Cadeiras Proibidas

Ignácio de Loyola Brandão · Capítulo 6 de 38

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Cadeiras Proibidas

O homem que queria eliminar a memória

Entrou no hospital, mandou chamar o melhor neurocirurgião. Disse que era caso de vida ou

morte. Não se sabe como, o melhor neurocirurgião foi atendê-lo. Médicos são imprevisíveis.

Precisa-se muito e eles falham. Subitamente, estão ali, salvando nossas vidas, ele pensou, sem

se incomodar com o lugar comum.

Estava na sala diante do especialista. Uma sala branca, anônima. Por que é sempre assim,

deprimindo a gente logo de entrada?

O médico:

– Sim?

– Quero me operar. Quero que o senhor tire um pedaço do meu cérebro.

– Um pedaço do cérebro? Por que vou tirar um pedaço do seu cérebro?

– Porque eu quero.

– Sim, mas precisa me explicar. Justificar.

– Não basta eu querer?

– Claro que não.

– Não sou dono do meu corpo?

– Em termos.

– Como em termos?

– Bem, o senhor é e não é. Há coisas que o senhor está impedido de fazer. Ou melhor, eu é

que estou impedido de fazer no senhor.

– Quem impede?

– A ética, a lei.

– A sua ética manda no meu corpo? Se pago, se quero, é porque quero fazer do meu corpo

aquilo que desejo. E acabou!

– Olha, a gente vai ficar o dia inteiro nesta discussão! E não tenho tempo a perder. Por que o

senhor quer cortar um pedaço do cérebro?

– Quero eliminar a memória.

– Para quê?

– Incrível! As pessoas só sabem perguntar: o quê? por quê? para quê? Falei com dezenas de

pessoas e todos me perguntaram: por quê? Não podem aceitar, pura e simplesmente, alguém

que deseja eliminar a memória.

– Já que o senhor veio a mim, tenho o direito dessa informação.

– Não quero me lembrar de nada. Só isso. As coisas passaram, passaram. Fim!

– Não é tão simples! Na vida diária, o senhor precisa da memória. Para lembrar pequenas

coisas. Ou grandes. Compromissos, encontros, coisas a pagar etc.

– É tudo isso que vou eliminar. Marco numa agenda, olho ali e pronto.

– Não dá para fazer, de qualquer modo. A medicina não está tão adiantada!

– Em lugar nenhum posso eliminar a minha memória?

– Que eu saiba, não.

– Seria muito melhor para os homens. O dia a dia. O dia de hoje para a frente. Entende o que

eu quero dizer? Nenhuma lembrança ruim ou boa, nenhuma neurose. O passado fechado,

encerrado. Definitivamente bloqueado. Não seria engraçado? Não se lembrar do que se tomou

no café da manhã? E para que me lembrar do que tomei no café da manhã?

– Se todo mundo agisse assim, acabaria a história.

– E quem quer saber de história?

– Imaginou o mundo?

– Feliz, tranquilo. Só de futuro. O dia em vez de se transformar em passado de hoje,

mudando-se em futuro. Cada instante projetado para a frente.

– Não é bem assim. Teríamos apenas uma soma de instantes perdidos. Nada mais. Cada

segundo eliminado. A sua existência comprovada através do quê?

– Quem quer comprovar a existência?

– A gente precisa.

– Para quê?

O médico pensou. Não conseguiu responder. Estava totalmente confuso. Pediu ao homem que

voltasse outro dia. O médico subiu para os brancos corredores do hospital, passou pela sala

de operações. Chamou um amigo.

– Estou pensando em tirar um pedaço do meu cérebro. Eliminar a memória. O que você

acha?

– Muito boa ideia. Por que não pensamos nisto antes? Opero você e depois você me opera.

Também quero.