As Pupilas do Senhor Reitor
Capítulo X · F oi por isso que o reitor,…
F oi por isso que o reitor, ao perceber um dia a inclinação recíproca de Clara e de Pedro das Dornas, exultou com a descoberta.
Amigo das duas famílias e conhecedor da boa índole de Clara, e dos sentimentos generosos de Pedro, ele só antevia venturas na projetada união.
Em relação aos dotes, não havia entre os noivos grande desigualdade e, em vista disto, não era provável que, da parte de José das Dornas, surgissem dificuldades sérias.
Por outro lado, a boa alma do noivo tranquilizava o reitor, em relação à sorte de Margarida; ele a saberia estimar como ela merecia. Esta consideração, sobretudo, fazia o contentamento do padre. Daí, aquele conselho dado a Pedro — conselho que encontrou este em muito boas disposições para o observar.
Passados dias, procurou o reitor o seu amigo José das Dornas e comunicou-lhe que Pedro estava resolvido a casar, e lhe pedira para servir de embaixador em solicitar o consentimento paterno.
Como tinha conjeturado, o projeto passou sem oposição da parte de José das Dornas, que antes ficou muito contente com a novidade. Somente pediu o adiamento da época dos esponsais, para quando chegasse do Porto Daniel, que devia, naquele ano, terminar a sua formatura na escola de medicina da Cidade Invicta.
Clara tinha, antes disso, respondido ao pároco, perguntando-lhe este se aceitava o pedido de Pedro, que desejaria consultar a irmã. Aprovou o padre esta atenção delicada e esperou-se pela resposta de Margarida, de quem não havia grandes impedimentos a recear. Estava Margarida a ler, quando Clara foi ter com ela.
Era já então uma simpática figura de mulher a de Margarida. Não se podia dizer um tipo de beleza irrepreensível, mas havia em toda aquela fisionomia um ar de afabilidade e de meiguice tal, que nem avultavam essas pequenas incorreções, só reveladas a exame minucioso e indiferente; mas a primeira, a grande invencível dificuldade era conservar esta precisa indiferença ao vê-la. Os olhos, sobretudo, negros como poucos, sabiam fixar-se com tanta penetração e bondade, que, só a contemplá-los, esquecia-se tudo o mais. Não possuía um desses tipos fascinantes que atraem as vistas; era fácil até passar por ela, desatendendo-a; mas, fitada uma vez, o olhar deixava-a com pena, e a memória conservava-a com amor. A boca tomava-lhe naturalmente uma expressão de triste meditar, entreabrindo-se-lhe, de vez em quando, os lábios por uma dessas mais profundas inspirações, que dissimulam um suspiro.
Clara aproximou-se da irmã sem ser pressentida e sentou-se junto dela.
O grupo gracioso, que ambas formavam assim, tentaria qualquer artista que o visse.
A aparência jovial de Clara fazia realçar, pelo contraste, o vulto melancólico de Margarida. Naquela, tudo eram reflexos de desanuviada alegria interior; nesta, difundia-se incessantemente uma dessas meias sombras, como as que produzem as pequenas nuvens brancas que, sem ofuscar inteiramente a luz do Sol, lhe mitigam contudo um pouco o resplendor dos raios.
Clara tomou as mãos da irmã, sem romper o silêncio.
— Que tens tu, Clara? — perguntou-lhe Margarida. — Não sei que te leio hoje nos olhos. Desconfio que me vais dizer alguma coisa.
— E vou.
— E parece ser de importância, ao que vejo; estás tão séria! — acrescentou Margarida, sorrindo.
— É que é deveras sério e muito sério o que te vou dizer.
— Então?
— Querem-me casar.
— Ah!
— E olha, Guida, eu julgo que o meu noivo é um bom rapaz... Mas... Sempre queria saber o que tu pensas dele, e se merece a tua aprovação.
— A minha!? E também te é precisa, filha?
— É, sim; pudera não. Já o disse ao Sr. Reitor e ele concordou.
— Sois todos muito bons para comigo. Mas que te hei de eu dizer? Que te diz o coração?
— Ora o coração...
— O coração, sim. Porque não? Quando é bom, como é o teu, deve-se sempre ouvir; e... Quer-me parecer que já o consultaste, antes de mim.
— Falo a verdade: É certo que já.
— E que te disse ele?
— Aconselha-me a... A que sim.
— Que mais queres?
— Que também me aconselhes.
— O mesmo que o coração, já se sabe.
— Não, senhora; com franqueza, aquilo que pensares.
— E quem é o teu noivo?
— O Pedro do José das Dornas.
— Ah!... Por certo que é bom casamento. Conquanto pouco conheça ainda esse rapaz, ouço dizer que honrado, trabalhador, e... De mais a mais está bem.
— Então, aprovas?
— Se te fosse necessária a minha aprovação, dir-te-ia que estimo até muito que se faça esse casamento; e que sejas feliz.
Clara abraçou-a com efusão, e correu a dar parte ao reitor do resultado da entrevista.
Margarida ficou só.
O que acabara de ouvir da boca da irmã deixara-a pensativa. A ideia de que à vida de Clara em breve se ia associar a de uma pessoa estranha, não podia deixar de lhe fazer sentir graves preocupações pelo destino dela e seu.
Era um problema proposto à solução do futuro, e Deus só sabia como o futuro o teria de resolver. Clara ia entrar na vida de família; ia cedo transformar em amor de esposa e de mãe todos aqueles tesouros de sentimentos que, até então, a ela só confiara, a ela, a Margarida, à desvalida da sorte, à órfã e esquecida sempre, e talvez que, dali em diante, ainda mais esquecida e mais desamparada de afetos! Ao pensar nisto, não podia evitar certa angústia de coração. Era mais uma afeição que lhe roubavam! Pois nem esta lhe pertencia? E depois, como seria considerada pelo marido de Clara?
Humilhações, pudera-as suportar da sua madrasta, mas receava não ter já resignação bastante para as receber de mais ninguém.
É certo que o bom nome de Pedro a tranquilizava; mas quantas deceções sobre os melhores caracteres humanos, nos prepara uma íntima convivência com eles? — quantos defeitos ocultos, ignorados do mundo, a vida de família faz evidentes, a ponto de tornar inevitáveis discórdias, que aos olhos do vulgo nunca se justificam?
A corrente destes pensamentos tomou porém, de uma maneira gradual, diverso curso. O nome da família de Pedro não era desconhecido para Margarida.
Andava-lhe associada a mais grata recordação da amargurada infância da órfã. Quem em tão pequeno número contava os corações que tinham simpatizado com o seu, que muito era se recordasse com saudade do pequeno estudante de latim que, de tão longe, vinha sentar-se ao pé dela e falar-lhe com um afeto que até então desconhecera?
Desde que as apreensões do reitor tinham ocasionado a partida de Daniel, nunca mais Margarida lhe falara. Via-o todos os anos, quando ele vinha passar as férias à aldeia, e não podia ocultar a si própria a afetuosa atenção com que ainda então o observava.
Mas, pelos seus novos hábitos de vida, Daniel distanciara-se daquela que conhecera em criança; nem dela talvez se lembrasse já. Margarida pensava agora no caso, que os aproximava assim, e não podia, sem uma vaga inquietação de espírito, ver, no futuro, a possibilidade de uma entrevista com ele.
Os caracteres concentrados, como o de Margarida, alimentam-se ordinariamente de uma ideia fixa... — quantas vezes de uma ilusão? — que forma o segredo inviolável da sua existência inteira. Abre-lhes ela as portas de um mundo imaginário, para onde se refugiam dos embates do mundo real, que impressionam dolorosamente a sua delicada sensibilidade. Quando os encontramos sós, estes melancólicos devaneadores, acreditemos que lhes povoam a solidão formas invisíveis, criadas à poderosa evocação da sua fantasia; o silêncio, em que os virmos cair, dissimula-lhes os misteriosos diálogos na linguagem desconhecida e intraduzível desse fantástico mundo. É uma singular loucura procurar distraí-los, chamando-os à consideração das coisas reais. A mais doce consolação, a mais festiva alegria daquelas almas, é aquilo mesmo que se nos figura tristeza.
Deixem-nos assim. Não queiram erguer-lhes a cara que involuntariamente se inclina; não tentem iluminar-lhes com sorrisos a fisionomia, sobre a qual se derrama uma serena gravidade; não se esforcem por lhes tirar dos lábios comprimidos uma palavra qualquer; o fogo de vida, que parece tê-los abandonado, deixou somente a superfície para mais intenso se lhes concentrar no coração.
Margarida tinha também o seu pensamento secreto, que, em momentos assim, acariciava com amor.
Este pensamento de longe lhe viera, há muito lhe era companheiro. Assim como nas trevas da noite os olhos involuntária e quase irresistivelmente se fixam no mais pequenino ponto luminoso, que lhes surja do seio da obscuridade; assim se voltava o pensamento de Margarida para o único raio, que lhe luzia débil de entre as sombras da existência passada. A cândida afeição de Daniel era este raio; através das diversas fases da sua vida a acompanhara sempre a imagem dele, modificando-se conforme a natureza dos sonhos em cada uma. Aos vinte e dois anos, que Margarida contava agora, recebera essa imagem toda a vida, de que um coração juvenil anima as suas criações mais queridas.
De facto, não fora sem certa comoção de suspeitosa natureza, que a imagem de Daniel adolescente viera, por mal percebidas gradações, afugentar das reminiscências da boa rapariga a do pequeno Daniel, que ela conhecera outrora; não foi sem íntimas turbações de ânimo que, de envolta com as memórias suaves desse curto passado, a fantasia lhe começou a misturar vagas aspirações para um futuro que, agradavelmente e melancolicamente também, agitava o coração da ingénua cismadora.
Era bem triste, depois de sonhos assim, acordar na amarga realidade do presente desencantado, mas era inevitável. O destino decidira de outra sorte.
— Vamos — dizia Margarida a si mesma. — Que mulher sou eu? Quando precisava de dobrada força para o trabalho, ainda me ponho a pensar... Não sei em quê. Pensar!... É um luxo, com que não podem os pobres — acrescentava, sorrindo amargamente. — É um prazer de ricos e ociosos. A nós, sai-nos muito caro cada minuto desperdiçado a pensar assim.
— Clara vai casar — cismava ela depois. — É forçoso que me separe dela. Bendito seja Deus, que me inspirou esta divina ideia de viver pelo trabalho; dele só e com ele deve ser agora principalmente o meu viver. É custoso, porque queria deveras a esta pobre criança, mas é necessário. Um dia podia vir a causar-lhe involuntariamente mal, se ficasse. Hei de partir.
CAPÍTULO XI
Procedia-se com toda a atividade nos preparativos do casamento contratado.
José das Dornas não cabia em si de contente. A formatura de um dos seus filhos, e a perspetiva do vantajoso casamento do outro eram para isso motivos de sobejo.
Acrescentem agora que o ano tinha sido fértil, que o enxoframento das suas vinhas prometia excelentes resultados, e poderão julgar se tinha ou não razão o robusto lavrador para andar satisfeito e para cantar, a miúdo, a sua cantiga favorita:
Papagaio, pena verde,
Não venhas ao meu jardim;
Todas as penas acabam
Só as minhas não têm fim.
Depois de haver superintendido em todos os aprestos que se faziam na casa, para receber o novo adepto da ciência hipocrática, José das Dornas, cedendo àquela irresistível necessidade, tão geral em todos nós, de transmitir aos outros parte das nossas alegrias, comunicando-lhes a narração delas, saiu e transportou-se à loja do Sr. João da Esquina, ponto de reunião da mais escolhida sociedade da terra.
— Ora viva o Sr. José das Dornas! Passasse muito bem, é o que eu estimo — disse o merceeiro do fundo da loja, onde, em pé sobre um banco de pau, se ocupava a despendurar velas de sebo, para satisfazer a requisição de um freguês.
— Deus seja aqui — respondeu José das Dornas sentando-se familiarmente num dos bancos, que havia por fora do mostrador.
— Muito calor, Sr. José — observou o merceeiro, adiantando-se.
— De morrer — acrescentou o lavrador, tirando o chapéu e passando o lenço pela cabeça escalvada.
— Então que se diz de novo? — perguntou o outro, pagando-se da importância do género que acabava de aviar.
— Que se há de dizer? Que se vive, como Deus quer, e cada um pode. Os velhos, como eu, com os seus achaques. — Tal foi a resposta de José das Dornas, morto já por encontrar uma transição natural para falar do filho, sem quebra da modéstia paterna.
— Então já sabe que o padre Custóias é que prega este ano o sermão da Senhora do Amparo? — disse João da Esquina, que sempre que perguntava o que ia de novo, é porque tinha alguma coisa a responder.
— Sim? — exclamou com afetada admiração José das Dornas, a quem, naquele momento, a notícia importava muito mediocremente.
— É verdade. E a filarmónica é que vai tocar.
— Então a festa é de espavento!
— A confraria tem no cofre perto de cem mil réis.
— Está feito!
— E diga-me, Sr. José, que lhe parece da pega do nosso reitor com os do Amparo? Não acha que é um despotismo?
— Eu sei? Olhadas as coisas de certo modo, o homem não deixa de ter alguma razão.
— O quê, senhor, o quê? — exclamou indignado o merceeiro. — Não tem razão nenhuma. Não me diga isso. Ora... Pois fale verdade. De quem é a cera das promessas, que fazem à Senhora? Não é dela? A quem compete então o direito de a vender? À confraria, que é a sua procuradora. Isso é claro como água.
— Pois sim... Não digo menos disso... Mas... Os direitos paroquiais... Enfim, não sei, não sei — murmurava José das Dornas, ansioso por dar de mão ao assunto, sobre delicado para ele, que tinha amizades nos dois partidos, muito fora do seu propósito naquela ocasião.
— Que direitos, que direitos! Tortos lhe chamo eu. Eu bem sei o que aquilo é... Lembra-se do que o reitor de Cisnande fez aos do Mártir? Pois temos outra aqui.
— Homem — insistia José das Dornas, deveras impaciente por não ver aproximar-se a conversa do tópico desejado, antes afastando-se cada vez mais dele. — Não diga isso do Padre António; você bem sabe que o quinhão do nosso reitor é o quinhão dos pobres. Mas... Eu dessas coisas não entendo, nem quero entender; parece-me contudo que era bom que andassem nisso com prudência e aconselhados por quem possa dizer alguma coisa a tal respeito.
— Então o juiz da confraria é algum tolo? Olhe que o João Semana é homem para fazer frente ao reitor se...
Como já tivemos ocasião de dizer, João Semana era, por aquele tempo, o único facultativo da freguesia, e lisonjeiramente conceituado na opinião pública da terra.
Desde que José das Dornas ouviu pronunciar o nome do velho cirurgião, alegrou-se por lhe parecer preparar-se a índole da conversa em sentido favorável ao assunto, que ele mais pretendia tratar; por isso, logo se apressou em observar:
— João Semana é homem fino, bem sei. Mas é também amigo velho do reitor; são amigos de tu e por isso duvido que queira deixar ir as coisas ao mal. De mais a mais, está velho e...
A conjunção devia ser a ponte, de passagem, para o assunto suspirado; mas o merceeiro cortou-lha no princípio.
— Velho, sim, mas robusto como poucos rapazes. Olhe vossemecê que aquela alminha já às cinco horas da manhã tem visitado mais de sete ou oito doentes.
José das Dornas julgou ainda este terreno favorável para lançar os alicerces da ponte que queria construir.
— Isso lá é assim; bem precisa de quem o ajude; e dentro em pouco...
João da Esquina ainda desta vez lhe baldou a tentativa.
— Mas diz você que ele é amigo do reitor? Também eu sou; mas isso não quer dizer nada, o que é de direito...
— Pois sim; eu não digo menos disso; mas enfim... Um cirurgião tem o tempo tão ocupado!... Ainda se o meu filho...
— Uma quarta de açúcar — bradou uma rapariga, que, nesta ocasião, entrava na loja, e por esta forma, uma vez mais, impediu que José das Dornas realizasse o seu intento.
Quando a freguesa se retirou, ele prosseguiu com constância digna de melhor sorte:
— Mas ainda se o meu filho...
O tendeiro porém, que, com a transação que operara, tinha deixado escapar o fio da conversa, julgou que se tratava de Pedro e perguntou:
— Então quando casa ele com a Clarita do Meadas?
— Veremos; provavelmente breve; chegando do Porto o outro rapaz.
— Olhe que foi bem bom arranjo, Sr. Zé — continuou o tendeiro com impertinente falta de perceção. — só o campo dos Bajuncos é uma tal peça de lavra.
— E sobretudo é boa cachopa a rapariga; lá isso é. Pois... Quando vier o outro... — teimava o lavrador.
De novo um feirante veio interromper o discurso ao pobre do pai, que se vingou mandando-o interiormente ao diabo. Já ia desesperando de conseguir a realização do seu inocente propósito, quando o reitor, passando pela porta da loja, lhe perguntou:
— Então vem hoje o homem ou não?
— Eu espero que sim, Sr. Reitor — disse José das Dornas, levantando-se e descobrindo-se. — Pelo menos não recebi ainda notícias em contrário.
— Vê se me mandas avisar, logo que chegue, que o hei de querer ir ver.
— Não há de haver dúvida.
— Adeus.
E o padre continuou o seu caminho, cortejando amavelmente, com um movimento de bengala, João da Esquina, que apesar de partidário dos do Amparo, não acolheu friamente a saudação. Mas afinal, graças às palavras do padre, tomou a conversa o rumo desejado de José das Dornas.
— Com que, temos cirurgião novo cá na terra? Ora Deus o ajude — disse João da Esquina.
— Enquanto o João Semana viver há de custar a afreguesar-se o rapaz — observou o pai, traindo no gesto porém convencimentos contrários, aos que em palavras exprimia.
— Deixe lá. Há gente para ambos. A terra já vai dando para dois, graças a Deus. E o rapazinho saiu esperto!
— Lá isso, diga-se o que é verdade, não é agora por ser meu filho, mas todos o confessaram. Criança era ele ainda, que já o reitor se espantava da memória do rapaz. E se você visse, Sr. João, o livro que ele escreveu? Chamam-lhe lá tese, ou não sei quê. Pelos modos, sem escrever aquilo, não podem ter as cartas de examina. Eu tenho um, que ele me mandou. Como sabe, eu daquilo nada entendo, mas bem vejo que é obra acabada e bem feita. Deixe estar que eu lho hei de trazer, para ver.
— Eu disso pouco sei dizer, não é a minha especialidade.
Não estamos habilitados para declarar aqui qual fosse a especialidade do Sr. João da Esquina.
— Pois sim, bem sei — continuou o pai — ; mas sempre lá há de encontrar coisa que perceba. O João Semana também tem um que o Daniel lhe mandou, e disse-me que está coisa asseada; e o Sr. Reitor afirmou-me que bem se conhece que o rapaz não se esqueceu do latim, porque em... Geografia, parece-me que foi geografia que ele disse, nisto que ensina a escrever com letras dobradas, não tem nada que se note.
— Bom é isso — replicou o tendeiro, já um pouco distraído a somar as parcelas do seu livro de assentos.
José das Dornas continuou:
— Quer saber, Sr. João? Olhe que, pelos modos, o rapaz até lá provou... Já sei que se vai admirar, mas olhe que é facto, assim o leu no fim do livro o Sr. Reitor, até lá provou... Que não há doenças. João da Esquina interrompeu efetivamente a sua tarefa, para fitar no interlocutor uns olhos espantados.
— Que não há doenças?
— É verdade — respondeu o lavrador, saboreando em delícias a estupefação do seu vizinho.
— Essa agora! — dizia este ainda no mesmo tom de espanto. — Mas como se entende isso?
— Assim, como eu digo.
— Ó Sr. José das Dornas, então que é este reumatismo que me não deixa mexer?
— Não sei. Diz ele que é outra coisa; lhe dá um nome, mas é tão arrevesado, que me não ficou.
— Que não há doenças! Essa lá me custa a engolir! Então para que andou o rapaz a estudar, e o que vem fazer para cá, se não há doenças? Faz favor de me dizer?
— Ele não disse que...
Mas João da Esquina estava muito ofendido nas suas crenças, para o deixar continuar.
— Que não há doenças! Sempre é uma, a falar a verdade! Não, não há! Que diabo viu ele então no hospital? Ora essa e que disseram os... Os mestres a isso?
— É o que eu estou morto por lhe perguntar. Mas o Sr. João admira-se? E então se eu lhe disser que ele provou também que um homem é a mesma coisa que um macaco?
João da Esquina fechou com impetuosidade o livro dos assentos.
— Irra! Está a caçoar comigo, Sr. José? Ele podia lá dizer semelhante coisa!
— Pergunte-o ao Sr. Reitor, que assim o explicou; pergunte se não acredita.
— Eu não, pois... Macaco! Então eu sou macaco? Então vossemecê é macaco? Então ele é macaco? Então nós somos... Ora, isso não pode ser.
— Você, Sr. João, pensa que eles entendem as coisas assim como nós. Isso tem lá outro sentido.
— Outro sentido! Que diabo de sentido há de ter? Todos sabem o que é um homem, todos sabem o que é um macaco. Não vejo que outro sentido seja. Macaco!... Irra! Não, essa agora é que me não entra cá.
— Ele, salvo seja — observou José das Dornas, rindo — aqueles diabos parecem às vezes mesmo gente, lá isso parecem; o Sr. João nunca os viu?
— Vi, vi; tenho visto muitos.
— Olhe que fazem coisas! Que, fora a alma, já se sabe...
— Pois sim; mas o... Mas a cauda?
— Ah! Lá isso... — respondeu o lavrador embaraçado.
— Ora então, aí tem — disse João da Esquina com um ar triunfante, capaz de fulminar Lamarck.
— Deixe ver se me lembro de outras que ele provou...
— Não, essa já não é má! Mas, ó Sr. José, deveras ele disse?...
— Ora essa, vizinho! Palavra, que sim.
— Macacos! O rapaz não estava em si decerto. Macacos! Mas então que queria ele dizer afinal? Pois nós somos macacos, Sr. José? Ora diga.
— Não sei. Eles lá o leem, lá o entendem.
— Vão para o diabo. Bem me importa a mim o que eles leem e o que eles entendem. Não está má essa! Macacos!
Durante este solilóquio de João da Esquina, fazia José das Dornas por lembrar-se de mais outras das proposições, que publicamente sustentara seu filho, perante o júri escolar.
— Ah! É verdade — exclamou afinal. — Esta também lhe vai fazer mossa. Já estou vendo... Diz que sustentou lá também que a gente, verdadeiramente, devia andar com as mãos pelo chão.
O gesto do tendeiro foi tão violento, que José das Dornas acrescentou, como corretivo:
— Ele não diz isto bem assim, mas lá por umas outras palavras, que eu não tinha entendido, mas que o Sr. Reitor explicou.
João da Esquina conservava sobre José das Dornas um olhar desconfiado.
— Vai-me parecendo que o Sr. José tem estado, mas é, a caçoar comigo.
— Ó homem! Com verdade com que eu falo, assim Deus salve a minha alma.
— Então com que havemos de andar a quatro como, com a sua licença, as carruagens?
— Não; ele tanto não quer dizer.
— Não quer? Mas se ele diz...
E os dois olhavam-se embaraçados. José das Dornas não podia resignar-se a tirar a consequência, um tanto dura, formulada pelo tendeiro; mas também não lhe ocorria escápula razoável. João da Esquina aguardava em vão a resposta.
Afinal, José das Dornas saiu-se de entre as duas pontas dilemáticas deste «diz e não diz», graças à evasiva costumada em casos tais.
— Homem, eles lá sabem o que querem dizer na sua.
— Eu julgo que não é necessário ser grande doutor para entender isso. Mas que ande quem quiser com as mãos pelo chão, que eu por mim...
— Outro — continuava José das Dornas. — Disse que há muito pouca diferença entre um... Um alimento ou elemento, diz que é a comida que a gente come, e um veneno.
João da Esquina já não podia espantar-se mais; limitou-se a observar com ironia:
— Pois, quando ele vier, cozinhe-lhe vossemecê um guisado de cabeças de fósforos com rosalgar, a ver como ele se dá. Se é a mesma coisa... Sempre ao que ouço! Estes médicos de agora!
— Enfim, mostrou muita outra coisa o rapaz e de que eu agora me não lembro. Pelos modos deixou-os todos maravilhados.
— Se lhe parece que não!... Sendo todas desse jaez.
Para os leitores, alheios a certas noções de ciência e que se sintam tentados, como o Sr. João da Esquina, a duvidar da veracidade de quanto José das Dornas referira, devo eu, em bem do carácter sisudo do honrado lavrador, acrescentar aqui, à maneira de nota elucidativa, que, informando-me com pessoa competente, soube que as proposições que tanto impressionaram o tendeiro tinham os seus fundamentos em várias opiniões e teorias filosóficas, mais ou menos à moda.
Daniel, com o amor do extravagante, natural a quem deixa aos vinte anos os bancos das escolas, afeiçoara-se àquelas proposições que, formuladas, pudessem aparentar-se mais paradoxais, não hesitando em levar às últimas consequências os princípios sistemáticos de algumas escolas e seitas.
Esta vulgar tentação da juventude não lhe granjeou grandes créditos no conceito de João da Esquina, a cujo bom senso repugnavam as asserções, que, pelo relatório de José das Dornas, lhe vieram assim, nuas e cruas, ao conhecimento.
Assim que o lavrador voltou costas, João da Esquina murmurou com os seus botões:
— Nada, para mim não serve o doutor. Se ele diz que não há doenças, que há de cá vir fazer? E depois, pode pôr-me em dieta de vidro moído e cebola albarrã ou outra coisa assim e mandar-me correr a quatro pelos montes. Nada. Quero-me com o João Semana, que é homem sério, e não tem destas esquisitices da moda.