As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 18 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XXIV · A vida que, por aquele tempo, Daniel…

 

A vida que, por aquele tempo, Daniel passava na aldeia, era de uma monotonia capaz até de saciar as exigências do homem mais indolente e ocioso.

Vejamos em que se ocupava o nosso herói, enquanto, sem o suspeitar, estava sendo objeto do momentoso diálogo, do qual, no capítulo antecedente, nos aventurámos a ser cronista.

Para isso tomemos a dianteira ao reitor e entremos, antes dele, no quarto de Daniel.

Não sei se é a voz da consciência a que me está a bradar que vou cometer uma indiscrição.

A ociosidade absoluta imprime de ordinário aos actos do homem certa feição pueril, que ele procura sempre ocultar aos olhos estranhos.

As pessoas mais sisudas e graves têm momentos na vida, durante os quais, a sós consigo, se entregam a distrações de criança.

É possível, pois, irmos encontrar Daniel num dos tais momentos; e talvez que o possamos, por essa forma, prejudicar no conceito dos leitores. Mas, por quem são, lembrem-se que, em horas de ócio e enfado, ouso eu afirmá-lo, não têm sido também demasiado escrupulosos na escolha de passatempos; e essa consideração decerto os fará indulgentes.

Àquela hora do dia, Daniel sentia-se morrer de tédio, debaixo dos telhados paternais. 

O calor não o deixara sair.

Quis ler; faltavam-lhe os livros. Os seus ainda não tinham chegado da cidade.

Revistando os cantos e caminhos da casa, apenas encontrou três repertórios dos anos findos, uma cartilha de doutrina cristã, uma tábua de pesos, medidas e dinheiros, e, em género mais ameno, o Testamento do Galo, a Confissão do Marujo Vicente, e a Vida Milagrosa de não sei que santo, padroeiro da freguesia.

Ainda assim, tudo isso leu Daniel, por um motivo análogo, ao que levou os náufragos da nau Catrineta a «deitarem sola de molho, para o outro dia jantar».

Esgotado este pecúlio literário, lembrou-se Daniel de escrever cartas. Encontrou porém o tinteiro muito pobre de tinta; essa, amarela e bolorenta; e, pior que tudo, uma pena de pato de tantos caprichos, que lhe fez perder logo a paciência.

Veio para a janela e, durante algum tempo, divertiu-se a atirar biscoitos a um cão, que andava solto pela quinta. As galinhas, patos, pombas e perus, que havia em abundância na casa, corriam tumultuosamente a disputar ao quadrúpede as migalhas, as quais ele defendia com unhas e dentes.

Este jogo de circo, em miniatura, encantava Daniel. Afinal cansou-se dele também e fê-lo cessar.

Vendo então um gato em pachorrento repouso, no alto de uma ramada distante, tomou um espelho e, por meio dele, fez cair sobre a cabeça do sonolento animal os raios ofuscadores daquele sol de Agosto.

O gato, assim despertado, abriu os olhos, mas fechou-os logo, e desviou a cabeça para se furtar àquela pouco agradável impressão. Depois de vários movimentos, sentindo-se sempre perseguido pelo mesmo reflexo, ergueu-se, espreguiçou-se, aguçou as unhas na madeira da ramada e, voltando-se para o outro lado, ajeitou-se, com o manifesto intento de concluir o sono interrompido.

Impossibilitado, por esta evolução do gato, de continuar a incomodá-lo da mesma forma que até ali, Daniel fez-lhe pontaria com uma maçã verde, e tão certeira, que o projétil foi bater em cheio nas costas do animal, que num salto desapareceu.

Terminou para Daniel mais este divertimento.

No peitoril da janela, descobriu porém uma formiga. Uma formiga! Que valioso achado naquelas alturas!

A providência dos desocupados velava decerto por ele.

Procurou logo uma migalha de pão e pô-la na passagem do laborioso inseto.

A formiga parou, tenteou com as antenas o estorvo, assim de repente lançado no seu caminho, examinou-o de todos os lados, depois, talvez que por capricho — porque até os insetos têm, ao meu ver, os seus caprichos — deu-lhe para desprezar o alimento e deitou a fugir.

Daniel insistiu, colocando-lhe outra vez o pão na passagem; o mesmo exame da parte da formiga e a mesma rejeição final. Nova tentativa de Daniel foi ainda seguida do mesmo resultado. Era de mais a sua paciência; com um sopro fez voar migalha e formiga pela janela fora.

E, mais outra vez, ficou sem entretenimento.

Pôs-se a passear no quarto; primeiro descrevendo ziguezagues; depois, procurando conservar os pés na linha de juntura de tábuas do soalho; em seguida, medindo escrupulosamente a passos regulares o comprimento e a largura do retângulo do aposento; e, feita esta última operação, multiplicou os resultados obtidos, como se tomasse muito a peito o cálculo daquela área.

Completa essa tarefa, e, depois de alguns bocejos expressivos de enfado, procedeu ao trabalho, não menos importante, de equilibrar na ponta do dedo mínimo uma vara de marmeleiro.

Cansou-o cedo a violência do exercício, no qual de mais a mais não foi muito feliz; este mau êxito desgostou-o, como se naquilo tivera posto a sua reputação.

Acendeu um cigarro, comprado no único e mal fornecido estanco da terra. O papel parecia porém apostado a impacientá-lo, era incombustível; o tabaco tinha crepitações que, aos ouvidos de Daniel, soavam como risadas de mofa; e os lumes prontos, aqueles perfeitos e elegantes lumes prontos de pau, primitivos modelos da indústria nacional, bem conhecidos de nós todos, perdiam a cabeça à primeira tentativa feita para os inflamar... Faziam-na perder também a Daniel, diria eu, se se usassem ainda os trocadilhos.

Chegou a despejar uma caixa para acender o cigarro, e este ardia-lhe só de um lado. Afinal não fumou.

Para desabafar a sua impaciência, trauteou toda a música italiana que a memória lhe armazenava, e acabou por cantar em voz alta a ária de Gennaro na Lucrécia:

 

Di pescator ignobile

Esser figliuol credei.

 

Nisto, chegando à janela, viu que os moços da lavoura estavam todos a olhar para cima, boquiabertos, admirando aquele acesso de fúria musical.

— Bom — pensou Daniel. — Estou dando escândalo e a arriscar a minha reputação de homem sisudo.

E calou-se, tocando com os dedos um rufo no peitoril da janela.

Depois passeou, sentou-se, ergueu-se de novo e voltou a passear.

Achando por acaso uma pedra de giz, escreveu distraído, na porta da janela, as seguintes palavras:

Cogeçofar — Sumatra — Telescópio — Manon Lescaut.

O oculto fio lógico, que encadeava estas quatro palavras na mente de Daniel, é um mistério que eu não sei decifrar.

O giz gastou-se.

— Ó doce vida de aldeia! — exclamou por fim Daniel, com amargura. — Ó sonho dourado dos poetas de geórgicas e idílios, como eu me estou deliciando em ti! Eis a secura quies, os otia in latis fundis e os molles somni, de que fala o poeta. É isto! Ora eu sempre queria que aquele bom do Virgílio me dissesse o que se há de fazer no campo a estas horas do dia? Que vida! Que vida esta! Meu Deus! Que vida! E que futuro!

Ao dizer isto, lançou casualmente os olhos para o leito e, como se este lhe desse a resposta do que ele queria perguntar ao cantor de Eneias, deitou-se.

Deitou-se de costas e pôs-se então a contar as tábuas do teto.

Contou dezassete.

— Dezassete, noves fora, oito — disse insensivelmente Daniel.

Depois reparou que eram oito os vidros da janela, e admirou lá consigo muito esta, na verdade admirável, coincidência.

Um resultado tão curioso animou-o a prosseguir em observações análogas.

Preparava-se agora a contar as cabeças dos pregos, que via pelo teto, porém, uma mosca importuna, teimando em pousar-lhe na testa, veio perturbá-lo neste ponderoso exame, e obrigou-o a desistir.

Por acaso, fitou então os olhos numa espécie de mancha escura, que estava na parede caraira. Ao princípio, olhou-a distraído, mas, pouco a pouco, a atenção empenhara-se naquilo, como se em objeto de grande monta.

A distância não lhe permitia distinguir o que fosse.

— É uma nódoa de humidade decerto — disse Daniel consigo — ou não... É um inseto talvez... Mas não se move?... Seja o que for...

E desviou os olhos.

Daí a pouco estava outra vez a olhar para lá.

— É um inseto, é... Mas tão imóvel!...

Não pôde deixar de soprar-lhe, ainda que sem probabilidade alguma de o atingir, pela distância a que lhe ficava.

A mancha negra não se moveu.

— Não é inseto — pensou Daniel.

E outra vez retirou a vista daquele ponto, para, passados instantes, a levar de novo lá.

— Mas a forma é de inseto...

E ergueu meio corpo e estendeu a cabeça para o sítio. Não pôde distinguir ainda o que fosse aquilo.

Tornou a deitar-se, simulando a resolução de se não importar mais com o problema.

Mas a curiosidade irritada subiu a ponto de o constranger a levantar-se. Aproximou-se então da mancha da parede, e viu que era uma mariposa escura, num daqueles estados de imobilidade, em que por tanto tempo se conservam às vezes. Daniel não resistiu à tentação de lhe tocar ao de leve nas asas; a mariposa fugiu.

Perseguindo-a, chegou até à janela.

Neste momento passava no pátio um dos mais velhos criados da quinta; Daniel chamou-o e mandou-o subir.

Daí a instantes, entrava-lhe o homem no quarto.

Daniel deitou-se e disse-lhe que falasse.

O criado não sabia em quê.

— No que quiseres; mas fala-me para aí.

O velho olhou para a janela, olhou para o ar, e disse:

— Temos vento; aquelas nuvens brancas costumam dar nisso.

— Tu sabes o que é o vento? — disse Daniel, espreguiçando-se.

— O vento? O vento é assim uma coisa... Como... Um assopro — respondeu o homem.

— És um asno. O vento é uma corrente de ar, produzida pela desigual distribuição da temperatura na atmosfera.

E Daniel, dizendo isto, entre dois bocejos, olhou para o criado, divertindo-se em estudar-lhe no rosto o efeito da definição científica.

O homem abriu a boca, sorrindo de dúvida.

— Mas aposto que o menino não me sabe dizer uma coisa?

— O quê? — perguntou Daniel, que estava a achar sabor ao diálogo.

— Donde vem o vento, e para onde vai?

Esta pergunta, análoga a outra que, ainda não há muito, se fez em lugar mais sério, embaraçou algum tanto Daniel.

— E tu sabes, António?

— Eu?! Não que nem nenhum matemático. E diga-me, sabe também o que são estes sinais que aparecem às vezes, como a semana passada?

— Que sinais?

— Pois não viu aquela noite da semana passada a Lua a sumir-se, a sumir-se, que era uma coisa de estarrecer?

— Ai, isso era um eclipse.

— Um eclis? Pois seria um eclis, seria. Mas o que é que faz aquilo?

— É a Terra.

— Terra!

— A Terra, a Terra, a sombra da Terra, do Mundo.

— A sombra! Então... Nós estamos debaixo e a Lua de cima, como lhe havemos de fazer sombra? Essa não é má!

Daniel, para se distrair, quis experimentar até que ponto podia fazer compreender a este homem a ideia do fenómeno físico em questão. Alguma coisa se há de tentar na aldeia, numa longa tarde de estio.

— Imagina tu, aquela janela, o Sol; eu, a Lua; e tu, a Terra. Ora bem; põe-te a andar para a esquerda.

— Mas, se a janela é que é o Sol, que ande a janela.

— Não há tal; pois a Terra é que anda.

— Como! Então o Sol não é que anda?

— Não, homem. O Sol está parado.

O criado deu uma risada.

— Muito obrigado. Para ver o Sol andar, olhe que não é preciso ir ao Porto. Vê-se mesmo de cá.

O passatempo começava já a enfastiar Daniel.

Veio interrompê-lo a propósito uma criança de nove anos, filha do seu interlocutor, a qual, tendo ouvido a voz do pai, entrou, sem cerimónia, pelo quarto dentro. Ao ver porém Daniel, parou como hesitando.

— Vem cá, pequena, vem cá — bradou-lhe Daniel, que naquele momento recebia com prazer toda a qualidade de diversão. — Não tenhas vergonha, vem cá. Toma um biscoito.

A pequena ganhou ânimo com a oferta, e dentro em pouco estava a comer biscoitos, familiarmente sentada junto de Daniel.

— Então como se diz? — perguntava o pai; e, como ela não respondesse, respondeu ele próprio: — Muito obrigada, Sr. Daniel.

— Tu como te chamas, pequena? — perguntou Daniel.

— Rosa.

— Uma criada de V. S.a — emendou o pai.

A pequena dispensou-se de repetir.

— Olha — continuou Daniel, tomando-a ao colo — diz-me uma coisa, que é da tua mãe?

— Está em casa.

— E tu gostas dela?

— Gosto.

— Gosto, sim, senhor — emendou o pai.

— E do teu pai?

A criança olhou para o pai e pôs-se a rir.

— Diz assim — disse-lhe este — também gosto, sim, senhor.

— Também gosto — repetiu a pequena, suprimindo, como uma inútil excrescência, o resto da frase.

— Mas o teu pai é um tratante.

A criança sorriu.

— Diz: não é, não, senhor — ensinou-lhe o pai.

— Não é — repetiu a criança.

— É, é...

— Não é, vossemecê é que...

— Ah! — atalhou o velho. — Feia! Isso não se diz.

— Tu sabes adivinhas, Rosa? — perguntou Daniel, rindo.

— Sei.

— Sim, senhor — corrigiu ainda outra vez o velho.

— Ora vamos lá a uma adivinha.

A pequena não se fez rogar.

— Então diga lá o que é esta:

Altos castelos

Verdes e amarelos

— Isso é decerto a casa de um brasileiro — respondeu Daniel. A criança pregou-lhe uma risada, e, toda satisfeita, exclamou:

— Boa! É uma laranjeira.

— Ah! Ninguém havia de dizer. Vá lá outra.

Que é, que é, que

Alto está, e alto mora,

Todos o veem e ninguém o adora?

Daniel ergueu a cabeça, a fingir que meditava no enigma; viu que o pai da pequena lhe fazia não sei que sinal com o dedo. Seguindo a direção, que lhe pareceu indicada assim, Daniel parou a vista num pinheiro longínquo, e disse:

— É um pinheiro.

Pai e filha deram uma risada.

— É um sino! — disse a pequena.

— Pois nem viu que eu apontava para a torre?

— E esta? — continuou a criança:

Mil marinhinhos, mil marinhões,

Dois parafitas e quatro chantões?

— Isso agora é que tem mais que se lhe diga! Que língua vem a ser essa? Marinhinhos e marinhões, e que mais? Que mais?...

— É um boi, é um boi — respondeu a rapariga, a quem faltava a paciência para ver estar a pensar muito tempo.

— Um boi! Sempre quero saber como é que isso é um boi. Mil marinhinhos, um boi?

— Mil marinhinhos, são os pêlos.

— Ah!... E mil marinhões?

— São os pêlos maiores — respondeu o pai.

— Dois parafitas são as gaitas — continuou a filha.

— Então, provavelmente, os quatro chantões... — ia a dizer Daniel.

— São as pernas — concluíram pai e filha.

— Pois essa, de todas, é a mais bonita — disse Daniel, que efetivamente, no estado de espírito em que se achava, encontrou certo sainete de originalidade no disparatado enigma, tão popular no Minho.

Neste tempo entrou Pedro no quarto; o criado velho retirou-se, levando a filha consigo; e os dois irmãos ficaram sós. 

CAPÍTULO XXV

 

 

Pedro era caçador e dos apaixonados. Dizendo eu isto, já o leitor, se não é um homem fadado por Deus para felicidades excecionais cá na terra, deve imaginar em qual assunto falaria ao irmão o primogénito de José das Dornas.

De facto, quem haverá aí que, por mais de uma vez, não tenha visto irem-se-lhe duas horas seguidas, pelo menos, duas horas de tempo precioso, a escutar uma dessas intermináveis descrições e episódios de caça, de astúcias de galgos e perdigueiros, de singularidades de tiros; de manhas de lebres, galinholas, garças e perdizes, com que Nemrods desapiedados fazem cair sobre os seus irmãos em Adão todo o peso da sua paixão venatória?

Ao princípio acolheu Daniel de bom grado a nova diversão que lhe oferecia o assunto, ao qual não era de todo adverso também. As duas primeiras aventuras de caça, escutou-as com não afetada atenção.

Tratava-se de uma caçada de lebres, na qual Pedro obrara maravilhas com a coadjuvação de um cão, de que ainda agora sentia saudades.

Era um longo romance, que daria para muitos capítulos. Permitam-me que lhes registe aqui ao menos o argumento, o qual, mutatis mutandis, serve para todos os do mesmo género.

De como se originou o projeto da caçada — O que se disse por essa ocasião — Escolha da época — Princípios gerais que devem guiar o caçador nessa escolha — Descrição da partida — Enumeração e descrição dos caçadores — Apreciação filosófica das suas qualidades venatórias — Divagação sobre os dotes indispensáveis ao bom caçador — Condições meteorológicas da madrugada, no dia da surtida — Reflexões sobre a influência delas nos destinos prováveis da empresa — Esboço topográfico do campo de ação — Impaciência dos cães — Sinais característicos de um cão de boa raça — Projeto inédito do narrador sobre educação canina — Algumas considerações sobre a melhor qualidade de espingardas, de pólvora e vestuário mais acomodado ao género de caça em questão — Exame do problema «se é preferível almoçar antes de partir ou no campo»

— Primeiros indícios de caça — Alvitres dos caçadores — Análise crítica de cada um dos alvitres, concluindo pela demonstração da vantagem do narrador, o qual prevalece sempre — O primeiro tiro e a primeira lebre morta — O autor atribui, com a possível modéstia, a glória de ambos a si próprio — Novos episódios, lances felizes dos companheiros e muitos mais desastrados — De como o autor deu, em certo caso, prova de grande prudência, contemporizando, e em outro soube ser arrojado, como devia — Notável contraste nisto com todos os companheiros — Descrição de um aguaceiro, trovoada ou vadeação de um rio e efeitos próximos e remotos que teve sobre os caçadores — De como se jantou — Amarguras estomacais e provações musculares — Campanha da tarde — Bom emprego do último tiro — Dificuldades que trouxe a noite — Confusão dos companheiros e frieza de ânimo no autor — Considerações sobre a maneira de se orientar no caminho um caçador perdido — Algumas palavras sobre o melhor sistema de cozinhar a caça — Preceitos de regímen alimentar do cão — Recapitulação de tudo quanto se disse — Peroração em honra da caça em geral e da caça da lebre em particular — Transição para outra história.

Todos estes capítulos, difusamente desenvolvidos, ouviu portanto Daniel, com mostras de curiosidade. A terceira história porém já o encontrou mais indiferente; a quarta recebeu-a com bocejos, a modo de comentários; a quinta com impaciência manifesta; a sexta com inquietação; a sétima com horror — horror que foi crescendo gradualmente até à duodécima.

Pedro fazia então o elogio fúnebre do perdigueiro que, há um mês, lhe tinha morrido.

— Olha que era um animal aquele, Daniel, que parecia que entendia uma pessoa! Eu nunca vi bicho mais fino! Se tu o visses no monte! Aquilo era um azougue. Um dia, tinha ido eu, o Luís do mestre-escola e o Francisco do alferes...

— Isto que horas serão? — perguntou Daniel, a ver se desviava de si a história iminente.

— Vai nas três — respondeu Pedro, e continuou: — Mas íamos nós todos... Ai, é verdade, ia também o Domingos Cabomor... Oh!... Mas esse não mata um pardal. Tem aquele diabo um costume...

— Que insuportável calor! — bradava Daniel, tão pouco à vontade no leito, como se fora de Procusto.

— Hoje está quente, está — concordou o irmão, e continuou: — Mas tem aquele diabo um costume, que, por mais que eu lhe diga, não é capaz de perder.

Daniel colocou a almofada do travesseiro sobre os ouvidos, para não ouvir.

— O costume é o seguinte: Tu sabes que no tempo das perdizes...

Foi neste momento que entrou o reitor no quarto.

— No tempo das perdizes, no tempo das perdizes, tanto mentes, quanto dizes. É manha velha de caçador. Gabo-te os vagares, Pedro! Nem que um homem viesse a este mundo para andar de arma ao ombro e polvorinho ao tiracolo, por montes e vales, tiro aqui, tiro acolá, vida de galgo atrás de lebre; e a casa por aí, sabe Deus como!

— Isto era para conversar um bocado — disse Pedro, sorrindo a esta objurgatória do padre.

Daniel ia a erguer-se; o reitor não lho permitiu.

— À vontade, à vontade; quem acabou de ouvir uma ladainha a Santo Humberto, como eu imagino... Ainda se fosse só imaginar! — como eu, infelizmente, sei por experiência também — não deve sentir-se com grandes forças para se ter em pé.

Daniel sorriu.

— Mas veja lá, Daniel — continuou o padre — veja você este seu irmão. Que homem de casa aqui se está preparando! Esquecido a taramelar e o trabalho na eira entregue a criados que, quando eu passei, bem pouco se cansavam com ele. Tudo vai ao deus-dará nesta casa, depois que o maldito vício da caça virou a cabeça a este homem! Olha que um chefe de família, Pedro, não é só responsável por si, mas também por toda a sua gente — parentes e criados. — Ele é que deve dar o exemplo. E eu, para te dizer a verdade, não gostei nada de ver aquela doida da Maria, lá em baixo, com os meliantes dos teus criados, que só sabem tanger violas e dançar, como ainda agora faziam. Eu, apesar de a coisa não ser comigo, que não sou dono da casa, sempre lhes fui ralhando, para de todo não perder o tempo. Agora tu...

— Pois os vadios estavam a cantar e com o trabalho por fazer?

— Boa dúvida! Onde o patrão dorme, ressonam os criados. E fazem muito bem.

— Ora eu lhes vou dar já a cantiga.

E, distraído da sua paixão favorita, Pedro saiu do quarto, com direção à eira.

— É um bom rapaz! — disse o reitor, ao vê-lo sair.

— Isso é. O Pedro há de vir a dar um excelente pai de família — acrescentou Daniel.

— Para isso, basta-lhe o grande fundo de moralidade daquela alma — replicou o padre, indo buscar uma cadeira que aproximou da cabeceira do leito, no qual Daniel, a instâncias dele, se conservava ainda.

Daniel seguia com a vista os movimentos e gestos do padre e suspeitava que ele tinha alguma coisa a dizer-lhe.

— A moralidade — continuava este — é a primeira condição para a felicidade do homem. Como pode querer que o respeitem, o que não sabe respeitar os outros, nem respeitar-se a si próprio?

— Temos sermão — pensava Daniel. — Onde quer ele chegar?

De repente o reitor, como se lhe acudira uma ideia imprevista, disse, fitando os olhos em Daniel e em tom que procurou fazer natural:

— É verdade, ó Daniel, então você tem casamento contratado e não dá parte à gente?

— Eu?!... Casamento!... — exclamou Daniel, deveras admirado, e sentando-se no leito.

— Casamento, sim. Ainda agora mo asseguraram.

— E quem é a noiva que me destinam?

— Uma vizinha sua. É aqui a filha do João da Esquina.

— Ah! Isso sim — disse Daniel, sorrindo e deitando-se outra vez.

— Isso sim? Não leve o caso a rir, que o negócio é muito sério. Porventura não haverá fundamentos para a notícia que me deram?

— Eu tenho ido a casa dela, é verdade.

— Ah!

— Mas... Como médico...

— Não está má medicina, a sua! Então que tratamento lhe aconselhou?

— Confortativo — respondeu Daniel, gracejando.

— Ah! E o boticário entenderia as receitas que escreveu?

— Nem todos os conselhos médicos precisam do auxílio do boticário. Os banhos de mar, os passeios, os leites de jumenta e as diferentes prescrições do tratamento moral, por exemplo.

— Estou vendo que foi um tratamento moral o que fez.

— Exatamente.

— Olhem que cegueira a do João da Esquina, e a do seu pai e a minha até, que não vimos que era uma carta de guia para bom caminho, uns mandamentos para a salvação do corpo e não sei se da alma também, o que ainda há pouco lemos!

— O quê? Pois leram?... — perguntou Daniel com vivacidade e erguendo-se outra vez.

— Lemos, sim. Mas não entendemos. Veja lá: a mim pareceu-me aquilo uma coisa desaforada; e ao João da Esquina, então? Esse não descansou enquanto não teve de nós a promessa solene, de que o obrigaríamos, a si, a uma reparação.

Daniel tinha já os pés no pavimento.

— Uma reparação? Porquê?... A quem?...

— Olhem que inocência! Precisa talvez que eu lhe responda?

— E que espécie de reparação hei de eu...?

— A única devida a uma rapariga a quem...

— A quem?...

— Cuja boa fama se perdeu!

— Então acusam-me de ter perdido a boa fama daquela menina e querem-me constranger talvez a casar com ela? — exclamou Daniel sobressaltado e pondo-se a pé num ímpeto, como se o picasse uma víbora.

— Quem mais o constrangerá, há de ser a sua consciência, se ainda não emudeceu de todo em si.

— Não constrange, não. Não me julgo moralmente obrigado a reparação de qualidade alguma. A menina Francisca... Tem uma cabeça... Bonita na verdade, realmente bonita...

— Está bom, está bom. Que tenho eu com essas bonitezas? Isso não vem agora a nada.

— Bonita, digo eu, mas leve, leve como uma bola de sabão — continuou Daniel.

— É defeito de muita gente.

— Achei-a triste, tão triste por ser trigueira... Veja que doidice aquela!... Que entendi... — não entraria isso nos meus deveres de médico? — entendi que a devia curar. Ora pensando que para esse efeito mais valeria um galanteio, do que todas as drogas medicinais...

— Então, então... — disse o reitor, um pouco despeitado com o tom leviano de Daniel — deu agora em gracejar comigo?

— Não gracejo. É que realmente o meu procedimento... Não digo que fosse de uma sisudez exemplar, mas não merece as cores negras com que lho pintaram, nem reclama as medidas extremas e violentas que me propõem. Um casamento impossível!

— Impossível! O que aí vai! Não o fazia tão fidalgo! Com que então...

— Olhe, Sr. Reitor — disse Daniel, tomando um ar mais sério — vou falar-lhe com toda a sinceridade. Eu sou bastante leviano — conheço que o sou. — De ordinário não me canso muito a calcular consequências, antes de dar um passo qualquer. Caminho de olhos fechados em muitos actos da vida e sobretudo quando só eu lhes posso vir a sentir os efeitos maus. Mas há uma coisa em que não me costumo a pensar levianamente. É no casamento. Se um dia me vir casado...

— Rezarei a todos os santos pela sua mulher? Estou certo que será bem preciso.

— Se um dia me vir casado, suponha que encontrei uma mulher, por quem sinto alguma coisa mais além do amor, por quem sinto o respeito e a confiança que se devem a uma mãe de família. Não tenho sido muito escrupuloso em contrair certa ordem de ligações, é verdade; porém nunca me lembrei de fazer dessas mulheres que amei, nem quando a paixão me cegava mais, os anjos familiares a quem entregamos o nosso futuro inteiro. Neste sentido tem-me espantado o arrojo de muitos. E não é isto tenção formada em mim contra o casamento; mas é que acho muito grave a missão de esposa e de mãe, para a entregar assim levianamente em quaisquer bonitas mãos, só porque são bonitas.

— Isso lá é verdade — disse o reitor, que não previa que nestas palavras aprovadoras assinava a sua capitulação.

Daniel, ainda que tivesse sido sincero no que dizia, não desestimou ver assim o reitor quase voltado para o seu lado, e prosseguiu com mais ardor:

— Ora quem quiser que tente fazer daquela menina, que sabe os verbos, uma boa mãe de família; eu por mim é que não farei a experiência. Era uma tremenda responsabilidade que tomava para com os meus futuros filhos.

— Não, não vamos também agora a fazer da pequena pior do que ela é — observou o reitor. — A cabeça é um pouco estouvada, sim, mas o fundo é bom, e passados anos... Mas, homem dos meus pecados, se você pensa assim, e nisso não serei eu que lhe diga que pensa mal, para que se mete nestes enredos? Para que dá ocasião a que os outros se julguem com direito a...

— Tem razão, Sr. Reitor. Eu não me quero apresentar como inocente. Digo humildemente: peccavi. Mas que quer? Onde se encontram facilidades... Nem todos têm força para se vencer. E depois olhe que nos falta deveras a capa egípcia de José, para a sacudir dos ombros em ocasiões de aperto.

— Adeus! Aí torna com as suas! — disse o reitor, custando-lhe a disfarçar um sorriso.

O certo é, porém, que o padre estava aplacado. Tranquilizou Daniel, contando-lhe tudo o que tinha sucedido. Fez-lhe um longo sermão de moral, afirmando-lhe no fim que, se não fosse por saber a família Esquina «useira e vezeira» nestas tentativas de especular casamentos de vantagem, e nem sempre por meios justificáveis, seria menos indulgente.

Daniel fez voto de emenda e protestou ser aquela a sua última rapaziada.

Graças, porém, à loquacidade da Sra. Teresa a história dos versos transpirou e causou escândalo na aldeia. Não se falou em outra coisa, durante algumas semanas. Os pais olharam Daniel com desconfiança; os rapazes, com ciúme; as raparigas, com curiosidade. O trio de línguas da casa dos Esquinas cantou a palinódia a respeito de Daniel e com não menor valentia do que a empregada nas loas com que primeiro o tinham celebrado.

Por todos os lados da aldeia ressoaram os coros. O nível da reputação de João Semana subiu no conceito público. Daniel confirmou a sua reputação de libertino e de homem perigoso. Ele é que era indiferente a isso tudo. Dava-lhe poucas preocupações o futuro da sua vida clínica, assim tão ameaçado. Continuava gozando, com resignação, se não com prazer, os ócios daquele viver de morgado. As suas maiores distrações eram o passeio, a caça e a pesca.

Na menina Francisca já não pensava. Desprestigiou-a de todo aquela conspiração matrimonial. Do ódio, com o qual daí em diante o honraram os progenitores da menina, nunca ele se lembrou.