Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 1 de 38

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Cadeiras Proibidas

Cotidiano

 

Os homens que descobriam cadeiras proibidas

Os homens não bateram, porque há muito naquela cidade, ou país, a polícia não precisava

bater para entrar. Não traziam mandados judiciais, há muito os mandados tinham perdido a

razão de ser. Não havia um estado de direito. Havia o estado, não o direito.

Os homens entraram, atravessaram a sala onde a família jantava, até então tranquilamente.

– Inspeção de rotina, comunicou o chefe dos homens que tinham entrado.

– Fiquem à vontade, disse o dono da casa, voltando para terminar a sopa, indiferente à

súbita invasão. A indiferença significava apenas impotência.

Os homens vasculharam a sala, os quartos, o banheiro, o quarto das crianças, a cozinha, a

área de serviço e o quarto da empregada. Quarto? Aqueles cubículos, senzalas que as

imobiliárias fazem.

Voltaram da cozinha com uma cadeira branca de fórmica.

– Vamos levar esta cadeira. Amanhã o senhor apareça para prestar depoimento.

– Não sei como ela apareceu aí. Tínhamos vendido.

– Não queremos saber. A cadeira estava na cozinha.

“Talvez eles mesmos tenham trazido e colocado lá”, pensou o homem. Pensou, com medo

que o outro percebesse o que ele estava pensando. Os pensamentos estavam proibidos há

muito, principalmente pensamentos que colocassem em dúvida, ou em cheque, as ações dos

homens.

– Em que distrito?

– Noventa e oito.

– Está bem. Me dê a notificação.

– Que notificação?

– De que os senhores estiveram aqui.

– Não estivemos aqui.

– Não estiveram? Ainda estão.

– Não estamos. O senhor nunca nos viu.

– Então, que motivo terei para me apresentar amanhã no distrito?

– O senhor se apresenta como voluntário. Levando a cadeira.

– E se eu não me apresentar?

– Voltaremos.

– E então?

– Ou melhor, viremos, mas não estaremos aqui. Não sei se compreende.

– Compreendo bem. É assim: estou livre, mas não estou.

– Perfeito. Se todos fossem como o senhor, a nossa atividade seria mais fácil. Não temos

encontrado entendimento. Sabe o que me disse o homem do andar de baixo? Não tem lógica.

Vocês não podem não estar, estando. Aí, eu disse: pois estou, e não estou.

– Vamos ver se entendo melhor. O senhor fez, mas não fez.

– Exatamente.

– E se eu aplicasse o mesmo critério a esta cadeira? Ela existe, mas não existe. Não

existindo, não estou incorrendo em nenhuma falta grave. Existe, mas não existe uma proibição

para se usar cadeiras, não é?

– O senhor quer me deixar confuso, mas não me deixa! Por isso me escolheram. Sou um

homem de estudos, fui escolhido a dedo, eu era um dos melhores logísticos de minha

faculdade. Este não é um trabalho simples.

– Como funciona?

– A proibição de usar cadeiras existe. As cadeiras é que não podem existir. O sim é para

nós, o não para vocês. Somos o positivo, o povo, o negativo.

– Quer dizer que não posso alegar que não estiveram aqui?

– Não, porque entre nós sabemos que estivemos. Isso é o que conta.

– Estou confuso.

– E é para ficar. Não queremos nada claro.

– Como podem agir assim?

– Não agimos.

– Acabam de agir.

– Como agimos, se nem estivemos aqui?

– Estou em frente ao quê?

– A um homem que não existe.

– O senhor é louco.

– E o senhor um rebelde. Sabe que não tem o direito de fazer mais do que duas perguntas?

– Não fiz nenhuma.

– Fez, várias.

– Fiz, mas não fiz. Fiz e não obtive resposta. Uma pergunta sem resposta não é pergunta, é

uma simples frase sem sentido.

– Chega. Amanhã no distrito noventa e oito.

– E se não houver distrito noventa e oito?