Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 2 de 38

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Cadeiras Proibidas

A jovem que não quis atravessar a rua

Observou a jovem parada na esquina, aproximou-se, solícito.

– Vou ajudá-la a atravessar a rua!

– Não quero atravessar coisa nenhuma.

– Claro que quer. É que aqui o trânsito é infernal.

Mais de dez foram atropelados nessa esquina.

– Meu senhor! Estou esperando uma pessoa! Não quero atravessar a rua.

– Vai atravessar! Fique calma, sei como trabalhar aqui, é o meu ponto.

– Ponto?

– De ação. Cada um de nós tem um ponto. Ganhei esse, tive sorte. É um belo ponto!

– Ganhou o que de quem? Surtou?

Ele mostrou-se irritado. Estava tentando ajudar, era a sua missão e recebia a recusa, a

rejeição, era mal interpretado. Bem que havia sido alertado. O ser humano vive uma fase ruim,

ninguém quer se abrir com os outros, desconfia-se de todos os gestos. Ele via que a jovem

estava ansiosa para atravessar, esperava uma oportunidade, mas os carros não davam vez, era

um egoísmo só. Estacionavam para-choque com para-choque e riam de quem não conseguia

passar entre eles. Outros fingiam que paravam e, quando a pessoa colocava os pés na rua,

arrancavam com os pneus cantando, divertiam-se com os sobressaltos, os sustos. Certa vez,

uma velha que voltava do supermercado atirou ao ar as compras, os ovos se quebraram.

Desde então, ela costuma ficar por ali, à espreita, e joga ovos podres nas capotas dos carros,

nos para-brisas. Quando tem a sorte de encontrar janelas abertas – coisa rara, hoje, uma vez

que todos temem assaltos – joga os ovos no colo das pessoas e fica antecipando o horror pelo

fedor.

– Por que você é grosseira com uma pessoa que procura fazer o bem?

– Você não quer fazer o bem! Quer encher o meu saco! Essa cidade anda cheia de loucos e

não tem ninguém para nos defender.

– Louca é você, que tenta atravessar a rua, não consegue e recusa a ajuda. Finge que não

quer atravessar, para não ficar me devendo um favor. Pensa que vou pedir dinheiro. Não quero

nada. Nada! Minha recompensa eu sei qual é ao fazer o bem.

– Você me conhece?

– Não!

– Sabe onde moro? Onde vou?

– Não.

– Então não pode saber se quero ou não atravessar a rua.

– Minha menina! É uma coisa tão fácil atravessar essa rua. Por que não enfrenta logo o

problema?

– Odeio que me chamem de menina! Odeio. Além disso, não existe problema. Nunca foi,

nunca será. Jamais atravessarei essa rua, não quero, não vou, não vou, não vou…

– Está ficando histérica. E tudo por cinco metros.

– Podia ser mil quilômetros.

– Não existem ruas com mil quilômetros de largura. Conhece alguma?

– Estou falando em sentido figurado!

“Ela não me entende e nem eu a ela”, pensou o homem, sem desanimar. Tinha sido alertado

que era assim mesmo. Uma luta. Guerra a ser travada todos os dias, em todas as ruas.

Humanos não compreendem humanos, nem querem entender. Qual a maneira correta de agir?

Seria uma vergonha abrir o Manual na frente da jovem e consultar as regras. Ele tinha certeza

de que existia um capítulo denominado “Maneiras certas para ajudar pessoas a atravessar as

ruas”. Com itens precisos sobre cegos, deficientes físicos, mentais, pessoas normais, arredias,

intransigentes, intolerantes, indecisas, chatas, pernósticas, petulantes, arrogantes, tímidas,

insolentes, beatas. Era tão complexo o Manual, passara o mês inteiro a ler e a tentar decorar,

fazia confusão, eram mais de mil páginas em papel-bíblia. A determinação era expressa:

jamais consultar as normas diante dos necessitados. Indicaria insegurança, incompetência. E

se corresse, por um instante, ao arbusto atrás do qual se escondia a velha que atirava ovos?

No entanto, a velha era irascível. Assim que ele entrou no arbusto, ela gritou: “Fora, fora,

fora, pusilânime. Vá cumprir sua tarefa, ajudar as pessoas a atravessar a rua. Faz dias que não

cumpre o seu dever. Fora, fora!”. Com medo que ela atirasse um ovo podre fedorento, ele se

afastou. Andou um pouco, escondeu-se no umbral de uma casa de tijolos avermelhados e, de

costas para que a jovem não visse, consultou o Manual. Quatro mil páginas. Custou a

encontrar o parágrafo que se referia a Relutantes. Leu uma, duas vezes para certificar-se que

faria a ação correta e voltou. O Manual recomendava que poderia usar força, abusar da

violência caso o relutante recusasse. Era o que faria. A jovem ia atravessar na porrada!

Disposto a agarrá-la, chegou à esquina. Não a viu. Mas ouviu.

– Olá, olá!

A jovem estava do outro lado da rua.

– Viu? Atravessei, sem precisar de você.

– Então, mentiu! Queria mesmo atravessar.

– Naquela hora, não queria. Quis depois!

– Minha intuição estava certa! Você não podia fazer isso.

– Fiz. Você é incompetente. Perdeu a sua ação de hoje.

– Maldita! Amaldiçoada sejas! Me enganou. Sabia. Sabia de tudo!

Ela riu, abriu a bolsa, exibiu triunfante um livro azul-marinho.

– Segui o meu Manual. Ele é o contrário do seu!