As Pupilas do Senhor Reitor
Capítulo XL · A tarde desse dia empregou-a o reitor…
A tarde desse dia empregou-a o reitor em casa de José das Dornas, onde, com a sua diplomacia, conseguiu evitar as dificuldades da primeira entrevista entre os dois irmãos.
Pedro, cheio de remorsos, abraçava Daniel, e este, que com mais razão os estava sentindo, a custo podia suportar essas provas de arrependimento de uma culpa imaginária.
Repugnava-lhe afetar maneiras de quem perdoa, quando força interior o impelia a ajoelhar, e a confessar-se culpado. Por mais de uma vez esteve para revelar tudo; susteve-o o olhar que o reitor, pressentindo esta tentação, nunca dele desviava.
— Mas — dizia Pedro, já em ponto adiantado da entrevista — se tu gostas da Margarida, porque não hás de casar com ela?
— E julgas que ela consentiria? — perguntou Daniel.
— Porque não? Não te estima também? Eu julgo que bem claro to mostrou ainda ontem.
Daniel achava-se embaraçado. A observação do irmão era, na aparência, tão razoável, que ele não sabia o que havia de responder. Valeu aqui a tática do reitor.
— Ora que sabes tu dos outros, Pedro? — disse ele. — Tem graça! Cada um sabe de si, e é quando Deus quer, que, às vezes, nem de nós sabemos também. O melhor é falarmos em outra coisa, ou tratar cada qual da sua vida.
Daniel da melhor vontade seguiu o conselho do reitor, e a conferência terminou.
Porém, quando o padre ia a transpor o limiar da porta da rua, Daniel aproximou-se dele.
— E Margarida? — perguntou-lhe com certa ansiedade.
— Margarida? Margarida está boa.
— Falou-lhe depois que hoje nos apartámos?
— Falei.
— E persiste na sua resolução?
— Que resolução?... Na de salvar a irmã?... Pois está de ver que sim.
— Não falo disso.
— Então? — perguntou o reitor, com afetada simplicidade.
— Na recusa que esta manhã...
— Ah!... Já me nem lembrava... Não se falou mais em tal.
Daniel baixou a cabeça. O reitor julgou perceber-lhe no rosto sinais não simulados de tristeza e condoeu-se dele.
— E nós cá — disse, batendo no ombro — como vamos? A que paixão se traz agora aforado o coração? Aí nunca pode medrar coisa que preste; é um terreno movediço, como o das areias.
— As plantas de fundas raízes também as sabem prender.
— Mas levam um tempo!... E nem sempre vingam. Aí está que bem antiga foi a primeira sementeira dessa, que traz agora no coração, se é que a traz, mas não vingou dessa vez ao que parece.
— Que quer dizer? — perguntou Daniel, olhando para o reitor, a quem não entendia.
— Homens que não têm sempre presentes os tempos de criança, os mais felizes e os mais inocentes tempos da vida... Deus me livre deles. Há de haver dez anos... — E de repente, parecendo interromper o pensamento, que ia exprimir, o reitor saiu e, já da rua, cantou a meia voz, e afastando-se lentamente:
Andava a pobre cabreira,
O seu rebanho a guardar,
Desde que rompia o dia,
Até a noite fechar.
— Ah! — exclamou Daniel, como se naquele instante lhe ocorrera um pensamento inesperado.
O reitor tinha já desaparecido.
Aquela exclamação abriu no espírito do antigo companheiro de Guida uma longa sucessão de memórias e de pensamentos, aos quais o deixaremos entregue.
Às dez horas da manhã do dia seguinte, o pároco, passando por casa de Margarida, resolveu entrar, não obstante saber serem aquelas horas de ocupação para a sua pupila.
O reitor muitas vezes gostava de assistir às lições das crianças e até de auxiliar Margarida, tomando algumas também.
Com este projeto subiu vagarosamente as escadas; ao subi-las, estranhou o silêncio que havia em casa, de ordinário, àquela hora, ruidosa de vozes infantis.
— Isto será mais tarde do que supunha? — disse o reitor, parando no patamar e consultando o relógio. — Dez horas. Só se o relógio se atrasou; mas esta manhã ainda...
As pancadas sonoras da campainha de um pequeno relógio da sala interromperam-lhe o monólogo.
— Quatro, cinco, seis, são dez, não há que ver — dizia o reitor, contando-as — sete, oito... É isso; nove, e dez. São dez horas, são. Mas então...
E subia, mais apressado já, um segundo lanço de escadas.
— Margarida estará doente? Porém, se fosse de cuidado, tinha-me mandado parte; e não sendo, não era ela a que por qualquer coisa...
E entrou na primeira sala. Escutou — o mesmo silêncio.
— Ou! Estou admirado!
Desta sala passou à do trabalho.
Estava deserta, postas de lado as pequenas cadeiras das crianças, arrumados os cestos de costura e os livros, e na sala aquele ar de tristeza que parecem ter, quando desertos, todos o lugares ordinariamente concorridos.
Sentiu esta impressão o reitor; foi agitado de secreto receio que atravessou os corredores e abriu a porta do quarto de Margarida.
Encontrou-a sentada, a ler, com a cara encostada à mão, o rosto sereno, mas abatido, e nos olhos vestígios de lágrimas, enxugadas de pouco.
— Que significa isto? — disse o reitor, dando às suas palavras um tom jocoso, mas conservando no olhar a mesma vaga inquietação. — É hoje dia de sueto.
Margarida fechou o livro, ergueu-se para beijar a mão ao reitor e com uma voz, onde, quem estivesse exercitado em estudá-la, podia perceber ainda um desvanecido tremor, respondeu:
— As mães das minhas discípulas quiseram dar-me tempo para o arrependimento e para a penitência. Dispensaram-me dos meus serviços. E eu... Aproveitei o conselho, que me deram, assim. Veja.
E mostrou o livro que lia. Era o dos Salmos.
O reitor bateu impetuosamente com a bengala no chão.
— Mas isso é indigno! Isso é... É... Ora deixa estar que eu lhes vou falar...
— Não vá. Eu já esperava por isso. De que se admira? Porque as censura? Então não era da sua obrigação fazer o que fizeram?
— Margarida, isto é de mais! É preciso dar-lhe algum remédio, ou então...
— E aí voltamos à nossa demanda — disse Margarida, sorrindo. — Não sabe já que não há melhor remédio a dar-lhe?
— Há de haver; isso é que há de haver por força, que to digo eu. Tu estás a obrigar o teu coração a coisas, que não são para corações humanos. Hás de acabar por o esmagares. Sabe Deus o que ele padece já!
— Ora diga, quando o coração padece, pode-se estar a sorrir, como eu? Vê?
E Margarida obrigava-se a sorrir.
— E as lágrimas de ontem? — prosseguiu o reitor. — E as de hoje? Terás coragem para, olhando bem para mim, me afirmares que ainda hoje não choraste, quando eu tas estou a ver nos olhos?
— É certo. Chorei.
— Ah!
— Mas de saudades. Cerrou-se-me o coração de tristeza ao pensar que me separavam daquelas crianças, que todas me queriam, que eu via crescer, que eu ensinava a falar. Mas... Paciência! A tudo se costuma o pensamento e dentro em pouco...
— Nada, nada — continuou o reitor — não entendo eu isso de tal forma. Tudo tem os seus limites. Isso agora bole-me com a consciência. Eu vou perguntar a essa gente...
— O que lhe vai perguntar?
— O que significa este desaforo? Quero lançar-lhe em rosto os seus escrúpulos patetas e estúpidos. Olhem as presumidas!
— Não faça isso.
— Margarida, é um pecado levar as coisas tão longe. E pensas que a tua irmã, sabendo disto...
— Clara não o saberá. Para que o há de saber? Tinha saído, quando eu recebi o recado dessa pobre gente. Eu lhe direi.
— Que lhe hás de tu dizer?
— Qualquer coisa... O que me lembrar. Dir-lhe-ei que estou cansada desta vida afinal; que lhe dou agora razão... E que aceitarei... A... Caridade... Da minha irmã.
E a estas palavras a comoção dominava outra vez Margarida.
— A caridade! Quem fala de receber caridades? Tu, que foste pródiga de benefícios? Tu, que te despojaste da tua capa para cobrires com ela os ombros nus da tua irmã? Ai, Margarida, que é isso menos abnegação, que orgulho já. Não, desta vez não cederei. Vem, filha, vem comigo.
— Eu?! Aonde?...
— Vem; encosta-te ao meu braço. Quero ver agora quem se atreve a murmurar daquela que passa apoiada ao braço do seu reitor. Sempre quero ver.
— Não me obrigue.
— Vem, Margarida; tens os pobres do costume a visitar e entre eles... E até, se queres ainda despedir-te do teu mestre, não deves adiar a tua visita, porque...
— Pois está pior?!
— Está próximo a obter o alívio de todos os seus males. Ora então vem, e veremos se eles também... Se essa pobre gente, que socorres, recusa a esmola, que lhe ofereces, as consolações que lhe sabes dar.
— Mas... Jesus, meu Deus! Não sei se terei forças agora...
— Pede-as à consciência. Ela tas dará. Não me recuses o que te peço, Margarida; ou então Clara saberá tudo. Eu te prometo que isso não fica assim como está.
O pároco mostrou-se desta vez exigente. Margarida cedeu às reiteradas insistências dele.
Passados momentos iam ambos silenciosos pelos caminhos da aldeia.
A apreensão, de que se possuíra Margarida, fazia-lhe vacilar os passos. Teve de segurar-se por isso ao braço do seu velho amigo e protetor.
Chegaram assim ao largo, onde morava o enfermo.
À sombra das árvores brincava, a saltar e a dançar, um bando de crianças, a cujas vozes joviais respondiam da copa da alameda os gorjeios das aves escondidas.
As crianças, ao verem aproximar-se Margarida, mestra de quase todas, correram, soltando gritos de alegria, a beijar-lhe a mão.
As mães, porém, que estavam sentadas, fiando e conversando, nas soleiras das casas, que circundavam o largo, obrigaram-nas a parar a meio caminho.
— Vem cá, Luísa! — bradou uma delas.
— Ó Maria, onde vais tu? — Para aqui, já; corra! Exclamava outra.
— Ó Ana, ó Ana! Então isso é o que eu te disse? Salte para casa. Ande!
— Ó Ermelinda, não ouves? Não ouves, Ermelinda? Olha se queres que eu vá lá?
E no mesmo sentido partiram de todos os lados vozes, que constrangeram as crianças a pararem irresolutas.
A significação injuriosa daquelas palavras, daquelas ordens maternas, foi logo compreendida por Margarida e por o reitor.
Aquela tremeu e instintivamente apertou o braço do seu velho tutor; este tremia também, mas de indignação.
— Olá! — bradou ele, não lhe sofrendo o ânimo mais reservas — olá, Luísa, Maria, Ermelinda, Ana — aqui já, já, todas aqui já!
— Então, não ouvem?
As crianças aproximaram-se tímidas. Ele continuou, com voz rija e alterada pela cólera:
— Já que as vossas mães vos ensinam a ser desobedientes e malcriadas, aqui estou eu para vos dar a educação. Beijem a mão à sua mestra, já. Ouvem-me?
— Senhor! — murmurou Margarida.
— Deixa-me — respondeu o reitor, desabridamente. — Então, vamos!
As crianças tomaram a mão de Margarida e beijaram-na com timidez. Margarida abraçou-as, soluçando.
— E vocês lá! — continuou o padre, dirigindo-se às mães. — Tudo a pé! Que modos são esses de estar diante do seu Reitor?!
As mulheres levantaram-se respeitosas e mudas.
— Agora aproximem-se e venham aqui pedir por favor a esta rapariga, à minha pupila, entendem? — à minha pupila; venham pedir-lhe que lhes abençoe as filhas. Vamos!
O orgulho feminino revoltou-se contra a intimação.
— Essa agora!
— Era o que me faltava!
— Olhem os meus pecados!
— Não, que ele não há mais!
— Disso a livrará o Senhor!
— Não há de ser a filha do meu pai.
— Para longe a tentação...
— Que é? Que é? Que é lá isso? — exclamou o reitor, interrompendo este zunzum de má vontade e insubordinação. — Que virtuosíssimas criaturas sois vós todas! Olhem lá que não manchem os lábios a pedir! Não vos custa manchá-los a jurar em vão o santo nome de Deus, não se vos importa manchá-los a assoalhar as vidas alheias, a caluniar as amigas, a insultar as vizinhas; mas fazeis escrúpulos de os empregar, a pedir a bênção para vossos filhos, a quem, mais e melhor do que vocês todas juntas, lha pode e deve dar.
— Ora! — disseram algumas vozes.
— Ora! Ora o quê? Saibam então que todas, todas vocês, nem são dignas de lhe beijarem as bordas dos vestidos. O que sabeis é engrolar Padre-Nossos e roçar com a testa pelo chão das igrejas; mas não tendes coração para a doutrina do Senhor, não. Vós, as santas criaturas, envergonhais-vos de pedir, como se vos desonrassem com isso? Pois eu não me reconheço tão puro; sou um pobre pecador e por isso não devo ter essas soberbas de bem-aventurados.
E o padre, dominado pela exaltação que se lhe apoderara do espírito irritado, curvou-se, descobrindo-se; e tomando a mão de Margarida, levou-a respeitosamente aos lábios, apesar dos esforços daquela.
A assembleia feminina baixou toda os olhos de confusão.
As crianças rodearam a sua jovem mestra e desta vez espontaneamente lhe cobriram de beijos as mãos.
Margarida, banhada de lágrimas, baixou-se e uma por uma as apertou ao seio, sem poder falar de comovida.
— Bem, minhas filhas, bem — disse o reitor. — Dais assim um nobre e belo exemplo a vossas mães; é decerto a mão de Deus que vos tocou os corações. Quem se recusará a imitá-las?
— Eu não — disse uma voz por detrás do reitor.
Este voltou-se e viu José das Dornas, que se aproximara há alguns momentos e assistira à cena, que descrevemos.
O velho lavrador, depois de responder assim ao pároco, aproximou-se também de Margarida e, pegando-lhe na mão, disse:
— Minha filha, eu tenho sessenta anos. Desde que a minha mãe morreu... Há quarenta anos quase, nunca mais beijei a mão a ninguém. Pois digo-lhe que o faço agora ainda com mais respeito, do que fazia então.
E o rude, mas generoso lavrador, baldando a resistência de Margarida, imprimiu-lhe na mão um beijo, em que ia toda a franqueza e lealdade daquele carácter.
Ao endireitar-se, achou-se nos braços do reitor.
— Bravo, José! Bravo, meu homem! Isso esperava eu de ti, que te conheço há muito. Bravo! Bravo! — dizia ele entusiasmado até às lágrimas.
O exemplo obrigava. Algumas mulheres aproximavam-se já de Margarida e houve uma, que lhe segurou a mão.
Margarida porém retirou-lha e, esquecida da injúria passada, recebeu-a nos braços.
As outras, livres assim da ação, que mais lhes magoava o orgulho de mulher, correram já de boa vontade a abraçarem a pupila do reitor.
Enquanto se passava esta cena, o padre, chamando à parte José das Dornas, perguntou-lhe:
— Então soubeste?...
— Esta manhã foi que mo disseram. Creia, Sr. Reitor, que não pus más suspeitas na rapariga. Eu sei de que diamante é feito aquele coração. Corri a procurá-la para lhe dizer isto mesmo; soube que tinha saído com o Sr. Reitor; vim-lhes na pista...
— E então que pensas tu de tudo isto, José?
— O que penso? Já o tenho dito por aí. Eu não sei lá como as coisas se passaram, porque, segundo o costume, cada um conta a história ao seu modo; mas que a culpa é toda do Daniel, isso para mim é de fé. Tem diabo o rapaz! Já vejo que é impossível deixá-lo ficar aqui na terra. Lá me custa, que sempre é filho; mas não há outro remédio. Que vá para o Brasil.
Estas palavras chegaram aos ouvidos de Margarida, e fizeram-na estremecer.
— Para o Brasil? — disse o reitor, abanando com a cabeça em sinal de desaprovação. — Então que há de ir o rapaz fazer para tão longe?
— Pode enriquecer por lá, que é terra para isso. Que dúvida? E pelo menos escusa de andar por aqui a desacreditar as raparigas da aldeia. É sestro que não perde, ao que estou vendo. Escuso de me arriscar a mais desgostos.
— Mas...
— Para que diabo lhe havia de dar! Logo então esta, a mais sisuda, a mais santa das nossas raparigas!
— E se os casássemos? — disse em voz baixa o padre a José das Dornas.
— O quê?! — perguntou este, espantado com o alvitre.
— Sim, que dúvida? Pois que melhor noiva podes querer para teu filho, do que aquela, a quem já pensaste poder beijar a mão?
— Decerto, mas... Não conhece o rapaz, Sr. Reitor? Aquilo casado! Ó santo nome! E então com esta!... Pobre rapariga!
— Enfim, pensaremos e conversaremos. Olha que a dificuldade parece-me ainda mais dela, do que dele.
— Que diz?!
Apesar do elevado conceito, em que José das Dornas tinha o carácter de Margarida, não podia conceber como fossem possíveis as repugnâncias da parte dela, para um casamento tão vantajoso.
— Então que queres? — disse o reitor — orgulhos de pobre... Não compreendes isto?
E tomando o braço do lavrador, como quem tinha a comunicar-lhe alguma coisa importante, afastou-se com ele um pouco para o lado. Depois de darem assim juntos alguns passos, voltou-se de novo o reitor e, dirigindo-se a Margarida, disse-lhe:
— Olha lá; se queres, vai agora visitar o teu mestre, enquanto eu converso aqui com o José das Dornas. Quando saíres vem ter connosco à alameda, que lá andamos.
E caminhando na direção da alameda indicada, prosseguiu na sua conversa com o lavrador:
— Pois é o que te digo, José. Eu tenho pensado neste negócio, e tão embrulhado o vejo, que não sei de outra saída melhor, do que essa que te disse. Mas enfim, pensa tu e se te lembrares de alguma preferível...
Não obstante as tolerantes disposições de espírito, de que fazia assim ostentação, o reitor estava preparado para achar péssima toda a solução, que não concordasse com a sua.
Deixando-os no passeio da alameda e na conferência, tão prometedora de importantes resultados, que iam encetar, seguiremos antes Margarida, a qual, ainda sob o domínio das últimas e violentas impressões recebidas, entrou em casa do seu mestre.
CAPÍTULO XLI
Havia na sala grande obscuridade e um silêncio profundo.
Parando, até habituar a vista àquela pouca luz, Margarida chamou, a meia voz, a mulher, a quem ela e a sua irmã pagavam para tratar do doente.
Ninguém lhe respondeu.
— Pois teria a crueldade de o deixar assim, neste estado! — pensou Margarida.
E apertava-se-lhe o coração só com a lembrança de tal abandono.
— Maria! — repetiu, elevando a voz.
O mesmo silêncio em resposta.
— Só! Coitado!... Só! Que coração o desta gente, meu Deus!
E, com as lágrimas nos olhos, encaminhou-se para a alcova.
Guiava-a o respirar ansioso do enfermo. Mais acostumada já à obscuridade da sala, conseguiu Margarida aproximar-se do leito, em que ele jazia.
Com a solicitude de filha, inclinou-se a observar o estado do pobre velho; e dando às suas palavras aquela inflexão carinhosa, que é o segredo sabido das mulheres ao velarem por um doente estremecido, disse-lhe, unido quase o rosto ao rosto macilento do moribundo:
— Deixaram-no aqui só? Como se sente? Dormia talvez, e eu vim acordá-lo.
E, ao examinar-lhe assim de perto as feições, estremecia de susto.
Naquela palidez, naquele olhar, no movimento dos lábios entreabertos, havia de facto uma significação de assustar.
— Então não se acha melhor? — repetiu Margarida no mesmo tom de voz e limpando-lhe compassiva a cara, da qual um suor frio corria em abundância.
O velho volveu para ela um olhar que, apesar de amortecido, refletia ainda bem evidente a mais viva expressão do seu entranhado afeto e, por um movimento de cabeça, respondeu negativamente à pergunta.
— Coitado! — prosseguia Margarida, ajeitando-lhe a roupa do leito. — Padece muito, não padece?
O doente moveu os lábios como para articular algumas palavras, mas tão sumido lhe saía já o som, que não se podia distinguir de um suspiro.
Margarida palpou-lhe as mãos; estavam frias, dessa frialdade de cadáver, que desperta em nós repulsão instintiva. Apesar de toda a sua corajosa afeição a este velho, a compadecida rapariga, ao senti-las assim, ia a retirar as suas; mas impediu-a a contração violenta com que lhas segurou o agonizante.
Por pouco rompia um grito do seio de Margarida. Figurou-se-lhe, no primeiro momento, que um cadáver a ia prender ao sepulcro.
Venceu-se porém, e deixando a sua mão entre as mãos geladas do velho, e com a outra arredando-lhe da cara os cabelos brancos, que em desordem a cobriam, continuou:
— Jesus, que soube o que é padecer, há de ter compaixão de si. Ele lhe dará o alívio.
O velho fez um esforço, e fitando Margarida com olhar, ao mesmo tempo de dor e de saudade, murmurou a custo e em voz cortada pela respiração:
— Sim... Alívio na morte.
— Não diga isso — replicou Margarida, procurando sorrir, mas tremendo-lhe os lábios de compaixão. — Como perdeu assim a esperança? Pois não se lembra de, ainda há dias, combinarmos dar uns passeios, que lhe hão de fazer muito bem? Havemos de ir breve; vou eu, a Clara, e o Sr. Reitor também vai, que já me prometeu. Há de ser à ermida da Senhora da Saúde. Se soubesse como lá é bonito! A vista segue, segue por cima de campos, de devesas, de aldeias, e tão longe, tão longe, que só pára no mar. Não se pode estar doente ali; verá.
Um sorriso, sorriso de gratidão e de amargura também, se desenhou nos lábios descorados do velho, sorriso como pode ser o dos agonizantes — triste, desalentado, desconsolador.
— Então parece-lhe que não há de gostar do passeio? — prosseguiu Margarida, a quem fazia mal vê-lo sorrir assim. — Que medos são esses agora? Quantas vezes tem já estado, como está hoje? Senão pior ainda; e depois melhora. Olhe, vou dizer-lhe uma coisa. Está para poucos dias o casamento de Clara. É preciso pôr-se bom para esse tempo.
O doente tomou uma expressão e agitou os lábios, como procurando falar.
Margarida inclinou o ouvido atenta, para conseguir percebê-lo. Entendeu-lhe estas palavras mal distintas:
— Não, nunca senti isto...
— Que o aflige então? — perguntou Margarida.
— Não sei... É aqui... — e com dificuldade elevou a mão ao peito; depois acrescentou: — É a morte.
E, dizendo isto, fechou os olhos, como se extenuado pelo esforço.
— Bem sei também do que há de ser isso — prosseguiu Margarida, depois de pequena pausa. — É de estar assim tão sumido pela cama abaixo. Quer que o levante?
O velho fez um sinal de assentimento.
Margarida segurou então por baixo dos braços aquele corpo enfraquecido e descarnado; e suavemente, com cuidado de mãe, com a arte instintiva na mulher, elevou-o para a cabeceira. Mas o aspeto que iam tomando as feições do doente, à medida que ela o levantava assim, intimidou-a e tanto, que precisou de fechar os olhos com medo de que lhe faltassem no meio as forças, a que a piedade dera alento.
A palidez aumentava naquele rosto desfigurado; afastavam-se-lhe os lábios para respirar; cada expiração era acompanhada de um gemido.
— Está pior? — dizia Margarida, sobressaltada com a mudança. — Sente-se mais mal? Fale. Porque está assim aflito? Estava melhor na posição que tinha? Quer que o ajude outra vez a descer?
E inquieta, aterrada por aquela agonia silenciosa, Margarida juntava as mãos, irresoluta do que devia fazer.
O moribundo parecia que a não escutava. Caiu pouco a pouco num abatimento extremo. A mão, que Margarida lhe tomara entre as suas, já não dava sinal de movimento, nem de vida.
Dissera-se, ao vê-lo agora desfalecer gradualmente, que a morte se aproximaria lenta, suave, sem paroxismos; como o adormecer, que se não pressente.
De súbito porém alterou-se esta placidez enganosa.
Animado de uma energia, que contrastava com a depressão que, momentos antes, lhe paralisava os membros, tocados pelo dedo da morte, afastou impaciente a roupa e, elevando as mãos, cruzou-as sobre o peito, ao mesmo tempo que inclinava para trás a cabeça, como em espasmo violento.
Margarida julgou-o morto.
Apoderou-se então dela um terror súbito e profundo. Assustou-a aquela escuridade, aquele silêncio, aquela agonia, e, soltando um grito, correu à porta para pedir socorro.
Ao abri-la, achou-se inesperadamente em face de Daniel, que, por acaso, passava ali também naquele momento.
Estava muito agitado o espírito de Margarida, para que a presença de Daniel produzisse nela a impressão, que, em outras quaisquer circunstâncias, produziria.
No homem, que mais pudera influir-lhe no coração, ela só viu, naquele momento, o médico, o socorro que lhe enviava talvez a Providência; e, com as lágrimas nos olhos e as mãos juntas, caminhou para ele, sem hesitação, sem timidez, cheia de confiança.
— Por amor de Deus, Sr. Daniel, acuda a este infeliz, que morre! — dizia ela comovida.
Daniel, surpreendido ao princípio pelo inesperado aparecimento de Margarida, num instante recebeu o contágio abençoado da generosidade daquela alma.
A mais leviana cabeça curva-se diante da manifestação sincera de uma dor assim; o coração mais volúvel deixa-se penetrar do influxo misterioso da simpatia e cerra-se a outros motores menos desinteressados.
Daniel compreendeu toda a nobreza daquele sentimento e sentiu-se arrastado por ela.
— Que aconteceu, Margarida? — perguntou ele, olhando com atenção para aquelas feições, que recordava-se já ter conhecido na infância, e agora duplamente realçadas pela poesia dos vinte anos e pela poesia da tristeza. — O que a assusta assim?
— Venha, venha — respondeu Margarida; — foi Deus, que o trouxe aqui! — E tomando-lhe a mão por um movimento, ao qual a menor vacilação de suspeita não alterava a firmeza, conduziu-o à cabeceira do moribundo.
— Veja! — disse ela então, deixando a mão de Daniel — e salve-o, se puder.
A agonia de morte, com que naquele momento lutava o ancião, não permitia conceber esperanças; um simples olhar revelou a Daniel toda a verdade.
— Salvá-lo?! — murmurou, sorrindo tristemente e apalpando-lhe o pulso, quase sumido.
— Aliviá-lo ao menos! — disse Margarida. — Pois não haverá nada, que lhe diminua esta ânsia?
— As suas orações, talvez, Margarida. Tente.
Margarida caiu logo de joelhos, e com as mãos erguidas e os olhos, donde lhe corriam as lágrimas, fitos no rosto do agonizante, murmurou uma prece fervorosa.
Daniel, em pé, do outro lado do leito, contemplava-a com afeto. Não há muito tempo que, naquele mesmo lugar, ele tinha visto Clara; mas que diversa e mais profunda era a sensação que recebia agora!
A dor, a compaixão, a fé pareciam transfigurar o melancólico vulto de Margarida; dar vida àquelas feições de ordinário serenas; fulgor, àqueles olhos, languidamente cismadores; movimento aos lábios, que de costume a meditação contraía.
A vida latente dessa natureza delicada e sensível revelava-se em ocasiões destas. Como que um raio de luz divina descia então sobre aquela beleza, que a luz da terra iluminava mal.
Sentia-se vontade de ajoelhar diante dela; a alma toda ia nesta contemplação, quase extática. Nunca mais se apagava da memória a imagem da simpática rapariga, vista uma vez sob tão prestigioso aspeto.
Lutando entre a paixão e o respeito, entre o amor que sentia nascer em si, veemente como nunca, e um vago enleio de timidez, novo para ele, Daniel não podia tirar os olhos daquela saudosa figura de virgem em oração, que lhe parecia quase sobrenatural.
A agonia do velho acalmou, como se por efeito das preces de Margarida. Foi, pouco a pouco, decaindo da ansiedade num profundo abatimento; a respiração fazia-se a custo e com grandes intervalos; a cabeça pendia-lhe desfalecida. Depois os olhos, já embaciados, voltaram-se lentamente para o lugar, onde Margarida rezava ainda; agitaram-se-lhe os lábios como a balbuciarem um nome — o dela —; um sorriso de suave placidez cobriu aquelas feições como do reflexo da felicidade suprema, e uma lágrima, a última, rolou-lhe pelas faces, vagarosa, solitária.
— Veja, veja — disse em voz baixa Margarida para Daniel, sem desviar o olhar do rosto do velho, onde estas mudanças se sucediam rápidas.
Daniel inclinou-se sobre o peito do moribundo, e conservou-se por algum tempo assim.
Ao erguer de novo a cabeça, apenas disse:
— Está morto.
Ao ouvir esta fatal palavra, Margarida, sufocada de choro, apoderou-se da mão do seu velho amigo, cadáver já, e cobriu-a de beijos e de lágrimas.
Reinou por algum tempo o silêncio na sala. Interrompia-o apenas o soluçar da afetuosa rapariga.
— Margarida — disse-lhe enfim Daniel, que estivera presenciando mudo aquela dor generosa — é diante deste cadáver, que lhe vou falar agora. Foi Deus que me trouxe a esta casa. Disse-o há pouco, não disse? E foi; creio agora que foi. O lugar é para mim tão sagrado, como o interior de um santuário. Não é verdade que ninguém teria coragem para mentir aqui, Margarida? Não é verdade que ninguém pode recear do seu coração, quando o interroga em momentos como este, e o sente forte? É pois aqui, é neste momento, que eu lhe repito, que eu lhe venho jurar que a amo, Margarida.
— Oh! Cale-se, cale-se! — exclamou sobressaltada Margarida, sem levantar o rosto para ele.
— Para que me manda calar? Levará tão longe a sua desconfiança, que possa acreditar que até aqui lhe minto, que nem a promessa, feita sobre este leito, para mim consagrado pela sua generosidade, que nem essa saberei respeitar?
— Por compaixão, por misericórdia, cale-se — dizia, com maior veemência, Margarida, elevando agora para ele as mãos juntas e os olhos banhados de lágrimas.
— Margarida! — repetia Daniel.
— Não vê que é um sacrilégio quase isso que está a dizer? Repare, veja onde está; olhe o que nos separa. Oh! Cale-se!
— É a solenidade do lugar e do momento, que me anima a falar-lhe. Não duvide de mim, Margarida. Será preciso que lhe lembre o tempo passado? Será preciso que lhe fale da infância, Guida! Da infância que passámos juntos?
— A mim? Serei eu a que preciso avivar lembranças? — disse involuntariamente Margarida, num tom quase de amarga exprobração; mas, reprimindo este movimento, que não soube disfarçar a tempo, acrescentou com desespero: — Que quer de mim?
— A sua confiança, a sua estima; juro-lhe que a mereço. Pela primeira vez, faço sem hesitar este juramento. Alguma coisa se passou no meu coração, que me fez outro homem. Acabou o louco sonho de dez anos, que andei sonhando. Despertei ontem. Agora sou o mesmo Daniel, que daqui partiu, deixando na aldeia alguém, que do alto dos montes olhava com tristeza para a estrada, que o constrangeram a seguir, estrada que, ele também, regou com lágrimas de saudades. Guida, não me perdoará as loucuras deste sonho mau? Não mas perdoará em nome do passado? Fale.
Margarida não respondia.
— Diga, que devo eu fazer para adquirir de novo essa estima, que perdi? Peça-me sacrifícios, peça-me provas; mas não me feche assim de todo o coração. É generosa para com todos, e só para mim...
— Que quer? — disse Margarida, afastando com as mãos trémulas os longos cabelos negros, que se lhe tinham desprendido pelos ombros. — Que me vem pedir aqui? Para que vem lembrar-me o passado que, primeiro do que eu, deixou esquecer? Deseja a minha estima, a minha confiança... Confiança em quê? No seu carácter?... Bem sabe que não desconfio da nobreza dele; no seu coração? — e a voz tremia-lhe ao acrescentar: — ai, no seu coração... Para que deseja que eu me ocupe do seu coração, Daniel? Por piedade não me fale assim! Se soubesse o mal que me faz, se soubesse... Ó meu Deus! Eu a dizer isto e este cadáver a pedir-nos orações! Daniel... Sr. Daniel, peço-lhe que me deixe rezar.
— E vai rezar com a alma cerrada aos sentimentos de piedade, Guida?
— Daniel! — repetia Margarida, quase suplicante.
Naquela posição, com aquele olhar, pronunciando-lhe assim o nome, tão sentida e singelamente, a simpática pupila do reitor acabou por dominar de todo o coração de Daniel.
— Margarida! — exclamava ele — não vê que essa desconfiança me mata? Por piedade!
Margarida julgou perceber não sei quê de sentido e de apaixonado na voz e no gesto, que a imploravam assim.
Olhou algum tempo para Daniel, irresoluta; ia talvez estender-lhe a mão, ia revelar enfim o seu segredo de tantos anos; o mesmo pensamento porém, que a obrigara a guardá-lo até ali, fê-la recuar mais uma vez.
Mas Daniel tinha-lhe percebido já a hesitação; bastou-lhe um instante para convencer-se de que não era com a indiferença, que teria a lutar. Alentou-o esta ideia. Enquanto que Margarida recuava, ele, cada vez mais próximo, ia de novo repetir a súplica.
Neste momento as mãos, que o velho Álvaro conservava ainda cruzadas sobre o peito, desunidas agora pela morte, vieram cair inertes no leito, de cada lado do corpo.
A esta aparência de animação no cadáver, a este movimento inesperado como para separá-los, Daniel recuou, estremecendo, e Margarida soltou um grito, ocultando o rosto com terror.
Neste tempo abria-se com violência a porta da sala e aparecia no limiar a figura do pároco.
— Que é isto? — perguntou ele, ouvindo o grito de Margarida, e alternando o olhar inquieto entre ela, ajoelhada ainda, e Daniel, pálido e em pé, do outro lado do leito.
— É uma vida de tormentos que findou — respondeu Daniel, indicando o cadáver do velho.
Então o padre caminhou lentamente até junto do leito, onde um feixe de luz, entrando pela porta que ficara aberta, vinha iluminar a cabeça do morto; contemplou-a por algum tempo com tristeza; depois, ergueu os olhos e as mãos para o céu, e começou com voz pausada e clara a recitar:
— Requiem aeternam donna ei, domine! Lux perpetua luceat ei. Requiescat in pace. Amen.
Cedendo à influência da voz, do gesto e da sincera compunção do reitor, ao recitar a oração mortuária, Daniel ajoelhara.
O reitor continuou por algum tempo rezando ainda em voz baixa. Depois dirigiu melancolicamente os olhos outra vez para a fisionomia serena do morto; consolou-o aquele reflexo de felicidade, que julgou perceber nela. Em seguida, voltando-os para Daniel e Margarida, que se conservavam ainda ajoelhados, suspirou.
Cedo porém veio um sorriso desanuviar as feições do pároco. Ergueu novamente as mãos, como a invocar a influência do céu, e sem que os dois o pressentissem, cobriu-os com a sua bênção.
Quando, passado algum tempo, saiu com a sua pupila da casa, em que estas cenas se passaram, ia a sorrir de satisfação o reitor. É que lá lhe parecia que tinha sido inspiração divina aquela bênção dada ali, e que não podia deixar de ser eficaz, para o que ele meditava.