As Pupilas do Senhor Reitor

Júlio Dinis · Capítulo 13 de 30

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As Pupilas do Senhor Reitor

Capítulo XVI · Os dois irmãos dirigiram-se ao lugar onde,…

 

Os dois irmãos dirigiram-se ao lugar onde, segundo as indicações de Margarida, deviam encontrar Clara.

O ranger da bomba do poço, e a voz da alegre rapariga, que cantava — pois nela dir-se-ia ser o canto, como nas aves, a mais natural expressão — serviram-lhe de guia.

Tomando por uma rua extensa, revestida de limoeiros, através de cuja espessura coava já, a custo, a claridade nascente do luar, conseguiram aproximar-se, sem que fossem percebidos.

Clara cantava:

 

Vem livrar-me com os teus olhos,

Que eu por eles me perdi;

Dá-me a vida com os teus beijos,

Já que por beijos morri.

Porém, ao voltar naturalmente a cabeça, descobriu Pedro na companhia do irmão; vendo-se surpreendida assim, interrompeu de súbito o trabalho e o canto e, meia confusa, saudou-os com os olhos baixos e a voz embaraçada.

Foi curta a apresentação, e em nada cerimoniática. Pedro odiava etiquetas, ou antes, ignorava-as.

A figura de Clara, inundada pelos raios da Lua, que já se levantava esplêndida no horizonte, fez conceber a Daniel uma subida opinião do bom gosto do seu irmão. 

Não era Daniel homem para se coibir, por acanhamentos, em observação, que tanto o deleitava. Sem disfarces, nem precauções analisava, feição por feição, aquela fisionomia simpática, e como que lhe delineava com a vista o perfil, onde se continuavam graciosamente, por suaves inflexões, as mais elegantes curvas.

Clara, adivinhando-se objeto daquela inspeção minuciosa de conhecedor e entusiasta, não ousava erguer os olhos. Dir-se-ia que, magicamente condensados, os raios visuais, que a envolviam daquela maneira, lhe tomavam os movimentos, até mal a deixarem respirar.

Pedro sentia certo desvanecimento, lendo a tácita aprovação da sua escolha, na expressão do olhar do irmão.

Clara conseguiu afinal dominar o enleio dos primeiros instantes e, dirigindo-se a Pedro:

— Então isto faz-se? — disse ela, ainda não de todo serenada da primeira confusão, e descendo e apertando nos punhos as mangas da camisa, que tinha arregaçadas. — Trazer assim uma visita, sem dizer nada à gente!

— É meu irmão — dizia Pedro sorrindo.

— Que tem que seja? Não é para assim vir ter com uma pessoa, que anda cá no seu trabalho. E sem fazer barulho, então! Ora sempre! — E, ao dizer isto, lançava para o noivo um olhar que, tentando ser de repreensão, só conseguia enlevá-lo.

— Olhe, Clarinha — disse Daniel adiantando-se, e dando às palavras o tom de amigável familiaridade. — O culpado fui eu. Mas, que quer? É costume antigo que tomei. Quando era rapaz, gostava já muito de ouvir os rouxinóis que cantavam nos laranjais da nossa casa; mas eles, percebendo-me, calavam-se. Sabe o que eu fazia então? Ia-me devagarinho, pé ante pé, até onde eles estavam, e lá me ficava a ouvi-los cantar horas e horas. Foi o que fiz agora.

A lisonja não desagradou de todo a Clara, que respondeu, gracejando:

— Os rouxinóis já não cantam neste tempo.

— Mas cantam outras vozes, tão sonoras, como as deles e mais felizes ainda; pois nem as fazem calar as neves do Inverno, nem os ardores do estio. Era uma dessas que nós parámos a ouvir.

Clara, sentindo-se pouco à vontade para responder ao galanteio, disfarçou, afastando-se como para regar as flores de um alegrete vizinho.

Pedro aproximou-se dela.

— Nunca mais — murmurou-lhe a rapariga ao ouvido — tornes a fazer uma destas, Pedro. Também não sei como a Guida vos deixou entrar assim. Eu lho direi.

— Ora vamos, Clara — disse Pedro, auxiliando-a na tarefa da rega — não vás agora ralhar com a Margarida, que mais embaraçada ficou ela ainda do que tu.

— Sim?! Pois aí está, vês? Não tinha razão para isso. A Margarida é outra coisa. O Sr. Daniel não falou ainda com a Margarida? — continuou Clara, já mais senhora sua, e fazendo uso desimpedido do olhar, que fitou no interpelado. — Ela é que saberia responder bem. Quando quer, sabe dizer coisas... Até o Sr. Reitor, muitas vezes, não tem que lhe responda. O Pedro que diga.

Pedro fez sinal de assentimento.

Este duo em honra de Margarida não causou grande impressão em Daniel, que continuava a fitar Clara, com persistente atenção, encantado pelo timbre daquela voz, por aqueles movimentos, cheios de graça e vida, e pela inimitável expressão do olhar, meio de bondade, meio de malícia, que ainda a branda claridade da Lua fazia realçar o seu fulgor.

A conversa tomou, pouco a pouco, familiar e jovial carácter de intimidade. Só, alguma vez, uma frase mais cortesã de Daniel vinha tirar a Clara a frieza de ânimo necessária à resposta — isto com grande estranheza sua, pois não se tinha por demasiado tímida.

— Pobre João Semana! — dizia Clara num dos seus momentos de malícia. — Quem mais o chamará agora, depois de haver na terra médico novo?

— Está enganada — respondeu Daniel — ; quando mais ninguém o chamasse, teria por si a melhor de todas as freguesias, a das raparigas.

— Agora! E então porque o tinham de querer?

— Porque os médicos novos têm o mau costume de desejarem saber das doenças do coração e dessas não se querem elas tratar.

— Não sei porque não; pois não são tão perigosas? Eu sempre ouvi dizer que se morria disso.

— Se se morre?! Morre-se a todo o momento até. Mas, pelos modos, é um morrer, de que se gosta.

— Deixe lá; sempre é morte, não pode ser muito boa.

— Ora! Morre-se a cantar:

Dá-me a vida com os teus beijos

Já que por beijos morri.

— Não era assim que dizia?

Clara não pôde suster o riso e Pedro fez coro com ela.

— Ora, responda: se o médico tomasse a receita a sério, e quisesse dar a vida à sua doente?...

— Isso mais devagar.

— Aí tem; é por esse motivo que não é bom consultar os médicos novos. O João Semana é que não é capaz dessas tentações, julgo eu... E que as tivesse...

Tal foi a feição predominante do resto do diálogo, que só terminou quando a Lua já ia alta no firmamento, com toda a pompa de um desanuviado plenilúnio.

— Sabes tu — dizia Daniel ao irmão, quando, juntos, se retiravam — que não podias escolher mais galante noiva? Em toda a aldeia decerto que não há outra que se lhe ponha a par.

Isto foi dito na rua, mas próximo da porta do quintal, onde se demorara Clara, a cujos ouvidos chegaram distintamente estas palavras de Daniel.

Se elas lhe poderiam ser indiferentes, pergunto eu às leitoras bonitas? Sendo sinceras comigo, não se atreverão a condenar este sentimento de vaidade, que moveu o coração de Clara. Se a vaidade constituísse pecado capital, talvez que certa particularidade do paraíso muçulmano tivesse sua razão de ser.

Clara era pouco reservada.

Tudo quanto sentia, fossem tristezas, fossem alegrias, vinha-lhe do coração aos lábios, por um movimento de expansão irreprimível.

Procurando pois a irmã, contou-lhe tudo quanto lhe dissera Daniel, o que ela lhe respondera, e, finalmente, as últimas palavras, que lhe tinha escutado.

Margarida não foi senhora do seu coração a ponto de não sentir certa amargura, ao comparar a intensidade da impressão produzida pela sua irmã no ânimo de Daniel, que pela primeira vez a via, à indiferença com que ela fora desatendida — ela, por quem deviam falar tantas memórias do passado.

Eu já disse que Margarida não era de natureza tão superior, que não tivesse destas desculpáveis fraquezas. Muito para apreciar é já a placidez nas ações, se como nela se não desmente nunca; seria exigência demasiada e um excessivo querer apurar a natureza humana ao grau de perfeição quase divina, pretender que, no mundo oculto dos pensamentos e dos afetos, reine também a inalterável serenidade, que só pode ser de anjos e nunca de criaturas a quem de contínuo os vendavais das paixões salteiam.

O que posso assegurar a respeito de Margarida — e já não é pouco assegurar — é que este movimento de ciúme? — nem eu sei se tal nome lhe posso dar — não se envenenou, convertendo-se em má vontade contra o objeto que lho desafiara.

Margarida não sentiu, para com a irmã, nenhum desses odiozinhos feminis, que em tantas tempestades se desencadeiam às vezes.

Calou-se, sorriu até, e pensou consigo:

— E de que me serviria que fosse de outra sorte? Melhor é que a memória lhe seja sempre infiel; melhor, muito melhor para o sossego do meu espírito. Ainda bem.

Era ainda a razão que falava; mas o coração? Ai, o coração!...

É inevitável a luta, sempre que um espírito vigoroso e lúcido anda associado a um coração que sente, que se comove sob a influência dos estímulos naturais dos afetos humanos.

Quando o coração é de gelo, a razão dirige desafogada, imperturbável, em linha reta, o caminho da vida; quando a razão abdica e o coração domina, o movimento é irregular, mas livre; caprichoso, mas resoluto; funesto, mas incessante; porém, se o coração e a cabeça medem forças iguais, a cada momento param para lutar, como atletas destemidos. De qualquer lado que tenha de se decidir a vitória, será disputada, até ao último instante, pelo contendor vencido; a pausa terá sido inevitável; a reação, enérgica; e a crise, violenta.

Podem passar ignoradas de todos as peripécias desse combate íntimo; mas a aparente tranquilidade exterior mais lhe exacerbará a crueza.

Margarida escutou por muito tempo a irmã, sem saber como acolher aquelas ingénuas confidências; afinal lembrou-lhe, sorrindo, que devia ser menos sensível à opinião de estranhos quem, dentro em tão pouco tempo, ia ligar o seu destino ao destino doutro.

Clara possuía um génio, com o qual se não davam as apreensões. Não calculava consequências. A vida para ela era o presente. Raras vezes lhe lembrava o passado: o futuro não lhe tomava muitos momentos de meditação também. As palavras e os actos irrefletidos eram nela frequentes. De nada suspeitava. A sua confiança em todos e em tudo chegava a ser perigosa. Um inesgotável fundo de generosidade, elemento principal daquele carácter simpático, levava-a ao ceticismo em relação à malevolência e à má-fé que outros possuíssem. Parecia muitas vezes afrontar a opinião do mundo e não era por a desprezar, mas porque não pensava nela.

Quem possui um carácter assim, se se não perde, se se não perde inocentemente, é porque tem a defendê-lo a Providência, porque o abrigam as asas do seu anjo da guarda.

Ouvindo pois a observação da irmã, Clara desatou a rir.

— Que me estás aí a dizer, Guida? Que me estás tu aí a dizer? Então, por eu me casar, devo deixar de fazer gosto de mim? Olha, eu não me quero com gente muito sisuda. A ti perdoo-te, porque... Enfim... És muito boa também, mas, ainda assim, não perdias se... — E, mudando subitamente de tom, acrescentou com um pouco de malícia na voz e no olhar:

— Ora diz-me cá uma coisa, Guida, com toda essa tua seriedade, não gostarias também que um rapaz, assim como Daniel, dissesse de ti o mesmo? Anda, confessa.

— Doida!

— Tu és mais velha, bem sei, mas eu sou dentro em pouco mulher casada, e por isso posso fazer-te destas perguntas já. Anda, responde.

Esta jovialidade de Clara não foi recebida pela irmã sem confusão.

Em vez de responder, limitou-se a apertá-la nos braços, dizendo-lhe quase ao ouvido:

— Então, Clara! É preciso ser menos criança. Quem está para tão cedo a tomar canseiras de família... A falar a verdade...

— E pensas tu que me hão de tirar esta alegria as tais canseiras? Ai, Guida, isso é que não. Como assim... Olha, eu já não nasci para tristezas.

— E talvez seja melhor — disse Margarida, respondendo a Clara; e pode ser que, em parte, aos seus próprios pensamentos.