Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 24 de 38

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Cadeiras Proibidas

O homem que resolveu contar apenas mentiras

Naquela manhã, acordou disposto a só contar mentiras. A não dizer uma única verdade. A

ninguém. Nem à própria mulher. Assim, quando afirmou: “Vou para o trabalho”, empregou a

primeira mentira. Não ia. Tinha resolvido faltar, esquecer o escritório, a mesa, os papéis.

Parar, ficar na rua.

Quando disse bom-dia para o zelador do prédio, também mentia, porque odiava o zelador,

um oportunista, que não conservava o prédio, fazia fofocas entre empregadas, pedia gorjetas,

ganhava porcentagem na compra de materiais de limpeza.

Quando disse o endereço ao motorista do táxi, também mentia, não pretendia ir para aquele

lugar. O chofer exigira o destino porque as pessoas vivem exigindo coisas. E nem sempre

temos vontade ou possibilidade de satisfazer. As exigências crescem e se tornam parte de

nossa vida diária. Nos acostumamos com elas, nos acomodamos, sem perceber que cada

concessão é um pedaço da gente mesmo, envenenado, que a gente engole.

Quando o homem entrou no bar e pediu café, mentia, não queria café. Estava apenas fazendo

um teste, enquanto observava o gesto maquinal do empregado que destacava uma ficha e a

entregava. Será que o funcionário, alguma vez, imaginou que alguém pudesse não querer café?

Pedir, por pedir, não querer? Nem sequer desejar ver a xícara fumegante?

Com a ficha na mão, saiu pela rua. Outra mentira, não queria ficar na rua. Se entrasse no

escritório, seria mentira maior. Odiava o escritório, o emprego, os colegas. De duas mentiras,

preferiu a menor, ainda que, ponderando, descobrisse que, ficar com a mentira menor era

igualmente fuga, mentira, porque nesse dia tinha decidido mentir. E quando se decide uma

coisa, o melhor é levá-la até o fim.

Andou. Pensando como a cidade era bonita com seus prédios batidos de sol e os vidros

dando mil reflexos. Bonita com a gente que andava apressada para trabalhar e construir

alguma coisa. Bonita na tranquilidade da vida, no sossego das casas, na calma que se

estampava nos rostos das gentes. Bonita no que oferecia de futuro e de perspectivas. Bonita

nos carros que andavam em fila, um atrás do outro, sempre para a frente, sempre para a frente.

Bonita na fumaça negra que escapava dos veículos e subia em espirais, milhares de fumaças

reunidas, formando uma bela nuvem negra, como um negro véu, que surgia sobre a terra,

empanando o céu.

Andou, sem querer andar.

Viu, sem querer ver.

Sentiu, sem querer sentir.

Cansou, sem querer cansar.

Tudo uma grande mentira neste dia. Como mentira era a vida que ele vivia, falsificada, pré-

fabricada, exaurida, imposta. Suada. Que repousante era viver este dia da mentira. Negar tudo.

Reviver.

Andou até a hora de voltar para casa. Outra mentira, não queria voltar para casa, o lar, o

aconchego, o refúgio, a fuga. A verdade de sua vida encerrada entre aquelas quatro paredes, a

família, o amor, o carinho, o aconchego, o lar, o refúgio, a fuga, a realidade.

Não voltar, e andar. Percorrendo ruas, entrando nos prédios, conversando com pessoas. No

entanto, não tinha vontade de conversar. Sabia que precisava, mas não tinha vontade de falar.

Falava pouco, sua língua andava entorpecida, sem prática. O medo é que um dia

desacostumasse e perdesse a capacidade de se comunicar. Como andava difícil se comunicar.

Ficou parado na esquina, esperando a noite passar.

Quando o dia chegou, tinha acabado o período da mentira, podia enfrentar de novo a

verdade. E disse bom-dia ao porteiro, deu o endereço ao motorista do táxi, ligou para a

mulher e o patrão. Disse no emprego que estava doente. E, na verdade, estava.