Cadeiras Proibidas
O homem que devia entregar a pedra
Para Beth Mendes
Quando lhe deram o pacote, pedindo para entregar, não achou pesado. Mas agora, passados
dois dias, o braço direito doía. E ele precisava descançar a cada cem metros.
Colocava o pacote no chão, fazia exercícios, tentando recuperar os músculos distendidos.
Ao levantar o pacote, achava-o mais pesado que antes.
Continuou andando e descansando, até o momento em que o pacote pesou terrivelmente e ele
largou-o no chão. De vez. Não ia entregar, a pessoa que viesse buscar. Que alugasse uma
condução.
O que podia haver dentro? Se puxasse as fitas com cuidado poderia abrir e fechar, sem que
ninguém percebesse. Não havia nenhum carimbo: confidencial. Ou secreto. Ninguém tinha
recomendado: não olhe.
Abriu. Dentro, envolto em papéis, o paralelepípedo. Desses comuns, que calçam as ruas.
Nada diferente, a não ser que tinha sido bem lavado.
Não encontrou nada. Nem parecia oco, nem havia aberturas. Também não era falsificado,
porque não havia sentido falsificar-se um paralelepípedo. Nem mensagens secretas gravadas
nas faces. Nada.
Embrulhou outra vez. Não devia haver pressa para entregá-lo. Lembrou-se de obrigações, do
trabalho, uma conta de gás a pagar, um encontro, uma compra a fazer, o inquérito que tinha a
responder no tribunal de segurança.
Descansado, colocou o embrulho debaixo do braço. Foi com ele por toda a parte, sentindo o
peso, porém mais acostumado. Só tinha medo que ele caísse, esmagando um dedo, ou o pé. Ou
batesse no joelho, rompendo.
Podia pedir a outro que fosse entregar. Mas era um homem responsável. Podia deixar o
embrulho num canto qualquer. Ou mandá-lo pelo correio. Imaginava porém que, devido ao
peso, podiam querer abrir no correio.
E não enviariam como encomenda. Não considerariam legal. Aconselhariam uma
transportadora. Os correios têm normas rígidas. Além de tudo, com aquele peso, registrado
para garantir, custaria muito dinheiro.
Ele era um simples escriturário, não ganhava o bastante para poder estar despachando
paralelepípedos pelo correio. Havia a solução de um carrinho de mão. Emprestaria um,
entregaria a encomenda.
Nenhum dos amigos tinha carrinho de mão. Por que haveriam de ter? O melhor talvez fosse adiar a entrega para um fim de semana. Ou para as férias. Aí teria tempo, iria devagar,
descansando pelo caminho.
Levou a pedra para casa, colocou embaixo do armário. Não teve forças para colocar em
cima. A mulher quis saber o que era o pacote. Só descansou quando abriu: “Você está louco?
O que vai fazer?”.
Ela ficou desconfiada. Brigaram: “Vamos jogar isso fora e se acabou”. Ele não concordou.
Tinha uma responsabilidade. Cumpriria. Não era difícil assim. O único problema era o peso.
Chamou um táxi. O motorista pediu o endereço. Ele olhou o pacote. Revirou. Não havia
endereço, nome. Pensou depressa. Desceu, desanimado. E agora? Refletiu, até encontrar.
Devia fazer um plano. Dividir a cidade em setores. Os setores em ruas. Subir por um lado
ímpar, descer por outro par. Bater de porta em porta. Indagar. Alguém devia estar esperando o
paralelepípedo. Se não havia urgência, haveria de receber.