As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 21 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XXVIII · Passou todo o mês de Agosto e…

 

Passou todo o mês de Agosto e parte do de Setembro, sem que se celebrasse o casamento de Pedro e de Clara.

Pequenos estorvos, os quais será inútil referir aqui, baldaram a diligência, com que andara o reitor em obter os papéis necessários às duas partes contraentes.

O padre estava ansioso por proclamar, à missa conventual, os primeiros banhos, e não cessava de interrogar o lavrador sobre o andamento, em que iam os preparativos domésticos para as bodas do filho.

José das Dornas dava a entender que depois do S. Miguel era a ocasião mais favorável para a solenidade, visto que a cobrança das rendas lhe permitiria então fazê-la com o esplendor devido.

A ansiedade na aldeia era imensa, porque todos conjeturavam já quanto teriam de memoráveis umas bodas em casa do abastado e liberal lavrador.

Achava-se terminada a principal colheita de milho e não se fixara ainda o dia, em que tão falada e prometedora festa deveria realizar-se.

Em consequência de tais delongas, à primeira esfolhada em casa do José das Dornas assistiu ainda Pedro, como rapaz solteiro.

Esta circunstância não foi sem influência na sucessão dos acontecimentos que temos para narrar.

Concorramos nós também a este serão campestre, que assim nos é necessário. 

Julgo que pequeno será o número dos leitores, que não tenham assistido a uma esfolhada na aldeia ou que, pelo menos de tradição, não saibam a índole folgazã e traquinas deste género de trabalho, do qual ninguém procura eximir-se; pois antes espontaneamente correm de toda a parte a oferecer-lhe braços.

É que não há outros serões mais divertidos também.

Ali todos riem, todos cantam, todos se abraçam, e se beijam até; e fala-se ao ouvido, e graceja-se e dança-se, e com franqueza se apontam defeitos, e sem ofensa se recebem censuras, e até são mal acolhidas as lisonjas; e tudo isto então, toda esta apetecível desordem, todo este abandono de etiqueta, à vista da porção sisuda da companhia, à qual a tolerância fecha desta vez excecionalmente os olhos; e, a iluminar uma tal azáfama, meio festiva, meio laboriosa, apenas a luz mortiça de um modesto lampião, pendurado de uma trave do teto ou, ainda melhor, a suave claridade do luar em campo descoberto!

Aquelas liberdades todas são permitidas, ordenadas até, pelo código das esfolhadas.

Cada espiga vermelha, cada espiga de milho-rei — como por lá lhe chamam — é a sentença promulgada contra o feliz, a cujas mãos ela chegou.

Cabe-lhe distribuir por toda a assembleia, ou receber de toda ela, um abraço mais ou menos apertado; sentença que ele de boa vontade cumpre, principalmente quando, entre tantos abraços, há um, pelo qual em vão suspira, nas outras épocas do ano.

Esta lei, digna das ordenações daquelas joviais «cortes de amor» da idade média, é a alma das esfolhadas.

Dela provêm os risos, os arrufos, as recusas, as insistências, as queixas, as acusações, os despeitos, e os ciúmes que, ao mesmo tempo, desordenam o serão, excitam os trabalhadores e adiantam a tarefa.

Quando um dia a máquina agrícola fizer ouvir nas aldeias portuguesas o silvo estridente do vapor; quando a força prodigiosa das suas alavancas, o movimento das suas rodas gigantes e complicadas articulações dispensar o concurso de tantos braços, nestes trabalhos rurais; quando a musa pastoril, resignada, trocar as vestes primitivas, por a blouse do artista e esquecer as antigas cantilenas para aprender a canção das fábricas; lembrar-se-ão com saudade das esfolhadas os felizes que as puderam ainda gozar.

A onda económica adianta-se rápida; dentro em pouco inundará os campos. Dêem-se pressa os que ainda quiserem conhecer as velhas usanças, para as quais está já a soar a derradeira hora.

De há muito gozavam de apregoada fama as esfolhadas em casa de José das Dornas.

A impulsos do seu génio prazenteiro, o velho lavrador pusera em costume o observar-se pontualmente o rito destas festividades campestres.

Não havia ali isentar-se ninguém de cumprir a sentença a que a sorte o sujeitasse, sob pena de ignominiosa expulsão do grémio e perpétua exclusão de festas semelhantes.

Homens e mulheres, crianças e velhos, amos e criados, todos fraternizavam, todos se nivelavam aquela noite para se abraçarem ou beijarem e até dançarem por fim.

Quem não gostava disto era o reitor, o qual todos os anos, por este tempo, mimoseava com uma longa pregação o seu amigo José das Dornas, mas sempre sem nada conseguir.

Os costumes populares, as práticas tradicionais encontravam no lavrador um apego, quase igual ao que tinha para as crenças religiosas. Parecia-lhe um sacrilégio o infringi-los.

Debalde o reitor lhe dizia:

— Acaba-me com essas folganças, José. Isso é a perdição de muita gente. Não sei como tu, homem sisudo, te pões assim a brincar com as crianças e com os jovens em termos de te perderem o respeito.

José das Dornas limitava-se a responder-lhe:

— Ó Sr. Reitor, deixe lá. Uma vez é uma vez. Beijos e abraços, quanto mais às claras, menos perigosos são. Daqueles, que se dão às escondidas, é que é o ter medo. Enquanto ao respeito, sossegue que, quando for preciso, eu sei como ele se faz ter aos atrevidos. E depois, que quer? Eu fui criado nisto.

Este último argumento é sempre o mais irresistível da lógica do nosso homem dos campos.

Qual dos dois velhos tinha razão? Eu sei lá? A falar verdade, não acredito demasiado na inocência daqueles abraços e beijos e muito menos na de alguns que, por motivos particulares, se dão mais do coração e mais tempo se prolongam; mas é também certo que, evitando as esfolhadas, muitas ocasiões se oferecem ainda de uma pessoa se perder, e alguma razão tinha José das Dornas ao dizer que estas coisas, na presença de espectadores, se despojam de grande parte da sua gravidade.

Desta vez deviam ser as esfolhadas em casa da família Dornas dignas da sua tradicional nomeada.

A pedido de Pedro, foi convidada muita gente. Encarregou-se ele mesmo de formar a lista, a qual naturalmente abriu com o nome de Clara.

Clara recebia sempre com alegria convites da natureza deste.

Margarida quis dissuadi-la de aceitar.

— Que vais fazer, Clarinha? — disse-lhe ela. — Olha eu, se fosse a ti, não ia. Afinal, por mais que digam, sempre nessas esfolhadas há liberdades e costumes, que... Que...

— Sabes, Guida? — respondia-lhe Clara — se todos se fossem a levar por os teus conselhos, e a dar atenção aos teus medos, pode ser que o mundo andasse muito bem guiado — e andava decerto — porém morria-se de aborrecimento por aí. E ver que nem me queres deixar ir à esfolhada em casa do meu marido, e quando é ele mesmo que me convida!

— E quem sabe se mais estimaria que não fosses?

— Qual! Estás enganada. Supõe-no como tu. Eu bem o digo! Olha, minha Guida, tu não servias para casada. Fazias-te ainda mais sisuda do que és, sisuda e séria que nem uma abadessa do convento, e depois havias de querer que o teu homem fosse sisudo e sério como tu.

— Vai, vai, Clarinha; nem eu to posso impedir. Mas, se queres que te fale a verdade, fico sempre a tremer, quando te vejo sair para estes serões. Às vezes, há por lá desordens, rixas...

— Ai, sossega. Eu te prometo que não me meterei em nenhuma.

— Promete-me também que não darás causa a nenhuma — disse Margarida, sorrindo.

— Como queres que eu dê causa a uma desordem, doida?

— Como há de ser? Eu digo-te, mas não te arrenegues. Tu tens um bocadinho de ruindade, confessa; e, às vezes, para te divertires, gostas de fazer perder a paciência aos outros. Ora, Pedro tem um génio assomado...

— Deixa-te disso. O Pedro não é homem para se finar por ciúmes só por ver receber um abraço, em noite de esfolhada. Era o que me faltava também!

— Pois Deus vá contigo, filha; mas lembra-te que dentro em pouco és mulher casada e que o teu noivo está ao pé de ti.

— Está descansada. E depois, sabes o que o Pedro me disse em segredo? O irmão também faz tenção de ir à esfolhada.

— Quem? O Sr. Daniel?!

— É verdade. Que graça! Mas o Pedro não quer que isto se saiba, para que lhe não faltem as raparigas, com medo ou com vergonha. Estou morta por ver como elas ficam, assim que o virem lá. Ora Diz tu, se isto se podia perder.

— Ainda pior.

— Que dizes? Ainda pior! Pois também és das que o pensam excomungado? Pobre rapaz! Quem ouvir falar a essa gente por aí há de fazer dele uma ideia!... Pois não tem nada do que dizem. É amigo de rir, isso sim, mas também sabe falar sério, quando é preciso. E não ouves o que muitas vezes o Sr. Reitor tem dito a respeito dele? Que é um excelente coração, afinal.

— Nem eu digo o contrário, mas...

— Mas és uma medrosa, é o que tu és; uma medrosa, que me andas por aí sempre a sonhar sonhos negros. Um dia hei de fazer-te falar com ele e verás...

— Ai, não, não — exclamou Margarida, quase assustada.

— E como dizes isso! Que medos! Estás como a outra gente, já vejo. Pois admira-me em ti, que não és dessas coisas. É uma cisma que te hei de fazer perder, assim como tu me fizeste perder a das bruxas, que eu dantes tinha. Lembras-te?

Horas depois, Clara despedia-se da irmã, dizendo-lhe:

— Então, Guida, até logo. Eu bem queria que viesses, mas fizeste voto...

— Bem sabes que não sinto alegria nessas festas.

— Como hás de tu senti-la, se nunca vais lá?

E Clara partiu e pulava-lhe o coração de contente quando ia pelo caminho.

O génio de Clara pedia-lhe isto. Eram uma necessidade para ela as alegrias e as festas.

Não se lhe coadunavam com a índole as melancolias de Margarida.

Quando só, saía-lhe dos lábios tão depressa o canto, como os suspiros do seio da irmã.

E a alegria duma, como a tristeza da outra, nem sempre tinham motivo definido.

Vinham-lhes do coração, que parecia espontaneamente exalá-las.

Na natureza há fenómenos assim. O canto de algumas aves parece uma lamentação, repassada de profunda melancolia; o de outras soa brilhante, como hino festivo, nos coros da criação; e nem sempre as primeiras têm pesares, de que se carpirem, nem estas júbilos a celebrar.

O canto sai-lhes assim modulado por uma disposição natural; pois, quase de igual forma, acudiam os sorrisos aos lábios de Clara e as lágrimas aos olhos de Margarida.