Cadeiras Proibidas
O homem que viu o lagarto comer seu filho
Para Ligia Sanchez
Era uma noite de terça-feira, e eles viam televisão deitados na cama. Quase uma da manhã,
estava quente. Ele levantou-se para tomar água. A casa silenciosa, moravam num bairro
tranquilo. Não havia ruídos, poucos carros. Ao passar pelo quarto das crianças, resolveu
entrar. Empurrou a porta e encontrou o bicho comendo o menino mais velho, de três anos e
meio.
Era semelhante a um lagarto e, na penumbra, pareceu verde. Paralisado, não sabia se devia
entrar e tentar assustar o animal, para que ele largasse a criança. Ou se devia recuar e pedir
auxílio. Ele não sabia a força do bicho, só adivinhava que devia ser monstruosamente forte.
Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. E meio míope, ainda por cima.
Se acendesse a luz do corredor, poderia verificar melhor que tipo de animal era. Mas não se
tratava de identificar a raça e sim de salvar o menino. Ele tinha a impressão de que as duas
pernas já tinham sido comidas, porque os lençóis estavam empapados de sangue. E a calça do
pijama estava estraçalhada sob as garras horrendas do bicho repulsivo. Como é que uma coisa
assim tinha entrado pela casa adentro? Bem que ele avisava a mulher para trancar as portas.
Ela esquecia, nunca usava o pega-ladrão. Qualquer dia, em vez de um bicho, haveria um
homem roubando tudo, a televisão colorida, o liquidificador, as coleções de livros com capas
douradas, os abajures feitos com asas de borboletas, tão preciosos.
Pensou em verificar as portas, se estavam trancadas. Porém, percebeu um movimento no
animal, como se ele tentasse subir para a cama. Talvez tivesse comido mais um pedaço do
menino. Precisava intervir. Como? Dando tapinhas nas costas do lagarto-não lagarto? Não
tinha armas em casa e o cunhado sempre dizia que era coisa necessária. Nunca se sabia o que
ia acontecer. Ali estava a prova. Queria ver a cara do cunhado, quando contasse. Não ia
acreditar e ainda apostaria duas cervejas como tal animal não existia. Pode um lagartão entrar
em casa através de portas fechadas e comer crianças?
Olhou bem. Comer crianças não era normal, nem certo. Devia ser uma visão alucinada
qualquer. Não era. O bicho mastigava o que lhe pareceu um bracinho e o funcionário teve um
instante de ternura ao pensar naqueles braços que o abraçavam tanto, quando chegava do
emprego, à noite. Uma faca de cozinha poderia ser útil? Mas quanto o bicho o deixaria se
aproximar, sem perigo para ele, o homem? Tinha que impedir o lagarto de chegar à cabeça. Ao
menos isso precisava salvar. Não conseguia dar um passo, sentia-se pregado à porta.
Preocupava-se. Todavia não se sentia culpado. Era uma situação nova para ele. E apavorante. Como reagir diante de coisas novas e apavorantes? Não sabia.
Preferia não ter visto o lagarto, encontrar a cama vazia, as roupas manchadas de sangue.
Pensaria em sequestro ou coisas assim que lia nos jornais. Sequestro o intrigaria, uma vez que
ganhava pouco mais de dois salários mínimos e não tinha acertado na loteria esportiva. Era
apenas um funcionário dos correios que entregava cartas o dia todo e por isso tinha varizes
nas pernas. Se gritasse, o lagarto iria embora?
Continuou pensando nas coisas que podia fazer, até que a mulher chamou, uma, duas vezes.
Depois ela gritou e ele recuou, sempre atento para saber quanto o bicho tinha comido do filho.
À medida que recuou perdeu a visão do quarto. Sentindo-se aliviado, pelo que não via. A
mulher chamava e ele pensou: o menino não chorou, não deve ter sofrido. Voltou ao quarto
ainda com esperança de salvá-lo pela manhã e decidiu nada dizer à mulher.
Apagaram a luz, ele se ajeitou, cochilou. Acordou sentindo um cheiro ruim e quando abriu os
olhos viu sobre seu peito a pata, parecida com a de um lagarto. Paralisado, não sabia se devia
tentar assustar o animal, ou tentar sair da cama e pedir auxílio. Pelo peso da pata, o bicho
devia ser monstruosamente forte. Ao menos, forte demais para ele, franzino funcionário. Aí se
lembrou que tinha dois sacos de cartas para entregar, era época de Natal e havia muitos
cartões das pessoas para outras pessoas dizendo que estava tudo bem, felicidades.
Tinha que tirar este bicho de cima. Não, hoje não haveria entregas.
Nem amanhã, por muito tempo.
O lagarto estava com metade de sua perna dentro da boca.