravessou-o, por diante da residência do reitor. Deitou de soslaio os olhos para as janelas da casa paroquial, e, como as visse fechadas, picou a égua, para ver se escapava, sem vir à fala e evitar novos empecilhos.
Não conseguiu, porém, o seu intento. Uma das vidraças correu-se repentinamente e o reitor apareceu à janela, animado de sorrisos, e com um guardanapo na mão.
— Ó João Semana! Ó homem! Ó velhote! Pchiu! — bradava ele.
— Que é lá?
— Espera! Fala à gente.
— Vou com pressa.
— Então andas por fora com um calor destes? Isto é de criar malignas, homem.
— Que queres tu, Abade? Meu pai caiu na patetice de me arranjar este modo de vida. Se lhe tivesse dado na mania fazer-me padre, outro galo me cantara.
— Cuidas então que não temos canseiras?
— Ai, dão-te muito que fazer as tuas ovelhas; estou vendo.
— E não dão pouco.
— Só a cardá-las com as côngruas e derramas! Por isso estás magro. Para vos sustentar suamos nós outros.
O reitor sorria, sem a menor sombra de ofensa.
— Vamos a saber: queres provar do meu arroz?
— Eu?! Já não tenho estômago criado para comidas de padres. Padre, abade, e egresso de mais a mais! Safa! Morria de indigestão esta noite.
— Anda lá, anda lá; ainda não perdoaste aos frades. Morres impenitente.
— Como queres tu que eu lhes perdoe o terem gozado sem mim daquela santa vida de convento?
— Santa, sim; porém sem mortificações, não.
— Oh! Decerto que não. Os melhores cozinheiros têm às vezes os seus descuidos, e os paladares de V. Rev.ma, lá de vez em quando, aturavam o esturro no arroz, sal a mais na sopa, pimenta de menos no guisado, ou outra coisa assim, lá isso...
— Valha-te não sei que diga. A vida é para ti, homem, que, com oitenta, estás fero e robusto, e levas jeito de assistir ao nascimento do século vinte.
— É para veres de que fêveras eu sou. Se tivesse a tua vida, viveria como Noé. Mas tu estás de palanque e à fresca, e eu aqui estatelado a dar-te trela. Adeus, meu amigo.
— Olha cá, espera, homem. Então nem um cálice do meu bastardo, hem? Olha que é do que tu gostas.
— Prefiro uma garrafa na minha casa.
— Lá franco no pedir és tu! Mas do que ninguém se gaba é de saber o gosto ao teu moscatel.
— Querias talvez que eu te mandasse um presente de vinho?! Era o que me faltava! Presentes de vinho! E a um frade!...
E, dizendo isto, pôs-se a caminho, achando-se, dentro em pouco, a distância já considerável da residência.
De repente, como se lhe ocorresse uma lembrança, cuja comunicação não podia sofrer demoras, voltou de novo atrás, e elevando a voz:
— Ó Abade? Tu não sabes a história daquele frade franciscano, que... ?
— Não sei, não; ora conta lá, João Semana, conta — disse o reitor, debruçando-se no peitoril da janela, e já com aspeto risonho.
— Havia lá no convento — começou João Semana — uma pintura muito grande, representando a ceia de Cristo; e era esta pintura a que mais atraía as meditações piedosas do tal reverendo, o qual de olhos fitos naquele quadro passava horas e horas esquecido de tudo o mais. Outro frade, que tinha notado isto, não pôde ter mão em si que lhe não perguntasse com aquela voz de lamúria de franciscano manhoso: «Em que pensais vós, irmão, quando com tanta atenção olhais para este quadro?» «Nos tormentos que por nós padeceu o Salvador» — respondeu-lhe o tal. «E longos foram na verdade!» — continuou o primeiro. «Mas porque esta pintura, mais do que as outras, vos traz tão santas ideias? Não tendes na sacristia a do descimento da Cruz e aquela do Senhor preso à coluna?» «É verdade, irmão — diz-lhe então o franciscano com cara de mortificação — é verdade, mas olhai que não menor tormento era este de ter doze pessoas à mesa e tão pouco de comer em cima dela».
E João Semana, dizendo isto, roçou as esporas pela barriga da égua e partiu, acompanhado de uma grande gargalhada do reitor, que era perdido por as anedotas de João Semana.
— Onde diabo vai este homem buscar estas coisas! — dizia o reitor, chorando de tanto que se ria.
E João Semana ia quase a dobrar a esquina, quando de novo o suspendeu a voz do padre, bradando-lhe:
— Ó João Semana; olha lá.
— Que é? — respondeu o facultativo já com certo mau humor. — Tu queres que eu fique hoje sem jantar?
— É só uma pergunta.
— Diz.
— Não sabes que chegou ontem o Danielzito do Dornas?
— Como não sei? Pois não estive eu já com ele?
— Ah, sim? E então que te parece o homem?
— Que me há de parecer? Bem — e depois acrescentou: — Bem e mal.
— Como é isso? Bem e mal!
— Sim, o rapaz é talentoso e nas cidades talvez fizesse figura; para aqui não serve.
— Ah! João Semana!... Ciúmes...
— Estás doido? Tomara eu que ele me descarregasse de parte desta tarefa, mas... Diz-me lá tu se aquele corpo franzino, aquela pele de mulher pode aturar metade, a quarta parte, a décima parte do que eu tenho aturado.
— Lá isso...
— Está de ver que não. Mas lá talentoso é ele; não há dúvida nenhuma.
E, dizendo isto, sempre conseguiu dobrar a esquina.
O reitor fechou a janela e foi jantar. Sentado à mesa ainda sorria de vez em quando, repetindo a meia voz:
— Doze pessoas à mesa e tão pouco de comer em cima dela! Ora o diacho do homem...
CAPÍTULO XVIII
Enfim, chegou João Semana ao lugar onde se erguiam os seus solares.
A égua saudou a aparição dos telhados domésticos com a mais melodiosa das suas emissões de voz.
O próprio João Semana não foi insensível à perspetiva, que o dobrar do último cotovelo de uma rua tortuosa lhe patenteou; porque o seu estômago tinha também necessidades, que, como todos os outros, manifestava. Ao aproximar-se, recebeu, porém, uma desagradável impressão.
Avistou encostado à porta da casa o criado de uma freguesa sua, o qual provavelmente vinha requisitar-lhe a assistência e talvez com toda a pressa. Tais estorvos, à hora do jantar, eram da maior impertinência para João Semana. Doente que lhe quisesse fazer a vontade, não devia adoecer a hora tão crítica.
O seu pressentimento saiu verdadeiro. Ainda ele se não desmontara e já o criado, que o esperava, lhe dizia, com grande impaciência do facultativo:
— A Sra. D. Leocádia mandou-me esperar aqui por V. S.a para lhe pedir o favor de ir, logo que chegasse, a casa dela.
— Quem está lá doente?
— Não sei dizer a V. S.a.
— Pelo costume, é toda a gente. Todos se queixam, pelo menos, quando eu lá vou. E... Vamos a saber, e é de pressa?
— Julgo que sim, senhor, visto que me mandaram esperar.
— Isso não tira. Seria para se verem livres de ti, e parece-me que têm razão.
— Ora, isso é graça.
— É graça é, mas... Vamos lá ver o que quer a Sra. D. Leocádia. A falar a verdade... A esta hora... Valha-me Deus, valha. — E, voltando-se para o criado pequeno, que viera ajudá-lo a desmontar, continuou, suspirando:
— Deixa estar, Miguel, deixa estar. Eu... Como assim, não me desmonto. Torno a sair.
Mal acabara de dizer estas palavras, correu-se uma vidraça do andar superior, e a cabeça de uma velha criada, convenientemente armada de largo pente de tartaruga, assomou à janela. Esta aparição foi logo seguida das seguintes palavras, muito açucaradas:
— Ouviu, Sr. João Semana? Não vá, sem primeiro subir.
— Pois que há?
— Tenho que lhe dizer.
— Diga então daí.
— Ora essa! Não é maneira de falar a que diz. Suba, se faz favor, suba primeiro.
— Mas esta senhora que espera?
— É um instante só.
— Valha-a Deus! — disse João Semana, apeando-se e preparando-se para obedecer à criada. Já do portal, voltou-se para o mensageiro do recado, dizendo-lhe:
— Espere um bocadinho, que eu vou já.
— Nada, nada — acudiu de cima a criada. — Pode estar fazendo falta às senhoras. É melhor ir, que o Sr. João Semana vai já também.
— Mas... — quis objetar o criado.
— Vá, vá. Basta o tempo que se demorou já aqui, e sem precisão, porque eu cá daria o recado. Diga em casa que o Sr. João está lá num momento.
Isto foi dito com certo tom intimativo, ao qual o criado, habituado a obedecer, não pôde resistir. Partiu.
Logo em seguida, a expedita velha disse, em tom mais baixo, mas não menos imperioso, para o rapaz, que ficou a segurar as rédeas da égua:
— Miguel, avia-te, meu pasmado; mete essa carruagem na cavalariça, e anda para cima.
— Mas o patrão...
Anda, papalvo, faz o que te digo.
E Miguel assim o fez.
Quando João Semana entrou na sala, onde era esperado pela criada, e ia perguntar a notícia prometida, ficou surpreendido, achando a mesa posta e uma enorme malga de sopa, exalando odoríferos e apetitosos vapores.
— Que é isto? Que foi fazer? — disse o velho cirurgião, olhando para a criada, a qual procedia azafamada aos mais preparativos para o jantar. — Então tirou a sopa, e eu tenho de sair ainda.
— Que sair? Que sair? Era o que faltava. Não basta o calor que tem apanhado já. Ande lá, ande lá, que, enquanto não cair deveras doente, não há de escarmentar, já vejo.
— Mas, mulher, não viu o que eu disse àquele criado?
— Deixe lá. Daqui até casa tem ele de parar em mais de quatro tabernas e de se demorar meia hora em cada uma, pelo menos. Verá que há de ainda chegar primeiro do que ele. Vamos, vamos. É jantar.
— Se eu nem mandei desaparelhar a égua!
— Alguém teve esse cuidado. Ande, que o caldo arrefece.
— E aquelas senhoras que têm pressa?
— Ora adeus! Ainda não conhece aquela gente? Fervem em pouca água. Sempre assim foram. Afinal verá que não há de passar de uma enxaqueca da D. Leocádia, algum flato da pequena, ou uma indigestão do procurador; e ainda acredita naquilo?
Evidentemente, João Semana ia-se deixando convencer. Aproximara-se pouco a pouco da cadeira, hesitando ainda na aparência, mas no íntimo resolvido já.
Ia enfim a sentar-se, quando a criada o interpelou de novo, exclamando:
— Então que é isso? Assim mesmo como está? Nem muda de fato?
— Para quê?... Não estou com tantos vagares...
— Não, então, se é para comer de afogadilho, mais vale fazer primeiro a visita. Assim nem lhe presta o que come. Eu guardo o jantar então, visto isso.
Joana, era o nome da criada, bem sabia que tal proposta não podia já ser recebida por João Semana, cujo apetite se irritara com as exalações da sopa; foi a razão pela qual ela se mostrou tão pronta em reunir a ação às palavras, retirando da mesa o serviço.
O êxito desta tática foi completo.
João Semana impediu-a, dizendo:
— Deixe ficar, já agora deixe ficar. Também para me vestir não é preciso muito tempo.
E, depois destas palavras, descalçou-se, enfiou os pés num as chinelas, que tinham sido botas, pôs-se sem cerimónia em mangas de camisa, sentou-se à mesa e rompeu um ataque em forma contra a volumosa e apetrechada tigela que tinha em frente de si.
A cozinha de João Semana era de um carácter portuguesíssimo e eu, ainda que me valha a confissão os desagrados de alguma leitora elegante, francamente declaro aqui que, para mim, a cozinha portuguesa é das melhores cozinhas do mundo.
Dou razão nisto a João Semana.
As combinações extravagantes das cozinhas estrangeiras — os galicismos culinários, por exemplo — repugnavam-lhe tanto ao estômago, como aos ouvidos, mais pechosamente sensíveis, dos nossos severos puritanos a outra qualidade de galicismos.
Queria-se ele com a carne bem assada e o arroz do forno, açafroado — esses dois importantes elementos de gozo para os paladares portugueses; queria-se com o prato clássico da orelheira de porco e até com aquele outro prato, tão castiço como qualquer período de Fr. Luís de Sousa — prato, que valeu aos portugueses um epíteto gloriosamente burlesco; queria-se com todas estas iguarias, quase desterradas das mesas modernas, de preferência aos manjares exóticos, cuja nomenclatura tem a propriedade de fazer ignorar ao conviva o que lhe dão a comer.
Por isso João Semana, nas raras vezes que vinha ao Porto, era freguês certo nas mesas do Rainha, as únicas que mantêm, sem mescla de estrangeirices, as velhas tradições nacionais.
Em Portugal, terra de lhaneza um pouco rude, mas não afetada, o dono da casa não costumava dantes experimentar a imaginação dos seus convidados com enigmas culinários.
Não havia cá a usança de se dar a qualquer pastel ou empada o nome de um general de exército; a qualquer açorda o de um ministro célebre; a qualquer doce balofo e insípido o de um poeta da moda.
Este costume, graças ao qual parece que os modernos Vatéis misturam às vezes aos ingredientes dos seus tachos e caçarolas um pouco do sal da sátira, era desconhecido entre nós.
Menos espirituosa, porém mais filosófica do que a nomenclatura culinária da moda, a nossa, a tradicional, realizavam o desideratum a que todas as nomenclaturas aspiram — o de valerem por definições.
Se um conviva tinha a curiosidade de perguntar ao seu anfitrião o que continha este ou aquele prato, uma só resposta o satisfazia: era um frango guisado, um peru recheado, uma língua de vaca, afogada... Coisas que toda a gente entendia logo. Hoje, a primeira resposta é um nome francês, bárbaro, absurdo, que, contra promessas da gramática, não dá a conhecer a coisa, nem as suas propriedades; por isso uma segunda pergunta é inevitável; a não querer cada qual resignar-se a comer o que não sabe o que é — tormento insuportável.
Hoje, época de programas, inventaram-se os programas dos jantares, à imitação dos concertos, dos deputados e dos ministros. Com oito dias de antecipação publica-se o elenco de um banquete, para que cada qual procure decifrar o que vai comer, e estude a maneira porque se come.
João Semana é que nisto, como em tudo o mais, não queria saber de modas.
E senão vejam-no desta vez esgotar a tigela avolumada de substancial caldo de abóbora, aviar a formidável posta de carne cozida, com presunto, acompanhando-a com o indispensável arroz, salada de alface e azeitonas; atacar, com igual denodo, uma porção de roast-beef, não revendo sangue sob a faca, à moda inglesa, mas portuguesmente assado, e como estou convencido assavam os seus carneiros aqueles heróis da Ilíada; tudo isto acompanhado de excelente vinho palhete, o qual ele ingeria aos copos de meio quartilho; em seguida uma carregação de peras de amorim, sem conta, peso, nem medida...
Durante o jantar não estivera calado João Semana.
Cada prato suscitara-lhe uma reflexão crítica, um discurso laudatório, ou uma anedota que fazia rebentar de riso a Sra. Joana.
Ao descobrir o prato da carne assada, exclamou João Semana, em tom de satisfação manifesta:
— Que tentação me desperta este terceiro inimigo da alma!
A criada riu-se, mas observou:
— Não diga isso! Santo António!
— O quê? Então você não sabe o que disse aquele frade, quando estavam a jantar? Nos conventos era costume, enquanto se comia...
— Ó Joana, deixe-me ver esse limão — ocupar-se algum frade com leituras devotas. — E vá-me deitando aí mais vinho. — Um dia, a comunidade escutava de um desses reverendos... — O diabo desta faca não corta nada... — um sermão sobre os perigos aos quais os viventes andam sujeitos neste vale de lágrimas. — Olhe, chegue para aqui essas azeitonas. — Vede, irmãos, dizia o tal frade... — Este ano as batatas não foram grande coisa — ... Vede como é difícil fugirmos às tentações dos três grandes inimigos da alma. — Ó Joana, o padeiro está servindo mal; não tem senão côdea de pão. — O mundo e os seus encontros perigosos; o diabo e os seus poderes maléficos e a carne, ai, meus irmãos... E a carne e as suas tentações mágicas.
— Chegando a este ponto, o frade pousa o livro, suspira, estende o prato ao seu vizinho carairo, dizendo: — Tão fortes são que nem lhe resisto eu, pobre pecador; uma posta desse terceiro inimigo, que tão bem assado está.
Gargalhada da criada e vitória formal de João Semana sobre o inimigo em questão.
À sobremesa o mesmo sistema. A pêra de amorim atraiu um elogio do facultativo e mereceu as honras de um caso.
— Excelente fruta! — disse João Semana, ao comer a duodécima. — Tinha razão aquele frade que do púlpito dizia: «Ó meus amados ouvintes, que miserável é a condição humana! Vede como a desgraça do mundo veio de uma má tentação! Eva perdeu-nos por uma maçã! Se ao menos fosse por uma pêra, meus fiéis ouvintes, ainda se poderia desculpar, mas por uma maçã!»
— Ora! Essa é sua, Sr. João Semana — disse Joana rindo. — O frade havia de dizer semelhante coisa! Pois olhe, aqui está quem se perderia mais depressa por a maçã — acrescentou ela, pouco depois e preparando o café.
— Bem! — disse João Semana, ao concluir a sua refeição. — Estou como um abade! O pior é ter agora de sair para ir visitar a Sra. D. Leocádia.
— Sair, já? Isso tem tempo — acudiu a criada.
— Como? Pois ainda havia de as fazer esperar mais?
— Descanse ao menos um bocado. Está costumado a passar pelo sono, e, se o não faz, fica doente para todo o dia.
— Que remédio senão ter paciência!
— É um bocado mais.
— Nada, nada, não pode ser. Vou sair já — insistiu João Semana, procurando porém uma posição mais cómoda, com grave risco da resolução que exprimia. Joana percebeu este movimento e previu o que sucederia, se conseguisse entreter o amo cinco minutos mais. Não hesitou:
— Ainda se fosse para outra parte, não digo que não; mas para casa da D. Leocádia?... Eu já sei o que querem dizer aquelas pressas. A D. Leocádia esta manhã, provavelmente, abriu a boca três vezes ou espirrou duas, e por isso imagina já que está a morrer. Louvado seja Deus, nunca vi quem tenha mais medo de adoecer! Uma coisa assim! Não é senhora de meter um bocado de pão na boca, sem perguntar ao cirurgião se lhe poderá fazer mal. Pois não se lembra daquela vez que o mandou chamar, porque tinha deixado de noite, por esquecimento, uma açucena no quarto, e pela manhã julgou que estava envenenada?
— É verdade — dizia João Semana, fechando os olhos e bocejando. — Não era açucena, era uma bela... Ah! Ah! Ah! Ai... — isto foi um bocejo que o interrompeu, e com voz já mal percebida concluiu depois: — era uma beladona.
— Ou isso.
Joana espiando, como médico atento, estes sintomas, prosseguiu:
— Esta gente parece de vidro. A felosinha da pequena é outra que tal. É uma pena que qualquer ventinho leva. E dizem bonita aquilo! Lá na minha terra chamava-se bonito a quem era sadio e de boas cores.
— Você está agora como... Aquele... Frade que... — tentou dizer João Semana, mas não concluiu. Tomou-o sono profundo, denunciado, dentro em pouco tempo, por um ruidoso ressonar. Joana, escutando-o, aproximou-se nos bicos dos pés, examinou-lhe os olhos, e vendo-os cerrados, sorriu, dizendo a meia voz:
— Sempre caiu! Agora tem para uma hora pelo menos.
E, fechando as janelas, deixou o amo ressonando na mesma cadeira de braços em que adormecera.
CAPÍTULO XIX
Quando a Sra. Joana chegou à sala imediata, achou-se na presença de uma visita inesperada. Era Daniel que, de braços abertos, caminhou para ela, chamando-lhe «a sua boa Joana».
Por muito tempo fora Daniel o querido da velha criada do cirurgião, a qual não se cansava de apregoar por toda a parte que não havia aí menina de rosto mais galante e modos mais bonitos, do que o filho mais novo do José das Dornas. Quando a idade veio imprimir cunho mais varonil àquela beleza, Joana, como mulher que era afinal, não foi insensível à perfeição do tipo masculino, que tantas atenções tinha já merecido ao seu afeiçoado, durante a sua vida de cidade.
Ultimamente porém um pequeno azedume de má vontade viera misturar-se à simpatia da boa mulher. Em Daniel via um futuro rival de João Semana e a dedicação fanática, que votara ao amo, não a deixava encarar desassombrada a probabilidade dessa luta e, sem algum despeito, o novo atleta, que aparecia na arena, de encontro ao velho colosso.
Joana bem se fingia tranquila, dizendo às suas conhecidas e comadres que, enquanto João Semana fosse vivo, ninguém havia de poder fazer-lhe sombra; mas, lá no fundo, não estava satisfeita.
Ainda assim — tal é o poder das antigas afeições — ao ver Daniel vir para ela tão abertamente amável, esqueceram-lhe todas as más prevenções que contra ele tinha, e recebeu-o nos braços com expansão igual.
— Jesus! Que mocetão! Ora quem há de dizer que é este o menino, a que eu dava biscoitos e que trepava, como um gato, pela pereira do quintal acima?! E então como gostava daquelas peras rijas, que nem pedras! Sempre o tempo corre! Eu benzo-me!
— E quando o seu patrão tinha uns quatro pêssegos muito grandes, que destinava para o vigário da vara e eu lhos furtei, inventando depois nós ambos uma história muito comprida de ratoneiros, a qual não deu pouco que fazer ao regedor?
— Sempre foi uma, essa! E o vigário foi quem mais se zangou com a graça. E daquela vez que o menino entornou o tinteiro por cima do livro dos assentos do Sr. João Semana?
— Ai, é verdade. Por sinal que você depois disse-lhe que foi o gato.
— E, coitado, foi ele o que pagou. Levou uma sova mestra! O pobre bichano não podia adivinhar porquê.
— É provável que ele não perdesse muito tempo a investigar a razão do facto. Foi bem mais razoável, fugindo.
— O menino era um traquinas! Era uma coisa por maior.
— Há de lembrar-se sempre com saudades, Joana, de quando se cozia o pão cá em casa e eu vinha, ao sair da aula, buscar o bolo, que você me guardava no forno. Lembra-se?
— Ora, como se fosse hoje. E daquela tarde em que o menino foi beber água fria logo por cima? Ai, nem quero que me lembre! Sempre teve uma cólica! O meu amo parecia que me matava.
— Que bons tempos esses, Joana!
— Se eram! Agora já o menino não quer da nossa fruta, nem do nosso bolo. Quem sabe se no-lo comerá por outra forma?
— Como?!
— Recebendo algumas das medidas e avenças que, até agora, eram só do Sr. João Semana — disse a criada, com ciúme renascente.
— Está doida, Joana? Nem seu amo tem receios de que eu lhe faça mal, nem eu vontade de lho fazer. Graças a Deus, eu não preciso para comer de andar a furtar o pão daquele que tantas vezes e de tão boa vontade mo oferecia. Para o ajudar, isso sim, estou pronto, que não é pouco pesada a cruz que ele traz.
— Não é, não, menino! — exclamou, já sensibilizada e reconciliada de todo com Daniel, a velha criada. E suspirando, continuou: — Aquilo é um negro de trabalho. Ai, se ele faltasse, o que seria dos pobres! Eu bem sei que o menino há de fazer o que puder, que tem bom coração; isso tem; mas quem lhe deu as forças dele? Aquele corpo é de ferro. Não faz ideia. Desde pela manhã, até à noite, não tem aquele pobre de Cristo um momento de sossego.
— Ele está cá?
— Está agora a passar pelo sono. E mais tinha um recado com pressa. Foi preciso eu usar de malícia para o fazer descansar. É que esta gente não atende a nada.
— Pois, Joana, eu vinha para agradecer-lhe a visita que ele me fez, mas deixe-o dormir.
— Ele há de gostar de o ver; que olhe que é muito seu amigo, Danielzinho. Ele tem aqueles modos assim secos, mas... Ainda ontem aqui esteve a dizer que o menino há de vir a ser coisa grande.
— Não, agora já não cresço mais.
— Ora! Bem sabe o que eu quero dizer. Está a rir.
— Eu digo-lhe, Joana. Eu que vim meter-me nesta terra, é porque tenho ambições. Lá isso tenho. A si, digo-lhe baixinho, o meu grande desejo é vir a ser...
— O quê? — perguntou Joana, com curiosidade feminina.
— Nada menos que regedor cá na aldeia.
— Ora... Fala a sério?
— Pois isso é coisa lá com que se brinque?
— Então para que quer ser regedor?
— E não é uma posição tão bonita?
— Não digo que não. Pois olhe, com o tempo isso não será difícil. O Sr. João Semana já esteve para o ser; ele é que não quis. Mas o que é, é que o menino está aqui está casado.
— Porque diz isso?
— Ora ! O pai há de arranjar-lhe noiva rica.
— E então há por cá muito desse género?
— Se há? Boa! Olhe; — aí tem a filha do morgado da Cova do Frade, que é uma rapariga bonita.
— Ai, muito bonita! Parece mesmo uma dália vermelha.
— Que está a dizer? É uma rapariga escarolada e sadia.
— Lá escarolada será; e então tem muito dinheiro?
— Para cima de vinte mil cruzados.
— Ih! Que dinheirão!
— Então acha pouco?
— Está claro. Mulher com menos de quarenta contos, Joana, não me serve.
— Quarenta contos? Quanto é quarenta contos?
— São cem mil cruzados.
— Credo! O que aí vai! Então não casa decerto, também lhe digo.
— Se não encontrar cá, trago mulher da cidade. Olhe que são mais bonitas. Uma senhora, que saiba tocar piano, que saiba cantar, que ande à moda.
— Some-te! Sempre as tais modas! É no que eles pensam. Ora que graça acham àquelas coisas?
— Você não sabe o que diz, Joana. Ainda hei de vê-la andar à moda, a si também.
— A mim?
— A si, sim, minha senhora, e então porque não?
— Alguma estará nesse dia para suceder.
— Mas olhe cá, Joana, e quando você me vir passear de braço dado com a minha senhora, ela com vestido de seda a arrastar pelo chão...
— Isso! Olhe que há de ficar em bom estado. Passeie pelo tojo e verá.
— Um pé muito pequenino; eu gosto dos pés muito pequeninos, Joana.
— Também muito pequenos demais não servem para andar. Quer-se em termos.
— Nada; quero-os muito pequeninos; e depois uma vozinha que mal se perceba.
— Ora essa! Então não se há de ouvir o que ela diz?
— Vocês cá não têm nada disso.
— Isso não. O pé mais pequeno que eu conheço... É o da filha do Mateus que teve, salvo seja, um raminho em criança e ficou aleijadinha..., e agora voz que se não perceba... Olhe, tem a tia Ana do regedor que, desde que lhe caiu aquela constipação no peito, ninguém lhe entende palavra.
Neste ponto do diálogo, entrou o Miguel, rapaz de serviço da casa, com um bilhete na mão.
— Sra. Joana — disse ele — vieram entregar este bilhete para o patrão.
— Temos mais alguma impertinência. Está bom; deixa ficar.
— É que esperam pela resposta, Sra. Joana.
— Pois que esperem, Sr. Miguel. O patrão está a dormir, e eu não o vou acordar, por causa disso. De mando de quem vem?
— Diz que das do Meadas.
— Ai, então é a pedir por algum pobre. Não fazem outra coisa as raparigas. Têm vagar. Destas fortunas é que nos aparecem. Mas a carta não vem fechada... Ó menino, então leia-a.
— Porém... — ia a observar Daniel.
— Não tem dúvida, pode ler. Isto não é de segredo.
Obedecendo às instâncias de Joana, Daniel abriu a carta e leu:
«Meu bom Sr. João Semana:
— Isso — anotou a criada. — Façam-lhe a boca doce.
Daniel continuou lendo:
«O nosso pobre doente está mal, muito mal. Corta o coração vê-lo padecer assim. Se não for possível salvá-lo, ao menos que se não veja desamparado ao morrer. É tão compadecido o seu coração, Sr. João Semana, abre-se tão depressa à caridade, que me atrevo a pedir-lhe que venha ver este desgraçado. A consciência lho pagará. Da sua respeitosa amiga, Margarida»
— Bonitas palavras! — disse Joana — não tem dúvida nenhuma; o pior é que se não aduba o caldo com elas.
— De quem é esta carta? — perguntou Daniel. — Eu já ouvi este nome de...
— Olhem quem o pergunta! Pois de quem é ela, homem de Deus, senão da irmã da sua cunhada, da que há de ser?
— Ah! Bem me parecia. Mas... Da irmã! E ela escreve assim? — continuou Daniel, admirado da boa ortografia e singeleza de frase da carta, que tinha na mão, e para a qual tornou a olhar.
— Pois que julga que é essa rapariga? Bem digo eu, que o menino já se esqueceu de todo da terra. Então saiba que não há aí quem se ponha ao lado da Margarida, em falar e escrever. Este homem, por quem elas pedem... — e, interrompendo-se: — É verdade, ó Miguel! — disse para o criado — vai dizer que ficou entregue, anda.
Depois de o Miguel se retirar, Joana continuou:
— Esse homem, por quem pedem, foi mestre delas. Pelos modos era pessoa que teve de seu; mas hoje está quase a pedir. Para aí veio, e aí tem vivido. As raparigas do Meadas, que são dois corações de anjos — lá isso são — têm-no socorrido sempre. Coitadas! Não, eu devo dizer o que é verdade, o seu Pedro leva uma mulher como se quer; mas olhe quem levar a Margarida não vai mais mal servido. Este pobre homem tem-lhe ensinado, em paga, a ler e a escrever, que é um primor, segundo dizem. A Margarida, principalmente; porque pelos modos, a Clarita tem menos paciência. Mas a Margarida?... Até cá o Sr. João Semana o diz, pode-se ouvir. Agora até ela dá lição em casa. Não sabia? Pois dá. Ora, o tal pobre de Cristo está a morrer, e, segundo diz o patrão, não deita o mês fora. As raparigas então, credo! Isso é um cuidado por aí além, nem que fossem filhas. Mas o que eu não sei é se o Sr. João lá irá hoje. Fica-lhe tão longe do seu giro!
— Mas há de deixar o homem assim?
— Então? Cada um faz aquilo que pode, que a mais não é obrigado. Olhe... Sabe o que me lembra? Porque não vai o menino lá? Não diz que quer ajudar o Sr. João Semana? Pois aí tem.
— Para você me ficar depois com zanga.
— Credo! Zanga não; eu só dizia que... Demais, isto não lhe rende cinco réis. Bem vê o que ela diz: A consciência é que paga. Ora eu bem sei que as pequenas quiseram pagar, quiseram; cá o patrão é que não deixou. Não sei se fez bem, porque afinal... Elas têm por onde paguem. Mas vá, vá. Além de que...
— Eu por mim vou; não me custa; mas se o seu amo se ofende?
— Não; não ofende; amanhã ele irá. Demais, as raparigas são agora quase da família do menino! É natural que o procurem primeiro.
— Pois então nem espero que ele acorde. Você diz-lhe...
— Sim, sim; não tenha dúvida; eu cá lhe digo.
E, chamando outra vez Daniel, que ia a retirar-se, continuou:
— E então, olhe. Também pode fazer-nos ainda outro favor. Eu tenho, desde esta manhã, um recado para o Sr. João Semana ir a casa do João da Esquina, lá do seu vizinho da tenda. Não lho dei, porque enfim... Hoje ficava-lhe bastante longe, e, aqui para nós, não andam muito em dia as contas com o tendeiro; como ao menino lhe fica perto de casa, se não lhe custasse, ia por lá.
— Também irei, o ponto está que o homem me queira.
— Se não quiser que mande fazer um de encomenda. Era o que faltava! Já vê que eu não tenho nenhuma má vontade contra o menino; até lhe dou freguesia.
Daniel agradeceu os dois fregueses, que a velha Joana lhe cedera, com poucos auspícios de lucros, e saiu sem esperar que o seu velho colega acordasse.
A pressa com que Daniel saiu, e a felicidade em aceder à proposta de Joana, tinham um motivo. E aí estamos nós, para o explicar, a referirmo-nos outra vez ao carácter do nosso herói.
A carta de Margarida falara-lhe à imaginação. Achou-a tão singular, na sua simplicidade, para ser escrita por uma rapariga da aldeia, que não pôde eximir-se de fantasiar um tipo de romance, o qual logo suspirou por conhecer.
Seguindo as instruções de Joana, Daniel pôde, dentro de um quarto de hora, achar-se à cabeceira do enfermo, para quem se pedira o socorro de João Semana.
Mas, contrariamente ao que esperava, foi Clara e não Margarida quem ele encontrou ali.
CAPÍTULO XX
Ao princípio, a substituição desagradou a Daniel, por lhe dissipar umas vagas fantasias, com que tinha vindo; mas Clara não era mulher junto de quem se pudesse sentir por muito tempo a falta de outra.
Daniel, passados alguns minutos, achava-se conformado.
Clara recebeu com um gracejo o novo clínico.
— Olhem quem nos vem! Bem dizia eu ontem: dentro em pouco, ninguém quer já saber do João Semana.
— Devo lembrar-lhe, Clarinha, que é à força quase que eu venho aqui, porque não houve quem tivesse a ideia de me mandar chamar — replicou Daniel, sorrindo. — Não lhe disse eu que as raparigas seriam fiéis ao João Semana? Veja: nem a Clarinha nem a mana se lembraram de mim, sendo eu da família quase.
— Bem vê que pouco se lhe poderia prometer — respondeu Clara, lançando para a humilde mobília do quarto um olhar expressivo.
— Nem a recompensa da consciência, que a sua irmã prometia a João Semana?
— Com franqueza lho digo: eu por mim tinha-me lembrado de o chamar, tinha; mas a Guida é que não quis.
— E porque não quis sua irmã?
— Eu sei lá? Eu já não estou costumada a perguntar a razão porque ela diz isto ou aquilo. Para quê? Afinal de contas, não sei fazê-la mudar de tenção.
— Então é assim teimosa?
— Teimosa? Não, credo; mas é que depois de falar com ela... Não sei como isto é... Eu sou que mudo sempre. Mas, já que veio, entre; aqui tem o nosso doente.
E, dando ao gesto a expressão da desesperança, acrescentou, baixando a voz e suspirando:
— Isto!... Coitado...
O doente era o velho, que já conhecemos, agora de todo prostrado por uma caquexia, infalivelmente mortal.
Realizara-se o seu pressentimento. Vida... Só lhe restava para agradecer com o olhar, mais já do que com palavras, os cuidados, quase filiais, de que as duas raparigas o rodeavam.
A idade e os padecimentos morais deste homem tinham-se tornado elementos, quase invencíveis, do mal que lentamente lhe minara as forças.
O único alívio, no seu leito de dor, era a vista das duas irmãs. Faziam-lhe bem os sorrisos de Clara, e as lágrimas de Margarida — duas expressões diversas de uma mesma simpatia.
Daniel aproximou-se do leito do enfermo; do outro lado ficava-lhe Clara.
A luz era escassa na alcova. As feições de Clara tinham tomado uma expressão de melancolia, a qual aquelas sombras pareciam aumentar.
Junto à cabeceira de um enfermo é onde mais pronta e naturalmente se estabelece entre duas pessoas um trato familiar.
A etiqueta e as reservas do costume sentem-se mal colocadas e intempestivas ali.
Se é sincera a compaixão por o que padece, perde-se a frieza necessária à estrita observância das insignificantes convenções sociais. Não são possíveis as afetações nem os constrangimentos, quando a mesma generosa simpatia domina o pulsar de dois corações.
Por isso entre Daniel, como médico, e Clara, como enfermeira, cresceu rapidamente certa familiaridade, a qual não pouco concorreu para fazer demorado o exame do doente, cuja moléstia era de uma evidência e de uma fatalidade de êxito, que deviam facilitar a tarefa do seu estudo.
Depois... Nunca é tão cheia de atrativos a mulher, como ao velar solícita por o doente que estima. Às mais levianas revela-se-lhes então a grandeza e sublimidade da sua missão na terra. O coração, que as vaidades podiam trazer abafado, estremece e acorda ao primeiro grito de dor; o instinto feminino revive com toda a sua espontaneidade de abnegação: dá-lhes à voz inflexões de ternura, ao olhar requebros de meiguice, e aquela deliciosa fraqueza de ânimo, que nos pedia proteção e amparo, transforma-se em coragem heroica, diante da qual nós, os que nos supúnhamos fortes, cedemos subjugados.
Um momento destes, na vida da mulher, absolve-a de todos os pequenos defeitos, que temos por costume censurar nela.
Quando o império do amor e da piedade deve reger a vida, aceita então ela de nós, com sorrisos de brandura, o cetro de soberana.
E nessas ocasiões bem conhece que o prestígio, que exerce, é absoluto; perde então a timidez habitual e olha-nos desassombrada.
Sucedia isto com Clara. Achava-se à vontade ali; fitava, sem constrangimento, os expressivos olhos negros no rosto de Daniel, como se para nele espiar o passar das ideias, que o exame do doente lhe fosse sugerindo.
Se ela soubesse que, enquanto o fitava assim, mal na doença o deixava pensar!
O enleado agora era Daniel. Com os olhos no rosto cadavérico do enfermo, comprimindo-lhe ainda o pulso abatido e descarnado, quase nem tinha consciência do que fazia.
Sem olhar, sentia que a vista de Clara se fixava nele — porque há fenómenos assim — e sentindo-o — desgraçada natureza a sua! — em vez do médico impassível e atento, que devera ser, já não era senão o estudante de vinte anos, com toda a sua ardente imaginação.
Enfim terminou aquele exame longo, mas distraído, e depois de algumas perguntas feitas ao doente, Daniel voltou à sala para receitar.
Clara acompanhou-o e encostou-se familiarmente às costas da cadeira, na qual Daniel se sentara.
Era o bastante para tirar a este toda a tranquilidade.
A seu pesar, a mão tremia-lhe ao escrever.
Clara pôs-se a rir.
— De que se ri? — perguntou Daniel, voltando-se.
— Está-me a lembrar, ao ver tremer-lhe a mão assim, que o João Semana costuma dizer, quando assina uma receita, que assina uma sentença de morte.
Daniel sorriu também, ou simulou sorrir.
— Isto é nervoso — disse ele, levantando-se.
— Nervoso! Então também é nervoso? Eu cuidei que isso era só das senhoras da cidade.
— Enganava-se.
— Então que é ser nervoso?
— É... Por exemplo não ter firmeza na mão ao escrever, quando nos seguem os movimentos uns olhos... Assim como os seus, Clarinha.
— Ah! Deve ser então bem má doença, que obriga os outros a andarem com os olhos fechados — redarguiu Clara, com certo tom de zombaria.
Daniel ia a replicar, quando um gemido do enfermo chamou Clara à alcova.
Enfim, passados alguns segundos, Daniel muito a custo preparava-se para sair.
Clara voltou, trazendo-lhe água para as mãos; — acto naturalíssimo e sem significação — porém Daniel era destes homens, para quem quase não há actos sem significação.
Lavando-se, enquanto Clara lhe sustentava a bacia, aventurou um olhar para a gentil rapariga, a qual o recebeu com firmeza.
Como esse olhar se prolongasse, Clara disse, com um sorriso de ironia, aparente através do gesto de ingenuidade, de que o acompanhou:
— Está tão distraído, a pensar... No seu doente talvez, que nem repara que se está a lavar em seco.
Daniel baixou os olhos e abreviou a operação. Quando ia a retirar-se, ouviu Clara que lhe dizia gracejando:
— Quanto se lhe deve pela visita, Sr. Doutor?
A esta pergunta, esteve eminente a sair da boca de Daniel um galanteio, que ele susteve a tempo, por não sei que pressentimento, que lhe dizia que esse jogo podia ter os seus perigos. Limitou-se pois a responder:
— Deve-me um pouco de afeição pela boa vontade, quando por mais não seja.
— Já vejo que é fácil contentar.
— Acha então de pouco valor a afeição?
— Como não pede muita...
— É que receio que já não tenha muita para dar.
— Tão pobre me faz disso?
— Pois não dispôs já da melhor?
— A afeição de que dispus não lhe podia servir.
— Acha?
Esta pergunta, ou mais do que ela, a inflexão de voz com que foi dita, o olhar de que foi acompanhada, era imprudente.
Clara desviou a vista diante desse olhar de Daniel.
— Ouça — disse ela, mais séria já do que até ali. A gente tem sempre no coração duas afeições diferentes, penso eu; uma, que se dá toda a uma pessoa, e julgo que uma vez só na vida; outra, que se dá às porções, mais a uns, menos a outros, mas que nunca se acaba. Para querer a este pobre velho, que ali está dentro — e quero-lhe deveras — nada tive de tirar à afeição grande, que tinha a Margarida. Conte por isso que ainda tenho afeição — dessa — para lhe dar. A Guida não terá que sofrer com isso... Nem os outros.
Havia uma delicada correção nestas palavras de Clara, que produziu efeito no ânimo de Daniel. Inclinou-se, e com não constrangido sorriso, replicou, estendendo-lhe a mão:
— Agradecido, Clarinha. Essa mesma é a que me deve; pois não seremos dentro em pouco tempo irmãos?
Clara, já outra vez risonha, correspondeu ao cumprimento do irmão do seu noivo, sem a menor reserva desfavorável.
E separaram-se.
— Que diabo de homem sou eu? — dizia Daniel consigo. — Pois não ia começando a apaixonar-me por a mulher do meu irmão? Quando terei eu força para me vencer nestas coisas? Mas é que tem uns olhos esta rapariga, e umas maneiras!...
E, sob o domínio destas novas impressões, a impressão que da carta de Margarida tinha recebido desvanecera-se de todo.
Não era porém esta a única mudança que se tinha de operar nele, aquele dia.