Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 38 de 38

Páginas do PDF

Cadeiras Proibidas

Vida

 

O homem que procurava a Máquina

Para Gilce Velasco

 

Não foi da noite para o dia que os alicerces surgiram e começaram a erguer as paredes.

Houve preparação do terreno, medições, marcações, durante meses. Acontece que os fatos

posteriores ficaram nebulosos, criaram-se lendas e hoje todos juram que os alicerces

apareceram num dia, o edifício ficou pronto no outro e a grande máquina foi instalada no

terceiro. Em seguida, passaram a contratar pessoas.

Na verdade, o início pouco interessa. Os dados relativos àquela época, essenciais à

situação, são os seguintes: instalaram a grande máquina num bairro operário, sem calçamento

e esgotos, não atingido pela especulação imobiliária. Era apenas um bairro distante de uma

cidade que vivia da agricultura. As hortas formavam um cinturão em torno da cidade. Alface,

couve, brócolis, almeirão, repolho, rabanete, cenoura, nabo. Hortas grandes e pequenas.

Hortas nos quintais, produção doméstica, para consumo próprio e da vizinhança. Vivia-se

bem, exportando-se quase toda a produção. A cidade cheirava a verde, se é que se pode falar

em cheiro verde. Todos os fins de tarde, olhando-se em torno, via-se uma nuvem tênue de água

subir, brilhante. Era o momento em que as hortas estavam sendo irrigadas e o ar se tornava

úmido e fresco, com a entrada da noite, por pior que fosse o calor.

Então, os caminhões passaram a formar filas em nossa rua, não havia sossego para o futebol

e outras brincadeiras. Diziam que tais caminhões transportavam peças para a ampliação da

Máquina. A empresa calçou a rua, colocou rede de água e esgotos, iluminação e placas

autorizando a passagem e estacionamento apenas de veículos a serviço da Máquina. Furgões,

peruas, camionetas chegavam continuamente, descarregando fardos, caixotes gigantescos,

contêineres colossais. A sensação que eu tinha era de que ali havia o hangar de um dirigível.

Não havia outra forma de entender aquela porta com sessenta metros de altura, que se abria

em várias partes, suavemente e sem barulho.

Certo dia, dezesseis jamantas ficaram enroscadas, ao fazer uma curva apertada. Não havia

espaço e a manobra dos motoristas foi de tal modo infeliz que a primeira enfiou o motor numa

casa e a traseira na outra. A segunda tentou fazer a curva no pouco espaço restante e entalou. E

assim foi. Uma sucessão de manobras difíceis de serem feitas numa via estreita, uma jamanta

atrapalhando a outra. Bloqueio total, ninguém para a frente, nem para trás. Vieram técnicos da

empresa, engenheiros, agrimensores, peritos viários. Ficaram tão perplexos quanto o povo curioso.

Não havia como retirar as jamantas. Nem meio de baldear o material que traziam.

Transportavam tubos gigantes, com o diâmetro da altura de um homem. Trinta e cinco tubos,

em aço inoxidável. Os técnicos começaram a mostrar nervosismo. Uma semana depois,

apareceu um anúncio nos jornais, oferecendo recompensa a quem sugerisse uma solução. As

sugestões choveram. Nenhuma viável.

Derrubaram trinta casas. A Empresa da Máquina indenizou todo mundo. Pagou corretamente,

não houve reclamações. Nem processos. Coisa estranha, deu o que falar. Não era um modo

normal de agir. Se a empresa agia assim para defender os interesses, devia haver coisa por

trás. Como descobrir? De que adiantava ficar perguntando aos empregados, se estes estavam

satisfeitos? Bem comidos, vestidos, possuíam casas, jardins, carros, televisão em cores?

A Máquina estava transformando a cidade. Formara-se à sua volta um bairro esplêndido.

Havia promessas de expansão da empresa. O prédio subiu, maciço, imponente. Todos tinham

curiosidade de saber da Máquina, vê-la, conhecer o seu funcionamento. Acontece que

estranhos não entravam. Parecia uma política certa. Havia tanta curiosidade em torno da

grande Máquina, que muitos aceitaram empregos ali apenas para ver a Máquina de perto.

Depois disso, deixaram de falar com os outros. Viviam o tempo inteiro dentro do prédio. Só

deixavam escapar, vez ou outra, numa conversa rápida à porta do cinema, que a máquina

estava subordinada ao Ministério do Planejamento.

– Mas o que ela faz?

– Coisas incríveis.

– Que tipo de coisas?

– Olha, é difícil explicar agora. Sabe por quê? Quando entramos, passamos três meses num

curso. De manhã à noite. Só aprendendo as funções da Máquina.

– Diga algumas. Uma só!

– É um dos sistemas mais complexos que conheço. E olhe lá que estudei computação nos

Estados Unidos durante cinco anos. Incrível, espantoso. Um gênio ou deus, só isso pode

explicar quem construiu aquilo.

– Eu não quero saber se é incrível, ou não. O que faz?

– Tem mil funções. É preciso que você me determine as áreas. Porque o trabalho se divide

em áreas. Estas, por sua vez, se subdividem em departamentos locatários. Estes departamentos

se compõem, cada um, de trinta e sete compartimentos. Uma nova divisão: compartimentos em

células. Células em quarenta e cinco alvéolos. Finalmente, dentro dos alvéolos se pode

determinar os serviços específicos produzidos pela Máquina, em cem setores.

Por aí afora. Rodeavam. Estavam diferentes, vidrados na empresa, no funcionamento da

Máquina. As próprias mulheres achavam os maridos esquisitos. Calados, sem outro interesse.

Eles passavam a noite ansiosos para que a manhã chegasse e um novo dia de trabalho

começasse. Tomavam banho, engoliam os cafés sofregamente e partiam. Atravessavam os

portões e pareciam respirar, aliviados. Só depois do portão é que se viravam, sorriam e

acenavam. Por trás daquelas grades, os homens mudavam. Agitavam-se, entusiasmados. Como

se as grades tivessem um poder qualquer, mágico ou eletrônico, de dar um choque no cérebro,

ativando a pessoa.

Eu resistia.

– Vai, meu filho, dizia minha mãe. Vai trabalhar com a Máquina. Olha seu pai. Melhorou

muito depois que largou aquela hortinha vagabunda que dava uma trabalheira desgraçada. A

horta que acabou com as costas dele. Até a bronquite acabou, depois que não precisou mais

mexer na terra úmida, nem regar os canteiros de manhã e de tarde. Seu pai se arranjou bem por

lá, apesar da idade. É um polidor.

– Não sou polidor, coisa nenhuma. Tenho de passar uma flanela, cinco vezes ao dia, em

horas certas, marcadas por um relógio, nos pés plásticos da unidade de fita magnética.

– O que é a unidade de fita magnética, pai?

– E eu sei?

– Mas como é essa unidade onde o senhor passa o pano?

– Uma caixa, retangular, alta, de cor cinza e azulada.

– E para que seve?

– Lá dentro, meu filho, aprendi a não fazer perguntas.

– O senhor trabalha num lugar e não se interessa em conhecer, saber o que é?

– De que adianta saber?

– O senhor podia trabalhar melhor.

– Passar um pano nos pés plásticos de uma caixa besta é uma coisa muito fácil. Não exige o

mínimo conhecimento de nada. Tudo o que é preciso são minhas mãos.

– Não tem curiosidade, pai?

– Passei o tempo de ter.

– E os outros?

– Não sei, não quero saber dos outros.

– A administração não gosta que se faça perguntas?

– Nunca me proibiram.

– O senhor disse que lá dentro aprendeu a não fazer perguntas.

– É que ninguém faz. Por que hei de fazer? Logo eu?

– Todo mundo trabalha lá e todo mundo concorda com tudo?

– Acaso somos infelizes?

– Sei lá!

– Você está precisando trabalhar. Entre para a empresa.

– Eu? Vou embora para São Paulo. Vou fazer universidade, arranjar emprego por lá. Aqui é

que não fico.

– Cinco anos atrás, aqui era ruim, uma cidade miserável. Agora temos a Máquina. Fica aí,

com a gente.

Não queria ficar. A Máquina me incomodava. Nada grave. Apenas uma questão de pele.

Quando eu passava diante das grades e ouvia o ronco surdo, os passos dos operários, sentia

meus pelos se arrepiarem. Dentro das grades havia jardins, gramados, ruas asfaltadas e os

empregados circulavam em pequenos jipes azuis, em motonetas ou em uma espécie de litorina

que desenvolvia grande velocidade, levando grupos de gente de um setor para outro. No

entanto, eu podia passar horas olhando o prédio alto. Aquele parecido com hangar de

dirigível. O que havia lá?

E se eu entrasse para a empresa, olhasse tudo e pedisse demissão? Era o jeito. Não foi. Os

psicólogos entrevistadores adivinharam, ou intuíram, ou então sabiam mesmo de minhas

intenções. Depois da prova escrita, perguntaram agressivamente:

– Por que você quer conhecer todos os setores? Nunca viu a Máquina?

– Essa aí, não.

– É igual às outras.

– Não parece, pelo tamanho dos prédios e pelo formato estranho dos caixotes que desciam.

– Bem, ela pode ser maior. De resto, não tem novidades.

Me dispensaram. Contei que tinha sido recusado, minha mãe chorou. A Máquina era o futuro,

a estabilidade. Como podia? Como podia um filho ser assim, preocupar os pais, infernizar a

vida? Ia virar vagabundo? Afinal, todos os meus amigos estavam trabalhando.

Correram boatos de que ampliavam a Máquina. Logo precisariam de empregados. Agora não

havia apenas gente da cidade em busca de vagas. Das cidades vizinhas tinham sabido da

Máquina, dos empregos. Surgiam multidões que se acotovelavam pelas ruas, consumiam tudo

nos bares, sujavam a cidade. A maioria dormia nos jardins, beirais de portas, sob as pontes,

nas igrejas. Havia esperança de trabalho para todos e o governo federal baixara uma ordem

para que a prefeitura e a política local não expulsassem os invasores. Mas eles destruíam os

jardins, escreviam nos muros, mexiam com as moças, quebravam vidraças. Como suportá-los? Melhor do que isso: por que suportá-los?

Os trabalhos de ampliação duraram dois anos. Terminei não indo embora por causa da saúde

de meu pai. Teve uma paralisia nas mãos, não podia mais passar o pano nos pés da tal

unidade. Recebeu uma boa indenização, hoje fica na janela, o tempo inteiro. Contemplando os

prédios onde a Máquina e seus derivados funcionam. Também não consegui emprego na

empresa, estou na fábrica de sacos que fornece embalagens para os lanches dos empregados

da Máquina.

A ampliação deu oportunidade a pedreiros, carpinteiros, vidraceiros, especialistas em

acabamentos, colocadores de azulejos e pastilhas, encanadores, eletricistas, faxineiros. Não

havia na cidade tijolos suficientes, buscaram nas cerâmicas vizinhas. Que produziam sem

parar. Abriram novas cerâmicas, fábricas de lajotas para pisos, mineração de cal, usinas de

asfalto, metalúrgicas moldando postes de iluminação, indústrias de vidro, fiações que

forneciam tecidos para os uniformes padronizados dos empregados da Máquina. Restaurantes,

lojas, farmácias, consultórios médicos, bares, lanchonetes, padarias, supermercados, tudo

floresceu à sombra de bancos, casas de crédito, serviços de financiamento. Subitamente,

percebemos que havia uma nova cidade em torno da Máquina. Uma cidade agitada,

movimentada, nervosa, intranquila, enfumaçada, barulhenta, angustiante.

A Máquina consumia pregos, parafusos, arrebites, chapas, tintas, vidros, porcas e milhares e

milhares de pequenas peças. Em torno da cidade cresceram indústrias de peças de reposição

de todos os tipos, formatos e tamanhos. Estas indústrias, por sua vez, deram margem à criação

de outras, menores, quase artesanais. Se uma determinada peça tivesse mais de um elemento,

havia tantas fábricas quantos fossem os elementos. Sabem como é? Aos poucos as coisas se

arranjam, cada grupo se protegendo e se defendendo. De tal modo que, em quatro ou cinco

anos, quem quisesse pegar concessão, para qualquer coisa, tinha que subornar tantos

empregados, alisar tantos bolsos, que precisaria de grande financiamento somente para este

tipo de atividade. Não, a vida não estava fácil.

Havia, além disso, uma clara divisão social. Os que trabalhavam com a Máquina e os que

não trabalhavam. O primeiro grupo tinha status, o segundo era marginalizado. Não trabalhar

para a Máquina significava inteligência menor, incompetência, ineficiência, falta de padrinhos

poderosos. A indústria da colocação empregatícia tinha se desenvolvido, de maneira a fazer

inveja às melhores sociedades. Os grandes cargos rodavam sempre entre o mesmo grupo. O

domínio da cidade era estabelecido nesses setores, enquanto os outros simplesmente não

existiam. O prefeito atual, por exemplo, era um homem que trabalhava com os comandos da

Máquina. O que prova sua capacidade técnica, porque, mais do que nunca, a Máquina produz.

Descobri por acaso uma situação curiosa. Os jornais passaram a publicar anúncios para

contratar mecânicos especializados em determinado tipo de conserto. Não era um conserto

fácil, porque o mesmo anúncio foi publicado seis vezes. Não sei se conseguiram ou não. Logo

depois, novo prédio. Técnicos especializados nos reparos de um setor chamado Basculante.

Não se passaram seis meses, os comentários eram gerais.

– Está chegando muita gente nova na cidade. A Máquina não anda bem.

– Mandaram buscar mecânicos nos Estados Unidos.

– E na Rússia.

– Na Tailândia.

– Vem vindo um da Birmânia.

– Ontem desceu um jato com quatro executivos. Gente entendidíssima em Máquinas.

– Mas a produção? Diminuiu?

– Dizem que não. Se não consertarem logo, arrebenta tudo.

– E o construtor da Máquina?

– Tem vinte fábricas envolvidas. Nenhuma quer assumir a culpa do defeito. Uma joga para a

outra.

– Ouvi contar que vão abrir a memória selada.

– O que é isso?

– Isso é a memória selada. Só os homens da Brownvery podem abrir.

– E por que não chamam eles?

– A Brownvery fechou. Não existe mais.

– E como fazer?

– Se eu soubesse estava lá consertando e ganhando dinheiro, não aqui no papo-furado.

– Estou receoso. Se essa Máquina para, o que faço com minha fábrica de pinos?

– E eu com os colchetes? E o prego circular?

– Pior sou eu. Faço o motor rotativo e me alimento em sessenta e três indústrias de

autopeças. Vou eu, vai todo mundo.

E assim, o medo começou a se instalar. Difundiu-se, rápido. Camuflado, sub-reptício,

insinuante. Devorador. Percebia-se, em todos os olhares, a pergunta:

– E a Máquina? Foi consertada?

Não havia resposta positiva. Consoladora. Também, não houve ninguém demitido. Nenhuma

encomenda de peças foi cancelada. A Máquina continuava a devorar porcas, parafusos,

chapas, lingotes, pregos, colchetes, motores rotativos inversos, com a mesma sofreguidão. A

calma voltou a se instalar, depois do breve susto. No entanto, eu percebia. A cidade não era a mesma. A dúvida se instalara. Aquela dúvida que não tinha pairado um só instante, por anos e

anos: e se a Máquina deixa de funcionar? Voltaria a miséria, a falta de perspectiva, os carros

seriam vendidos, as televisões em cores empenhadas. Todo aquele magnífico equipamento de

cozinha que fazia tudo sozinho, dando todo o tempo do mundo às donas de casa, como seria

mantido, se não era mais possível pagar as contas de eletricidade?

Todas as manhãs, e todas as tardes, um telefonema corria a cidade, de ponta a ponta. As

mulheres dos supervisores, os cargos máximos, telefonavam umas para as outras.

– Tudo bem, hoje?

– Tudo bem.

– Nenhum aviso para amanhã?

– Nenhum.

– Como ele chegou em casa?

– Triste, acabrunhado como sempre. Igual a ontem, igual aos bons dias.

– Ah, que bom. Que alívio.

Tornou-se um costume. E tanto tempo se passou, tantos anos prosseguiram dentro da

tranquilidade, que o povo se acalmou inconscientemente. Só a tradição do telefonema

prosseguiu. Aquilo era uma espécie de farol. Algo que fica ali, girando e girando. Informando.

Um aviso aos navegantes, e os próprios navegantes, acostumados naquele trecho, evitam por si

só o perigo, dispensando o farol. Mas o farol continua.

Havia uma festa anual nos jardins da empresa. Os que trabalhavam para a Máquina, ou nas

indústrias ligadas a ela, eram convidados. Isto significava que noventa por cento da população

comparecia, sendo que os outros dez por cento eram penetras.

Nunca perdi uma festa. Queria a minha chance, e tive. Há dez anos tentava me aproximar do

presidente da empresa. Não conseguia. Ninguém me mostrava quem era o presidente.

– Acho que foi por ali.

– Estava agora mesmo naquele grupo.

– Desceu para o Jardim das Fontes.

– Está no Pequeno Versalhes.

– Deixou o Palácio dos Arcos.

– Procure na Casa de Força.

– Está esquiando nos Grandes Lagos.

– Veja no Pavilhão dos Frangos Azuis.

– Acabou de sair daqui.

– Está no Café de Paris.

– Já olhou na Máquina Memorial?

– Foi ao banheiro. Está lá há duas horas, estão preocupados.

– Passou com o prefeito, os supervisores, os assistentes maiores, os duplos vigias, os

reparadores. Entrou no grande prédio.

O grande prédio continuava o mesmo. Uma espécie de hangar de dirigível, com as portas

ciclópicas que me impressionavam. Fechado. Tentei empurrar uma das portas. Claro que não

consegui. E assim foi, por anos e anos. Eu tinha desistido já. E naquele ano, depois de bancar

o penetra, estava na fila dos sorvetes, quando alguém disse:

– Vejam. O próprio presidente está distribuindo os sorvetes.

– Ele sempre foi assim. Cada ano está num setor da festa, trabalhando mais do que os outros.

– Ele devia ser o prefeito.

– O governador.

– O presidente.

Quando o presidente me entregou o sorvete, sussurei:

– Podemos falar em particular?

– Agora estou distribuindo sorvetes.

– Tenho um problema.

– Afaste-se, por favor, a fila está grande.

Afastei-me. Com o sorvete na mão, peguei a fila. Outra vez. Esperei, cheguei até ele:

– Quando acabar a distribuição, o senhor me dá um minuto?

– Dou o dia inteiro. Agora, saia.

Entrei na fila novamente.

– Me espere na entrada do Arco Triunfal.

Foi. Um homem simples que cruzava comigo na rua, quase todos os dias. Chegamos a tomar

café, lado a lado, no Central.

– O que é meu rapaz?

– Eu queria conhecer a Máquina.

– Não conhece ainda?

– Não.

– É novo na cidade?

– Nasci aqui.

– E como não conhece a Máquina?

– Nunca me deixaram.

– Como? Quem foi? Mando abrir um inquérito. Não tem segredo nenhum. A ordem da empresa é livre acesso. A Máquina é um bem público.

– Podemos ir ver? Agora?

– Agora? Mas ela está parada. Hoje é feriado.

– Sei, mas gostaria de ver, assim mesmo.

– Não compensa. O bonito é vê-la em produção.

– Falar nisso, ela produz o quê?

– Como o quê?

– O que ela faz?

– Você está brincando comigo, meu rapaz?

– Tenho cara de brincar?

– Não tem, mas faz uma pergunta muito estranha. Quem é o senhor? O que pretende?

– Saber.

– Não. Há algo de errado nisso tudo.

– Só quero conhecer a Máquina. Então, não tenho o direito?

– Tem. Claro que tem. Mas é esquisito, porque todos nesta cidade conhecem a Máquina.

– Todos, nada. Conheço muita gente que espera o grande dia.

– Você pode aguardar um pouco? Vou reunir meus supervisores.

– Para quê?

– A porta da Máquina só se abre com as chaves de seis de nós, juntamente, girando trinta e

sete vezes à direita, noventa e cinco à esquerda, apertando catorze alavancas e gritando em

microfones: “Linda maquininha, gostamos de você, abra esta portinha, vamos trabalhar”.

Assim é, todas as manhãs.

– Se não gritarem, ela não abre?

– Não. Ela precisa saber que viemos trabalhar, porque gostamos dela. É sensível demais.

– A Máquina? O senhor está brincando. Um monstrão daqueles?

– Monstrão? Coisa delicada, onipotente, sábia. Ela regula o nosso destino. Contemplá-la é

penetrar no paraíso.

– Então, vamos lá dentro?

– Preciso reunir meus homens. Me espera aqui?

Esperei. Ele se foi, e nunca mais o vi. Nem naquele dia, nem nos próximos anos. A festa foi

terminando, as pessoas se retiraram, antes das seis. Fiquei ali, diante do Arco Triunfal. Fiquei

por ficar, não tinha esperança nenhuma. Ao contrário, era a certeza de que o presidente não

viria. Falar nisso, seria o presidente? Um homem falando comigo tão simplesmente.

Distribuindo sorvetes? Não, pra cima de mim, não!

– Meu senhor, a festa acabou.

– Eu sei.

– E o que faz aqui?

– Já vou indo.

– Por favor, vá mesmo. Não podemos permitir que ninguém permaneça por aqui.

Eu podia saltar sobre este velho vigia, amordaçá-lo. E entrar nos prédios, em busca da

Máquina. O vigia é um homem frágil, indefeso, não traz armas. Provavelmente tem um

equipamento eletrônico qualquer. Se eu ataco, o equipamento dispara algum alarme, chegam as

brigadas, as milícias. Sei lá, alguma coisa deve chegar, estou só supondo. Nunca houve

qualquer tentativa contra a Máquina. Por que haveria de ter? Todos a adoram, ela trouxe

emprego, felicidade, dinheiro, bem-estar. Ou não trouxe? Ou estamos todos camuflando,

fingindo? Que pensamento mais curioso: e se, na verdade, toda esta população odiasse a

Máquina? Odiasse com toda a força. O presidente, ou quem quer que seja, disse que ela sente

as coisas. Sentiria então a vibração de todos os pensamentos negativos da cidade. E se

destruiria por si mesma. Ou destruiria o povo.

Bobagem. Besteira minha imaginar que a Máquina possa sentir, vibrar, se emocionar. Na

verdade, ele está tão condicionado, tão subordinado, tão fechado a todo o resto, que a

Máquina passou a agir como um super ser humano. E se a Máquina não existir? Será pior para

a cidade? De repente, o prédio está vazio, a empresa é fictícia, os cargos são falsos, estamos

todos representando uma comédia. Vai ver, é isso. Todas as coisas que aconteceram estão

dentro da nossa imaginação. Idealizamos tudo com força, movidos pela necessidade, pela

miséria, pela ameaça de um futuro negro, pelo medo da punição se não andarmos certos. Com

tal força que tudo se materializou. Construímos esta Máquina com o nosso pensamento? Ou ela

sempre existiu, sem que soubéssemos?

– Estou esperando. O senhor não vai?

– Me dê tempo!

– Que tempo, que nada. Já passam vinte segundos das seis.

– E daí?

– Ninguém pode permanecer depois das seis.

– Um minuto a mais, um minuto a menos, que diferença faz?

– A Máquina percebe.

– E o que acontece?

– Ela reclama.

– Vai, vai, você também?

Conheço este vigia. Cuidava do jardim da praça. Podava sebes de buchinho, regava, todos

os fins de tarde. O jardim não existe mais, é uma enorme praça de cimento, com alguns

bancos, postes altíssimos com luz de mercúrio e estacionamento para mil carros. Não ficou

uma só das setecentas árvores copadas.

– Por favor, vá embora.

– Não!

– Saia.

– Não saio.

Corri. Em que prédio ela se abrigaria? Seria realmente no hangar? Ou num desses menores.

O presidente, ou o que se fingia de presidente, garantiu que ela é pequena, mínima, delicada.

Em qual? Em qual?

– Máquina. Me responde! Quero te ver.

Corria. Desesperado. Como se soubesse que era a última chance de vê-la. Gritava para as

paredes e os altos muros ecoavam minha voz. O engraçado é que os prédios, modernos, de

aço, alumínio, não combinavam com os jardins e alamedas feitos à antiga. Havia árvores e

espelhos de água, pontes chinesas e quiosques, caramanchões. Um lugar onde a gente se sentia

bem. E gostaria de ficar toda a vida.

– Máquina. Você está se escondendo!

Súbito, parei. Será que estou louco? Entrei na onda dos outros? Acreditando que a Máquina

tenha vida e saiba que estou à sua procura. Incrível como podem condicionar a gente. Aqui

estou, esperando que ela responda. Que brinque de esconde-esconde comigo. Que começe a

resfolegar, como disse o velho vigia. Estou olhando cada janela, lendo cada flecha indicativa.

Em nenhuma, uma informação que me leve a ela. A bicha, bruta, carinhosa, monstrão

devorador, amiga, mãe protetora, namorada, irmã, amante. Ela, essa coisa que se instalou em

nossas vidas para não mais sair.

– Máquina. Desgraçada de Máquina. Sou eu. Se você sabe tudo, me conhece. Me odeia.

Acabe comigo, Máquina, se puder.

Nada. Ou ela é algo distante, inacessível, incomum, e conhece sua posição quase imortal ou

então me despreza, o verme que a desafia. Ou ela é, simplesmente, uma Máquina, um monte de

ferragens que trabalha quando ligam o botão, indiferente a tudo que se passa.

Fui agarrado no momento em que tentava ver se os alto-falantes possuíam um transmissor de

TV, circuito interno, ou microfones. Eram muitos, não sei quantos. Jogaram um saco sobre

minha cabeça, amarraram, me levaram. Fui deixado numa sala. Inteira azul, com uma lâmpada

de néon. Depois, apagaram a lâmpada e dormi. Acordei, estava escuro, não havia nenhum barulho. Fiquei um longo tempo acordado, esperando. Longo ou curto? Como saber?

Acenderam a luz, e nada mais. Tive fome, sede, descobri um banheiro. O que era aquilo? Uma

cela? Um quarto de hospital? Apagaram a luz. Bebi água do banheiro, mas a fome não podia

matar com água. Uma noite, me retiraram e me deixaram na grande praça do estacionamento.

Fui para casa, minha mãe chorava. Consolada pelas vizinhas. No dia seguinte, voltei ao meu

emprego nas embalagens. Para saber que tinha sido despedido.

– Só porque faltei um dia?

– Um dia?

– Quanto foi?

– Um tempão, um tempão.

– Não pode ser.

– Não pode, mas foi.

Estavam me pagando direito. Me deram os papéis para o Fundo de Garantia. Só não queriam

perguntas. Nesta cidade, um homem de cinquenta anos não consegue emprego com tanta

facilidade. Principalmente eu que nunca tinha trabalhado com a empresa, auxiliando a

Máquina. Era uma grande desvantagem. Desconfiavam, era um crédito negativo. A minha sorte

é não ter família para sustentar, não ter casa, nem aluguel, nem crediários. Qualquer coisa me

serve. Assim, aceitei a faxina de um supermercado, onde sempre posso roubar frutas e

iogurtes e ir enganando, para não ter de almoçar ou jantar. Mas o que me levou a aceitar o

baixo salário foi a possibilidade de observar os jardins e os prédios. Da janela do banheiro,

posso ver os edifícios de alumínio e aço. Num deles, ela está escondida. Posso ver mais

ainda. Os campos desolados, áridos, cinzas, onde antigamente havia o cinturão de hortas de

que a cidade se orgulhava.

Fico horas na janela, contemplando. Um dia, ela há de me dar um sinal e vou pular muros e

grades, enfrentar vigias. Chegarei até ela. Será um encontro? Um torneio, uma disputa?

Uma sexta-feira, pela manhã, eu passava o pano com detergente no chão plastificado, quando

o homem que comprava bananas se aproximou:

– Me desculpe. Não foi o senhor que prendemos nos jardins, gritando e arrebentando os

alto-falantes?

– Foi. Mas não vi quem me prendeu.

– A técnica do saco é perfeita. Nela só trabalham os caçadores de coelhos, gente que tinha

experiência no campo. Mas não trabalho mais nela. Estou no setor de reparações.

– Não estava bem como ensacador?

– Precisam de gente nos reparos. A seção está se expandindo. Todos os novos contratados estão nos reparos.

– A Máquina anda ruim de novo?

– Está pererecando um pouco.

Já vi o que vai dar na cidade. Volta o clima de insegurança. O povo invadirá os

supermercados, fazendo compras enormes. Vão tirar o dinheiro dos bancos e guardar em casa,

antes que os bancos fechem.

Comecei a ver no supermercado velhos amigos, com quem não falava há anos. Agora,

cumprimentavam, acenavam. Chegavam.

– Como vai lá?

– Tudo bem.

– Faz o que, agora?

– Trabalho nos reparos.

– A Máquina anda dando trabalho?

– Acham que ela está velha. Já existem novos modelos. Mas uma troca, a esta altura, vai

custar tanto, será tão complicado que pode arruinar a cidade. A cidade? O país inteiro. Todo

mundo encomenda serviços aqui.

– Me diz uma coisa. Que tipo de serviço?

– Todos os tipos. Todos. O que o país precisar, a Máquina realiza.

– Me conta uma coisa só que ela faça.

– Sabe quantos livros existem sobre as coisas que a Máquina faz?

– Não.

– Doze mil. Escritos por técnicos que vieram fazer cursos de especialização.

– Onde estão os livros?

– Na biblioteca da empresa.

– Não existem para comprar?

– Claro que não.

Meu superintendente apareceu, olhou severo. Não disse nada, porque é surdo-mudo. Só olha

e sei que devo retornar ao serviço. Daquele dia em diante, passei a perguntar a todo mundo

que trabalhava junto à Máquina.

– Você está fazendo o quê?

– Estou nos reparos.

Comecei a ir à Porta Monumental de Saída. Indagava de um e outro, escolhidos ao acaso.

Um mais bem-vestido, outro menos, um mais novo, um madurão, um velho.

– Você faz o que aí na empresa?

– Trabalho nos reparos.

A mesma resposta. Será que a minha pesquisa estava sendo conduzida de modo errado? Não

podiam todos trabalhar nos reparos.

– O senhor também trabalha nos reparos?

– Claro, por quê?

– É que tem um filho meu nessa seção, precisava falar com ele.

– Só o departamento do pessoal pode informar. Não sei se o senhor sabe, mas todos os

prédios agora pertencem aos Reparos. É preciso saber o setor, depois o departamento, depois

a seção mecânica, a ala, o bloco, o edifício, a sala, o tabique.

– Tudo reparos? Que estranho.

– Por quê?

– A Máquina quebrou?

– O senhor está louco? A Máquina não quebra. Não pode quebrar. Se isso acontecesse, que

Deus nos livre, estaria tudo perdido. O mundo desmontaria. Esta cidade se acabaria, o país

iria à bancarrota.

– O senhor acredita que a Máquina não quebra nunca? Como pode acreditar?

– Não é simples crença. É fé. É uma força que me diz isso. Que diz a todos nós.

Não sou eu que estou louco, é a cidade, esta gente. Quem sabe a empresa não é um grande

hospício, onde todos se fingem empregados da Máquina? Mas também é pretensão minha

querer ser o único normal. Posso estar louco também e esta é uma sensação desagradável.

Fico flutuando, sem saber quem sou, sem me relacionar, sem me adaptar a uma realidade. No

entanto, qual a realidade desta minha cidade? Não reconheço mais nada e não aceito o que

está aí. Deve haver outros como eu, procurando saber. Como encontrá-los para me livrar desta

angústia e solidão? Isto é solidão. Não entender o que se passa à sua volta. Querer, e não

conseguir. Continuo indagando, sempre que possível. Às vezes, vejo uma cara nova, tento me

aproximar. São desconfiados, têm medo de perder os empregos.

Os trens, as jamantas, os caminhões, as peruas, todos os tipos de viaturas continuam

chegando e partindo, carregando coisas desconhecidas para mim. Ou para todos, não se sabe.

A população continua fechada, silenciosa, hostil às perguntas. Apenas desfrutando de uma

coisa que, agora ela teme, pode acabar. E por isso todos vivem como se amanhã a Máquina

não estivesse mais aqui. Gastam, compram muito, dão festas. As bebedeiras são imensas, os

fins de semana são carregados de acidentes nas ruas e estradas, todo mundo correndo com os

carros. Há uma grande necessidade de se aproveitar integralmente cada momento.

Foto: André Brandão

 

Ignácio de Loyola Brandão nasceu em Araraquara, SP, em 1936. Começou a escrever na escola, era o melhor em redação e o que sabia mais palavras, pois tinha a mania de ler dicionário. Foi bom, porque escritor precisa de palavras. Loyola tornou-se jornalista porque ganhava a permanente para entrar de graça no cinema, coisa que adorava. Sonhava ter um carrossel no parque de diversões, para viajar pelo Brasil. Depois quis ser cantor, jogador de futebol, artista de cinema, piloto, corredor de automóvel. Acabou escrevendo muitos livros, tem mais de 30 pelas livrarias do Brasil. Procure O homem que espalhou o deserto, Cadeiras proibidas, Dentes ao sol, A última viagem de Borges e O menino que não teve medo do medo.

© Ignácio de Loyola Brandão, 2004

11ª Edição, Global Editora, São Paulo 2010

Diretor Editorial - Je ffe rson L. Alve s

Produção Digital - Eduardo Okuno

Coordenadora Editorial - Arle te Ze bbe r

Revisão - Tatiana F. Souza

Capa - Mauricio Ne gro

 

Direitos Reservados

Global Editora e Distribuidora Ltda.

Rua Pirapitingui, 111 – Liberdade

CEP 01508-020 – São Paulo – SP

Tel.: (11) 3277-7999 – Fax: (11) 3277-8141

e-mail: global@globaleditora.com.br

www.globaleditora.com.br

 

Colabore com a produção científica e cultural.

Proibida a reprodução total ou parcial desta obra

sem a autorização do editor.

Nº de Catálogo: 1562EB

Índice

 

CAPA

Cotidiano

Os homens que descobriam cadeiras proibidas

A jovem que não quis atravessar a rua

Corpo

O homem do furo na mão

O homem cuja orelha cresceu

Os homens que contavam

O homem que queria eliminar a memória

O homem que viu o lagarto comer seu filho

A jovem que trocava as letras

Clima

O homem que perdeu as letras do livro

Os homens cegos no hall de mármore

Os homens que esperaram o foco azulado

Os homens que se transformavam em barbantes

A jovem que desejava entender a utilidade

O homem que dissolvia xícaras

O homem que atravessava portas de vidro

O homem que viu os postes se dobrarem

Mundo

Os homens que não receberam visitas

O homem que as meninas idolatravam

O homem que observou a reunião

O homem que espalhou o deserto

O homem e as pedras que gritavam

O homem que precisava nascer

Indagação

O homem que descobriu o dia da negação

O homem que resolveu contar apenas mentiras

A mulher que contava portas

O homem que devia entregar a carta

O homem que devia entregar a pedra

O homem que entrou no cano

O homem que se endereçou

Descoberta

O homem que gritou em plena tarde

O homem que telefonou para ele mesmo

O homem que decidiu investigar

O homem que queria informações

Ação

O homem que passou a amontoar sacos

O homem que compreendeu

O homem que liquidou

A noiva que esperava a trágica notícia

Vida

O homem que procurava a Máquina

Você terminou Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão

Livros como este

Depois do livro

Páginas que vieram com esta edição, guardadas aqui para consulta.